O deslocamento territorial do centro hegemônico britânico para a América do norte não impediu a crescente onda de concorrência entre empresas e Estados. Por parte dos Estados, a estratégia foi o fortalecimento de suas burocracias, e a empresarial os processos de integração e diversificação empresarial, desde mercadorias e serviços até segmento e tipo de empresas controladas por grupos econômicos. As empresas passaram a controlar e fazer-se presente em alguns mercados, diminuir os custos de transação de alguns serviços e produtos das novas empresas norte-americanas. O processo de integração revelou, antes de tudo, ser uma estratégia fundamentalmente diferenciadora do modo de fazer negócio na América e na Grã-Bretanha, e, como esta primeira, colocara-se no mundo pós-guerra.
A integração via fusão empresarial ou entre setores empresas, através de associações e incorporações, possibilitou que muitas empresas produzissem suas mercadorias e as circulassem com menos custos, velocidade e mesmos insumos. Esta estratégia diminuía a concorrência interna e possibilitava que os riscos fossem compartilhados e os mercados menos incertos. Por outro lado, a integração permitia a ampliação da produção e
comercialização em mercados menos regulados, e exigia das empresas o desenvolvimento de tecnologias e técnicas administrativas mais eficientes e duráveis.
A estratégia da integração tornava as empresas norte-americanas mais audaciosas que suas equivalentes sociedades anônimas britânicas, mas por outro lado o movimento de integração via fusão horizontal conduzia estas empresas para a lista de instituições econômicas dependentes das iniciativas governamentais e de seus mecanismos de regulação, especialmente em territórios onde os mercados assinalavam maiores riscos. A saída desse cenário ao mesmo tempo promissor e arriscado, tanto entre corporações concorrentes quanto entre estas e os seus governos, nascia com a integração vertical. Esta estratégia tornava-se um contraponto, especialmente para as empresas em que os riscos de produção e comercialização eram uma constante, fracamente compartilhados e suas relações com os governos tênues. Este tipo de integração consiste na “(...) fusão das operações de uma empresa com as de seus fornecedores e clientes, de modo a garantir suprimentos „ascendentes‟ para a produção primária e escoamento descendente para o consumo final” (ARRIGUI; BARR; HISAEDA, 2001, p. 132).
Com isso, as corporações integradas verticalmente conseguiam alcançar vantagens frente às concorrentes internas e fora de seus territórios. Mas isto se apresentava fortemente eficaz frente às empresas limitadas, perante corporações de uma só unidade e aquelas concorrentes de muitas filiais e menos especializadas. A diferença que caracteriza o deslocamento territorial da hegemonia empresarial britânica para a norte-americana, do ponto de vista da gestão, é o fato da integração vertical criar uma hierarquia entre empresas e uma barreira para possíveis invasões de concorrentes, ao mesmo tempo em que aumentava seu potencial de barganha de privilégios do Estado.
Mas, os processos de fusão horizontal e integração vertical não ficaram restritos às empresas norte-americanas. Eles se desenvolveram diferentemente e também entre as empresas sediadas na Grã-Bretanha e Alemanha. A diferença comparativa, além da flexibilidade e poder burocrático das empresas norte-americanas, estavam em que entre os germânicos a fusão horizontal e a integração vertical desenvolveram-se com maior rapidez entre as empresas comerciais; ao contrário dos britânicos, que com muita lentidão partiram para a integração vertical após perderem hegemonia no mundo. A lentidão condicionava a crise do modelo familiar de empresa britânica. Em primeiro lugar, e diferente das empresas alemães, a gestão empresarial inglesa pouco diferenciava controle de propriedade. A fusão entre controle e a propriedade era uma marca da tradição destas empresas familiares, mesmo ao se converteram em poderosas sociedades anônimas e frente ao crescente capital
financeiro16. Isto tornava cada vez mais as práticas empresariais inglesas tão obsoletas quanto à defesa do monopólio feito por sua antecessora. Suas ações tornavam-se, sob o apelo à tradição, práticas intermediárias entre grandes capitais, mais fluidos e concentrados e outros menores e mais especializados. Uma economia inglesa intermediária comercial e financeira da economia mundial. Por outro lado, isto exigia uma adequação empresarial aos novos tempos, especialmente a adequação de seus processos de produção e comercialização fundados na descentralização e alta especialização, especialmente no setor têxtil. A redefinição desta “herança” exigia flexibilidade, algo que os alemães e americanos já possuíam e defendiam.
Durante todo o sec. XIX, a indústria britânica em geral e a indústria têxtil em particular havia mostrado uma tendência acentuada para a fissão, e não para a fusão, dos subprocessos seqüenciais da produção e do intercâmbio – isto é, para a desintegração vertical, em vez da integração (ARRIGUI; BARR; HISAEDA, 2001, p. 135).
Os americanos conseguiram resultados mais expressivos do que os ingleses, com a combinação de integração horizontal e vertical, o que impulsionou uma dominação financeira nascida do financiamento das ferroviárias e empresas industriais, e tornava a corporação norte-americana um tipo de empresa moderna. Assim se refere Joel Bakan (2008) às corporações norte-americanas:
Os barões das ferrovias norte-americana do século XIX, considerada celebridades por alguns e vilões por outros, foram os verdadeiros criadores da era da moderna corporação. Com as ferrovias eram empreendimentos monumentais e exigiam enormes quantias de investimentos de capital – para assentar os trilhos, fabricar a frota e operar e manter os sistemas – rapidamente a indústria começou a confiar na forma corporativa para financiar suas operações (BAKAN, 2008, p. 11).
O poder da corporação norte-america não sucumbiu o tipo de empresa familiar existente na Grã-Bretanha e também na Alemanha. Os seus efeitos mais severos só viriam a se apresentar, e por vezes questionado, na passagem do século XIX para o século XX. O universo de pequenas e médias empresas, ao contrário, passou a “satelizar” entorno de seus procedimentos burocráticos, seu tamanho, suas complexas negociações e poder financeiro.
A tríade fissão-lentidão-especialização entre a empresa britânica tornava os custos das produções e operações cada vez mais caros. O dilema inglês passou a se expressar em
16 Fazemos uso do termo capital financeiro tomando como referência o conceito presente HILFERDING,
atividades cada vez mais fragmentadas e intermediárias, perante um capitalismo cada vez mais plural e fluido. “A especialização tornava-se, assim, uma resposta inglesa ao modelo emergente de empresas norte-americana e germânica” (ARRIGUI; BARR; HISAEDA, 2001, p. 137).
Mas não pode ser tributado à crise do modelo familiar de empresas britânicas unicamente as condições internas de sua gestão. Seu enfraquecimento resultou além do poder da concorrência mundial e de sua condição de intermediária comercial e financeira do mundo, aos gastos militares advindos com a Primeira Guerra Mundial. Tornava-se difícil conciliar os negócios das famílias aos negócios da guerra. O governo britânico passa a restringir os gastos com bens de capital e o comércio exterior controla preços e distribuição dos bens de consumo. O fim da empresa familiar britânica ocorreria apenas com a Segunda Grande Guerra com as tentativas de hegemonia empresarial norte-americana e o advento da corporação multinacional. Nesse cenário, o processo de integração vertical deixa a exceção e exerce forte influência sobre os fluxos produtivos e os preços das mercadorias no mundo.
4.3 A HEGEMONIA CORPORATIVA NORTE-AMERICANA E AS ESTRATÉGIAS