1 Chapter : Introduction
1.2 Study Background
1.2.2 Biosand Filter pilot evaluation study
Neste item, propomos um resgaste do debate construído no Capítulo 2 sobre equilíbrio e justiça nos sistemas de marketing, argumentando acerca da construção desses conceitos a partir da reflexão das práticas dos agentes diretos e indiretos envolvidos no sistema de marketing alimentar.
A princípio, observamos que em uma contextualização do conceito de equilíbrio, a ideia de justiça se mostra como o ponto de partida para a análise dos sistemas de marketing alimentar ao estabelecer que essa ideia parte da combinação de interesses entre os envolvidos. Pressupomos que um sistema de marketing equilibrado é aquele que busca atender aos interesses de todos os stakeholders envolvidos, priorizando a eficiência do sistema e a redução das externalidades para os demais sujeitos.
Em certa medida, a definição de equilíbrio nos sistemas de marketing, especialmente o alimentar, parte de uma perspectiva de análise antropocêntrica, o que se observa quando analisamos o papel dos agentes diretos e indiretos no sistema de marketing sob a perspectiva de ação humana. Entretanto, essa limitação não revoga a análise do papel moral dos agentes no sistema de marketing alimentar, porquanto a discussão está centralizada na moralidade do produto, cujo elemento estruturante é a vida animal.
Presumimos que um sistema de marketing equilibrado é aquele que distribui igualitariamente os benefícios e custos obtidos nos processos de troca. Afirmamos que o sistema de marketing alimentar está desequilibrado contra um stakeholder que tem suas capacidades neurológicas e de linguagem restritas, mas que nem por isso devem ser moralmente desconsideradas. Esse argumento se fortalece ao observamos que os animais, atuando como eixo estruturante da indústria e do consumo de carnes, recepcionam parte das externalidades negativas que esse sistema consegue gerar. Conforme dito anteriormente, a primeira delas refere-se à doação da vida animal para obtenção da base material de uma performance de consumo que poderia existir sem que sua vida fosse utilizada para este fim; a segunda diz respeito ao tratamento cruel humano que é dado aos animais na indústria de carnes; e, por fim, a subjugação do interesse dos animais a um consumo que é antinatural dada a construção histórica que legitimou essa conduta humana, nutricionalmente injustificado diante das alternativas de consumo e hedonicamente superável.
Como apontou Lekan (2004), a abordagem da justiça na ética animal sustenta que o tratamento injusto dado aos animais na indústria de carnes é um erro moral primário, pois
demonstra que as atitudes atuais dos seres humanos em relação àqueles são incompatíveis com os princípios morais imparciais. Dessa maneira, a consideração do interesse como pressuposto remete diretamente ao argumento apregoado por Singer, na justificativa de que os animais são seres que tem o interesse à vida negligenciado pela indústria e pelo consumo de carnes. Além disso, a justa combinação de interesses entre os agentes do sistema de marketing alimentar desconsidera os elementos que infringem a moralidade do bem-estar e da expressão da natureza animal. Para a construção da problemática do sistema de marketing alimentar, optamos por expor a relação dos agentes com a moralidade do produto de origem animal, conforme relata a figura 12.
Fonte: Elaboração própria (2014)
Conforme relatamos, o primeiro agente do sistema de marketing alimentar são os ofertantes representados pela indústria de carnes. Em verdade, a conduta moral adotada por esses agentes, apesar de prezar a maximização da eficiência na elaboração de suas ofertas, não se mostra coerente com a ascensão das questões de bem-estar animal anunciadas por Rollin (2011). De fato, a demanda por um tratamento mais humanitário aos animais é, muitas vezes, questionada pelos ofertantes. Como mencionam Singer e Mason (2006), há uma preocupação por parte dos criadores e frigoríficos de que o uso de atordoamento na castração e abate dos animais impacte no preço dos produtos aos consumidores finais. Por outro lado, há uma conduta desses ofertantes em imputar na precificação qualquer benefício que tenha sido gerado ao animal no seu tratamento, o que é discursivamente legitimado pelos selos e certificados de boi orgânico, boi verde, frango e porco orgânicos.
Nessa perspectiva, a conduta da indústria de carnes desequilibra o sistema de marketing alimentar, na medida em que gera prejuízos para os agentes demandantes, como a alta dos preços e a inserção de produtos químicos e farmacêuticos na alimentação dos animais de abate para alcance de maior produtividade. Nesse ponto, a indústria de carnes reverbera de modo mais grave as externalidades no próprio produto, cuja moralidade é infringida desde o nascimento da base material, dadas as condições de vida e morte que esses sujeitos obtêm
Agentes diretos (demandantes e ofertantes) Agentes indiretos (Estado e sociedade) Agente do Produto SISTEMA DE MARKETING ALIMENTAR (indústria e consumo de carnes) Figura 12 – Estratégia de exposição do produto nos sistemas de marketing alimentar
quando nascidos nesse contexto. Além disso, os selos e certificados, embora oriundos de um movimento de consumo preocupado com o tratamento dos animais na indústria de carnes, são passíveis de questionamento ao considerarmos que as questões de bem-estar animal são avaliações relativas aos interesses destes e não de um consumidor. Ou seja, a morte de animal é produto de qualquer selo ou certificado, e por isso é considerada um problema moral, pois conduz a exclusão do animal a viver experiências vistas como relevantes.
Por sua vez, os agentes ofertantes da indústria de carnes justificam sua conduta ao expor o alto crescimento no consumo de carnes, de modo que também os agentes demandantes do sistema de marketing alimentar podem ter sua conduta moral questionada, principalmente pelo fato de que existem alternativas de consumo que ofertam performances de produto similares em termos nutricionais. No sistema de marketing alimentar, o consumidor é o agente com maior força na sociedade para exigir novos produtos ou alternativas de performances hedônicas que superem o viés moral no tratamento animal. Entretanto, observamos no mercado que a oferta de dessas performances ao consumidor é escassa, além de existir um conjunto de opções alimentares que, reconhecidamente, não alcançam o sabor construído historicamente.
A carne é uma categoria de produto alimentar que não consegue ser justificada pela vigência da boa moralidade em um sistema de marketing equilibrado, tanto pela percepção cartesiana dos animais de fazenda quanto, essencialmente, pela não necessidade desse consumo para a supervivência humana. Ademais, a lógica dominante dos serviços reforça que a base material é apenas o meio de uma performance, de modo que não é, em princípio, necessária a materialidade animal.
Assim, a promoção de uma conscientização sobre o valor intrínseco dos animais e os atributos que justificam essa valoração como a senciência, o sofrimento físico e psicológico, além do cerceamento de sua natureza, mostra-se como uma das alternativas possíveis para fomentar o entendimento do viés moral do consumo de carnes. É fato que o emprego isolado da conscientização social não se mostra suficiente, já que as ações desempenhadas por nutrorganizações sociais defensoras da causa animal, apesar de alcançarem forte influência política e social, não conseguem promover com amplitude uma nova postura de consumo.
No que diz respeito aos agentes indiretos do sistema de marketing alimentar, o Estado surge como uma das instituições capazes de fomentar a conscientização acerca da moralidade do produto de origem animal. Paarlberg (2010) ressalta que, embora exista o interesse estatal em considerar moralmente os animais envolvidos nesse sistema, há também uma forte estrutura política e social que reforça o consumo de carnes e fornece subsídios aos agropecuaristas. Em contrapartida, a mudança de perspectiva estatal em favor da consideração
da moralidade dos animais ocorre a partir das pressões de movimentos da própria sociedade, assim como do agente demandante. Dessa forma, reconhecemos a sociedade como agente indireto no sistema de marketing alimentar, ao passo que identificamos um movimento a favor do reconhecimento dos atributos dos animais como o sofrimento e o bem-estar e da redução do consumo de carnes pela via da boa moralidade e da saúde humana.
Por fim, a discussão da moralidade do produto no sistema de marketing alimentar permeou a argumentação dos agentes diretos e indiretos, sendo necessário enfatizar a valoração moral do produto de origem na vida animal. De fato, reconhecemos que o produto é um
stakeholder do sistema de marketing alimentar que gera desequilíbrio pela não consideração
moral de sua base material, já que sua posição central assegura a performance requerida pelos consumidores de carnes e garante a longevidade da cadeia produtiva da agropecuária.