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CHAPTER 3: THE EFFECT OF MULTINATIONAL FIRMS' ACTIVITY ON THE

4. METHODOLOGY

“Será recebido amanhã, às 3 horas da tarde, no palácio presidencial, o ministro francês, que vai apresentar ao presidente da República, o seu compatriota George Dumas, professor da Faculdade de Letras, da Universidade de Paris” (O Século, 01/09/1908, p.01).

A viagem de Maurício de Medeiros para França permitiu uma maior aproximação entre Dumas e seu colegas brasileiros. Em 1908, Juliano Moreira sinalizou a intenção de Dumas em vir ao Brasil. Sugeriu que fosse feito um convite a ele. A ideia de Moreira foi aprovada pela Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e

136A hereditariedade e sua ‘comprovação biológica’ é um dos temas do Capítulo 5 desta tesa, quando se

117 Medicina Legal e, por essa razão, foi formada uma comissão composta pelo próprio Juliano Moreira, Afrânio Peixoto e Maurício de Medeiros – diretor do laboratório de psicologia experimental do Hospício Nacional. Os membros da comissão receberam Dumas no seu desembarque, em 27 de agosto do mesmo ano (Cerqueira, 2014, p. 82- 83).

Em 1908, o psicólogo francês George Dumas realizou, então, sua primeira viagem ao Brasil. De acordo com a imprensa de língua francesa, George Dumas tinha como missão organizar um ramo no Brasil da “Sociedade do Grupamento das Univesidades e Escolas da França” (Societé du ‘Groupement137 des Universités et

Écoles de France’) e estabelecer uma cooperação intelectual mútua entre Brasil e França, (Revue Comerciale Financière et Maritime, 04/10/1908, p.2).138 O jornal

Correio da Manhã (28/08/1908, p. 01), lembrou que a vinda de George Dumas foi um convite da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal.

O encontro com o Presidente da República, Affonso Pena, através do Barão de Authourd, ministro francês no Brasil, ocorreu às 3h da tarde do dia 02 de setembro (A

Imprensa, 02/09/1908, p.01; Gazeta de Notícias, 03/09/1908, p.02). No dia seguinte, Dumas realizou uma conferência na Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal (A Imprensa, 04/09/1908, p.02). Uma segunda conferência foi realizada naquela sociedade sob o título “O cheiro de sanidade e de aureola” (Correio da Manhã, 09/09/1908, p. 06).

Essa foi a primeira das três visitas ao Brasil que Dumas realizou até o final da década de 1910. Depois de retornar em 1912, Dumas realizou uma visita estratégica em 1917, ano de grande importância para os acontecimentos da Primeira Guerra Mundial. Nessa oportunidade, Dumas chegou uniformizado como médico e cirurgião do exército francês. Sua presença teve um evidente objetivo diplomático de aproximar a França do Brasil e, assim, afastar esse país da Alemanha. Trata-se de uma missão intelectual como parte da política cultural exterior francesa, bem como do esforço de guerra.

Segundo Silva (2011, p. 425), a vinda de Dumas foi designada pelo Ministério da Guerra francês, com o objetivo de definir estratégias para a propaganda francesa. Sua

137 O Groupement foi fundado em 1907, em meio os interesses da política externa francesa para a

América Latina. A instituição funcionou até 1940, quando foi dissolvida durante a ocupação alemã na França. Dentre os principais aspectoss da instituição, podemos listar a atividade diplomática; atividade publicitária (informar os estudantes latino-americanos sobre os estudos na França); a promoção dos estudos latino-americanos na França; a gestão financeira pelo Ministério das Relações Exteriores da França (Petitjean, 1996, p. 98-99).

138 Agradeço os professores André Felipe Silva, Ana Venancio e Magali Romero Sá pelas conversas sobre

118 ação, integrada aos ‘serviços de informação’ franceses no Brasil, “semeou intrigas políticas que concorreram para a queda de Lauro Müller, então chanceler do governo de Venceslau Brás, e para a declaração de Guerra à Alemanha”.

Hugo Suppo (2000) e Silva (2011) destacaram que Dumas defendia a posição de que a aliança franco-brasileira deveria fomentar o sentimento comum de ódio ao alemão, ainda que no Brasil não se encontre hostilidades à Alemanha e aos germanófilos. Hugo Suppo (2000) analisou o relatório da missão de Dumas, enviado ao serviço de informação do exército francês. Nele, destaca-se a importância de reforçar as ações das congregações francesas, bem como a necessidade de criação de colégios franceses laicos. Essa seria a estratégia para combater a propaganda francófoba pelos alemães.

Deve-se ter em mente que a presença e defesa da Alemanha no Brasil eram reforçadas pela colonização alemã no país. No Rio de Janeiro, a Sociedade Germânia (Gesellschaft Germania) desempenhou um papel fundamental. Segundo Seyferth (2000, p. 12-13), a Gesellschaft Germania foi fundada em 1821 por comerciantes alemães e foi a primeira associação que demarcava o “pertencimento étnico germânico, surgida no país”. Para Seyferth (2000), a Germania era a “espinha dorsal” da colônia alemã do Rio de Janeiro, servindo como lugar de sociabilidade e espaço de negócios da pequena burguesia alemã local.

A França, por sua vez, embasava a sua propaganda e sua política cultural exterior, por um lado, no conceito de latinidade, por um lado, por outro, na força do idioma francês – a maior parte dos cientistas e da elite letrada latino-americana dominava o francês.139

Para além do front militar, deve-se ter em mente que a guerra foi travada em diversas outras frentes estratégicas: diplomacia, espionagem, propaganda, ciência, etc. Desde o início da guerra, os países europeus buscavam ampliar as suas redes de aliança. Nesse quesito, França e Inglaterra obtiveram uma expressiva vitória em relação á Alemanha. O ano de 1917 foi um ano chave para guerra. Marca a saída da Rússia e a entrada dos EUA. É também o ano em que o Brasil declarou guerra a Alemanha.

A entrada oficial do Brasil na guerra, ao lado de França e Inglaterra, ocorreu em 03 de outubro de 1917 após o afundamento de navios mercantes brasileiros. A data de

139 No decorrer da tese, ficarão mais evidentes as diferenças entre França e Alemanha, quando o assunto é

ciência e politica cultural, tendo em vista que o período do entreguerra marca um acirramento nas relações entre esses dois países

119 chegada de Dumas – e a sua escolha para representar a França no Brasil – não é aleatória. Dumas era um velho conhecido da elite intelectual brasileira, sua presença significava engrossar, no Brasil, as fileiras de apoio à França contra a Alemanha. Os franceses sabiam que o governo brasileiro teria que tomar uma decisão. Mais do que um aliado militar de peso, o Brasil faz parte uma região estratégica. O controle do Atlântico por parte de França e Inglaterra era fundamental para a estratégia de asfixia econômica imposta à Alemanha, desde o bloqueio naval no Mar do Norte. Além disso, havia uma grande preocupação com a presença de submarinos alemães no Atlântico.

No que se refere à ciência, um fato importante abalou as relações entre França e Alemanha, durante e depois da guerra. Logo no início da guerra, a Alemanha foi acusada ter cometido atrocidades durante a ocupação da Bélgica. A ciência alemã também foi colocada em xeque, em primeiro lugar, pelo apoio político declaro por vários cientistas. Por outro lado, pelo uso alemão de armas químicas durante a guerra.

Em outubro de 1914, foi organizado o manifesto dos 93 intelectuais alemães (ou “Apelo ao Mundo Civilizado”). Ele foi utilizado como propaganda de guerra e negava que a Alemanha seria a causadora do conflito mundial; inocentava o exército alemão em relação às notícias sobre crimes e atrocidades cometidas na guerra. Albert Einstein além de ter se recusado a assinar o manifesto, redigiu um contra-manifesto a favor do internacionalismo científico e da Paz. Ele fez ainda pesadas críticas aos cientistas alemães e à maneira como eles veicularam a ciência à política (Crawford, 1988; Chagnon, 2012).

Segundo Chagnon (2012), a maior parte dos intelectuais do período adotou a postura de defesa de suas nações. Contudo, a autora francesa criticou as generalizações e, ao investigar o debate subsequente ao manifesto dos 93, demostrou a existência de diferentes posicionamentos entre os intelectuais humanistas e o grupo dos científicos, tanto na França quanto na Alemanha. Cabe a este trabalho demostrar em que medida as consequências desse debate e os acontecimentos posteriores à Versalhes abalaram as relações entre alguns intelectuais alemães e seus colegas europeus, em nosso particular, com psiquiatras, neurologistas, eugenistas e higienistas raciais.

Dessa forma, pode-se dizer que as visitas de George Dumas (1908, 1912 e, principalmente, 1917) representam também uma resposta à crescente presença alemã no Brasil e nos demais países da América Latina, nas mais diferentes áreas de cooperação: ciência, assuntos militares, literatura, teatro, entre outros. Nesse processo, o idioma alemão tornara-se fonte de interesse entre os intelectuais e as elites locais (Rinke, 1996).

120 Neste capítulo, citamos um caso importante para pensarmos a crescente presença alemã no continente latino-americano. O neuropatologista Merzbacher foi um de muitos cientistas convidado pelo governo argentino para assumir posições naquele país. Além disso, é um capítulo das relações de cooperação e disputas entre Brasil e Argentina, em termos de ciência e diplomacia. Juliano Moreira perdera a queda-de-braço com o governo argentino nas tratativas sobre a vinda de Merzbacher à América Latina. O governo argentino ofereceu mais vantagens a ele. Por ter um sistema universitário mais antigo e mais institucionalizado, a Argentina se tornou um polo importante de destino de médicos e cientistas alemães – ainda que Rinke (1922) e outros historiadores destaquem certa centralidade brasileira nos interesses da Alemanha, pela América Latina, principalmente em termos econômicos.

Fernando Vale Castro (2012) realizou um importante estudo sobre a diplomacia e a cooperação entre os países latino-americanos, no início do século XX, através da criação da “Revista Americana”. Essa inciativa estava diretamente ligada ao Itamaraty. Contudo, devemos olhar para além do Itamaraty, se quisermos compreender os esforços brasileiros na cooperação internacional em ciência e medicina, seja com os países latino-americanos, seja com os EUA e nações europeias.

Alguns personagens que não faziam parte do corpo diplomático do Itamaraty, como Juliano Moreira, Rocha Lima, Miguel Ozório de Almeida (1890-1952), entre outros, representam peça-chave para estudar os intercâmbios internacionais e a relação entre ciência e diplomacia internacional. Nesses termos, pode-se afirmar que Juliano Moreira exerceu um papel na atração de médicos alemães e, sobretudo, no aumento da influência da ciência alemã no Brasil, em poucos anos como diretor do Hospício Nacional.

Deve-se destacar que Juliano Moreira tinha como superior hierárquico o Ministro da Justiça e Negócios Interiores, já que a Assistência a Alienados fazia parte daquele ministério. A reunião entre Afrânio Peixoto e J.J. Seabra culminou na carta que esse ministro escreveu a Kraepelin, para convidá-lo a vir ao Brasil. Novamente vemos ações que não passavam pelo Itamaraty e pela diplomacia oficial brasileira. Deve-se, então, frisar a importância do Ministério da Justiça na diplomacia médica brasileira, inclusive, porque este ministério financiou muitas vezes as missões científicas brasileiras, como foi o caso da viagem de Roxo à Europa, em 1913. Antes das viagens científicas ao exterior, eram constantes as visitas de médicos brasileiros ao gabinete do Ministro da Justiça.

121 Mas, antes de levar o leitor para o pós-guerra, deve-se destacar, ainda, alguns pontos importantes sobre o front psiquiátrico no período que antecede à Grande Guerra. O período anterior à Primeira Guerra Mundial marcou, como vimos, o início do diálogo entre a psiquiatria brasileira e a alemã. Foi naquele momento que se constituiu uma comunidade médica transnacional que estreitou o intercâmbio entre os dois países, no âmbito da medicina mental. Em termos quantitativos, pode-se dizer que, diferentemente do que ocorreu depois da guerra, como veremos, a relação entre os psiquiatras dos dois países tinha um caráter mais unilateral, com grandes esforços feitos pelos médicos brasileiros para se aproximarem de seus colegas alemães, muitas vezes, através de viagens para Europa. Contudo, essa afirmativa pode levar a um certo reducionismo.

Antes da Primeira Guerra Mundial havia, sim, uma intensa circulação de psiquiatras entre as fronteiras de Brasil e Alemanha. Contudo, há questões qualitativas significativas quando se compara ao contexto do pós-guerra. Como, então, nomear as relações científicas bilaterais entre Brasil e Alemanha?

As duas viagens de Ulysses Vianna para a Europa representam um capítulo importante na história das relações científicas Brasil-Alemanha. Elas marcam a passagem da parceria Peixoto-Moreira140 para a parceria Moreira-Vianna na promoção das relações teuto-brasileiras, na psiquiatria. Dentre os colegas no Rio de Janeiro, Ulysses Vianna Filho parece ter sido um personagem que logo chamou a atenção de Juliano Moreira, devido ao conhecimento da língua alemã e de seu interesse por Kraepelin, antes mesmo de chegar ao Rio para trabalhar como assistente voluntário, no Hospício Nacional, em 1905. Além disso, deve-se lembrar que, em 1911, Vianna se tornou livre-docente da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, cujo catedrático de psiquiatria e neurologia era Teixeira Brandão e seu substituto era Henrique Roxo. Dessa forma, Austregésilo e Vianna eram presenças importantes do grupo de Moreira na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.141

140 Antonio Austregesilo também foi um importante colaborador de Juliano Moreira, na divulgação da

psiquiatria kraepeliana no Brasil. Em comparação com Peixoto, observa-se em Austregesilo uma trajetória mais independente e menos próxima a Moreira. Já Peixoto, esteve mais em sintonia com Moreira. Eram amigos desde os tempos em Salvador. Viajaram diversas vezes juntos para congressos internacionais.

141 O Dr. Ulysses Vianna Filho – assim como muitos médicos de sua época – vinha de uma família

abastarda. Seu pai, o Conde Ulysses Vianna (1848-1911), fez parte da elite pernambucana, onde teve atuação no jornalismo, na literatura e na política local. Com a Proclamação da República, o Conde Ulysses Vianna transferiu-se de Pernambuco para o Rio de Janeiro. Na capital, ele se tornou advogado do Banco do Brasil, do Brasilianische Bank für Deutschland, do Banco Nacional e do Theodor Wille & C. (Gazeta de Notícias, 11/09/1911, p. 02). Atuou como líder do Partido Liberal e teve grade influência no Jornal do Recife (A Notícia, 11-12/09/1911, p. 02).

122 ***

Antes de encerramos este capítulo, vale retomar as questões levantadas no início desta tese: a relação entre a clínica e o laboratório, a doença observada com o olho do homem e com o auxílio do microscópio. O que narramos até o momento, foi justamente a constituição e o desenrolar do movimento em que se buscou localizar a doença no corpo, para dar a ela nova espacialidade. Na psiquiatria, Griesinger lançou esse desafio ao afirmar que “as doenças mentais são doenças do cérebro”. Era necessário, então, criar tecnologias que auxiliariam a localização do tecido doente.

Contudo, este capítulo mostrou que a revolução laboratorial empreendida por médicos e cientistas no século XIX não teve o mesmo desdobramento na psiquiatria. Isso ocasionou um forte retorno e valorização da clínica, isto é, da observação

minuciosa da doença, através do olhar atento de sua manifestação no doente (emergência, histórico de família, sintomas, curso e prognóstico, etc.). Mas neste percurso, as pesquisas e as provas laboratoriais continuaram a ser objeto de grande investimento dos médicos alemães e brasileiros como parte importante do exame clínico e da montagem da nosologia das doenças mentais. Dessa forma, a pura inserção de laboratórios não explica a revolução operada pela psiquiatria alemã do final do século XIX e início do século XX. A inserção de laboratórios ocorreu na Alemanha, assim como na França, embora com diferenças numéricas e conceituais.

Na Alemanha, a passagem do alienismo para a psiquiatria significou uma inflexão na Universidade como polo central da produção do conhecimento, através da pesquisa científica acadêmica – o que não quer dizer que esta não continuasse a ocorrer nos asilos. A cátedra na universidade significava o acúmulo de capital simbólico e a possibilidade de acesso a recursos financeiros (públicos ou privados). Alcançar o sucesso e fama fora da universidade tornara-se algo bastante difícil ou no mínimo raro. Seguindo esse modelo da psiquiatria acadêmica (ensino e pesquisa), formou-se uma geração de talentosos catedráticos alemães, de fama internacional. Esses catedráticos elevaram a psiquiatria e a inseriram no sucesso que a ciência alemã conquistara desde o século XIX. Dentre os principais nomes dessa geração de catedráticos de psiquiatria e neurologia, Emil Kraepelin foi aquele que mais se destacou internacionalmente.

Mas, Kraepelin foi além da universidade. Já em 1912, tentou de fundar um instituto especializado em pesquisas psiquiátricas – seguindo outro modelo bem- sucedido de desenvolvimento da ciência da alemã. A Sociedade Kaiser Wilhelm,

123 contudo, considerou elevado o custo do projeto e desistiu de financiá-lo. Dessa forma, até a Primeira Guerra Mundial, o reconhecimento internacional de Kraepelin foi consequência do trabalho realizado no interior da universidade, como catedrático de psiquiatria e neurolgia, bem como diretor do Hospital Psiquiátrico da Universidade de Heidelberg e de Munique.

Em sua formação, Kraepelin contou com sua prática em diferentes laboratórios na Alemanha, onde aprendeu sobre as preparações e cortes histológicos. Mas, não foi esse o Kraepelin que se tornaria um grande nome na psiquiatria mundial de sua época. Das diversas facetas de Kraepelin, pode-se dizer que ele teria se destacado como um exímio clínico e um experto nas pesquisas de psiquiatria comparada e psicologia experimental que lhe renderam o status de referência na montagem de uma nosologia das doenças mentais. Mas, ele não conseguiu esse sucesso todo sozinho. Soube incentivar e apoiar os trabalhos de sua equipe de colaboradores. A grande importância desses colaboradores revela, assim, duas outras virtudes de Kraepelin: além de pesquisador, professor catedrático e gestor.

Como catedrático, ele teve que gerir não somente os recursos financeiros do hospital psiquiátrico da Clínica de Psiquiatria da Universidade de Munique. Ele teve que comandar pessoas e lidar com suas aspirações, desejos, insatisfações, dificuldades, contrariedades, entre outros. Diferente de Nissl – que teve grandes dificuldades para fazer as pessoas trabalharem para ele e que abandonou sua cátedra para retornar a Munique –, Kraepelin soube, como poucos, gerir uma equipe diversificada de pesquisa, tornando uma fonte importante da produção do conhecimento que ele utilizou nas diversas edições do seu Manual de Psiquiatria.

Por fim, Kraepelin teve grande sucesso na promoção internacional do trabalho realizado por ele e sua equipe em Munique, através da criação de um periódico próprio, da participação em congressos internacionais, da realização de viagens científicas, da oferta de cursos de aperfeiçoamento para médicos alemães e, sobretudo, estrangeiros. Já em Heidelberg, Kraepelin e seus colaboradores (em especial Nissl) conseguiram transformar um pequeno laboratório em uma sociedade internacional investigadores.

Por essa razão, considerou-se, aqui, um reducionismo rotular a psiquiatria alemã e o seu sucesso, exclusivamente, pelo organicismo e o laboratório. Este último desempenhou, sim, um papel central, mas diretamente associado à clínica. Esse reducionismo vale também para pensarmos a história da psiquiatria alemã, em sua circulação e apropriação no Brasil.

124 O grande nome da psiquiatria brasileira que se destacou como clínico foi o de Juliano Moreira. Como pesquisador, seguiu passos similares a Kraepelin, na Psiquiatria Comparada e na Psicologia Experimental. Mas, não se resumiu a isso. Sua trajetória foi enaltecida nas reformas que empreendeu na estrutura física do Hospício Nacional e na Assistência a Alienados, a partir do que observara em diferentes países. Por fim, Juliano Moreira desempenhou um papel destacado na ‘diplomacia científica’ nacional e internacional, permitindo a ele acumular autoridade, dentro e fora do país.

Diferente do que ocorrera no modelo universitário alemão, Moreira vivenciou uma grande queda-de-braço com a Clínica de Psiquiatria e Neurologia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em um momento em que o Hospício Nacional ainda se conservara como uma instituição central para a produção do conhecimento neuropsiquiátrico.

Nos capítulos que compõem a parte II desta tese, veremos como as principais questões levantadas até agora se desdobraram, no Brasil e na Alemanha, no período da Primeira Guerra Mundial a Segunda Guerra Mundial.

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PARTE II.