As provas de velocidade sempre foram uma das grandes aspirações de um núcleo de sócios do Real Automóvel Clube, sobretudo os que pertenciam à “Comissão da Figueira” e usavam o Tiro e Sport como arauto dos seus desejos e das suas expectativas. Em 1905, essa revista publicaria um cartoon glosando com a hipótese que circulou no meio automobilista de se organizar um “km de arranque” no Campo Grande.
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E no princípio de 1906, surgiu a hipótese de efectuar uma prova lançada na Valada, em plena lezíria ribatejaba, apesar do estado da estrada não ser o mais recomendável quanto à regularidade. O estado da rede viária, “as ruas que arrepiam”,397 eram os óbices ao desenvolvimento de provas com essas características. Porém, após algumas abordagens da comissão organizadora com as “forças vivas” locais foi possível reparar, sem grandes delongas, o percurso seleccionado pelo que o entusiasmo regional acabou por superar todas as dificuldades e, assim, a primeira prova de velocidade efectuada no nosso país disputar-se-ia no dia 18 de Março de 1906, em Valada do Ribatejo, embora inicialmente estivesse aprazada para o dia 4 desse mesmo mês, conforme o regulamento então publicado.398
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Essa competição conseguiu juntar não só um apreciável número de concorrentes como também um número considerável de espectadores provenientes dos mais diferentes estratos sociais. Aparentemente, a escolha de Valada do Ribatejo para a realização duma prova com estas características deveu-se ao facto da localidade ribatejana, de um modo simultâneo, possuir uma estrada com uma excelente morfologia para uma prova de quilómetro lançado e estar suficientemente perto de Lisboa, para atrair concorrentes e público. Sobre as características da estrada, leia-se o que o jornal O Século escreveu, em comentário à corrida:399
A estrada da Valada é uma das mais pitorescas do país. Principia na estação do Reguengo, da linha-férrea do Norte, e cortando campos feracíssimos prolonga-se até Santarém sem ter uma subida áspera nem uma curva apertada em demasia. (...) É pois magnífica para ser percorrida em automóveis e, como logo ao princípio possui uma extensa recta que a vista a custo abrange, foi certamente por esse motivo que o Real Automóvel Clube a escolheu para a corrida de ontem.
A realização da prova da Valada constituiu, assim, um marco no panorama do automobilismo nacional e a sua organização, apesar das limitações decorrentes das suas características de curta duração despertou uma onda de entusiasmo sem precedentes, sentimento que se fez sentir na generalidade da imprensa da época. O número de inscritos constituiu um verdadeiro recorde atingindo o valor final de 30 veículos, entre automóveis e motocicletas, registando-se a participação especial, não sujeita a inscrição, do piloto profissional francês Raoul Buisson. O vencedor da competição seria José de Aguiar – último
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inscrito na lista oficial – conduzindo o potente FIAT de Charles Henry Bleck, que percorreu os 1000 metros da estrada da Valada no tempo de 43,3 s, à média de 82.568 km/h, valor que foi homologado oficialmente pelo Automóvel Clube.400
Depois do fracasso de implementar entre nós os regulamentos técnicos inspirados pelo ACF, o RACP anunciou que a sua estratégia para o automobilismo desportivo concentrar-se-ia em organizar um maior número de provas, mais curtas e mais fáceis a nível logístico.401 Essa ideia básica da entidade responsável pelo automobilismo em Portugal focava-se, assim, na intenção de organizar apenas provas de Quilómetro, nas suas mais diferentes vertentes: de Arranque, Lançado ou em Rampa. Era uma decisão óbvia que assentava nas constantes dificuldades que as organizações enfrentavam quando pretendiam fazer competições de maior distância: a qualidade das estradas, os licenciamentos junto das autoridades locais, a coordenação dos serviços de polícia, a logística e até os próprios regulamentos. A experiência traumática do Lisboa-Coimbra-Lisboa influenciou enormemente, pela negativa, o desenvolvimento do automobilismo desportivo nacional pois o Real Automóvel Club viu-se confrontado com a situação de se transformar num clube Automóvel sem automobilistas. Na realidade, a onda de contestação dos automobilistas ao elaborado regulamento daquela prova constituiu um choque inesperado e o RACP teve de recuar nas suas intenções. Esse facto, juntamente com a agitação social que se viveu antes e depois do regicídio, acabou por justificar o hiato de quatro anos em provas automobilísticas de estrada, entre a Lisboa-Coimbra-Lisboa, em Maio de 1906 e a Pimenteira, em Julho de 1910. Infelizmente, a ideia das provas curtas também não se concretizou, pelo menos com a frequência com que o RACP pretendia, apesar das potenciais condições de organização de rampas no nosso país. Experiências bem conhecidas da Europa acabaram por não ter reflexo em Portugal e assim a primeira rampa só seria organizada em 1910, na Estrada da Cruz das Oliveiras.402
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O Real Automóvel Club abriu as inscrições a concorrentes em automóveis e em motos, havendo a registar a presença de veículos que, na época, ostentavam já níveis de potência relativamente altos.403 Apesar do reduzido número de provas efectuado no princípio do século passado, havia já um lote de automobilistas desportivos capaz de polarizar as atenções da
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imprensa desportiva da época, encontrando-se nesse conjunto homens como José de Aguiar, elemento da Sociedade Portuguesa de Automóveis e vencedor do Quilómetro Lançado da Valada do Ribatejo; Estêvão de Oliveira Fernandes, segundo classificado nessa mesma prova; Angel Beauvalet, filho de Albert Beauvalet, para além de João Dotti Júnior, Jorge Burnay, Luís Laurencel e George Bleck. Estêvão Fernandes, vingar-se-ia do 2º lugar da Valada, vencendo esta primeira edição da Pimenteira.404
A circunstância de se disputar nos arredores de Lisboa, mesmo que ainda consideravelmente longe do centro, fez levar às encostas de Monsanto uns largos milhares de pessoas que puderam assistir à performance dos automóveis e das motos que confirmaram a sua inscrição. A revista Tiro e Sport, acompanhou a prova:405
A concorrência foi enormíssima tanto ao longo do percurso como nos pontos altos das imediações. Junto às tribunas também a assistência foi numerosa fazendo ali a elite e o «rendez-vous» da semana. O serviço de polícia foi bem desempenhado, não tendo havido, quer por incúria, quer por imprudência, o mais leve desastre. Quanto à corrida cada um empregou o maior esforço que podia dispor. (...) Muito entusiasmo, música, etc. Os socorros médicos estavam devidamente organizados. (…)”
A rampa da Pimenteira encerrava assim um capítulo na história do automobilismo desportivo. E as corridas de automóveis ficariam arredadas da capital durante mais alguns anos.406