Sobre o termo inclusão social, alguns estudiosos apresentam definições distintas, pelo fato de apresentarem vivências e visões de mundo diferentes. Mesmo assim, alguns desses pontos de vista convergem entre si, uma vez que a maioria deles compreende o fenômeno como forma de amenizar ou superar a exclusão social.
A inclusão social pode ser definida como um processo que garante que as pessoas em risco de pobreza e exclusão social “[...] acedam às oportunidades e aos recursos necessários para participarem plenamente nas esferas económica, social e cultural e se beneficiem de um nível de vida e bem-estar considerado normal na sociedade em que vivem” (COM, 2003, p. 9)43.
Essa seria uma primeira aproximação do significado de inclusão social, cujos elementos-chaves são as ideias de processo, adesão e participação. Portanto, esse fenômeno, concebido como algo processual, contribui para que as pessoas se desloquem de uma situação de pobreza e de exclusão para uma de níveis aceitáveis em termos de bem-estar na vida social. Ele se constitui como um “processo que visa promover a inclusão dos segmentos em vulnerabilidade social, destacando a cidade, a escola, o emprego e a proteção social” (KOWARICK, 2003, p. 75). Essa noção também se refere, aqui, à de processo, endossando e reforçando a passagem anterior. Em ambas as definições, a inclusão social aparece como um meio de propiciar situações mais dignas de sobrevivência.
Do ponto de vista mais humano e menos das políticas sociais, o termo inclusão social pode ser compreendido como algo que se refere “[...] à solidariedade social que é um processo diferente da exclusão social, pois reflete companheirismo” (BARRY, 1998, p. 17). As ações coletivas de solidariedade e companheirismo são significativamente importantes para minimizar a exclusão social. Por outro lado, vale ressaltar, “a inclusão social de grupos não é meramente simbólica, já que também contém implicações económicas” (SILVER, 2005, p. 138). Ou seja, embora as investidas de cunho simbólico sejam importantes no processo de inclusão social, não devemos nem podemos desconsiderar as questões de ordem econômica,
uma vez que se trata de uma sociedade capitalista, que influencia, consideravelmente, os resultados favoráveis ou não ao processo de combate à exclusão e à pobreza.
Na direção de cunho também econômico, a noção de inclusão social precisa ser percebida como uma preocupação de gestão para que a exclusão seja efetivamente amenizada. Portanto, esse processo de amenização se caracteriza pela “[...] busca da redução da desigualdade, através de objetivos estabelecidos que contribuam para o aumento da renda e do emprego” (WIXEY et al., 2005, p. 16) e que pode ajudar a elevar a autoestima dos indivíduos submergidos no processo de exclusão. Nessa perspectiva, devemos relacionar o sentido e o significado de inclusão social à procura de “[...] estabilidade social através da cidadania social, ou seja, todos os cidadãos têm os mesmos direitos na sociedade. A cidadania social preocupa-se com a implementação do bem-estar das pessoas como cidadãos” (SHEPPARD, 2006, p. 22).
Contrapondo-se aos aspectos até aqui abordados, podemos afirmar também que inclusão social é um conjunto de políticas sociais contemporâneas “[...] que priorizam, equivocadamente, atingir os excluídos que estão no limite das privações através de programas focalizados que sustentam rótulos de ‘inclusão social’.” (LOPES, 2006, p. 22), notadamente quando se trata de políticas sociais de cunho assistencialista, que mascara a realidade e não resolve o problema da pobreza e da exclusão.
Nesse bloco de definições conceituais sobre inclusão social, praticamente todas as compreensões aqui explicitadas convergem para a ideia de um processo à qual os sujeitos excluídos possam aderir e participar de políticas sociais, visando à busca da estabilidade do bem-estar e, por conseguinte, da melhoria da qualidade de vida no campo econômico, político, social e simbólico. Então, consubstancia-se a possibilidade de uma abertura de gestão capaz de contribuir para amenizar a exclusão e reduzir a desigualdade entre os indivíduos pobres e excluídos da sociedade, desde que não se contamine com as políticas assistenciais que encobre os problemas sociais e acaba não resolvendo os problemas causados pela exclusão social.
Borges (2012, p. 1), em concordância com as passagens anteriores, sinaliza para a noção de inclusão social como uma questão de atitude política, principalmente em relação às “[...] desigualdades e injustiças sociais, voltada para a instituição de espaços de comunicação, realização e participação na sociedade de pessoas, grupos e comunidades que, em função de circunstâncias históricas [...]”, são coibidas a buscar seus direitos inviabilizados e de se realizar como cidadãos.
Quando discutimos sobre a temática da inclusão social, não devemos nos esquecer de que o estabelecimento dessas políticas passa a existir (ou não) porque há pessoas que não estão tendo oportunidades mínimas de exercer sua cidadania plena, submetidas a um processo de brutal exclusão. Além disso, não há como conceber uma noção de inclusão social sem que se conheçam previamente o significado de exclusão social e o vínculo íntimo que existe entre essas. Logo, poderíamos perguntar: como pensar a inclusão como possibilidade de um resgate social? Parece que, para se alcançá-la de maneira mais efetiva, seria interessante remetê-la ao alcance de um padrão mínimo para garantir o acesso ao universo das quatro utopias básicas:
autonomia de renda, desenvolvimento humano, qualidade de vida e equidade (SPOSATI,
1996). Resumidamente falando, essas utopias básicas seriam os pontos indispensáveis para a emancipação completa do ser humano, para que tenha uma vida social digna, consubstanciada no atendimento às suas necessidades imediatas e mediatas.
Pensar a política de inclusão social, à luz dessas utopias, seria, também, interpretá-la a partir do viés social, político e econômico em que se insere. A nosso ver, as propostas de Estado e de governo têm se consolidado mais naquilo que chamamos de modelo neoliberal. Nesses termos, “[...] as políticas atuais, no Brasil e em outros países, que seguem o que está sendo chamado de modelo neoliberal, implicam a proposital inclusão precária e instável, marginal” (AZEVEDO; BARROS, 2004 p. 79).
Diante do exposto, podemos afirmar que a relação dialética entre inclusão e exclusão social precisa ser percebida justamente na ótica de sua multidimensionalidade, multifacetude e amplitude de seu real significado, levando-se em conta o contexto social (espacial e temporal), político, econômico, cultural e histórico em que pretendemos tratar o fenômeno investigado. Em nosso país, não podemos negar, há uma política de inclusão social também subordinada aos interesses do capital, ao mesmo tempo em que atende ao funcionamento da ordem social e política vigente, em favor da dominação entre classes sociais e setores mais e menos favorecidos da sociedade. Isso permite que determinadas políticas de inclusão social estejam, de certa maneira, atreladas aos interesses desses modelos hegemônicos.
Nenhuma política de inclusão deverá ficar isenta de uma análise como essa, principalmente as voltadas para o esporte ou através dele, o qual tem sido, nos últimos anos, o carro-chefe das políticas de inclusão em território nacional, considerado como capaz de dominar os impulsos violentos e produzir uma nova sociabilidade, gerando novas práticas que possibilitem afastar os jovens das drogas e do crime, numa abordagem meramente
O esporte, entendido ou não como panaceia para a solução de todos os males do meio social, é qualquer atividade esportiva, considerando as potencialidades e as limitações físicas, motoras, sensoriais e mentais dos seus praticantes, propiciando-lhes sua efetiva participação nas mais variadas atividades esportivas, lúdicas e recreativas, para o desenvolvimento de todos (AZEVEDO E BARROS, 2004).
O importante do esporte, como meio de inclusão social, mais do que uma preocupação com os aspectos físicos de seus sujeitos, seria o de conhecermos, cuidadosamente, a dinâmica das relações entre eles, deles com as atividades e o significado dessas atividades em suas vidas. Verifica-se, portanto, que o entendimento dessas questões é importante tanto para a consolidação de programas de inclusão social, através do esporte, quanto como espaço que privilegia o exercício pleno da cidadania e que promove a superação da pobreza e da exclusão social.
Melo (2005, p. 80) enuncia que, “inegavelmente, os esportes e as artes possibilitam novas formas de relação com o mundo, podendo tais manifestações construir um projeto de melhoria das condições gerais de vida”, embora saibamos que, nesses espaços, muitas vezes, o caráter salvador de recuperação de uma cidadania perdida e o aproveitamento político como forma de consumo estejam servindo a interesses escusos. Nesse caso, devemos ter clareza quando nos referimos, por exemplo, ao esporte como meio de inclusão social.
Essa interpretação não pode ser perdida de vista justamente porque “muitos programas de esporte para camadas sociais empobrecidas tentam cobrir lacunas e fracassos da escola, da sociedade, do sistema de distribuição de alimentos [...]” (MALHEIROS, 2001, p. 1) etc., que se caracterizam como ações paternalistas e assistencialistas que refletem uma concepção de esporte que não passa pelo reconhecimento desses programas como direitos e necessidades sociais (MALHEIROS, 2001).
Ressaltamos que, com essa discussão, não estamos querendo negar a importância desse fenômeno social como política de inclusão social, uma vez que, “[...] num contexto de poucas opções de esporte e lazer, pouco importa quem promove a possibilidade para a prática esportiva, se é o Estado, uma Organização Não-governamental (ONG) [...]” (MELO, 2005, p. 81), entidades filantrópicas, entre outras instituições do gênero. O desafio mesmo é o de compreendermos os aspectos políticos disso e sua capacidade de dar conta das metas que se propõem a atender (MELO, 2005).
Para compreender o esporte como um espaço de empoderamento e de inclusão social de afro-brasileiros, precisamos buscar, primeiro, a realidade histórica das relações étnico- raciais estabelecidas no Brasil. E isso deve ser feito procurando compreender como os
africanos foram trazidos para cá a fim de ser escravizados, e mesmo com o pós-abolição, permanecem, ainda hoje, vivendo um brutal processo de abandono e exclusão social. Em função disso, têm buscado o futebol como uma das poucas chances de conquistar uma vida digna e cidadã. Essa revisitação é importante porque nos faz entender que as constantes lutas do passado e do presente concretizadas por esses sujeitos denunciam e nos fazem entender seu atual processo de pobreza e de exclusão.
Nesse caso, passamos a entender, também, o futebol como tempo e espaço paradoxal, pois, se, de um lado, exclui os afro-brasileiros, de outro, possibilita-lhes processos de ascensão social e, às vezes, até mesmo econômica, para esse segmento da sociedade, que, em alguns casos, até superam a pobreza e a exclusão social de que são vítimas.
A inclusão social, por meio do futebol e, por via dessa, a econômica, é decorrente da construção e da preparação de caminhos que conduzem afro-brasileiros das periferias brasileiras a buscarem, nessa prática esportiva, formas de resistir a todo esse processo de discriminação, preconceito e racismo que têm vivenciado no Brasil desde os tempos da escravidão.
Consciente ou inconscientemente, individual e/ou coletivamente, esse contingente da sociedade parece estar se empoderando no espaço/tempo do futebol – principalmente como atletas – para alcançar mais inserção social, algo, pelo menos até hoje, a nosso ver, quase que impossível de se conseguir em outros esportes e espaços sociais, histórica e ideologicamente negados pela cultura eurocêntrica e dominante do branqueamento em nosso país.
Acreditamos, portanto, que o PACF é uma dessas resistentes ações sem fins lucrativos que, através da oferta da prática do futebol, vem contribuindo para o empoderamento de afro- brasileiros jovens, pobres e excluídos da periferia de Campina Grande-PB. À medida que esse programa os forma e os revela para o mundo do futebol profissional, sinaliza para a possibilidade e o sonho de alcançarem dias melhores para si e seus familiares.
As concepções teóricas da história vista de baixo, de Thompson (2010), Jim Sharpe (1992) e Hobsbawm (1998), articuladas aos conceitos de empoderamento e de inclusão social, ajudaram-nos a realizar uma investigação sobre o empoderamento de afro-brasileiros participantes do PACF, no futebol, da cidade de Campina Grande-PB, como espaço de inclusão social.
A articulação entre esses conceitos foi possível por entendermos que os afro- brasileiros que investigamos compõem um grupo de sujeitos não apenas pobres e excluídos da sociedade, mas que também são pessoas comuns e desconhecidas que, através do futebol, procuram realizar o sonho de ser atletas profissionais para sair da situação de desvantagem –
social, política, econômica, étnico-racial – que enfrentam. Nesse sentido, julgamos importante não apenas ouvir a voz desses sujeitos comuns, pobres e excluídos, mas também de contribuir para que se sintam no direito de contar a própria história.
No capítulo seguinte, tecemos considerações minuciosas sobre o PACF. Para tanto, procuramos perceber, a partir de um diagnóstico mais detalhado do campo de investigação, qual é a política de formação de atleta, verificar seus documentos, as características dos sujeitos (coordenador, colaboradores e atletas) e dos espaços, a rotina e as atividades desenvolvidas para a formação do atleta/cidadão.
4 O PROJETO ATLETA CIDADÃO DO FUTURO (PACF)
Este capítulo tem como objetivo caracterizar o campo de pesquisa, através de uma descrição detalhada do perfil dos sujeitos investigados, do espaço e das atividades desenvolvidas no Projeto Atleta Cidadão do Futuro (PACF), compreendido como possibilidade de empoderamento e que contribui para a inclusão social de afro-brasileiros oriundos das classes menos favorecidas da cidade de Campina Grande-PB.
No decorrer da descrição e da caracterização do referido projeto, fizemos, simultaneamente, e na medida do possível, sua análise à luz do referencial teórico-conceitual da pesquisa, visando verificar como, em seu texto e contexto, estão presentes aspectos e elementos constitutivos do fenômeno do empoderamento e, por conseguinte, da inclusão social.