2.1 Introduction
2.1.3 Data sources, time series, and units of analysis
O empoderamento é uma tradução do inglês empowerment, surgida, inicialmente, vinculada à noção de protagonismo, de pró-atividade das pessoas. Ocorre num dado contexto social em que a livre interpretação e a tradução da bíblia para o alemão permitiram que todos os cidadãos tivessem acesso aos escritos religiosos em sua língua materna (MEIRELLES; INGRASSIA, 2006).
Baquero (2012, p. 174) afirma-nos que “[...] a tradição do empowerment (Empowerment Tradition) tem suas raízes na Reforma Protestante, iniciada por Lutero no Séc. XVI, na Europa, num movimento de protagonismo na luta por justiça social.” Esse processo oportunizou um empoderamento por parte das pessoas, uma vez que a tradução da Bíblia do latim para o Alemão permitiu “[...] a leitura dos textos sagrados entre a comunidade, a qual, por conseguinte, passa a realizar sua leitura e sua hermenêutica, tornando-se sujeito de sua religiosidade.” (BAQUERO, 2012, p. 174) [grifo nosso].
Embora a noção de empoderamento, em seu momento embrionário, tenha sido mais apropriada ao desenvolvimento individual de cada sujeito, segundo a literatura sobre o tema, somente na segunda metade do Século XX foi que o conceito “[...] empowerment passou a expressar a luta por direitos civis, sobretudo, no que se refere aos movimentos emancipatórios” (MEIRELLES; INGRASSIA, 2006, p. 4) dos grupos e dos sujeitos discriminados.
A trajetória do conceito empoderamento remonta os anos 1960, “[...] quando a sociedade civil dos países centrais constitui-se como sujeito coletivo e se fortalece, processo que no Brasil iria ocorrer a partir de meados da década seguinte” (HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2007 p. 487). Com base nesses autores, o tema do empoderamento não é novo. Porém, seu destacável ponto histórico permitiu-lhe notoriedade até hoje, favorecendo o surgimento dos movimentos sociais contra o sistema de opressão dos anos 1960, nos Estados Unidos. Dessa maneira, o termo passa a ser incorporado como sinônimo de emancipação social. Trata-se, por exemplo, da luta pelos direitos cívicos, negros, homossexuais, feministas, dos deficientes, entre outros do gênero que ainda hoje lutam por cidadania e se colocam contra a opressão, o preconceito, a discriminação, a pobreza e a exclusão social (BAQUERO, 2012); (PASE, 2007).
De acordo com Iorio (2002, p. 21), “a origem do conceito é motivo de disputa tanto pelos movimentos feministas, como pelo movimento American Blacks que nos anos 1960, movimentou o cenário político norte-americano [...]”. Exigia-se aí o fim do preconceito e da discriminação fortemente vivenciada pelos negros nos Estados Unidos das Américas (EUA). Se essa década foi o ponto de partida para o desenvolvimento do empoderamento, “[...] podemos encontrar, na década de 1970, os primeiros trabalhos analíticos que influenciaram o surgimento do ‘poder’ como o conceito central que define todos os processos de desenvolvimento” (OAKLEY; CLAYTON, 2003, p. 7).
Tomando como referência essa última década (a de 1970), podemos afirmar que a construção do conceito de empoderamento ocorre a partir do conceito de desenvolvimento, por meio de transformações que se manifestam no debate a respeito da modernização ou na
dependência, “[...] como causas do subdesenvolvimento, até a chegada dos pós-modernos, que colocam em dúvida todas as explicações anteriores e trazem uma nova perspectiva que coloca como ponto central a relação entre ‘poder’ e ‘pobreza’” (KLEBA; WENDAUSEN, 2009 p. 735).
Respaldando-se em Cornwall (2000, p. 74), Antunes (2002, p. 97) afirma que os discursos de desenvolvimento alternativo dos anos 1970 “[...] viam empoderamento como o
processo através do qual as pessoas se envolviam ativamente na luta para aumento de controle sobre recursos e instituições.”
Iorio (2002) revela-nos que, nos anos 1970 e 1980, feministas e grupos de mulheres distribuídas pelo mundo inteiro desenvolveram um intenso trabalho de conceitualização e de implementação de estratégias de empoderamento, objetivando romper com as diferentes dinâmicas que condicionavam a existência e impediam a participação e a cidadania plena das mulheres nas decisões sociais, políticas e econômicas.
Em síntese, “a noção de empoderamento começa a ser utilizada na década dos anos 70, com os movimentos sociais e, posteriormente, passa a permear as práticas das ONGs.” (ROMANO; ANTUNES, 2002, p. 5). Segundo Kleba e Wendausen (2009), inspiradas em Carvalho (2004), nesse período, inicia-se a construção conceitual dessa noção influenciada pelos movimentos de autoajuda. Prossegue nos anos 1980 pela psicologia comunitária e, nos anos 1990, pelos movimentos que buscam afirmar o direito de cidadania sobre distintas esferas sociais. Nessa década do Século XX, “[...] observa-se a expansão do uso desse conceito para outras áreas do debate sobre desenvolvimento, especialmente a partir das grandes conferências oficiais e paralelas mundiais38[...]” (IORIO, 2002, p. 21).
Todas essas fases do empoderamento posterior ao seu surgimento são sintetizadas “[...] nas lutas pelos direitos civis no movimento feminista e na ideologia da ‘ação social’, presentes nas sociedades dos países desenvolvidos, na segunda metade do Século XX” (BAQUERO, 2012, p. 175). Podemos apreender que, em termos históricos, a construção do empoderamento e seus múltiplos sentidos advêm dos anos 1960 para cá, de várias origens de lutas constituídas por vários setores excluídos da sociedade, como as já explicitadas nesse estudo e também apontadas por Kleba e Wendausen (2009).
Essas lutas foram impetradas com o propósito de estimular uma participação mais efetiva, engajada e politicamente lúcida por parte dos movimentos feministas, negros e de outros grupos que se sentiram discriminados e fora das possibilidades de acesso à informação e às principais decisões que lhes diziam respeito. Esses grupos sociais, sentindo-se impedidos de exercer mais poder de participação e controle nas decisões sobre questões de seu interesse, buscaram (buscam), no âmbito do empoderamento, as possibilidades de se fazer mais atuantes e responsáveis pelos assuntos inerentes à realidade de seu âmbito social, político, econômico e cultural.
38Na década de 1990, o empoderamento “[...] recebe o influxo de movimentos que buscam afirmar o direito da
cidadania sobre distintas esferas da vida social, entre as quais a prática médica, a educação em saúde, a política, a justiça, a ação comunitária.” (BAQUERO, 2012, p. 175)