6 Chapter : Discussion
6.1 Community perceptions and concerns around water scarcity and water quality
6.1.2 Main community concerns related to water quality
Entendendo que o objetivo desta tese foi avaliar como o pressuposto do equilíbrio dos sistemas de marketing alimentar é suplantado pelas práticas da indústria e pelo próprio consumo de carnes, é possível afirmar que a consideração moral dos animais é viabilizada pela mudança paradigmática dos consumidores que entendem que os animais são seres que detêm um alto nível de relevância moral perante as necessidades alimentares humanas. Por isso, reconhecemos que a consideração moral dos animais e a manutenção do equilíbrio no sistema de marketing alimentar dependem de uma mudança na conduta de consumo alimentar dos indivíduos, que ocorre pelo processo de deslegitimação de uma performance alimentar baseada no animal.
Consideramos que, para o debate em ética em marketing e ética do consumidor, é fundamental analisarmos as diversas formas de manifestação da consideração moral dos animais. Em uma análise dos níveis de moralização (LOVETT; JORDAN, 2010) que os sujeitos podem desenvolver para considerar moralmente os animais no escopo do consumo alimentar, é fato que existe uma sensibilidade que avalia as características morais de uma situação. Ou seja, o nível de sensibilidade moral remete ao grau em que um agente humano reflete sobre o que é importante para si e para os outros, atribuindo valor em termos de preferência e agindo em conformidade com ela. Dessa forma, entendemos que ambas as dietas vegetariana e vegana apresentam um alto nível de sensibilidade moral, dado que os sujeitos que as adotam desenvolvem ações direcionadas à não colaboração com o sofrimento dos animais envolvidos no sistema de marketing alimentar.
Obviamente, existem diversas formas de caracterização da sensibilidade moral. Lovett e Jordan (2010) definem quatro níveis de moralização: não moralização; automoralização; moralização dos outros; e expressão pública da moralização.
O nível de não moralização se refere às preferências que são explicadas pelas características psicológicas e comportamentais do ator. Sob a perspectiva desta tese, esse nível de sensibilidade moral deslegitima o consumo de carnes, uma vez que elementos relativos à preferência pessoal quanto ao gosto do alimento de origem animal não conseguem ultrapassar a questão moral do interesse do animal em se manter vivo, saudável e livre.
No nível de automoralização, a sensibilidade moral do agente se desenvolve na relação do sujeito consigo mesmo, ou seja, é definida uma segunda ordem de preferência (a meta-preferência) para mantê-la ou eliminá-la. Nesse nível, podemos enquadrar a preocupação dos indivíduos em consumir carnes de animais criados e abatidos de forma humanitária, o que reduziria o sentimento do indivíduo de culpa moral em relação ao sofrimento do animal durante a vida. Entretanto, esse nível de moralização não abarca a sensibilidade moral e o valor intrínseco do animal pela via do interesse à vida.
O nível da moralização pelos outros ocorre pela via da discriminação do comportamento dos outros indivíduos, tornando-os passíveis de avaliação moral. A julgar pela consideração moral, o nível de moralização pelos outros é mais abrangente do que o nível de automoralização, na medida em que a moralização do outro é decorrente do nível de moralização que foi definida para si. Dessa maneira, o surgimento de uma reflexão acerca do bem-estar animal tem favorecido a ascensão de práticas de consumo que buscam deslegitimar o sistema de marketing alimentar e a estrutura construída em torno da vida e do sofrimento animal.
O nível da expressão pública da moralização é alcançado com a disseminação da moralidade com o intuito de modificar o comportamento em favor de uma causa específica. Em verdade, tal nível de conduta moral se relaciona fortemente com os ativistas da causa animal, que defendem o direito e o interesse dos animais. Em certa medida, o consumo de carnes alcança esse nível de moralização, também pelo direcionamento das instituições sociais, mas, essencialmente, pela proliferação das práticas cruéis adotadas pela indústria de carnes no tratamento animal e pela conscientização dos consumidores quanto à necessidade de não fomentar essa indústria.
Em uma reflexão sobre a ética em marketing, é preciso entender que, a partir da qualificação do equilíbrio no sistema de marketing alimentar, podemos apontar que os níveis de moralização pelos outros e pela expressão pública viabilizam a reflexão dos consumidores acerca do problema moral que decorre do tratamento dado aos animais, o que se reflete na ascensão dos movimentos sociais em favor da causa animal e na presença do Direito. Dessa forma, os estudos em ética do consumidor podem evidenciar aspectos relativos ao hedonismo alternativo dos vegetarianos, no sentido de possibilitar um conhecimento aprofundado que dê suporte às ações de organizações sociais que atuam em favor das causas animais.
É fato que o processo de conscientização é decorrente da moralização do consumo alimentar que subjuga a vida dos animais aos interesses humanos. Ou seja, é fundamental expor as práticas da indústria de carnes ao mesmo tempo em que se apresentam alternativas viáveis de alimentação que favoreçam a consideração moral dos animais. De maneira geral, o consumo de carnes, para Singer e Mason (2006), evidencia o impacto ético da negligência do sujeito social e das práticas cruéis adotadas pelos profissionais da indústria de carnes no tratamento dado aos animais. De forma pragmática, isso seria verdadeiramente significativo se a teoria do direito dos animais alcançasse um patamar para além da moralização, com consequente positivação dos direitos dos animais.