Ingrid afirmou enfaticamente que sua maneira de se vestir mudou desde que chegara a São Luís. Uma das primeiras irmãs anfitriãs uma vez lhe perguntou: “Você vai sair com essa roupa?” e ela ficou chateada com ela por isso. Na segunda família anfitriã, as mulheres, segundo ela, se preocupavam muito com a maneira de se vestir. Mencionou que teve a experiência de ir a salões de beleza para cuidar dos cabelos e unhas. Muitas pessoas, para ela, se preocupam em parecer perfeitas todo o tempo.
Denise disse que Emily ficou mais brasileira, que dançava mais, diferente de quando chegou. Essa diferença estava em que a dança era “mais sensual”, com o “corpo mais solto e relaxado”. Ela acrescentou que Emily olhava as pessoas na rua “com a barriga de fora” e ficava surpresa. Quando ela olhava um determinado programa de televisão, no qual mulheres dançavam expondo os corpos com pouca roupa, relatou Denise, “ela não aceitava, não aceita até hoje; achava uma coisa desnecessária, ver as meninas de biquíni na TV... audiência pelo corpo”. Ela não gostava desse programa, afirmou Denise. Na época, “mostrar a barriga” para ela seria tido como algo “vulgar”. Denise disse: “Eu não sei como, mas com o tempo ela acabou gostando. Ela ficou mais brasileira por esse sentido. Porque, no começo ela não gostava”. Dalva disse que Emily ficava chocada por as mulheres mostrarem tanto o corpo e disse que explicou a ela que uma coisa era “mostrar a barriguinha” e outra coisa era “se vestir de forma vulgar”. Este modo de se vestir seria característico do que Dalva chamou de “periguetes”.
Para Bernardo, Lara não tinha a “nossa noção de vaidade”. Beatriz uma vez a convidara para ir ao salão, mas ela não quis. Lara não incorporou esse hábito de ir ao salão e cuidar de cabelos e unhas, como geralmente as mulheres locais costumariam fazer. Bianca, por sua vez, segundo os pais, era muito vaidosa. Bernardo e Beatriz disseram que Lara saía de casa de qualquer jeito, com qualquer roupa, sem essa preocupação de se arrumar como Beatriz e Bianca. Beatriz também afirmou que Lara nunca usou maquiagem para sair de casa.
Barbara relatou que a forma de as mulheres se vestirem aqui é muito diferente da sua. “São muitas roupas curtas” e disse que não estava acostumada a usar roupas tão curtas. Sentiu que as mulheres que conheceu se vestiam mais ou menos da mesma maneira, que havia uma uniformidade maior, que não se vestiam tanto para se expressar do ponto de vista pessoal e que a moda aqui era mais mainstream [literalmente “corrente principal”, o que é mais comum, usual, geral]. Afirmou perceber uma diferença no estilo entre pessoas com
dinheiro e pessoas sem dinheiro. Mas que isso das roupas curtas para mulheres estaria presente nesses dois grupos.
Alice, por sua vez, disse que seu modo de se vestir não mudou muito.
Você acha que as mulheres aqui se vestem de uma maneira diferente da __________?
Alice: Sim.
E eu não estou falando só sobre o frio, porque eu sei que lá é muito frio, vocês têm que usar casacos, cachecóis, às vezes luvas e coisas assim...
Sim, eu acho que elas usam menos que o necessário [risos]. As roupas abertas nas costas [decotadas]... mais sexy do que na __________.
Mais sexy significa... você deu um exemplo, um buraco nas costas, mas o que mais você vê que parece sexy a você?
Às vezes, saias curtas, que você pode ver a barriga delas ou saias muito curtas, vestidos muito curtos, ou muito decotados.
E na __________, você não vê isso com muita frequência?
Não tanto quanto aqui.
E vamos supor que você se vestisse assim na __________. Qual seria a impressão das pessoas sobre você?
Eu não sei [risos]. Eu nunca tentei.
Mas você tentou aqui se vestir como as mulheres se vestem, como você disse mais sexy do que você faria na __________?
Sim, eu acho que às vezes eu estou me vestindo diferente do que eu me vestiria na __________. Aqui, não há reação de outras pessoas quando eu estou me vestindo como elas, com um buraco nas costas ou algo assim.
Você tentou isso?
Sim, eu tenho uma blusa que é tipo assim...
Como você se sente? Você se sente estranha quando usa ou pra você está ok agora?
Não, está ok. Eu vejo as outras, elas também estão vestidas assim, então...
Nas falas acima, dois temas se destacam no que se refere ao gendramento das mulheres no contexto estudado: o cuidado estético com o corpo e a aparência física (no caso,
mais especificamente com unhas e cabelos) e uma forma particular de se vestir, chamada de “sensual”, em que prevalece certo jogo entre esconder e expor o corpo. Como podemos compreender esses cuidados com o corpo e essa forma particular de se vestir das mulheres?
Laura Zambrini (2010) afirma que, para os historiadores do traje, foi a partir do século XIX que a vestimenta incrementou a divisão dos imaginários do feminino e do masculino. Nesse século, o ocidente teria criado através da moda dois padrões excludentes de modos de vestir, um para mulheres e outro para homens, os quais deviam conotar valores opostos, tanto de distinção social como de gênero. O modo de vestir feminino deveria denotar o sentido da sedução das mulheres, o qual deveria estar ausente das vestimentas masculinas. Os elementos decorativos foram associados ao feminino e a indumentária feminina deu lugar ao uso de acessórios, recriando uma estética feminina associada aos adornos e ao decorativo como traço identitário. Para a autora, na lógica heteronormativa e binária, as técnicas corporais femininas se diferenciam das masculinas, operando em consonância com os modos de vestir. Dessa forma, o vestir e sua relação com o corpo se dão dentro de uma prática de construção corporal que produz identidades socialmente inteligíveis.
A autora continua sua argumentação propondo que a indumentária cumpre um papel fundamental na prática de construção de corpos masculinos e femininos, pois marca e reforça as fronteiras de identidades de gênero binárias. Michel Foucault já havia teorizado, embora sem levar em conta o gênero, as técnicas de sujeição e produção de corpos normalizados no interior de dispositivos de poder. Em “Vigiar e Punir”, por exemplo, o autor analisa a produção de uma nova subjetividade – a do delinquente – pela análise das técnicas modernas de encarceramento. Ele desvenda uma nova tecnologia política do corpo que faz com que o corpo supliciado – numa determinada técnica penal – seja substituído pelo corpo
controlado, vigiado, corrigido. A figura do carrasco dá lugar a um conjunto de técnicas produtoras de “corpos dóceis”, a que o autor nomeia de poder disciplinar (FOUCAULT, 1987).
Esse tipo de poder, característico para o autor das sociedades ocidentais contemporâneas, dispõe de recursos para adestrar os corpos, sujeitá-los e utilizá-los. O corpo exibe os sinais de uma incorporação que confirma o trabalho produtivo do poder. Com base nesse aporte, mas tendo em conta as clivagens do gênero, Laura Zambrini (2010) busca interpretar as práticas do vestir como fatos que evidenciam a conformação social dos corpos.
Esses “corpos dóceis” são, na interpretação de Susan Bordo (1997, p. 20), “aqueles cujas forças e energias estão habituadas ao controle externo, à sujeição, à transformação e ao ‘aperfeiçoamento”, por meio de disciplinas rigorosas. Ao destacar a
necessidade de um discurso político capaz de descontruir essas estratégias de controle social disciplinar e normalizador, a autora promove a noção do corpo não apenas como um lugar de docilidade e de reprodução do gênero, mas também um lugar de luta contra as dominações.
Rosa Maria Fischer (1996) descreve a atuação extremamente sutil de mecanismos de poder que, reiteradamente reproduzidos e não questionados, expandem-se e asseguram a produção de sujeitos normalizados. Destaco, na tese da autora, o tema da subjetivação pelo disciplinamento como modo de produção dos sexos. No capítulo “O disciplinamento do corpo forma a menina”, a autora analisa como uma revista dirigida ao público feminino – portanto, aparentemente, para mulheres já constituídas – concorre, através de várias prescrições normativas (acompanhar a moda, cuidar do corpo e das proporções, não ser vulgar etc.), para a fabricação de certo tipo de subjetividade feminina e, portanto, de mulher.
A autora aponta como historicamente passou-se de um determinado conceito estético da mulher a outro segundo o qual ela deveria ser magra, esbelta e possuir corpo delgado. Os dispositivos vão gerindo a produção de corpos sem substância, desde a mais tenra idade e alcançando também os “sujeitos masculinos”. No entanto, é ainda como “mulher para um homem” que as adolescentes devem se constituir e, assim, dá-se a reprodução de uma sujeição social, pela instigação de um sentimento de humilhação e inferioridade acerca do próprio corpo que gera a demanda de orientação e de modelos em direção a um corpo normalizado.
Vimos que tanto Emily como Alice corporificaram algumas normas locais de gênero, as quais se refletiriam em seus modos de se vestir. Esse processo de realizar uma norma no corpo e, desse modo, ir produzindo o próprio gênero é o que Judith Butler (2006) chamou de performatividade de gênero. Para esta autora (2006, p. 191), o gênero é uma identidade tenuemente constituída no tempo, instituída em um espaço exterior através de uma
repetição estilizada de atos. “O efeito de gênero é produzido através de uma estilização do corpo e por isso deve ser entendido como a forma mundana na qual gestos, movimentos e estilos de vários tipos constituem a ilusão de uma natureza gendrada permanente”.49 O corpo
gendrado é construído através de um processo de estilização corporal que tem na performatividade seu eixo principal. Dessa forma, a reiteração de certos cuidados corporais e do uso de certas vestimentas produzem um gênero feminino com base em sentidos culturais
49 Texto original: The effect of gender is produced through the stylization of the body, and, hence, must be
understood as the mundane way in which bodily gestures, movements, and styles of various kinds constitute the illusion of an abiding gendered self.
prevalecentes. Esses sentidos, como antes apontei, representam a mulher como objeto para um sujeito masculino e seu corpo, sujeitado a várias técnicas de estilização, deverá exibir os atributos da sedução pelos quais ela se faz desejável para um homem.
É importante destacar o esclarecimento de Joana Pinto (2007, p. 4, grifos da autora) ao afirmar que:
O termo stylization, utilizado por Butler para definir gênero, é uma nominalização do verbo stylize, cuja melhor tradução seria fazer conformar a um dado estilo ou
tornar convencional. Esse termo, portanto, tem menos a ver com estilo subjetivo (como no uso em português de ‘estudos estilísticos’), e muito mais com a repetição de normas sociais rígidas para convencionar práticas e comportamentos sociais. A performatividade de gênero não deve ser entendida com um ato singular ou deliberado, mas como a prática reiterativa e citacional [do conceito derridiano de
citacionalidade50] pela qual o discurso produz os efeitos que nomeia (BUTLER, 2011, p. xxi). O sexo do corpo, a diferença sexual são materializadas de maneira performativa. Mas, como a performatividade implica reiteração, isto é, repetição no tempo, em diferentes momentos, o processo inclui, além das materializações bem-sucedidas do ideal normativo em questão, as instabilidades e falhas em alcançá-lo. Ao mesmo tempo, o sucesso das reiterações depende de uma operação discursiva que produz um exterior constitutivo que é repudiado na identificação em jogo. Esse exterior constitutivo que é foracluído (literalmente “incluído fora”) e negado é precisamente o campo que constitui o que a autora chama de corpos abjetos como uma permanente ameaça às identidades legítimas corporificadas.
Nesse contexto, a desconstrução significa buscar identificar nos processos de construção das corporeidades a operação de exclusão pelas quais se produzem as abjeções. As alternativas binárias (como homem/mulher; homo/hetero; normal/patológico) parecem constituir uma totalidade, mas, de fato, sua constituição implica a exclusão mais ou menos tácita de um resto que lhe é constitutivo (BUTLER, 2011).