O espírito das primeiras corridas de automóveis era o de unir duas localidades, fixando, para os devidos efeitos, um tempo de referência – e, consequentemente, um marco a nível da velocidade média – nessa mesma distância. Após as corridas, muitos outros automobilistas utilizavam os tempos oficialmente obtidos pelos concorrentes para estabelecerem novas marcas e novos recordes. O primeiro valor de referência, embora não homologado, efectuado ao volante de um automóvel teria lugar em Junho de 1903 e estaria ligada à Darracq de Tavares de Mello. Com efeito, logo a seguir à viagem do Conde da Penha Longa, que participou na prova Paris-Madrid reservada a turistas, um grupo de automobilistas portugueses, liderados por Francisco Sousa Martinho, deslocou-se até Paris para levantar na própria fábrica um automóvel Darracq de 24 cv que tinham comprado à Empresa Automobilista Portuguesa. Acompanhavam Francisco Martinho o seu irmão Joaquim, Silvério Fragoso e Paula do Nascimento. Se a imprensa de Lisboa só dá conta da viagem depois de ela ter começado, no dia 18, os periódicos da cidade invicta dão a notícia com antecipação, certamente porque Tavares de Mello mantinha um fluxo constante de comunicação para a imprensa daquela cidade, informando sobre as actividades das marcas que representava.
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Com base nessas informações, o Jornal de Notícias, em Maio, sob a designação de “Automobilismo” publicou uma série de pequenas notícias, todas elas relativas à Darracq, e todas elas, seguramente, redigidas por Tavares de Mello onde se noticiavam vários factos: a aquisição de um camião daquela marca para a empresa de têxteis Matos & Cunha, de Manteigas; a compra do rei Eduardo VII, depois da sua passagem por Paris, de um Darracq de 40 cv e o anúncio da intenção da Empresa Automobilista Portuguesa fazer deslocar um Darracq monocilíndrico de 8 cv a Lisboa para subir e descer a Calçada da Glória. Uma última informação divulgava a compra de um automóvel Darracq por parte de Francisco Martinho, em que este se propunha ir a Paris recolhê-lo, “transportando-o por estrada até Lisboa, fazendo
assim um percurso de 1.800 km.”420 Antecipadamente, Martinho, que teve um papel muito activo no desenvolvimento do automobilismo português,421 deverá ter pensado em dedicar a viagem ao Real Automóvel Clube, uma vez que algumas pessoas dos corpos sociais estiveram presentes à sua chegada.422 A viagem foi logo publicitada pela empresa Leão, Moreira & Tavares. Sob o título “Paris-Lisboa – Automóvel Darracq 24 cavalos em 7 dias com 4 pessoas sem o mais pequeno desarranjo”, a inserção publicitária evocava as dificuldades transpostas pelo grupo.423
Se no ano seguinte não há notícia de movimentações importante neste âmbito, o ano de 1905 é fértil na obtenção e, nalguns casos, homologação de recordes de ligação entre cidades portuguesas, ou mesmo estrangeiras. O excursionismo entra na moda, com cronometragem ou sem ela, e os excursionistas fazem questão de enviar telegramas para os meios dando conta dos detalhes das viagens. Caetano da Silva Pestana, no seu Renault, resolve no final do verão de 1905 efectuar algumas excursões mas cronometradas com rigor, fazendo com que a preocupação pelos tempos obtidos prevalecesse sobre as ocupações lúdicas do simples turismo. A sua primeira ideia foi confrontar o resultado por si obtido com o tempo estabelecido pelo vencedor da corrida da Figueira, cinco anos antes – fixado em 7h 29' 25". O Tiro e Sport fez eco desse acontecimento, embora cometendo um erro aritmético ao indicar que se “(…) venceu o percurso de 266 km em 7 horas (…)”424 quando, na realidade, o tempo obtido tinha sido de 7h 40m, calculado em função dos tempos parciais indicados pela própria revista. A excursão de Caetano Pestana continuou depois e os tempos obtidos foram enviados por telegrama após as chegadas aos destinos finais. O automobilista fez, assim, os trajectos Guarda-Covilhã em 4h 55m, Covilhã-Oliveira do Hospital em 5h 40m e, finalmente, Oliveira do Hospital-Figueira da Foz em 5h 31m.425
No mesmo mês de Setembro, a conjunção de vontades diversas possibilitou uma vez mais à Sociedade Portuguesa de Automóveis a possibilidade de organização de um evento com notoriedade para a sua estratégia de comunicação com o público. Um conhecido médico de Lisboa pretendia assistir a um congresso médico na Bélgica, utilizando para o efeito o seu automóvel, uma voiturette da De Dion Bouton tendo a empresa disponibilizado um motorista, Francisco Martinho, que levaria depois o carro à fábrica para uma revisão, propondo-se no regresso estabelecer o recorde Paris-Lisboa, por ele próprio já fixado em 1903, de forma oficiosa, num automóvel Darracq.426 Com a melhoria das estradas e o progresso das mecânicas dos automóveis, o resultado de 1903 seria facilmente ultrapassado, obtendo Martinho o tempo final de 62 horas e 15 minutos:427
O recente recorde Paris-Lisboa foi estabelecido pelo hábil chauffeur Francisco Martinho, em uma voiturette Populaire De Dion Bouton. Partindo de Paris no dia 12 e chegando a Lisboa no dia 19, tirou uma média de 34 km/h o que, num percurso tão longo, é já uma performance digna de registo, se quisermos lançar em conta o difícil trajecto em estradas portuguesas.
O Dr.Tavares de Mello inicia nesse ano a sua saga de recordes em estrada aberta.428 Em 12 de Agosto estabelece uma nova marca ligando Valença do Minho a Lisboa em 14 horas e 40 minutros.429 Este recorde teve a rodeá-lo uma polémica intensa pois quando instado a
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cronometrar esta prova, o Real Automóvel Clube de Portugal recusou-se, argumentando tratar- se de uma “prova industrial”, não querendo por isso a associação automóvel colar-se ou sancionar qualquer evento com carácter promocional organizado por qualquer importador, o que foi vivamente contestado por alguma imprensa:430
Da fiscalização da prova encarregou-se a União Velocipédica Portuguesa à qual não regateamos o nosso elogio, sentindo apenas a invasão de atribuições que ela decerto não provocou mas que nos leva a duvidar da existência de uma sociedade automobilista em Portugal. Era efectivamente ao Real Automóvel Clube de Portugal que pertencia a fiscalização deste recorde, facto que não se deu, não porque o Dr. Tavares de Mello lha não oferecesse em primeira mão, como nos afirmaram, mas porque a sociedade não a aceitou, motivando – segundo consta – esta resolução, o ser o Dr. Tavares um industrial, como representante em Portugal da marca Darracq! Custa-nos francamente a acreditar na razão alegada, a não ser que acreditemos antes na completa desorientação dessa sociedade, da qual tanto havia a esperar. Então o RACP recusa-se a auxiliar, regulamentar e julgar provas industriais, as únicas que poderão concorrer para o desenvolvimento e consequentemente para o aperfeiçoamento e barateamento da indústria, o que imediatamente se reflectirá num enorme benefício para o
sport automobilista? Nesses casos quem há-de julgar em Portugal essas provas, a União Velocipédica ou o Real Ginásio?”
Em 2 de Agosto de 1906, Tavares de Mello dando seguimento à sua estratégia publicitária empreende uma viagem entre Coimbra e Pedras Salgadas, para a qual voltou a pedir cronometragem oficial que, desta feita, lhe foi concedida.431 Como habitualmente, o empresário divulgava as suas actividades não só junto da imprensa das grandes cidades, como também na regional:432
O Sr. Dr. Tavares de Mello ofereceu ao Elite Sport Clube do Porto a etapa Coimbra – Pedras Salgadas sobre um automóvel Darracq. Essa etapa efectuou-se na 5ª feira, 2 de Agosto, saindo de Coimbra às 4 horas da madrugada, com um itinerário de 300 km aproximadamente, chegando à Régua às 8,20 da manhã e às Pedras Salgadas às 10,40, gastando no percurso 6 horas e 40 minutos, somente. O itinerário seguido foi Coimbra, Buçaco, Mortágua, Santa Comba, Tondela, Viseu, S.Pedro do Sul, Castro Daire, Lamego, Régua, Vila Real e Pedras Salgadas.
A última aventura do empresário beirão, neste âmbito, teve lugar um ano depois, com a ligação inédita de Paris a Coimbra. Tavares de Mello tinha já negociado com a Darracq a construção de uma série especial do modelo 25 cv, com especificações próprias para o mercado nacional, o qual receberia a marca Tavares. A eventual necessidade de uma ida à fábrica de Suresnes para acompanhar os últimos passos da montagem desse veículo e levantá-lo para o trazer para Portugal inspirou-lhe a ideia de efectuar uma nova viagem de demonstração, para a qual solicitou ao RACP a certificação da sua marcha, de forma a vincular o tempo obtido a um recorde. A notícia do recorde espalhou-se em geral pela imprensa nacional:433
O Sr. Dr. Tavares de Mello, que já era um notável chauffeur, porque o tem demonstrado nas suas provas de turismo e nas de velocidade como o recorde batido o ano passado no Velódromo de Lisboa e o recorde Vigo a Lisboa, acaba de chegar a Coimbra depois de ter percorrido 1081 quilómetros, a o partir de Paris, sempre numa marcha de turismo durante 3 dias e 4 horas. E assim, além-fronteiras, o Sr. Dr. Tavares de Mello afamou a automobilidade portuguesa apesar de ter encontrado, de quando em vez, a lama dos caminhos porque os aguaceiros lhe prejudicaram a sua excelente prova de turismo que outros mais ousados não têm ainda tentado por desconhecerem a utilidade de um automóvel.
A notícia tem algumas incorrecções – o recorde aí relembrado como de Vigo a Lisboa foi efectivamente o de Valença a Lisboa e a distância está errada pois foram 1.801 km e não 1.081 – mas o feito de Tavares de Mello teve eco no público que dedicava maior atenção aos acontecimentos automobilísticos da época. Mais tarde, aproveitando a onda do recorde Paris- Coimbra, surge em meios muito específicos uma campanha de publicidade anunciando os automóveis Tavares, aureolados com o feito de terem percorrido aquela distância em três dias
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e 4 horas, complementando com a seguinte frase: “Entrega rápida de chassis de 25 cavalos”.434