Outro caminho possível para compreender o lugar dos grupos econômicos na economia capitalista é considerá-los enquanto instituições sociais. A tradição sociológica de viés funcionalista indica que as grandes empresas constituem um lócus produtor e reprodutor de valores e normas. Por esta abordagem são evidenciadas problemáticas como identidades, cultura, a mudança e convenções entre empresas, de acordos mútuos e a constituição de cooperação entre empresas. Nesse sentido, o destaque está para as premissas encontradas na sociologia durkheimiana, em que as grandes empresas capitalistas consistem em instituições por orientarem, normativamente, o mundo social, e integram ações de indivíduos e demais instituições. O grupo é necessariamente um lugar coletivo, onde os indivíduos se submetem às
normas jurídicas e processos administrativos, regras e valores que unificam indivíduos e estruturam suas relações sociais cotidianas.
A ideia de estruturação implica, nesse sentido, numa conformação que permite o exercício da dominação social, exercida mediante o conflito e, em certa medida, tendenciosa a predominar uma conciliação, mesmo que impositiva e desigual entre os interesses dos indivíduos e os interesses mais gerais do grupo econômico. Isto se traduz numa conciliação parcial, em que os indivíduos do coletivo dividem um conjunto de sentimentos, ideias e normas que geram efeitos integradores de socialização, mesmo com resistência. Nesse sentido, a premissa durkheimiana considerará a grande empresa capitalista como organização, mas frente a um mundo do sec. XIX, em que a distinção social obedecia aos imperativos do status e condições precárias de trabalho já acentuadas. No texto clássico das ciências sociais,
Divisão Social do Trabalho, persiste o argumento de que o desenvolvimento de associações
profissionais, e podemos associar a ideia do próprio grupo econômico, resulta de uma das consequências necessária da racionalidade complexa que adquiriu a divisão social do trabalho nas sociedades contemporâneas. O grupo econômico ou empresa é considerado enquanto uma instituição cultural e simbólica, de ordenamento e imposição moral de uma certa ética do funcionário, do empresário, do trabalhador, socializadas com função de compartilhar as experiências de trabalho rotineiras e, em certa medida, comuns e, que podem ser expressas por momentos de iniciação, aceitação e resistência. As ações desenvolvidas no interior de empresas como grupos econômicos e outras instituições sociais, dirigem-se no sentido de criar uma “aprendizagem social”, restrita aos anseios e condições de existência da empresa no mundo. No entanto, estas considerações não impossibilitam entender que, enquanto instituições, os grupos econômicos são lócus de poder e acumulação de capital conflituosos e fortemente hierarquizados, que coagem os indivíduos e terminam por exigir um discurso e ação comuns, muitas vezes circunscritos aos sentidos e interesses da instituição particular.
O grupo econômico é, por isso, palco de lutas de poder. Na perspectiva marxiana, o espaço de trabalho é o lugar por excelência de alienação humana, alienação do/no trabalho e do produto do trabalho. A alienação do trabalhador na economia capitalista decorrente da disparidade entre o poder produtivo do trabalho – que se torna cada vez maior – e a falta de domínio sobre os seus resultados, das condições prévias e fundamentais para a propriedade e controle. O produto do trabalho é alienado ao trabalhador e passa a opor-se a ele como uma força estranha e hostil, “(...) torna-se externo ao trabalhador não só no sentido ontológico do termo” (GIDDENS, 1984, p. 39-40), mas também no sentido em que deixa de lhe pertencer. Ou seja, o trabalhador perde o controle sobre o produto, que é apropriado por outros e,
simultaneamente, “é alienado da tarefa em si”, na medida em que esta não lhe faculta uma satisfação intrínseca. “O trabalho torna-se num meio e não mais um fim em si mesmo” (GIDDENS, 1984, p. 40).
Os grupos econômicos e as atividades profissionais consistem, nesse sentido, das consequências da divisão complexa do trabalho, ambos desempenham um papel social, em vez de exprimirem apenas várias combinações de interesses particulares ou instituições patológicas. Apenas nesta perspectiva podem ser considerados grupos secundários, por colocar-se entre o Estado e os indivíduos.
A complementaridade entre paradigmas fundamentalmente diferenciados, mesmo o consensual durkheimiano e o conflitual e crítico marxiano, está implícito no todo das questões levantadas nesse trabalho. O grupo econômico constitui-se, no mundo ocidental, como instituição fundamental para questionamentos da vida individual e coletiva. É uma instituição confrontada com a decisão de uma dupla contingência. Eles assumem uma função interna ou social de satisfação dos sujeitos que aí cumprem a sua atividade de trabalho e, por outro, uma função externa, determinada por seus objetivos de produção de mercadorias.
Na sociologia da empresa, o papel que grupos econômicos exercem, nesse sentido, encontra em Sainsaulieu (2006) uma subordinação da segunda função à primeira função. Para ele, as atividades econômicas se colocam secundariamente frente à capacidade integradora dessas instituições, especialmente em dois aspectos que salienta: a) os grupos produzem valores, normas e regras, interagem e encontram-se numa situação de interdependência com outras instituições – pretende-se que se constituam como o lócus da conciliação entre os objetivos de realização econômica e os seus imperativos de construção da sociedade. Nesta perspectiva, num contexto de crescente complexidade dos sistemas produtivos, mensura-se a eficácia dos Grupos econômicos pela capacidade de ação coletiva operada entre os indivíduos que as formam.
Neste contexto, a ideia de um desenvolvimento social e econômico dos grupos econômicos, realiza-se pela mobilização dos diferentes indivíduos apresentados enquanto uma coletividade, e não dispersos hierarquicamente. Isto não implica em que a sociologia da empresa negligencie a dimensão hierárquica, fortemente presente na composição dessas empresas, e mesmo a consequente desigualdade das relações sociais dada por propriedade e controle existente no seu interior. Os grupos podem ser compreendidos como instituições sociais representativas de um modelo de sociabilidade e de processos sociais mais amplos que constituem a sociedade.
Esta concepção denota uma relação grupo-sociedade, e ambos corresponsáveis por constrangimentos sociais e econômicos. No entanto, a mesma perspectiva apregoa certa autonomia dos grupos econômicos frente à sociedade e, inclusive, perante o Estado, sobretudo em função do crescimento de ações como a fusão de grandes empresas e a constituição de oligopólios, o que representa algo significativamente questionável. Esta “autonomia”, cada vez mais transnacional, ainda é bastante condicionada pela inserção do grupo no território, onde as diferenciações nacionais, regionais, locais e também de setores econômicos orientam parte das condições de propriedade e controle exercido pelos grupos econômicos.
Pierre Veltz (1996), nesse sentido, mesmo em sua análise restrita ao contexto empresarial francês, indica que entre empresas, as transformações nas formas de produzir e comercializar produtos modificaram-se significativamente, particularmente nos anos 1990 em diante. Para ele, outras condições de produção e comercialização passam a ocorrer neste momento, resultantes mais das novas condições de competição por mercados no território do que da adoção de novas tecnologias. Os grupos econômicos inventam novas formas de competir valendo-se de um ambiente favorável, apropriando-se e transformando o território, o que as leva a não mais se concentrarem unicamente nos preços das mercadorias, mas na busca de critérios como diferenciação, inovação, qualidade e variedade das mercadorias. Estas empresas combinam e recombinam essas estratégias constituindo ingredientes de competitividade. A competição baseada nos preços, compatível com o modelo rigidamente segmentado e verticalizado da organização taylorista, passa a concentrar apenas processos estratégicos da produção e horizontalização para fora do espaço produtivo. A qualidade e densidade das cooperações tecidas dentro das empresas ou entre elas vem permitindo a constituição de ingredientes de competitividade.
Nesse sentido, a relação grupo econômico e sociedade é pensada como sendo uma relação entre grupo econômico e o território, enquanto um elemento dos ingredientes de competitividade, em que os grupos são levados a mobilizar forças sociais, políticas, históricas e geográficas, cada vez mais irredutíveis às representações de eficiência econômica. Para Veltz (1996), essas forças estão ausentes de seu próprio sistema de gestão e encontradas fora do cálculo econômico e empresarial. Forças diversas e localizadas no território e que constituem a marca de uma economia de arquipélago avançada cada vez restrita às esferas extraeconômicas.
A forte crítica de Veltz (1996) reside em afirmar que num contexto econômico cada vez mais ricardiano, grandes empresas como grupos econômicos não podem ser mais entendidos pelas imperfeições dos mercados e apenas pelas vantagens estratégicas. Mas
também não devem ser compreendidos pelo modelo das vantagens competitivas, em que custo de transação se dava entre empresas e não entre empresas em sua relação como outros fatores, inclusive o território. Mas também não podem ser reduzidas as vantagens comparativas, onde o foco nos recursos ambientais e a divisão internacional do trabalho explicavam o fracasso deste ou daquele segmento empresarial.
O território é um dos diversos recursos e ingrediente competitivo, de difícil mobilização e orientador de uma economia cada vez mais relacional. A virtude de Veltz (1996) reside em não fazer uma defesa da competitividade empresarial por meio de modelos acabados – toyotismo ou outros –, mas em considerar a grande empresa capitalismo inserida em processos abertos de relação com o território e demais fatores, em qualquer que seja o sistema de produção. O importante da competitividade empresarial reside em modos de cooperação, entre empresas e estas com fatores “externos”. É necessariamente a defesa de geopolítica empresarial fundada também no território e não apenas na geografia dos custos, em que fatores com localização, baixos salários, fragmentação sindical, qualificação da força de trabalho e benefícios estatais explicam a eficácia produtiva, determinando, assim, o lugar dos grupos econômicos. Estas empresas estruturam sua atividade produtiva, não pela sua dimensão físico-territorial, mas pela qualidade e função exercidas pelas forças sociais. É um elemento chave na articulação das temporalidades. Permite o acesso aos recursos lentos da competitividade ao mesmo tempo em que acelera ritmos de consumo, modos de vida e capital.
Pensar em relação grupos econômicos e território, nesta outra perspectiva, implica em voltar-se para algumas particularidades que marcam as econômicas nacionais, regionais e locais em que se desenvolvem as ações dos grupos. A relativa autonomia que possuem estas instituições ocorre nos limites e concessões convencionadas por estas economias e um dado território, especificamente traduzidas por forças sociais muitas vezes impostos por outras instituições, como o Estado e suas políticas, e com as quais interagem as grandes empresas.