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Ainda no princípio do século começou a ser frequente revelar-se na imprensa os passeios efectuados pelos intrépidos automobilistas de então. Um vibrante entusiasmo esteve patente nessa forma de comunicação à imprensa das distâncias e, nalguns casos, dos tempos efectuados, e consequentemente das médias horárias obtidas em determinadas viagens. Em Abril de 1903, os irmãos José e António Mendia, telegrafaram para os principais diários de Lisboa dando conta que haviam coberto a distância de Lisboa a Coimbra em apenas 4 horas e 35 minutos, “(…) pois que tendo saído de Lisboa às 8h 25 da manhã, haviam chegado a Coimbra à 1h da tarde. (…)407 Na verdade, o entusiasmo dos automobilistas levou-os a empolar o seu feito. Tavares de Mello, ao tempo representante da Darracq, cuja empresa, como vimos anteriormente, estava sedeada em Coimbra, contestou imediatamente esse resultado, chegando a oferecer um prémio de um conto de réis se os intrépidos motoristas repetissem a façanha, mas os irmãos Mendia repuseram a verdade esclarecendo que havia um engano nas contas e que afinal tinham levado quase 11 horas! A confusão tinha sido gerada provavelmente nas redacções dos jornais que em vez de escreverem 7h da tarde escreveram 1h, causando alguns embaraços aos orgulhosos clientes dos Peugeot 10 cv.

A ultrapassagem de obstáculos naturais, em particular as rampas das diferentes cidades, foi também motivo de acções especiais de comunicação quer por parte dos importadores quer através de simples amadores do automóvel. Cada cidade definiu o seu “lugar mágico” para servir de “altar” aos “deuses da mecânica”. No Porto era a Corticeira, em Viseu era a Calçada do Viriato e em Lisboa, começou por ser a Rua Barata Salgueiro.408 Por exemplo, nos princípios de 1903, a revista O Tiro Civil, no seguimento das excelentes relações criadas entre alguns dos membros da Comissão Organizadora da prova da Figueira e a FIAT, publicou uma notícia, designada por “Notas Soltas”. Nessa altura, os automóveis eram adaptados como veículos de decoração dos desfiles carnavalescos e Anselmo de Sousa, director da Tiro e Sport, utilizou um FIAT 12 cv, cedido pelo próprio Leopoldo Cachapuz, representante da marca em Lisboa. Junto com o FIAT, Cachapuz, para prevenir eventuais situações delicadas, cedeu também o piloto profissional Bordino, o vencedor da corrida Figueira-Lisboa, e um mecânico, o senhor Piedade:409

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Na segunda-feira de Carnaval, o automóvel do nosso amigo o senhor Sousa de Cachapuz, gentilmente posto à disposição da nossa redacção, nos três dias de Carnaval, subiu a enorme rampa do fim da rua Barata Salgueiro, à Avenida da Liberdade, conduzindo sete pessoas: o nosso director, sr. Anselmo de Sousa com suas três filhas, o nosso redactor gerente, sr. Eduardo Noronha, o sr. Piedade, empregado da garage FIAT e o distinto e hábil chauffeur sr. Bordino, que dirigia o magnífico automóvel. Não podemos saber ao certo a cota do nível desta rampa porque no-la não disseram mesmo onde ela deve ser sabida, mas podemos assegurar que não é inferior a 18 ou a 20%. Ao chegar ao cimo da enorme rampa, todos os passageiros do belo automóvel soltaram entusiasticamente um «Bravo FIAT, Bravo Bordino» acompanhado de muitas palmas!

Contudo, os espíritos mais radicais passaram a exigir a subida da Calçada da Glória como a prova maior da superioridade das carruagens sem cavalos nesse princípio de século. E muitos foram os que levados por essa efémera glória se deixaram seduzir pelo declive daquela agreste encosta tão conhecida em Lisboa. Os primeiros que resolveram correr o risco de cumprir semelhante façanha foram os responsáveis pela Locomobile em Portugal, a empresa F. Street & Cª. A Locomobile era uma importante marca americana, que chegou a liderar o mercado no outro lado do Atlântico, e que apostava exclusivamente no vapor, produzindo uns buggies de pequena dimensão e muito fáceis de conduzir. Uma das características do “vapor” era o elevado binário que permitia a estes automóveis prescindirem, por exemplo, de uma caixa de velocidades, e a força que manifestavam permitia-lhes encarar com tranquilidade o objectivo a que se propuseram. Os Locomobile subiram a dita Calçada e durante uns largos meses esse foi o principal destaque da sua publicidade no nosso país: para além de recordarem que os seus automóveis “não tinham trepidação, nem mau cheiro nem faziam barulho”, os Locomobile eram apresentados como os “(…) únicos automóveis que sobem e descem a Calçada da Glória (Elevador) (…)”.410

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A exclusividade da Locomobile despertou nos outros importadores um sentimento de resposta e em 1904, Tavares de Melo, resolveu efectuar uma experiência para a qual convidou vários órgãos de comunicação social. Centenas de pessoas juntaram-se ao longo da Calçada da Glória: 411

O carro tem um motor de 8 cv e a capacidade para 4 passageiros podendo ainda admitir mais um com sacrifício da comodidade dos que vão no assento anterior. Mas nas experiências andaram sempre com 7 pessoas na subida e 5 na descida. O arranque foi suave e a subida morosa, obedecendo os vários aparelhos com docilidade ao comando do condutor, o próprio Sr. Tavares de Melo que é um automobilista distinto. Durante a carreira facilmente se mudou de direcção, para evitar as irregularidades do pavimento, que são muitas e para desviar dos ascensores, que continuavam o seu movimento ordinário, subindo-se sempre suavemente. Na

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descida, além de iguais evoluções fizeram-se duas paragens, uma delas violenta, as quais bem demonstraram a eficácia dos potentes freios do veículo.

Este feito da Darracq foi igualmente comentado por outros órgãos especializados, como foi o caso da revista Tiro e Sport412 que acrescentou um “detalhe” importante relativo a esta operação: é que Tavares de Melo tinha aplicado ao seu Darracq de 8 cv uma espécia de caixa redutora de sua invenção que permitia não só adaptar melhor a potência do motor à íngreme subida lisboeta como também beneficiar do efeito de «travão-motor» nas descidas. Depois do sucesso das sucessivas subidas e descidas, um dos elementos da comitiva, o Dr. Mário Duarte, terá posto em causa a eficiência da aplicação da dita caixa nas viagens normais, isto é sem declives acentuados, e o representante da Darracq efectuou nova demonstração concludente, desta feita nas ruas de Lisboa.413 Este aparelho foi posteriormente apresentado pelo próprio Tavares de Melo, sob o pseudónimo de Zico Pedal: “Não tenho pretensões de chamar invenção ao meu desmultiplicador mas sim denominá-lo uma feliz adaptação baseado no princípio de mecânica de que o que se perde em velocidade se ganha em força e vice- versa.”414 Para além da intenção óbvia e defensável de promover a comercialização deste seu dispositivo, Melo pretendia também demonstrar que os automóveis de motores mais pequenos também podiam fazer grandes feitos. Em 1957, Tavares de Melo recordaria este acontecimento de forma completamente diferente, descrevendo-o como uma desilusão:415

Nesses tempos que já lá vão houve um homem cá na nossa terra que queria construir um balão-dirigível. Chamavam-lhe o «Ferramenta» e morreu numa das suas experiências. Ora eu, pela mesma data, pensei subir a Calçada da Glória de automóvel. Construí um desmultiplicador especial e com um carro de um só cilindro… e com 8 pessoas lá dentro, dei começo à minha tentativa. Calcule que tive uma assistência de mais de mil pessoas. Pois o carro começou a subir, isso é verdade. Mas muito antes do meio da rampa… em vez de subir, começou a recuar, a recuar e nada feito. Desse episódio nasceu uma frase: afinal o automóvel do Dr. Tavares de Melo é como o balão do Ferramenta.

É difícil explicar esta contradição. Decerto que o episódio recordado por Melo é verdadeiro mas, muito provavelmente terá contecido antes do dia 8 de Maio de 1904, na jornada de sucesso que foi testemunhada não só por diversos órgãos de comunicação social como também pela multidão presente, havendo pois, como muitas vezes acontece em histórias recordadas muitos anos depois, uma amálgama de acontecimentos diferentes.

Um pouco mais de um ano após as façanhas do Darracq, a ainda recente Sociedade Portuguesa de Automóveis entendeu promover a sua marca mais vendida, a De Dion Bouton, e o seu modelo mais acessível, o monocilíndrico Populaire, efectuando uma subida à Calçada da Glória em que “os três carros subiram e desceram a calçada, sem o mínimo esforço em 1ª velocidade num andamento regularíssimo superior, contudo, ao dos elevadores”.416

Há ainda registo de mais duas subidas à famosa calçada, todas elas realizadas como um corolário de demonstração das qualidades dos automóveis em causa. Em Outubro de 1905, Francisco Martinho, da Sociedade Portuguesa de Automóveis, resolveu aproveitar uma viagem técnica a França para, no regresso, como iremos ver mais à frente, fixar o recorde Paris- Lisboa. À chegada ao Campo Grande, “(…) o arrojado recordista, não contente com a aturada prova que acabava de dar, e para mostrar a pouca fadiga dum semelhante tour de force, empreendeu a dificultosa subida da calçada da Glória, vencendo a rampa com a mesma facilidade dum caminho plano.” 417 Em 1906, depois da prova do km da Valada, a equipa que ficou na segunda posição, formada por Estêvão de Oliveira Fernandes e José da Silva Vacondeus, ao volante de um raro Züst, resolveu mostrar as propriedades do seu potente veículo com uma subida à velha calçada. Vacondeus recordou o espisódio, mais tarde:418

Houve farta concorrência de público para admirar o espectáculo e conseguimos superar por quatro vezes a ladeira, aguardando a altura em que os elevadores estivessem um cá em baixo

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e o outro lá em cima. Depois deixámos o nosso Züst a descansar e numa voiturette De Dion Bouton voltámos a subir a calçada…

Um último episódio destas demonstrações de automóveis em declives pronunciados foi dado pelo representante da Ford no Porto, Albino Moura, que com um Model T, subiu a até então considerada instransponível rampa da Corticeira, uma escarpa com uma inclinação de 29%, com uma extensão de 300 metros, que o popular automóvel americano percorreu em cerca de 32 segundos.419