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síntese entre teoria e prática, entre palavra e ação, a partir da leitura crítica da realidade:

“A palavra tijolo, por exemplo, se inseriria numa representação pictórica, a de um grupo de pedreiros, por exemplo, construindo uma casa. Mas antes da devolução em forma de escrita, da palavra oral dos grupos populares, a eles, para o processo de sua apreensão e não de sua memorização mecânica, costumávamos desafiar os alfabetizandos com um conjunto de situações codificadas de cuja decodificação ou “leitura” resultava a percepção crítica do que é a cultura, pela compreensão da prática ou do trabalho humano, transformador do mundo.[...] É neste sentido que a leitura crítica da realidade, [...] instrumento para o que Gramsci chamaria

de ação contra-hegemônica.” 728

A intenção das casas-laboratório do Grupo, como na proposta de P. Freire, seria uma ação “contra-hegemônica”, de dupla via. O operário faria uma “leitura crítica” de sua realidade profissional visando sua participação integral do processo, a partir de uma experiência desalienante; para o arquiteto seria uma “leitura crítica” de seu papel social, a fim de questionar a hegemonia e propor uma alternativa de produção nos canteiros de obras. Nesse processo, dois objetivos seriam atingidos, a redução da exploração da mão-de-obra e a produção em larga escala de casas para combater o déficit habitacional.

Com as abóbadas, os arquitetos estariam em sintonia com um fenômeno novo da arquitetura latino-americana, que E. Browne729 denomina “Otra arquitectura”, cujas principais características são: respeito pelo contexto em sentido amplo; criação de lugares; uso de tecnologias intermediárias e inovação baseada no existente e tradicional730, cujo resultado estaria de acordo com as “condições

sócio-econômicas e físico culturais onde se inserem”731. E. Browne cita como exemplo a obra do engenheiro uruguaio E. Dieste. Na Iglesia de Atlantida, 1958-60, sua primeira obra em ladrilio armado732, E. Dieste defende a técnica com o seguinte argumento: “No se trata pues de apego

reacionário y sentimental a técnicas superadas, no; se trata de no caer em la otra actitud, aún más sentimental, de la adoracion de lá riqueza y da eficacia mecánica de los países desarrollados [...]733.

727 Segundo o sociólogo Berlinck em termos de “conscientização popular” as produções do CPC falharam em seus propósitos revolucionários, justamente devido ao distanciamento cultural de seus integrantes - a maioria membros da classe média e alta - em relação ao povo, seu público alvo. Os cepecistas assumiram uma postura hierarquicamente superior em relação ao povo o que propiciou um natural distanciamento. Cf. BERLINCK, Manoel Tosta. O Centro Popular de

Cultura da UNE. Campinas: Papirus, 1984, p. 91.

728 FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. In. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez/Autores Associados Coleção Polêmicas do Nosso Tempo, v. 4, 1982, p. 11-24.

729 BROWNE, Enrique. Outra arquitectura em América Latina. Mexico: Gustavo Gilli, 1988, 105.

730ARANGO, Silvia. Crítica da crítica: o provincianismo de sentir-se centro. Projeto. São Paulo, n°118, p. 121-126, jan.fev., 1989.

731 Nas palavras de Browne: “La ‘otra arquitectura tiene su raigambre en las condiciones socieoeconómica y físico-culturales donde se inserta. Por ende presenta

obras disimiles dentro de un espíritu común. No es un estilo ni es exportable. Sin embargo, denro del ánimo inicial del Movimento Moderno, esas mismas características la hacen altamente innovadora y autorrenovable. Se convierte así en la mas intrínsecamente “moderna” línea arquitectónica latinoamericana, no obstante ser tambíen la mas “apropriada”. Cf. BROWNE, op. cit.

732 BROWNE, op. cit.

733 DIESTE, Eládio. Técnica y subdesarrollo. In. DIESTE, Eládio. Eládio Dieste-1943-1996 - Catálogo de exposição, Sevila Montevideo, Junta de Andalucia, 2001, p. 265..

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Para E. Dieste, trata-se de postura de independência e reflexão pessoal734 frente às técnicas contemporâneas inspiradas nas superestruturas de concreto armado e aço.

Arquitetura para um Brasil grande e moderno: Plano de Cotia, 1964.

Em contraste com a proposta de casa em abóbada, Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre e equipe735

desenvolveram do “Plano Piloto e Anteprojeto para a Cidade Satélite de Cotia”, uma proposta de cunho

desenvolvimentista, que, apesar do nome, não seria uma “cidade satélite”, mas uma “cidade

dormitório”, a ser implantada a cerda de 25km da cidade de São Paulo, “com os principais inconvenientes desse tipo de solução” 736.

O arquiteto Reis Filho analisou o Plano de Cotia e aponta semelhanças entre o projeto e tendências do cenário arquitetônico internacional como a dos “projetos de Candillis para Tolouse-le- Mirail e dos arquitetos da municipalidade de Sheffeld para os novos bairros residenciais dessa cidade inglesa. Essas preocupações têm estado presentes também na arquitetura brasileira”737. Reis Filho

refere-se às propostas representativas do pós Segunda Guerra do New Brutalism e Urban Structuring738

como o importante projeto Robin Hood Gardens (1962-1972)739 dos Smithsons, o qual conseguiu concretizar o conceito Golden Lane Competition. Segundo C. Jencks seria uma “nova versão da ideia do CIAM da rua no ar”, ou seja, um corredor na forma de “rua-piso”, que seria capaz de “recriar a vida de rua concreta acima do nível do chão, formando uma série de ‘lugares’ urbanos ao ar livre e acessíveis através da cozinha de cada casa [...]”740 ;ou, uma proposta alternativa às New Towns - construídas no imediato pós-guerra741. Tais construções do pós Segunda Guerra, também, foram analisadas por Lina Bo: “Depois da Segunda Guerra Mundial, o tamanho das destruições tornou improvável a solução do problema de habitações em massa, mas as realizações perderam em geral o ‘élan’ humano que animou os grandes mestres do racionalismo, caindo no corriqueiro, ou pior, voltando às construções ‘a bloco’, nôvo candidato ao cortiço”742.O projeto Park Hill [Fig. 48], dos arquitetos ingleses Jack Lynn e Ivor Smith, de 1961, se tornou referência na historiografia como uma resposta crítica ao modelo da Carta de Atenas.

734 Na citação completa no original:“[...] Esa independência frente a las técnicas contemporáneas inspiradas en el hormigón armado se debió... a la reflexión

personal para ver que el camino se debió....a la reflexión personal para ver que el camino elegido era fértil. Y seguimos por él usando todos los refinamientos de la técnica actual, sin ninguna procupación folklórica y falsamente tradicionalista, pero tampoco copiando técnicas sino recreándolas....Esta es la manera de ser fieles a la verdadera tradición que es siempre la fuente de lo revolucionario, en esto y en todo”. Cf. DIESTE, Eládio. La cerâmica armada. In. BROWNE, op. cit..

735 São coautores do projeto: Antonio Sérgio Bergamim, Arnaldo A. Martinho, Jeny Kauffmann, José Guilherme Savoy de Castro, Júlio T. Yamasaki, Luiz Kupfer, Matheus Gorovitz, Waldemar Hermann. Conforme projetos existentes na biblioteca da FAU-USP.

736 REIS FILHO, Nestor Goulart. Plano para cidade satélite. Revista Acrópole, São Paulo, n° 319, p.24-27, jul. 1965. 737 Ibidem.

738 MONTANER, J. M. Depois do movimento moderno: arquitetura da segunda metade do século XX. Barcelona: Ed.Gustavo Gilli, 2009, p. 71. 739 Ibidem.

740 JENCKS, Charles. Movimentos Modernos em Arquitetura: São Paulo: Martins Fontes Editora, 1985, p.242 . 741 MONTANER, op. cit. 71

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