• No results found

CHAPTER 3: THE EFFECT OF MULTINATIONAL FIRMS' ACTIVITY ON THE

3. DATA AND METHODOLOGY

3.1. Intraday Volatility Patterns

Em 1905, Afrânio Peixoto escreveu uma carta a Kraepelin para pedir auxílio sobre os equipamentos a serem utilizados no laboratório de psicologia experimental, que seria em breve instalado no Hospício Nacional de Alienados:

“Senhor e muito sábio metre prof. Emil Kraepelin, Monsieur et très savant maître Prof. Emil Kraepelin, (…) eu sou um dos vossos mais fervorosos propagadores e é neste caráter que eu ouso vos enderessar esta demanda. Eu estou instalando no meu Hospício um laboratório de psicologia expermimental e desejaria adquirir aparelhos aprovados em Heidelberg para o uso: eu seria extremamente grato de obter informações, catálogos de fabricação e nome da pessoa que eu devo me dirigir para os adquirir. Eu deixo as minhas desculpas por lhe enviar uma pequena brochura que propaga as suas ideias sobre a paranóia e um artigo sobre a loucura maníaco- depressiva no Brasil, que deve ser publicado no primeiro número dos Annales

Medico-psychologiques de Paris. Uma vez mais perdoe-me por incômodo que lhe causo e esteja certo das mais altas admirações de vosso pupilo e humilde servo”.98

A carta de Afrânio Peixoto sobre os aparelhos para o laboratório de psicologia experimental deu início a uma série de correspondências entre os médicos brasileiros e Krapelin. Em resposta à Peixoto, Kraepelin mencionou que tem interesse em realizar uma viagem de estudos no Brasil, em 1906. Tendo em vista que Afrânio Peixto estava

97 Ver a tese médica de Vianna e “A Paranóia (Segundo Kraepelin)”. Noticiário: Professor Ulysses

Vianna. Arquivos do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro, ano 6, n. 1-2, p. 117 e 128, 1935.

93 de partida para sua primeira viagem à Europa (Ribeiro, 1950)99, coube a Juliano Moreira responder a carta de Kraepelin:

“meu primoroso amigo, Dr. A. Peixoto, recebeu a vossa valiosa carta, e está deveras lisonjeado pelas vossas linhas. Devido ao fato de encontra-se atualmente em viagem à Europa, ele me transferiu a função de responder às vossas perguntas. O Ministro do Interior já está a par dos vossos planos de viagem e, a fim de possibilitar a sua realização, resolveu convidar-vos com uma carta assinada por ele mesmo. Além disso, a direção do Hospício Nacional recebeu dele a incumbência de providenciar os aposentos adequados para vossa senhoria. Aqui no Brasil possuímos muitos hospícios, onde vossa senhoria poderá realizar por completo vossos planos de pesquisa. No Rio de Janeiro, temos um hospício, onde vos escrevo, que habitualmente possui 1000 doentes, e temos também a colônia com cerca de 300 doentes. O número de estrangeiros compreende 1/3 do total, podendo-vos servir para comparações. Para superar as dificuldades com a língua, vos comunico que vivi um ano na Alemanha, e domino razoavelmente a vossa língua, de forma que estarei à vossa inteira disposição para servir de intérprete. Além de mim, um de meus colegas fala um pouco de alemão, e todos os médicos daqui falam francês. À doze horas do Rio, na cidade de São Paulo, possuímos um excelente ‘Manicomium’, onde vossa senhoria poderá igualmente ter à disposição 900 doentes para observação. A melhor época do ano por aqui é de abril a setembro; a temperatura é formidável e as condições sanitárias excelentes. Meu amigo Peixoto retornará em abril do próximo ano, e caso vossa senhoria possa acompanha-lo na viagem de regresso, será para ele uma grande honra. No próximo inverno, ele deseja participar de vossas conferências em Munique. Permanecendo à vossa inteira disposição para próximos contatos, envio-os saudações acadêmicas”.100

Já o ministro da Justiça J. J. Seabra proferiu as seguintes palavras sobre a honra de receber Kraepelin, no Rio de Janeiro:

“Tendo conhecimento pelo Dr. Afranio Peixoto, diretor interino do Hospício Nacional de Alienados, que V. Excia. manifestara o desejo de vir ao Brasil estudar as nossas variedades psiquiátricas, compreendo bem a honra elevada que nos confere, e, com a mais viva satisfação, convido V.Excia a realizar esse desejo. A diretoria do Hospício Nacional de Alienados está desde já autorizada a providenciar a V.Excia a hospedagem que devemos a alta distinção de V.Excia. Aproveito, Exmo. Snr. Professor, a oportunidade para apresentar a V.Excia os protestos de meu apreço e minha admiração”.101 As primeiras correspondências entre Kraepelin e os médicos brasileiros, revelam interesses muito específicos de cada lado. Do lado brasileiro, Moreira e Peixoto buscavam avançar no projeto de reformas que vinham desenvolvimento da modernizar a psiquiatria brasileira, nacional e internacionalmente. Após receber as cartas de Moreira

99 Sobre a primeira viagem de Peixoto para a Europa, ver Ribeiro (1950).

100 Carta de Moreira a Kraepelin. Rio de Janeiro, 11/04/1905. MPIP-HA K33-12 Moreira. Faço uso da

tradução presente no livro de Dalgalarrondo (1996, p. 122).

94 e J. J. Seabra, Kraepelin revelou mais detalhes sobre os interesses de pesquisa de sua viagem. Ele declarou que deseja realizar uma investigação sobre as perturbações mentais em índios puros brasileiros internados no Hospício Nacional, como parte de sua agenda em Psiquiatria Comparada. Em resposta a Kraepelin, Juliano Moreira escreveu:

Eu vos peço que me perdoe por não haver vos respondido imediatamente, pois estive muito ocupado com o Congresso Latinoamericano, que aqui ocorreu nestes dias. É com grande pena que vos comunico que aqui em nosso hospício não tempos nenhum índio puro, ou apenas muito raramente é que podemos ter índios para estudar. Neste momento, encontra-se conosco apenas uma índia. Temos um grande número de negros, mestiços e brancos de origem europeia que aqui nasceram, e alguns já estão na 4ª ou 5ª geração. Devido ao fato de me interessar pessoalmente pelo estudo das psicoses nos diferentes grupos étnicos que habitam o vasto território brasileiro, viajei até as regiões onde se encontram muitos índios. Durante 6 meses e meio de permanência pude encontrar apenas 6 casos de loucura. É praticamente impossível achar 100 índios puros, mesmo se se tratasse de saudáveis, ainda que se percorresse o norte do Brasil, onde se encontra um enorme número deles. Eles vivem de fato no meio das florestas, onde praticamente nenhum homem civilizado penetra. Mestiços de índios e brancos e de índios e negros temos em grande número para estudo, porém creio que não vos serão de utilidade. Diga-nos, por obséquio, se vossa senhoria deseja receber o relatório do ano passado de nosso hospício, assim como o primeiro número de nossos Archivos, impresso na gráfica do próprio hospício. Envio-vos anexo o modelo da ficha de observação de nossos doentes. Com as melhores saudações acadêmicas, permaneço à vossa inteira disposição para posteriores informações.102

A viagem de Kraepelin, no entanto, não estava planeja para o ano de 1905. Antes de Kraepelin, Juliano Moreira recebeu, em janeiro de 1906, outro colega alemão, chamado Martin Bernhardt (1844-1915) – neuropatologista do asilo de Dalldorf, em Berlim. A visita de Bernhardt foi motivada pela leitura de dois artigos, um deles com gravuras sobre o Hospício Nacional, publicados no Psychiatrisch-Neurologische

Wochenschrift.103

No primeiro artigo, intitulado “A Reforma do Asilo de Alienados no Rio de Janeiro” (Reformen der Irrenfürsorge in Rio de Janeiro), Moreira (1905c, p. 305-307) narrou os seus primeiros feitos como diretor do Hospício Nacional, no Rio de Janeiro. Ele destacou detalhadamente todas as modenizações e novas instalações, laboratórios e pavilhões. Citou também o número de médicos do hospício.

No segundo artigo, intitulado “Lei para Alienados no Brasil” (Gesetz über

Irrenfürsorger in Brasilien), Moreira (1905a, p. 307-311) traduziu para o alemão a lei

102 Carta de Moreira a Kraepelin. Rio de Janeiro, 30/06/1905. MPIP-HA K33-12 Moreira. Faço uso da

tradução presente no livro de Dalgalarrondo (1996, p. 123).

103 Agradeço a Luciana Madeira Fernandes pela gentil coleta e envio desses dois artigos, descobertos

95 de 1903 (nova legislação de alienados), após tecer um curto histórico da assistência aos alienados no Brasil. Esse segundo artigo contém diversas fotos do Hospício que mostram não somente as novas estruturas físicas, como também os equipamentos utilizados:

Figura 1. Serviço de clinoterapia e balneoterapia do HNA (1905a)

Um ano depois da publicação dos artigos de Moreira, Bernhardt decidira ver pessoalmente as reformas realizadas por Moreira, naquela instituição asilar. Após ser recebido pelos colegas brasileiros, o Dr. Bernhardt foi acompanhado por Juliano Moreira em sua caminhada pelo Hospício Nacional, quando percorreram juntos “as galerias floridas, as salas onde os loucos jogam bilhar e a bisca, os grandes gabinetes e laboratórios, todos brancos, magnificamente instalados e, ao terminar, estava convencido: 'é muito mais do que eu esperava'” (Gazeta de Notícias, 19/01/1906, p. 03). Pouco antes de desembarcar na Europa, Bernhardt declarou-se satisfeito com o período que passara no Brasil:

“Muito estimado Sr. Diretor. Em véspera de pisar de novo no solo europeu, aproveito a ocasião para agradecer-lhe cordialmente o hospitaleiro acolhimento que me dispensou ai no Rio. A visita que fiz através de seu hospício modelo foi para mim altamente interessante e inesperadamente instrutiva. Visitei também os hospícios de São Paulo e Bahia. O primeiro, como tinha-me o senhor informado, é realmente excelente. O de João de Deus, na Bahia, é sem dúvida mal e não honra aquele estado. Peço-lhe quando vier a Berlim, não deixar de comunicar-me, porque terei grande honra em estar à sua disposição. Se lhes permitirem suas ocupações, peço- lhes dizer-me quais são os ordenados dos médicos do hospício. Sempre dispor, com muita consideração. Dr. Bernhardt” (Gazeta de Notícias, 06/03/1906, p. 02).

96 Novas notícias sobre a vinda de Kraepelin chegaram durante a estadia de Bernhardt no Brasil. Em 04 de Fevereiro, Kraepelin enviou uma carta para confirmar seu desejo de viajar para o Brasil:

“Muito estimado colega. Parece-me que meu plano de viagem para o Brasil se realizará agora. Em realidade disponho apenas dos três meses de agosto, setembro e outubro, porque por vários motivos não me será permitido demorar mais. Se, porém, for possível nesse prazo estudar com algum proveito os problemas da Psiquiatria Comparada, lá irei. Acompanhar-me-á meu amigo e colaborador Dr. Alzheimer. Envio-lhe meus melhores agradecimentos por suas informações a propósito dos indígenas brasileiros, assim como a remessa de seus excelentes Archivos. Espero mais tarde retribuir lhe a gentileza. É pena que não seja possível observar nenhum índio alienado; seria de grande interesse observar o modo de ser das perturbações mentais em tal gente. Como precisamos traçar um programa para nossa viagem, peço-lhe permissão para formular-lhe algumas perguntas, cujas respostas muito servirão: Qual linha de vapores que nos aconselha? 2ª. Como vai atualmente o perigo da febre amarela? Dizem-nos que é bom que os recém-chegados da viagem vivam fora do Rio. Isto prejudicaria talvez nossos estudos no Hospício? Pode-se evitar isto? E de que modo? 3ª. Apesar de pouco tempo de que dispomos, desejamos trazer algumas impressões sobre a vida e a natureza no Brasil. Penso em primeiro lugar visitar São Paulo; ouvirei, porém, com muito gosto, sua opinião sobre este ou outro plano que me queira sugerir. Muito prazer causou-me verificar pelos “Archivos Brasileiros de Psiquiatria” em que alta florescência vai em sua pátria a psiquiatria clínica. Fiquei sobretudo surpreso ao ler sua notícia sobre o Hospício Nacional em que a excelência e a oportunidade das instalações são manifestas, excedendo a muito manicômios europeus. Será para mim um motivo de grande prazer se, realizando meu plano de viagem, for admirar com meus próprios olhos esses progressos. Pelo seu amável acolhimento às minhas perguntas, envio-lhe meus agradecimentos e declaro-me com a segurança de minha alta consideração, seu devotado colega. E. Kraepelin” (Gazeta de Notícias, 06/03/1906, p. 02).

Em resposta a essa carta, Juliano Moreira disse que, em breve, viajaria para Europa, junto com Antonio Austregésilo, para participar de um congresso médico. Com isso, não poderia receber Kraepelin, no momento em que ele chegasse ao Rio:

“Recebi a vossa valiosa carta de 4 de fevereiro, e me alegro que vossa senhoria pense realmente em realizar os vossos planos. Tendo em vista a minha nomeação e a de alguns colegas para representar o Brasil no 15° Congresso Médico Internacional em Lisboa, não poderei, infelizmente, recebê-lo. Depois do término do congresso, eu gostaria de permanecer um pouco mais pela Europa, porque quero visitar os hospícios que foram construídos após a minha última estadia na Europa. Alegrou-nos saber que tenha decidido trazer o Dr Alzheimer, pois ele é bastante conhecido entre nós através de seus estudos anatomopatológicos. Em relação às linhas de vapores, os mais confortáveis são os vapores da Hamburg Amerika Linie, já a respeito da rapidez, os melhores são vapores da Royal Mark, que necessitam de 13 dias de Lisboa para o Rio. Em relação a F[ebre] amarela, comunico que ela decaiu ao menor número de doentes, e em um ano, segundo o diretor de

97

saúde pública, desaparecerá totalmente. Atualmente não é necessário de maneira alguma alojar-se fora do Rio. (...) Para aproveitar o tempo que lhe restar após os estudos, considero muito proveitosa uma viagem a São Paulo, e se ainda restar tempo, uma viagem a Minas Gerais também seria bom. Antes de terminar estas linhas, comunico-vos que aquele colega médico do hospício, que devido à língua poderia vos ser útil, partirá comigo no dia 23 de março.104 Ele será substituído por colegas mais jovens (adjuntos), os quais

estarão à vossa completa disposição, para vos ser úteis no que for preciso. Meus colegas e eu lamentamos profundamente, devido a nossa viagem, não podermos encontrar o senhor e o Dr. Alzheimer. Caso me for de alguma forma possível, visitarei a vossa clínica ainda antes da vossa vinda ao Brasil. Com as melhores saudações acadêmicas, permaneço aqui á vossa inteira disposição”.105

A viagem de Kraepelin e Alzheimer ao Brasil acabou não se concretizando. A ausência de Moreira e Austregésilo – médicos que falavam alemão –, aparentemente, não deve ter sido problema, já que Afrânio Peixoto retornava da Europa, após o congresso de Lisboa. Sabe-se apenas que na primavera de 1906, Kraepelin recebeu um inesperado convite do Kaiser para participar do congresso internacional que seria realizado meses depois, em Lisboa, entre 19 e 26 de abril de 1906 – o mesmo mencionado por Moreira em sua carta. Por ocasião do congresso, Kraepelin realizou uma longa viagem pela península Ibérica:

“Para minha surpresa, eu recebi uma carta na primera de 1906, na qual o Kaiser me ofereceu uma passagem de graça no vapor Ozeana para participar do Congresso Médico Internacional de Lisboa. Tendo em vista que eu não havia tido o menor contato com o Kaiser, eu compreendi que Althoff deve ter intervindo a meu favor. A viagem iria para Tenerife via Madeira, então eu não exitei de aceitar, embora eu soubesse que o encontro do Clube de Alienistas Alemães [Verein Deutscher Irrenärzte] ocorreria no mesmo período em Munique. (…) Com um tipo de cooperação da Linha Hamburgo- América fomos capazes de terminar a nossa estadia em Lisboa, com uma jornada por terra para cidade de Porto” (Kraepelin, 1987, p. 142 e 144).

Não há registro sobre uma provável conversa entre Kraepelin e Moreira, por ocasião do congresso, em Lisboa. Contudo, é provável que ela tenha ocorrido e que Kraepelin tenha respondido pessoalmente a carta de Moreira, de 20/03/1906. Eles estiveram juntos na seção “VII. Neurologia, Psiquiatria e Antropologia Criminal”, na

104 Moreira se refere a Antonio Austregésilo que fez parte da delegação brasileira no congresso de Lisboa.

Conforme já destacado, Austregésilo traduziu “A Paranóia” de Kraepelin, texto publicado nos Arquivos

Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins, em 1905.

105 Carta Moreira a Kraepelin. Rio de Janeiro, 20/03/1906. MPIP-HA K33-12 Moreira. Faço uso da

98 qual Kraepelin foi um dos presidentes de honra (Moreira e Peixoto apud Prudêncio, 2014, p. 230).106

Kraepelin, por sua vez, narrou uma viagem pela Itália ainda na primavera de 1906, após o congresso. No verão, ele saiu de Munique para atravessar os Alpes de bicicleta, com a esposa e dois de filhos, com destino final em Pallanza, na região de Piemonte, norte da Itália. Essa viagem começou em agosto de 1906 – mês que ele planejava embarcar para o Rio de Janeiro.

A estadia de Kraepelin terminaria em outubro de 1906, pois ele era responsável pelas aulas de “demonstrações clínicas”, do primeiro curso de aperfeiçoamento da Clínica de Munique, que ocorreu entre 03 e 24 de novembro de 1906. Esta foi a oportunidade que Juliano Moreira escolheu para cumprir a promessa que fizera em sua carta a Kraepelin, do dia 20/03/1906. Moreira mostrou-se muito satisfeito com o que assistira no curso de 1906, em Munique:

“tinha, portanto, um caráter verdadeiramente cosmopolita. Alias, no curso normal de verão do ano de 1906, vi eu no anfiteatro da clínica de Munique ouvintes das mais variadas nacionalidades, muitos dos quais já portadores de um nome feito como alienistas” (Moreira, 1908, p. 184).

Nessa mesma viagem à Europa, Juliano Moreira (1908) diz ter visitado diversas clínicas psiquiátricas da Alemanha. Antes de retornar ao Brasil, Juliano Moreira escreveu a Kraepelin para agradecer pelo tempo que passou em Munique e dizer que estaria a postos, no Rio de Janeiro, caso Kraepelin necessitar de alguma ajuda.107

No Brasil, Moreira fez um relato do que viu na Alemanha, especialmente, do que presenciou em Munique, nos anos de 1906 e 1907. Suas impressões foram o tema da conferência realizada por ele, em 1907, na Academia Nacional de Medicina, bem como de um artigo sobre assistência aos alienados na Alemanha e a Clínica Psiquiatria de Munique (Moreira, 1908).

Em 24/01/1907, Maurício de Medeiros embarcou no paquete Cordillère, com destino à Bordeaux (Correio da Manhã, 25/01/1907, p. 06), para realizar cursos com o psicólogo George Dumas, em Paris. Em abril de 1907, Medeiros concluiu o curso que realizava com George Dumas sobre psicologia experimental, no asilo de Sainte-Anne

106 Moreira e Peixoto atuaram como relatores da 7° mesa intitulada “Paranóia Legítima: sua origem e

natureza”. Durante o congresso, Juliano apresentou dois trabalhos, um com Afrânio e outro com Antônio Austregésilo. XV Congresso Internacional de Medicina (16 a 16 de Abril de 1906). Arquivos Brasileiros

de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins, ano 2., n. 1, p. 115-118, 1906.

99 (Gazeta de Notícias 16/04/1907, p. 05).108 Consta ainda que Medeiros realizava sua prática também no asilo de Sainte-Anne – onde trabalhava o conhecido alienista francês, Valetin Magnan (1835-1916) (Idem).

O primeiro médico brasileiro a realizar estudos com Dumas foi Manoel Bomfim. Ele esteve em Paris, no período de 1902 a 1903. Sua estadia foi financiada pelo governo brasileiro, para estudar psicologia experimental com Alfred Binet (1857-1911) e George Dumas (1866-1946), na Sorbonne. Assim como Dumas, Alfred Binet era um psiquiatra e psicólogo bastante conhecido pelos médicos brasileiros. Binet foi um dos primeiros a criar testes de inteligência e a escala de inteligência Binet-Simon era citada pelos psiquiatras brasileiros.109

Antes de voltar ao Brasil, Maurício de Medeiro foi indicado para fazer cursos em Munique. Afrânio Peixoto e Juliano Moreira aproveitaram o tempo que ainda restava para Maurício de Medeiros, na Europa, e decidiram escrever a Kraepelin, para tentar envia-lo à Munique. Conforme já destacado, Mauricio de Medeiros buscava se aperfeiçoar no tema da psicologia experimental e Kraepelin era um dos grandes nomes da área, na época. Afrânio Peixoto foi o primeiro a contactar Kraepelin:

“Eu estou muito honrado de vos presentar o Sr. Mauricio de Medeiros, um dos meus amigos, um dos meus jovens compatriotas de maiores distinções, interno do Hospício de Alienados do Rio de Janeiro, que deseja se dedidcar seriamente à Psicologia. Ele já realizou os primeiros estudos com o Senhor [Pierre] Janet110, em Paris, e eu o aconselhei não retornar sem visitar o vosso

Instituto e ficar por um tempo para tomar consciência das suas proeminentes pesquisas. Eu espero que você tenha a amabilidade de conceder-lhe toda a bondade que você me deu tantas provas, durante a minha estadia em Munique. Certamente, o Senhor Moreira não estaria ausente e, em relação ao Senhor Medeiros, vos transmitiria muitas coisas muitas coisas lisonjeiras sobre o seu caráter e inteligência. (...) Você encontrará nesse jovem brasileiro senão uma elevada cordialidade, que em troca vai fazer crescer o número de pessoas que procuram conhecer o seu trabalho neste lado do Atlântico