Fonte: Registro Civil/Fundação Seade, 1988/2000. In: Folha de S. Paulo, Segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004. Caderno Especial 3, Mapas – Retrato Social, SP 450 anos.
Como se já não fosse bastante pensar as causas da acentuada migração de nordestinos para as áreas periféricas, um outro dado que acompanha tal situação de vulnerabilidade domiciliar é a violência. A exclusão social e a violência são dois fatores que estão entrelaçados, sendo que um pode ser conseqüência do outro. Foi isso que apontou o mapa sobre a taxa de homicídios nas regiões onde se concentram os mais pobres. As áreas periféricas agrupam o maior índice de violência da capital, como podemos conferir acima. Violência que, segundo o registro Civil da Fundação Seade (2004), manifesta-se de várias maneiras no espaço urbano e com intensidades diversas. Mostram os resultados da pesquisa que o homicídio se concentra entre a população mais jovem, revelando a face mais cruel desse fenômeno, dado que eles são as maiores vítimas das conseqüências da exclusão social. Foi constatado que grande parte das vítimas de homicídio nestas regiões estão na faixa etária entre os 15 e 24 anos e são, em sua grande maioria, habitantes das periferias sul, leste e norte. Um dos fatores apontados nas conclusões da pesquisa do Seade é a falta de oportunidade de estudo, trabalho e lazer que possibilita a fomentação da violência nestas áreas de maior concentração da população, conforme podemos constatar no mapa.
As disparidades conjunturais, incluindo os fatores sociais já apontados, demonstram, assim, que os principais focos de violência estão nas regiões mais pobres. Uma conjuntura em que prevalece a não acessibilidade da maioria da população aos bens e serviços produzidos socialmente, além de uma educação deficitária que impossibilita uma formação intelectual adequada para competir no mercado de trabalho, desqualificando as pessoas e contribuindo para fomentar a violência. O intenso aglomerado de pessoas num mesmo espaço, com pouca ou nenhuma infra-estrutura, além de acirrar as desigualdades, facilita os afrontamentos e o desejo de vingança que se materializa sob a forma de violência, seja como roubo, assalto, agressões e homicídios. Destacam-se com maiores índices de violência os bairros de Jardim Ângela (com 305 vítimas), Cidade Ademar (com um número de 301 vítimas) e a região Brasilândia (com 253 vítimas de homicídio) (cf. Fundação Seade, 1988 e 2000).
É nesta conjuntura ou contexto que se constata o avanço das religiões evangélicas pentecostais e o encolhimento do número de católicos na periferia. Entre estes dois extremos, católicos de um lado e evangélicos pentecostais de outro, temos uma gama de outras denominações e segmentos religiosos que fazem da metrópole de São Paulo um campo de grande diversidade religiosa, conforme indica o mapa seguinte, onde aparecem algumas destas variantes. A resposta para as indagações que foram surgindo no decorrer da exposição deste quadro, que serve tanto para os pobres pentecostais da periferia como para os ricos católicos do centro, encontramos numa abordagem funcionalista da religião. Na periferia, a religião é tida como um elemento que, além de possibilitar a ascensão social, pode conter a violência. Nesse caso, as religiões evangélicas pentecostais saem à frente da Religião Católica porque, além de um proselitismo mais intenso, oferecem facilidades a perder de vista na aquisição de bens simbólicos de salvação, tudo isso de forma muito acessível, diferentemente da Igreja Católica que segue a mesma dinâmica, com as mesmas normas, em toda parte, o que dificulta o seguimento correto daqueles que não têm condições de estar em dia com os sacramentos. Veremos isso com maiores detalhes quando tratarmos dos sete sacramentos. Por conseguinte, a adesão do fiel a uma denominação religiosa, como as neo-pentecostais, é muito mais facilitada. Além disso, elas prometem, por meio da teologia da prosperidade e da conversão do fiel, mudanças radicais em sua vida, como superação da pobreza, da doença e das desilusões amorosas. A crença nestes valores ajuda a desfocar a atenção das agruras da vida, o que contribui para amortecer o sofrimento e colocar, assim, um freio na violência. Desse modo, a religião desempenha uma função importante que é a de integração do excluído
na ordem social e de salvação. Por outro lado, nas regiões mais nobres, de acordo com Max Weber (1963: 107), “atribuem à religião a função fundamental de legitimar seu padrão de vida e sua situação no mundo”. As camadas desprivilegiadas, ao contrário, mostram uma tendência para desenvolver e aceitar a religião como a única alternativa de inclusão social e transcendental, isto é, de salvação e o pentecostalismo cumpre muito bem essa função. Weber afirma que, “como toda necessidade de salvação é uma expressão de certo sofrimento, a opressão social e econômica é uma fonte eficiente de crenças de salvação, embora de forma alguma seja a única fonte” (Weber, 1963: 107). A realidade de sofrimento por que passam os pobres da periferia, expostos a tudo o que foi apontado anteriormente, justifica a busca da salvação imediata prometida pelas religiões neopentecostais que conseguem, por meio de inflamados discursos, aproximar, em questão de minutos, o céu do inferno.
De acordo com Weber, sabemos que a religião, como conseqüência da necessidade econômica, não é a única fonte de salvação, ou melhor, de inclusão, mas reconhecemos sua importância neste processo. Acredita-se que ela tem influência decisiva no comportamento social e este, por sua vez, pode alterar os quadros que vimos anteriormente nos mapas. Vista desta forma, a religião se configura como uma espécie de utopia e é desse modo que Karl Mannheim mostrou como, a partir de perspectivas de estratos oprimidos e de seus desejos de libertação, nas mentes dos homens surgem as utopias (Mannheim, 1962: 190). Portanto, o aumento no número de adeptos, na periferia, às religiões pentecostais, surge como uma utopia de salvação frente à realidade de miséria e opressão. Para melhor elucidar o que estamos tratando, colocamos a seguir um quadro fragmentado das religiões na metrópole, onde é possível visualizar, com precisão, onde estão as principais denominações religiosas da capital e quantos são, em porcentagem de adeptos, seus fiéis. Com isso, pode-se tirar conclusões quanto à função que cada uma, nas suas particularidades e localizações geográficas de maior expressão, cumpre.
Se no início da reflexão sobre a cartografia das religiões em São Paulo inserimos um mapa em que as religiões apareciam compactadas na sua distribuição, com destaque para a Religião Católica, agora vamos inserir este mesmo mapa, só que de forma fragmentada ou dividida entre as quatro principais denominações com maior representatividade no campo religioso da metrópole, que Cândido Procópio Ferreira de Camargo (et al, 1973), em uma clássica obra sobre Sociologia da Religião no Brasil, denominou de Católicos, Protestantes, Espíritas. Destacaremos junto com estas quatro denominações (católicos, evangélicos pentecostais,
evangélicos tradicionais e espíritas), os sem religião, conforme podemos visualizar no mapa abaixo.