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CHAPTER 2: VOLATILITY TRANSMISSION BETWEEN STOCK MARKETS

5. CONCLUSIONS

Em 1898, Juliano Moreira entrou com um pedido de licença de quatro meses, para se afastar de suas funções como lente substituto, na Faculdade de Medicina da Bahia (O Paiz, 29/07/1898, p.02). Essa teria sido a oportunidade para Moreira realizar sua primeira viagem para a Europa. No dia 04 de março de 1899, Juliano Moreira retornou ao Brasil abordo de um vapor alemão, proveniente de Hamburgo (O Paiz, 05/03/1899, p. 05). Sua segunda viagem, não tardaria. Entre outubro de 1899 e dezembro de 1900, retornou à Europa e participou de vários congressos médicos voltados para as áreas da medicina que ele se dedicava até aquele momento: a dermatologia (e sifiligrafia) e a neuropsiquiatria (Jacobina e Gelman, 2008, p. 1086).

Ulysses Vianna fala sobre a estadia de Moreira na Europa, em fins do século XIX e início do século XX, sem, contudo, diferenciar as atividades desenvolvidas na primeira viagem daquelas que seriam desenvolvidas na segunda passagem:

“No ano de 1899, ele viajou para a Europa, onde ele foi recebido e orientado pelos professores Jolly, Hitzig, Flechsig, Kraft-Ebing, Unna, Raymond,

Déjérine, Gille de la Tourette, Brissaud, Garnier, Maurice Fournier e

Magnan. Ele visitou as mais importantes clínicas psiquiátricas e sanatórios na Alemanha, Inglaterra, Escócia, Bélgica, Holanda, Itália, França, Áustria, entre outros. Quando ele retornou da Europa, publicou uma sequência de trabalhos sobre as clínicas psiquiátricas alemãs: a necessidade de construir laboratórios em hospitais, a clinoterapia, a distribuição de suas aplicações e seus resultados no tratamento da psicose“ (Vianna, 1934, p. 429-430).

Contudo, é possível identificar algumas atividades que foram, efetivamente, desenvolvidas por Moreira, em sua segunda viagem à Europa. As atividades desenvolvidas por ele, no ano de 1900, inauguraram a agenda de Moreira acerca da psiquiatria alemã e de sua divulgação no Brasil, bem como seu destaque pela importância dos laboratórios nos hospitais. Pode-se assim dizer que Moreira viajou dividido entre a dermatologia e neuropsiquiatria, mas voltou mais envolvido com a segunda especialidade, abandonando a primeira, sem deixar de lado o interesse pela sífilis e suas demais consequências patológicas. Por essa razão, o ano de 1900 foi considerado, nesta tese, o começo88 da história das relações Brasil-Alemanha, na

88 O uso da palavra começo ao invés de origem é intencional e marca uma concordância com a denúncia

de Marc Bloch (2001) sobre a idolatria da origem na História. Através de Foucault (2006), privilegiou-se falar de começo ou emergência, que significar pensar um acontecimento singular e inauguração de um

86 medicina mental. Foi nesse ano que ele iniciou um itinerário político e científico que o acompanharia ao longo de toda sua carreira, no campo da psiquiatria.

Nesse período, Moreira retornou à Alemanha e visitou diversas clínicas psiquiátricas daquele país (Moreira, 1908). Ao longo de sete publicações, de 1901 e 1902, Moreira relatou na Revista do Grêmio dos Internos dos Hospitais suas impressões acerca das Clínicas de Psiquiatria das Universidades de Leipzig, Halle e Würzburg e suas respectivas organizações assistenciais.

Sobre Leipzig, Moreira exaltou os cursos de Wundt, bem como a importância histórica da Clínica de Psiquiatria dirigida por Paul Flechsig. Ele descreveu também as suas instalações físicas, os cursos dados por Fleschig e a trajetória desse médico alemão (Moreira, 1901a, 1901b e 1902).89

Dentre os aspectos da ciência médica e da psiquiatria alemã, Moreira se entusiasmou com as pesquisas laboratoriais. Em 1902, Moreira publicou um artigo para defender a necessidade do estabelecimento de laboratórios nos hospitais, no Brasil:

“Não é sem certo constrangimento que me proponho ocupar-me do assunto indicado no título que assina estas linhas. [...] Onde quer que a civilização tenha penetrado por força das boas condições de receptividade dos povos que têm sabido envolver, não é mais oportuno apregoar as vantagens da organização de laboratórios nos hospitais. Nós infelizmente ainda estamos a necessitar de uma larga propaganda em favor da fundação de laboratórios nos vários serviços hospitalares do país!90 [...] No correr da 7ª e da 8ª décadas são

as contribuições ao estudo do diagnóstico físico, especialmente no que diz respeito à auscultação e à percussão, que enchem as páginas dos periódicos profissionais. O diagnóstico físico, no sentido estrito da frase, foi levado até seus mais íntimos pormenores, sempre baseado sobre a comparação dos fenômenos clínicos com os resultados das necropsias. Além do plexímetro e do estetoscópio, o termômetro, e o ainda imperfeito microscópio e em raros casos o esfigmógrafo começaram a prestar serviços ao clínico [...]” (Moreira, 1902, p.439-441).

Moreira (1902) destacou ainda os avanços nos estudos da patologia do metabolismo e os estudos das modificações químicas do sangue e das secreções. Paralelamente aos avanços na química-clínica, Moreira (1902, p. 443) informava, ainda, que a bacteriologia surgia “triunfante”, com as contribuições de Robert Koch.

Para Moreira (1902), a bacteriologia seria uma guia segura na diferenciação etiológica das moléstias. Concluiu que todas as conquistas no campo da medicina

89 Agradeço William Vaz por fornecer a digitalização desse material que ele coletou no Arquivo do

Estado da Bahia.

90 Moreira destacou que percorreu o Brasil e apenas encontrou um laboratório. Sem citar o nome, afirmou

87 foram provenientes da pesquisa em laboratório. Portanto, apesar das afirmativas sobre o grande custo da instalação de laboratórios, Moreira defendia que um bom serviço clínico deveria ser constituído por: “um instituto ou um laboratório anatomopatológico; um laboratório de bacteriologia e um de química clínica” (Moreira, 1902, p. 446).

Enquanto Moreira divulgava a psiquiatria alemã, na Bahia, o Hospício Nacional passava por uma enorme crise, no Rio de Janeiro. Sua nomeação deu-se após escândalos na administração de Antônio Dias Barros, no Hospício Nacional. Um inquérito realizado, em 1902, constatou as péssimas condições de tratamento do hospital e a promiscuidade entre crianças e adultos. Sobre o Inquérito de 1902, Dias (2011) identificou também uma série de conflitos entre os médicos do Hospício Nacional e os médicos do Pavilhão de Observações, dirigido por Teixeira Brandão, que se referem a uma disputa pela divisão de competências e por poder.

Em 1903, Juliano Moreira foi nomeado diretor do Hospício Nacional de Alienados por J. J. Seabra, através de indicação de Afrânio Peixoto (Passo, 1975; Venâncio, 2003). Ao assumir a direção do Hospício Nacional, Moreira trouxe Afrânio Peixoto para trabalhar com ele e, juntos, eles iniciaram um longo processo de reformas na estrutura física do Hospício Nacional.

Em primeiro lugar, eles conseguiram aprovar, em 1903 e 1904, a nova legislação da Assistência aos Alienados. Inspirado na psiquiatria alemã, Moreira retirou as grades do hospício e os coletes de força, introduziu a clinoterapia e a balneoterapia no tratamento dos doentes mentais agitados. Juliano Moreira foi, ainda, responsável pela aceitação das admissões voluntárias – como fizera Kraepelin, em Munique. Na administração de Moreira, foram criados laboratórios, seções e pavilhões especializados, além do sistema de dispensários (Engel, 2001).

Até então, o hospício tinha quatro secções principais: Pinel e Calmeil, para homens; e Morel e Esquirol, para mulheres. As seções Calmeil e Morel, segundo Juliano Moreira (1905b), eram, destinadas, respectivamente, aos pensionistas do sexo masculino e feminino. As Seções Pinel (homens) e Esquirol (mulheres) compunham o

Pavilhão dos Indigentes, isto é, recebiam pacientes que não podiam pagar.

Além dessas seções, havia o Pavilhão Bourneville (criado em 1903, para crianças) e o Pavilhão de Observação, onde funcionava a clínica de psiquiatria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e era a “porta de entrada” do hospício, pois os pacientes indigentes levados pela polícia, ali permaneciam por cerca 15 dias, em

88 observação. Confirmada a loucura, eles eram encaminhados ao hospício (Engel, 2001; Muñoz, 2010).

Durante a administração de Juliano Moreira, foram construídos outros pavilhões especializados, como o Pavilhão Griesinger e o Pavilhão Guislain voltados para o tratamento da neurossífilis e para epiléticos tranqüilos e semi-tranqüilos; o Pavilhão de Moléstias Infectuosas Intercorrentes, de 1905, voltado para doentes com escorbuto e tuberculosos; os Pavilhões Sigaud e De-Simoni para Tuberculosos; e o Pavilhão Márcio Nery para leprosos (Engel, 2001a, p. 287).

Outras instalações importantes foram estabelecidas: o Gabinete Cirúrgico; o Serviço de Oftalmologia, o Laboratório Anatomo-Patológico; o necrotério e o Pavilhão Seabra – onde ficavam as oficinas de carpintaria, sapataria, colchoaria, ferraria, pintura, usina elétrica e costura, cozinha, lavanderia, despensa e as oficinas de tipografia (Engel, 2001; Facchinetti e Reis, 2014).91

A partir de 1903,92 a estrutura das observações passou a conter: dados pessoais,

data de entrada, diagnóstico, inspeção geral, comemorativos pessoais e de moléstia, comemorativos de família, análises dos aparelhos digestivo, respiratório, circulatório, análise de urina, dos reflexos, tratamento e data de transferência. Depois de 1908, os livros de observação se tornam maiores, passam a ter campos próprios, fotos, data da

primeira e da última internação– conforme o caso–, bem como dados antropométricos,

peso do paciente, forma do crânio, marcha da moléstia e tratamento e data de saída. Esse modelo de registro das observações permaneceu até janeiro de 1919, quando os livros de observação passaram a conter mais dados, tais como filiação; religião;

instrução; procedência e prognóstico (Muñoz, 2010; Muñoz, Facchinetti e Dias, 2011). É difícil fazer relações entre os cartões diagnósticos (Zählkarten) de Kraepelin e as fichas de observação do Pavilhão de Observações e os prontuários clínicos do Hospício Nacional. Kraepelin continuava a coletar dados dos pacientes, mesmo após a transferência do sujeito para outras instituições asilares. Nas reinternações, era usado o mesmo dossiê do doente, no qual eram inseridas as novas informações. Esse era o modelo do Zählkarten (Cartões Diagnósticos) Kraepelin (Engstrom, 2003a). No

91 Magali Engel destacou ainda que o complexo arquitetônico do hospício passou a contar com a Seção

Militar Nina Rodrigues – serviço psiquiátrico para os militares, criado em 1922 (Engel, 2001) –, bem como a chamada Seção Lombroso, para os loucos criminosos (Engel, 2001).

92 A partir dos decretos 1132, de 22/12/1903 (§ 2º, do art. 1°) e 5125, de 01/02/1904 (art. 167) foi

sistematizada a obrigatoriedade de registro da observação médica realizada junto aos doentes. No caso do PO, o cumprimento destas determinações produziu a ampliação dos registros dos Livros de Observação.

89 Pavilhão de Observações e no Hospício Nacional, a cada nova internação do mesmo paciente, abria-se uma nova ficha de observação e um novo prontuário.93

Contudo, nota-se que, após 1903, com a chegada de Juliano Moreira, há um esforço maior de colecionar dados diversos sobre o doente. Um dos objetivos da classificação de 1910 – que buscava uniformizar os diagnósticos do Hospício Nacional e de outras instituições asilares do país – era produzir estatísticas sobre os doentes e os diagnósticos psiquiátricos (Muñoz, 2010). Essa coleção de dados e a observação do curso da doença eram características na psiquiatria kraepeliana.

O modelo de instalação de laboratórios, perseguido por Moreira, desde seus tempos na Bahia, trouxe ganhos para prática asilar do Hospício Nacional, principalmente, após a criação do gabinete anatomopatológico, nos primeiros anos da administração de Moreira (Engel, 2001).94 A partir de 1906, “as punções lombares passaram a ser praticadas com regularidade e os exames citológicos do líquor apoiaram e elucidaram diagnósticos” do hospício (Dunningham, 2008, p. 73).

Além do laboratório anatomopatológico do Hospício Nacional, onde eram realizados diversos exames clínicos dos pacientes da instituição, outros laboratórios foram inaugurados na gestão de Moreira, como o Laboratório Nissl da Seção Pinel e o laboratório do ambulatório Graffée-Guinle, que funcionava em conjunto com o dispensário Afrânio Peixoto, “especializado [em] pesquisas do gérmen da lues e suas determinações mórbidas” (Correio da Manhã, 18/07/1925, p. 05). Na Assistência aos Alienados, as Colônias de Jacarepaguá, e do Engenho de Dentro, bem como o Instituto de Neuropatologia e o Manicômio Judiciário do Distrito Federal também passaram a contar com laboratórios (Correio da Manhã, 18/07/1925, p. 05).

As reformas promovidas por Juliano Moreira – e Afrânio Peixoto, enquanto ele ainda trabalhava no Hospício95 – foram acompanhadas por um grande reconhecimento nacional e internacional, em virtudes dos efeitos positivos na separação dos doentes, na

93 Havia grandes dificuldades com identificação, já que muitos os pacientes não chegavam com

documento de identitficação. Outros tantos sequer tinham certidão de nascimento. No hospício, muitos apresentavam diferentes nomes a cada internação, inclusive, para não serem reconhecidos pela polícia e pelos próprios medicos. Sobre isso, ver (Engel, 2001).

94 Os exames de laboratório e das punções lombares se tornaram cada vez mais arraigados na psiquiatria

brasileira, após o esforço modernizador de Juliano Moreira. A importância das provas laboratoriais foi também exaltada por Henrique Roxo (1905), em um artigo sobre a confusão mental.

95 A partir de 1906 e 1907, Afrânio Peixoto passaria a se dedicar a diversas outras atividades, voltando

suas atenções para o campo da medicina legal e para a literatura. Em 1907, tornou-se diretor do Instituto Médico-Legal e realizou uma reforma nessa instituição. Em 1911, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, no lugar de Euclides da Cunha. Para mais informações, ver Prudêncio (2014).

90 especialização e na modernização do serviço, em especial, dos aparatos e tecnologias de apoio ao processo diagnóstico (Engel, 2001; Facchinetti e Muñoz, 2013).

Renata Prudência (2014) relacionou, com razão, as reformas realizadas por Moreira e Peixoto ao esforço maior da Primeira República de se afastar ao passado representado pelo período Imperial, visto pelos autores de época como sinônimo do atraso. Por sua vez, Facchinetti e Muñoz (2013) relacionam o esforço de Juliano Moreira e Afrânio Peixoto com o contexto mais amplo da Reforma Passos e da Reforma Sanitária organizada por Oswaldo Cruz, no governo Rodrigues Alves (1902-1906), isto é, esforço de higienizar a cidade e por fim ao cenário pestilento e insalubre do centro do Rio de Janeiro (Benchimol, 1990).

Ao assumir a direção do Hospício Nacional, Juliano Moreira havia ampliado o número de leitos e a capacidade do hospício (Moreira, 1905b). Embora as reformas tivesse obtido sucesso na modernização do Hospício Nacional, poucos anos depois a instituição voltaria a enfrentar velhos problemas: o internamento massivo, superlotação, falta de leitos e precariedade no alojamento dos doentes (Engel, 2001).

Com o passar dos anos houve um progressivo número de internações – a maior parte delas levado a cabo pela polícia, que recolhia da cidade os loucos indigentes, isto é, aqueles não podiam pagar (Muñoz, 2010). Em 1910, Juliano Moreira foi questionado pela mídia e reconheceu o problema. Segundo ele, o hospício tinha capacidade para 850 alienados. Mas, naquele ano, a instituição contava com 1400 pacientes (Jornal do Recife, 10/10/1910, p. 01) – isto é, havia ultrapassado em quase 65% a sua capacidade.96 No Pavilhão de Observações, Henrique Roxo vivenciava problemas similares e fazia diversos pedidos junto ao governo por mais recursos. O resultado dessas investidas muitas vezes frustrava os médicos (Muñoz, Facchinetti e Dias, 2011; Facchinetti et al., 2010).

Mesmo com os problemas institucionais decorrentes da superlotação do hospício, Juliano Moreira continuou a acumular poder e sua influência nos meios científicos e políticos da época crescera na década de 1910. No plano internacional, isso também ocorreu. Nesse período de 1903 a 1914, Juliano Moreira e seus colaboradores empreenderam um grande esforço na internacionalização da psiquiatria brasileira. E Moreira desempenhou papel chave.

96 O poeta brasileiro Afonso Henrique de Lima Barreto foi por duas vezes paciente do hospício (1916 e

1922). Ele deixou um importante relato sobre a experiência de internamento. Mostrou simpatia por Juliano Moreira, mas classificou a instituição como um “cemitério dos vivos” (Lima Barreto, 1888 [1920]).

91 Até o momento, falamos basicamente de uma parte questão: a recepção de modelos institucionais, saberes e práticas asilares. Para compreendermos a formação de uma rede de cooperação científica entre os dois países, é necessário reconstruir os contatos pessoais de Moreira com os médicos brasileiros e, principalmente, estrangeiros, bem como a circulação desse médico baiano e dos médicos brasileiros pelas fronteiras nacionais e internacionais.

No Brasil, além de exaltar a classificação kraepeliana, Moreira, assim como Kraepelin, aproximou-se da psicologia, da pesquisa experimental, da psiquiatria comparada e propagou a necessidade de especialização no interior da medicina mental brasileira. Montou também uma equipe de renomados médicos especializados para atuar no Hospício Nacional: Miguel Pereira (1871-1918), Afrânio Peixoto, Antônio Austregésilo (1876-1960), Fernandes Figueira (1863-1928), Raul Leitão da Cunha (1881-1947), Álvaro de Andrade Ramos e Humberto Neto Gotuzzo (Facchinetti e Muñoz, 2013).

Percebemos, então, que Moreira conquistou aliados no processo de divulgação de novos referenciais para a psiquiatria e o meio intelectual brasileiro. Assim como Kraepelin, Moreira defendia a universalidade da doença mental e se opôs ao determinismo climático e racial. Para Moreira, a degeneração fazia parte de um problema epidemiológico, resultante das condições sanitárias, da sífilis, do álcool e da educação (Facchinetti e Muñoz, 2013).

Contudo, seria excessivo creditar somente a Juliano Moreira os esforços para a formação de uma comunidade teuto-brasileira na medicina mental. Ao descentralizarmos nosso olhar da figura de Moreira, é possível identificar a importância de outros médicos no estabelecimento das relações com a Alemanha.

Em 1904, Afrânio Peixoto publicou na revista Brasil-Médico um artigo intitulado “A loucura maníaco-depressiva”, no qual defendeu a concepção kraepeliana e da psiquiatria alemã sobre a matéria:

“Um fato que importa é a indagação do estado mental ordinário intervalar dos acessos maníacos depressivos: a psiquiatria francesa com Falret, Baillarger, Magnan, Ballet, etc., permite supor a volta ao estado normal nesses intervalos, pelo menos quando espaçados; a alemã com Krafft-Ebing, Schuele, Kraepelin, Weygandt põe restrições decididas, notando a permanência de algumas constantes de inferioridade rígida. Energia psíquica diminuída, irritabilidade exagerada, emotividade muito fácil, impulsividade muito pronta, aí estão os fatos toda hora certificáveis com que rebater a pretendida restituição ao normal. A observação destes mestres parece-me irrefutável, na clínica” (Peixoto, 1904, p. 293).

92 Em 1905, coube a Antônio Austregésilo a tradução do texto “Paranóia” (Verrücktheit) do livro de Kraepelin “A Psiquiatria” (Die Psychiatrie) (Kraepelin, 1905). Assim, como Moreira e Peixoto (1905), Ulysses Vianna (1880-1935), também entendia a paranóia à maneira de Kraepelin,97 diferente dos médicos Henrique Roxo (1877-1969) e Teixeira Brandão (1854-1921) (Facchinetti e Muñoz, 2013).

Em conjunto com Afrânio Peixoto, Moreira publicou o artigo intitulado “Classificação de moléstias mentais do professor Emil Kraepelin”, no qual destacavam a trajetória do psiquiatra alemão e comentam os quinze grupos de sua classificação (Moreira e Peixoto, 1905, p. 205b).

2.3. O nascimento da comunidade psiquiátrica teuto-brasileira: contatos e