3.4 Dataanalysering
4.2.2 Etanercept
4.2.2.2 Meta-analyser på etanercept-studiene
Diversos autores já buscaram compreender o que é a escrita via cartas, como e por que ela ocorre. Os primeiros teóricos da epistolografia de que se tem notícia datam do século I a.C. ao século IV d.C. (Bolonha, 2005), a saber, Demétrio, Cícero, Sêneca, dentre outros. Alguns tratados expunham regras teóricas sobra a epistolografia, outros expunham regras sobre a estrutura da cara, estilo da escrita ou traziam modelos para saudações ou modos de utilizar as palavras visando influenciar, com eficácia, o destinatário.
Segundo Galvão (1998), a despeito do estatuto da carta, ela pode ter: “1) elementos preciosos para a reconstituição de percursos de vida; 2) Fontes de idéias e de teorias não comprometidas pela forma estética; 3) em certos casos (...) um estatuto exclusivo devido à qualidade impecável da escrita” (1998, p.156).
A escrita epistolar é uma das formas mais antigas de comunicação interpessoal. De acordo com Santos:
Uma carta sempre foi um objeto de respeito, quase diria: um objeto sagrado. Desde os romanos conhecem-se textos que resguardam o seu segredo, a sua inviolabilidade. Ela sempre foi acompanhada de um mistério quase religioso: quando se percebe que determinado documento é uma carta alheia, evitamos lê-lo; quando alguém abre uma carta, discretamente nos afastamos. Sabemos que ela contém algo de intimidade, grande ou pequena, mas sempre existe um lado que devemos respeitar. O meio – também aqui – é a mensagem (1994, p. 23).
Uma missiva estabelece um diálogo entre destinatário e remetente. Os motivos que já levaram as pessoas a escrever uma carta são muitos: para um prisioneiro, as cartas cumprem o objetivo de abolir distâncias que, muitas vezes, não poderiam ser percorridas de outra forma. As correspondências do Marquês de Sade na prisão com a esposa e amigos eram tão intensas que acabavam por convocar fisicamente o leitor, buscando com eles cumplicidade. Entre 1777 e 1790, período em que esteve confinado nas celas solitárias das prisões, esse foi o seu único modo de comunicação com o mundo (Moraes, 2000).
Durante muitos séculos a carta foi o único meio de dirigir-se aos ausentes,
(...) de levar o pensamento aonde o corpo não podia ir, aonde a voz não podia ir, e talvez esse seja o mais belo presente que a escrita deu aos viventes: permitir-lhes vencer o espaço, vencer a separação, sair da prisão do corpo, ao menos um pouco, ao menos pela linguagem, por esses pequenos traços de tinta sobre o papel (Comte- Sponville, 1997, p. 35).
Importantes filósofos, poetas e cientistas, como Darwin, Platão, Marx, Agostinho, Freud, Mario de Andrade, entre outros, fizeram uso de cartas para transmitir ensinamentos, compartilhar descobertas, disseminar informações e provocar a repercussão de suas idéias. As correspondências sempre tiveram um importante papel histórico. No Brasil, no período de colonização, por exemplo, as cartas que foram preservadas se tornaram evidência histórica de um cenário que só podemos conhecer por meio delas, a exemplo do relato de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal a respeito das terras que havia encontrado.
Nesse mesmo sentido, são famosas as correspondências de Madame de Sévigné, cerca de 1.155 cartas para sua filha, escritas semanalmente durante 23 anos, de 1671 a 1694, na França; pela riqueza de descrições da época, são consideradas um clássico da literatura francesa, servindo, inclusive, como fonte para manuais escolares. A escrita peculiar da autora
mistura fatos públicos com episódios da vida privada, reflexões a respeito da guerra e demonstração de amor pela filha com quem buscou travar um diálogo intenso, mesmo estando ausente (Amaral, 2000 e Galvão, 1998).
Segundo Moraes (1993), foi Gilberto Freire o primeiro no Brasil a descobrir, sob a aparência “frívola e insignificante” do postal, importantes dados de nossa historiografia. O sociólogo pernambucano percorria as feiras de Lisboa adquirindo exemplares que contemplavam a época do esplendor da exploração da borracha no Norte do Brasil e que continham ricas descrições dos portugueses aos familiares, quando aqueles buscavam riqueza na Amazônia. Continua Moraes: historiadores com olhos mais aguçados podem “colocar lentes de aumento sobre este material” e perceber que neles há mais do que a história iconográfica, pois ali se fundem histórias de vida.
Tiago Miranda (2000), estudioso da epistolografia portuguesa do século XVII, explica que naquele período as cartas eram o meio de comunicação entre os reis e seus vassalos. Com o tempo, iniciaram-se “fórmulas expressivas” detalhadas para a escrita oficial. Tal aspecto não só legitimou a coroa, como afastou as camadas populares dos órgãos do poder central. Ao longo desse século, a corte exacerbou o controle sobre gestos e comportamento, que tinha como objetivo recordar os lugares ocupados pelos indivíduos. A escrita foi uma prática em que se estabeleceu um conjunto de regras para os cabeçalhos, frases de despedidas, e “em vários países, até a maneira de segurar a pluma, de forma a, com determinados gestos, obter os efeitos mais interessantes, era ensinada nas escolas através de tratados, e cultivada com absoluta propriedade pelos chamados ‘mestres escrivães’ ” (Miranda, 2000, p.44).
Os registros mais antigos da epistolografia ocidental se devem a um pequeno grupo de filósofos, dentre eles, Epicuro, Isócrates e Platão. Muitos dos textos que ora conhecemos foram originalmente “cartas” destinadas ao ensino, mas por abordarem temas de interesse para toda a comunidade, inauguravam a prática das “cartas abertas”. É o caso do belíssimo texto de Epicuro, Carta sobre a felicidade, dirigido a Meneceu.
Além das “cartas abertas”, muitas outras cartas foram escritas visando ao caráter reservado e de intimidade que se pode estabelecer por meio de uma correspondência. As cartas de Platão endereçadas aos amigos, por exemplo, evidenciam aspectos relevantes do ponto de vista da história política e filosófica.
Nesse sentido, podemos citar também as correspondências entre Hannah Arendt e sua amiga Mary McCarthy, que revelam a condição feminina de duas renomadas escritoras do século XX e permitem conhecer um pouco mais de uma pessoa tão excepcional e fascinante como Arendt (Lafer, 2000).
Muitos outros exemplos de cartas que deixaram transparecer a intimidade do autor poderiam ser citados, como as de Guimarães Rosa (2003) com sua neta, as de Mário de Andrade com Henriqueta Lisboa (Souza, 2000) ou as cartas de amor de Fernando Pessoa. São publicações que, além de revelarem aspectos pessoais dos autores, mostram a época em que viveram, suas idéias e compartilham um mundo de sentimentos e histórias.
Sob essa perspectiva, merecem destaque as correspondências publicadas de Mário de Andrade (1999 e 2001) e Vinícius de Moraes (2003). Mário de Andrade escreveu mais de 10 mil cartas que reúnem mais de 1.400 remetentes, entre os quais estão, além de Vinicius de Moraes, figuras como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Brecheret, Anita Malfatti, Villa-Lobos, Sérgio Buarque de Holanda, Carlos Lacerda e muitos outros artistas, compositores, musicólogos, escritores e pessoas comuns. Mário de Andrade manteve diálogo epistolar com os nomes mais importantes do campo intelectual brasileiro das décadas de 1920 a 1940 (Lopez, 2000). Além de cultivar amizades, debater idéias relevantes para o movimento modernista, Mário de Andrade orientava, ou desaconselhava, o trabalho de jovens escritores que pretendiam seguir carreira.
Sobre as correspondências de Vinícius de Moraes, encontramos publicadas em
Querido poeta (2003) mais de 200 cartas que ele enviou e recebeu durante meio século, de 1932 a 1980. Elas divulgam uma faceta desconhecida pela maior parte das pessoas de um dos representantes mais significativos da vida cultural brasileira. Podemos conhecer mais sobre a vida desse artista, em suas diferentes idades, casas, paixões, projetos, em seus momentos de coragem e medo, humores e amores, além de podermos conhecer de um modo muito especial a transição da poesia e da diplomacia para a música popular brasileira. Entre os destinatários e remetentes, além de familiares estão outras figuras de destaque da cultura brasileira e estrangeira, como Manuel Bandeira, Cândido Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Ferreira Gullar, Charles Chaplin, Chico Buarque, Antônio Carlos Jobim, dentre muitos outros.
As cartas podem ser de amor, de trabalho, escritas por amigos, parentes, contendo notícias felizes ou tristes; revelam cenários, épocas, afetos, debate de idéias. Adentrar o mundo das correspondências, como enfatizam Galvão e Gotlib (2000), constitui uma janela magnífica para o desvendamento dos mundos privados e públicos, uma rara oportunidade de transitar pela história de diferentes territórios de intimidade, por experiências singulares de sociabilidade.
Mas, por que as pessoas se interessam em ler as cartas endereçadas a outrem? Canetti explica a respeito das cartas de Kafka, publicadas após sua morte:
Conheço pessoas cujo constrangimento crescia durante a leitura [das cartas publicadas] e que não conseguiam livrar-se da sensação de estarem irrompendo em regiões onde justamente não lhes cabia penetrar. Respeito-as muito por essa atitude, porém não faço parte delas. Li aquelas cartas com uma emoção tamanha como havia anos nenhuma obra literária me causara. Elas figuram agora nessa série de inconfundíveis memórias, autobiografias e epistolários que nutriam o próprio Kafka. Ele, cuja máxima qualidade era o respeito, não tinha receios de ler e reler as correspondências de Kleist, de Flaubert, de Hebbel.(...) Sendo assim, cumpre-nos realmente agradecer a Felice Bauer, porque guardou e pôs a salvo as cartas de Kafka, mesmo que tenha sido capaz de vendê-las (1988, p. 7-8).
A justificativa de Canetti se pauta tanto na emoção que a leitura lhe causara como no fato de o próprio Kafka, quando no lugar de leitor, não teve receios de ler e reler as correspondências de outros. Agiria ele assim, caso pensasse na possibilidade de publicação de suas cartas? Nunca saberemos!
Durante o período do estágio, procurei expor aos alunos as diferentes funções que as correspondências podem ter, mergulhá-los na riqueza proveniente dessas literaturas e, ao mesmo tempo, enriquecer o estilo e o vocabulário para a escrita de suas missivas. Ler atentamente as correspondências de diferentes autores tornou possível ao grupo vislumbrar realidades vividas e modos distintos de expressão.