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Durante a fase diagnóstica, realizamos conversas e entrevistas preliminares com o professor/coordenador responsável pelo PACF tanto fora quanto no próprio local de realização dos trabalhos de formação dos atletas.

Nesses primeiros contatos, coletamos uma série de informações através de conversas relativas ao futebol e ao trabalho ali desenvolvido. Durante as visitas preliminares, fomos autorizados a filmar e a fotografar o espaço e as pessoas e conseguimos uma cópia do projeto atualizada, fotos e uma série de documentos direta e indiretamente relacionados aos trabalhos desenvolvidos nesse espaço/tempo de formação e revelação de atletas para o futebol.

Antes, porém, de fazer uma incursão mais detida no lócus da pesquisa, elaboramos um questionário com uma série de perguntas e entregamos ao coordenador do PACF. Esse instrumento teve como objetivo diagnosticar o projeto a partir desse sujeito e suas percepções sobre o trabalho desenvolvido e sua percepção em torno das discussões étnico-raciais, sobretudo no que diz respeito à questão do racismo no futebol.

Depois de realizar as primeiras leituras do documento do PACF, verificamos que ele não faz nenhuma referência ao racismo no futebol. Mas, em conversa com o professor/coordenador do projeto, ele dissera nunca ter presenciado cenas de discriminação, preconceito e racismo entre os atletas e entre eles e treinadores naquele ambiente. Entretanto, acha que, no Brasil, os afro-brasileiros são vítimas de racismo, porém, em raríssimos casos,

principalmente em forma de brincadeiras irônicas. Afirmou-nos também que as formas mais comuns ocorrem entre torcedores de clubes adversários, quando atiram em determinados atletas negros bananas, gritando a palavra macaco e fazendo gestos que remetem aos movimentos desse animal.

Sobre essa questão, vale ressaltar que atitudes racistas são direcionadas a jogadores de outros países, notadamente aos atletas brasileiros e africanos, como pudemos perceber nos noticiários da imprensa mundial como um todo44. Aliás, em relação aos jogadores brasileiros nem precisam ter a pele tão escura para ser xingados, por exemplo, de macaco. Isso mostra o quanto a cultura eurocêntrica do branqueamento, arquitetada em fins do Século XIX e início do XX45, ainda está fortemente presente nas mentes e nos corações daqueles povos, reproduzindo-se constantemente em diferentes espaços e tempos da vida social, inclusive no meio esportivo.

Essas cenas se repetem também no contexto do futebol sul-americano e no brasileiro. Fatos como esses foram presenciados em disputas da Taça Libertadores da América46 entre times brasileiros e argentinos47. No Brasil, a realidade não é muito distante, como afirmam Huber et. al. (2006, p. 2):

Nos últimos anos, alguns casos ficaram marcados e, diferentemente da Europa, onde os insultos vieram dos torcedores, aqui os casos aconteceram dentro dos gramados. Em março de 2006, após dar uma cotovelada no volante Jeovânio, do Grêmio, o zagueiro Antônio Carlos, do Juventude, foi

44 Alguns exemplos de racismo no futebol que podemos citar: “No dia 25 de fevereiro de 2006, os jornais

noticiaram, com indignação, a atitude de torcedores do Zaragoza que, durante o jogo com o FC Barcelona, pelo Campeonato Espanhol, fizeram xingamentos racistas contra o jogador camaronês Samuel Eto’o, na época do FC Barcelona”; Outro caso de indignação refere-se ao técnico da seleção ucraniana, que usou comentários racistas para culpar estrangeiros pela falta de desenvolvimento do campeonato. “As crianças deveriam aprender com Shevchenko e não com um Zumba Zumba, que tiraram da árvore, deram duas bananas e agora joga pelo Campeonato Ucraniano – diz Blokhin”, segundo o jornal escocês Daily Record; O primeiro jogador negro a ser convocado para a seleção alemã, o meia Gerald Asamoah, de origem ganesa, está sendo vítima de uma campanha de difamação por parte de um grupo de extrema direita na Alemanha, autodenominado Schutz-bund Deutschland, que significa ‘Aliança para a proteção da Alemanha’. A organização tem espalhado cartazes por Berlim nos quais Asamoah é atacado e humilhado por ser negro. As ofensas também têm sido feitas pela internet. “Não Chita, você não é Alemanha. Você é um macaco”, afirma um dos cartazes espalhados pela capital alemã, que traz ainda a imagem de um chimpanzé” (LOPES; VIEIRA, 2006).

45 Ver documentário “Homo Sapiens 1900”.

46 Hoje, essa competição tem o nome de Copa Santander Libertadores e é realizada entre as melhores equipes da

América do Sul que foram classificadas em seus campeonatos nacionais.

47“O atacante gremista Maxi López foi acusado pelo volante Elicarlos, do Cruzeiro, de ter feito declarações

racistas na partida entre os dois pela semifinal da Copa Libertadores”. “O jogador argentino, que teria chamado o cruzeirense de ‘macaco’, por pouco não saiu preso do Mineirão. O caso lembra o episódio envolvendo o atacante brasileiro Grafite, então no São Paulo, e o zagueiro argentino Leandro Desábato, então no Quilmes, em partida válida pela primeira fase da Copa Libertadores de 2005” (Disponível em: <http://esportes.terra.com.br/futebol/libertadores/2009/interna/0,,OI3842801-EI12949,00.html>. Acesso em: 22 abr. 2013).

expulso e deixou o gramado esfregando o dedo na pele do braço e gritando “macaco”, em referência à cor da pele do adversário.

A discriminação e o racismo contra afro-brasileiros no futebol (e talvez em outros esportes) não ocorrem apenas por meio de piadinhas, xingamentos e brincadeiras entre jogadores dentro de campo, ou por parte de torcedores e dirigentes direcionados aos atletas etc. Materializam-se, também, no campo das posições que ocupam os sujeitos no mundo dessa modalidade esportiva. Ou seja, afro-brasileiros são sempre os atletas, enquanto que os cargos de treinadores, dirigentes, presidentes de clube, etc., são ocupados, quase sempre, por brancos.

Em outras palavras, os afro-brasileiros e os brancos (ou sujeitos com a pele mais clara) são jogadores, mas o último deles parece ter mais chances de assumir uma posição de destaque após sua aposentadoria como atleta. Isso não acontece, necessariamente e apenas, pela competência que possam demonstrar, mas, principalmente, pelas representações que são atribuídas à cor da pele que carregam. Assim, consciente ou inconscientemente, a cor da pele passa a ser um critério determinante para tal escolha/seleção, no que se refere a assumir ou não um cargo de liderança no esporte, e pode ocorrer por causa do preconceito velado de que o afro-brasileiro não tem capacidade de assumir cargos ou funções que sejam necessárias à utilização das faculdades intelectuais, uma vez que, no imaginário individual e coletivo dos sujeitos sociais, a cor da pele serve de referência para se pensar quem tem mais e menos condições de chegar a galgar outros degraus e patamares mais elevados no esporte, em geral, e no futebol, em particular (CARVALHO, 2005).

Entendemos que esses são resquícios de construções racistas iniciadas ainda no período da escravidão, quando ao negro foi imposto o trabalho pesado e totalmente distanciado da possibilidade da realização de serviços que exigissem mais do intelecto e menos da força física. E como se não bastasse, o afro-brasileiro foi, no pós-abolição, severamente excluído dos bancos escolares e impedido de desenvolver suas capacidades intelectivas com vistas a ocupar postos e cargos mais importantes na sociedade (DOMINGUES, 2009). Por essa razão, o coordenador do PACF, com seus muitos anos de experiências no futebol, diz que, comumente, o racismo acontece em forma de brincadeiras irônicas e pejorativas iniciadas pelo sentimento de superioridade do jogador branco.

Vários jogadores, em entrevistas, confirmam abertamente que provocações das mais diversas são corriqueiras entre eles nas disputas esportivas. Inclusive, as considera normal por entenderem que determinadas atitudes fazem parte do clima do jogo, até mesmo os

xingamentos depreciativos relacionados à cor da pele, ao insultarem jogadores afro-brasileiros de macaco.

Nossa vivência no futebol e as posteriores leituras sobre o tema fizeram com que enxergássemos que esses xingamentos e insultos de cunho racista existem mais nos esportes em que afro-brasileiros estão numericamente bem representados. Ora, se o futebol, no Brasil, e, quiçá, em certas partes do mundo, é o esporte que apresenta um contingente maior desses sujeitos, eles, concomitante e paradoxalmente, convivem com as ofensas racistas e com a possibilidade de atingir a glória e de ser reconhecidos por seus feitos, manifestações típicas da contraditória sociedade capitalista. Ou seja, o racismo, histórica e ideologicamente construído como forma de dominar uma etnia sobre as demais, aparece no esporte, como algo que faz parte de determinado momento da disputa entre duas equipes de futebol, reduzindo e banalizando a gravidade do problema, como ofensas corriqueiras e típicas do jogo, desatrelando-as como questões advindas do mundo social racista. Isso nos faz entender que a

naturalização do racismo é fruto de uma sociedade excessivamente entranhada desse

fenômeno, mas da forma como foi ideologicamente arquitetada nos leva a crer que isso é realmente coisa comum em qualquer lugar, inclusive no futebol, como algo desse esporte, especificamente do calor do jogo.

O professor/coordenador do PACF, em função de tudo isso, considera o futebol como um espaço contraditório, pois, ao mesmo tempo em que se constitui um espaço de reprodução e de manifestações racistas, revela-se, também, um espaço possível de inclusão social de afro-brasileiros das camadas inferiores da sociedade.

Ele afirma que os atletas encaram o futebol como uma profissão para a vida, principalmente os que veem esse esporte como um espaço de sobrevivência. Compreende, portanto, que o futebol é um espaço de empoderamento, majoritariamente, de afro-brasileiros ao alcance da inclusão social, porém, recheado de preconceitos voltados para esses sujeitos por sua cor e condição socioeconômica.

O professor/coordenador acredita também que os afro-brasileiros poderiam aprender e praticar outros esportes mais elitizados, desde que tenham poder aquisitivo para isso, pois numa sociedade excludente como a nossa, o dinheiro é quem manda. Entende que afro- brasileiros não sofreriam tanta discriminação, caso pudessem praticar esportes mais elitizados, em que a presença de brancos é bem mais significativa.

Esse mesmo sujeito reconhece que os afro-brasileiros sofrem discriminação por causa da pobreza e da cor da pele. Para ele, o racismo manifesta-se através de brincadeiras, provocações entre torcedores e jogadores e entre jogadores e jogadores, com o intuito de

provocar e de menosprezar o outro, com expressões do tipo macaco, burro e crioulo

fedorento. Para o entrevistado, essa é uma rivalidade demonstrada pelo sentimento de superioridade do atleta branco.

Diante desse contexto até aqui apresentado, preocupamo-nos em compreender como o PACF e seus participantes desenvolvem ações capazes de se enquadrar no espectro daquilo que se denomina empoderamento, com vistas à inclusão social, e extrair de suas falas o que entendem sobre esses fenômenos e se eles estão presentes em seu cotidiano, ao buscarem o futebol como esperança e possibilidade de superar a pobreza e a exclusão de que são vítimas.

Uma série de arquivos foi disponibilizada pelo responsável pelo projeto: revista da Associação de Garantia ao Atleta Profissional da Paraíba (AGAP-PB) (1995); fotografias dos espaços e de vários sujeitos do projeto e de jogadores que passaram pela escolinha; cópia do projeto da Escolinha Atleta Cidadão do Futuro (2008), projeto da Escolinha Futebol Também se Aprende na Escola (2002); pôster da Seleção Infanto-juvenil de Campina Grande, que viajou para Guaraparí, Espírito Santo, formada por atletas do projeto Futebol Também se Aprende na Escola; cartaz O Descobridor de Talentos, que divulga as escolinhas de futebol de campo e basquetebol, trazendo como destaque as fotografias dos jogadores Marcelinho Paraíba, Hulk e Fábio Bilica, ou seja, alguns dos atletas que passaram pelo projeto e foram bem-sucedidos no futebol e fotografias individuais de jogadores que foram revelados pelo projeto, abaixo de cujas imagens estão as principais equipes que passaram pelos cenários local, regional, nacional e internacional.

Além desses documentos, o coordenador disponibilizou-nos livros relacionados ao campo de futebol, todos de sua autoria. Trata-se de uma série de publicações relativas à sua trajetória e envolvimento nesse esporte tanto como desportista quanto como pesquisador sobre o assunto. Um dos mais recentes, O Futebol me Fez um Doutor no Brasil, foi publicado esse ano, e traz um resumo geral de todas as suas publicações anteriores48 (MELO, 2013).

Os primeiros contatos com o campo permitiram-nos fazer uma série de observações mais gerais do espaço, de sua localização, das pessoas envolvidas e das atribuições e atividades realizadas pelos sujeitos. Durante o período da pesquisa de campo, concentramo- nos, ainda, em verificar as condições objetivas e materiais do desenvolvimento dos trabalhos de formação e revelação de jogadores de futebol promovidos pelo PACF.

No primeiro dia de observação, fomos apresentados ao grupo pelo coordenador do projeto e aproveitamos o ensejo para falar sobre o motivo de nossa presença naquele espaço.

48 Interessam-nos, nesta pesquisa, apenas os documentos e os registros relativos ao PACF. Por esse motivo, não é

E como deixamos claro quais seriam nossos propósitos naquele local, solicitamos a colaboração de todos os envolvidos do projeto, principalmente com as contribuições dos atletas, no decorrer da pesquisa de campo, no momento de realizar as entrevistas com eles para obter as informações relativas ao fenômeno da pesquisa em tela.

Depois desse primeiro contato, o coordenador conversou um pouco mais com os jogadores e nos apresentou os seus voluntários que colaboram para a realização dos trabalhos: o preparador físico, o auxiliar técnico e o preparador de goleiros. São sujeitos com experiência no futebol profissional, como integrantes de comissão técnica e na condição de atletas de futebol em tempos passados, que, desempregados ou trabalhando por conta própria, foram convidados para contribuir com o projeto proposto com suas experiências e vivências no mundo futebolístico.

Com essas primeiras aproximações, pudemos delimitar com mais critérios o que de fato pesquisar: o empoderamento de negros e pardos no futebol: o PACF como espaço de inclusão social desenvolvido na cidade de Campina Grande-PB. Depois dessa aproximação preliminar, definimos, junto com o coordenador do projeto, os dias de visita ao lócus de investigação. Assim, ficou acertado que todas as sextas-feiras, no turno da tarde, iríamos realizar nossos acompanhamentos e observações. Combinamos que sairíamos de João Pessoa entre 12 horas e 13 horas em direção a Campina Grande, e chegaríamos entre 14 horas e 14 horas e 30 minutos, exatamente no local onde funciona o PACF, para fazer as atividades de pesquisa.

O material disponibilizado para análise e nossas incursões e observações preliminares contribuíram de maneira significativa para procedermos à aplicação do questionário sociodemográfico e da entrevista semiestruturada (ver capítulo metodológico). Posteriormente, com as visitações subsequentes, fomos trilhando os caminhos que nos conduziram à análise dos documentos (projeto) e das entrevistas. Tudo isso nos permitiu um cruzamento mais consistente entre eles e o referencial conceitual do empoderamento e da inclusão social no contexto da história vista de baixo.

Através da relação entre esses três conceitos, compusemos a discussão e a análise dos achados da pesquisa, em que concebemos os afro-brasileiros do PACF como sujeitos comuns e desconhecidos, que narraram suas versões sobre o sentido e o significado do futebol e desse projeto em suas vidas como possibilidade de superar a pobreza e a exclusão social.