Com o conceito de dialética materialista que tem em Hegel importante contribuição, verdades imutáveis acerca da constituição do ser, outrora buscadas pela filosofia e ontologia, são superadas, já que sob sua ótica as leis do mundo objetivo são as mesmas leis da lógica e do pensamento, o que provoca um dilema: como essas leis podem ser as mesmas se elas têm naturezas diferentes? Kopnin (1978, p. 50) busca resposta no princípio do reflexo:
A base para a correta solução do problema da relação das leis do pensamento com as leis do mundo objetivo é o reconhecimento do princípio do reflexo; o descobrimento da dialética da inter-relação entre o pensamento e o ser, a compreensão do lugar da prática na teoria do conhecimento, ou melhor, o reconhecimento do fato de ser a atividade prático-sensorial a base imediata do surgimento de todas as faculdades intelectuais, inclusive o próprio pensamento. A filosofia marxista superou o divórcio entre a ontologia e a gnosiologia à base materialista dialética da teoria do reflexo e da concepção da dialética do sujeito e do objeto no processo da atividade prática do homem, destinada à criação de um novo mundo de objetos e relações. Os filósofos do passado desmembravam sujeito e objeto até isolá-los um do outro ou os unificavam com coexistentes: existem o subjetivo e o objetivo, o pensamento humano e a realidade exterior a ele; a filosofia estuda ambos. O conceito de reflexo para o materialismo dialético não pode ser caracterizado como cópia mecânica daquilo que se produz no pensamento a partir do mundo objetivo. “O conhecimento não segue servilmente o objeto, mas o reflete de modo criativo”. (KOPNIN, 1978, p. 122). Não se trata de uma correspondência entre o objetivo e o subjetivo, mas uma oposição. Tal oposição não significa uma ruptura, ao contrário, significa o princípio dialético da luta dos contrários que constituem a unidade.
Para que o conhecimento se constitua num meio de assimilação prática dos processos e objetos, deve possuí-los em seu conteúdo, refletir as propriedades e leis da realidade objetiva e não ver as coisas apenas tais quais são dadas na natureza como vê-las tais quais elas podem ser como resultado da nossa atividade prática. As idéias são imagens, são medidas segundo as quais o homem cria dos objetos existentes novos objetos; daí se refletirem nas idéias as propriedades e leis da realidade objetiva. (KOPNIN, 1978, p. 122).
A unidade dialética entre as leis do mundo objetivo e as leis da lógica e do pensamento, incorpora a gnosiologia, ou a teoria do conhecimento. Nesta concepção, considera-se a historicidade do objeto. Seu estudo e generalização levam ao desenvolvimento do conhecimento, transformando o desconhecido em conhecido. É um processo lógico e,
especialmente, lógico do ponto de vista da dialética materialista, pois ao apreender o objeto cria um método de movimento do pensamento em busca da verdade:
A ciência é lógica à medida que apreende as leis do movimento dos objetos e processos sob formas de pensamento, cria um certo método de concepção do seu objeto; com base nas teorias científicas, criam-se métodos especiais de apreensão de determinados objetos e neste sentido toda ciência é lógica aplicada a um objeto específico. Enquanto lógica a dialética materialista se distingue de qualquer outra ciência pelo fato de tomar como base o conhecimento das leis de desenvolvimento de qualquer objeto, de objeto em geral e criar um método universal de movimento do pensamento no sentido da verdade, elaborar problemas lógicos que se apresentam ante cada ciência (ciência em geral) no processo de apreensão da verdade, ao passo que qualquer outra ciência concretiza e aplica essa lógica ao conhecimento do seu objeto específico. (KOPNIN, 1978, p. 54).
Não basta à lógica da dialética materialista aplicar-se ao conhecimento de um objeto específico – como a lógica em geral o faz –, visto que ele não está dissociado do movimento do mundo nem dele mesmo: ele se desenvolve. É o que diferencia a lógica em geral da lógica dialético-materialista. A dialética materialista como lógica estuda as formas e leis do pensamento que não são nada mais do que as formas e leis do movimento do mundo material. Essas duas instâncias se convergem em unidade de contrários e se incorporam ao processo conjunto do trabalho humano. A dialética como lógica consegue relacionar a objetividade do conteúdo dos conceitos e teorias científicas com a sua historicidade, movimento de transformação permanente e instabilidade. Constitui-se em base do processo de apreensão de um objeto em sua essência.
Para conhecer realmente um objeto, é preciso abrangê-lo, estudar todos os seus aspectos, todas as relações e mediações. Nunca conseguiremos isto plenamente, mas a exigência de multilateralidade nos previnirá contra erros e necrose. Isto, em primeiro lugar. Em segundo, a lógica dialética exige que se tome o objeto em seu desenvolvimento, automovimento (como Hegel às vezes dizia), em mudança... Em terceiro lugar, toda a prática humana deve incorporar-se à plena definição do objeto quer como critério da verdade, quer como determinante prático da relação entre o objeto e aquilo de que o homem necessita. Em quarto lugar, a lógica dialética ensina que não há verdade abstrata, que a verdade é sempre concreta. (KOPNIN, 1978, p. 82). As observações de Kopnin (1978) relacionadas à compreensão da dialética materialista como lógica e teoria do conhecimento indicam pressupostos essenciais para o encaminhamento da pesquisa científica. O autor defende a necessidade de se mostrar o caminho pelo qual o nosso pensamento chegou até a elaboração da construção teórica analisando o material factual, as leis e formas de sua elaboração, enfim, o método de construção da teoria. Para isso, reforça a necessidade de examinar o objeto em seu
automovimento, com todas as suas relações e mediações. “Não é apenas nem simplesmente o caminho de obtenção da verdade, é também a demonstração desta” (p.83), ou seja, a pesquisa deve revelar seu método de produzir a unidade conteúdo-forma, assim como explicitar essa unidade.
Além disso, deve guardar proximidade com a prática, já que “[...] não podemos resolver a questão da veracidade de qualquer tese científica [...] se não superarmos os limites do pensamento, passando ao campo da atividade prática” (p. 84). A tese científica não pode servir apenas ao campo da argumentação intelectual como processo de explicitação de sua veracidade. No materialismo dialético a prática é o critério da verdade, razão pela qual a unidade teoria-prática talvez seja a mais importante tese metodológica da filosofia marxista. É o fio condutor ao estudo de determinado objeto, o caminho para estabelecer qualquer prerrogativa de atribuir veracidade à construção de um conhecimento.
Kopnin (1978, p. 87) enumera alguns pontos de partida para a análise do conhecimento teórico, para descobrir as vias do seu desenvolvimento:
1) O conhecimento como processo de conhecimento da realidade objetiva pelo pensamento;
2) A interação prática entre sujeito e objeto como base do movimento do conhecimento no sentido de novos resultados;
3) O conhecimento como movimento no sentido de novos resultados segundo as leis e formas da própria realidade objetiva, representadas na consciência do homem;
4) As leis e categorias da dialética, elaboradas no processo de desenvolvimento histórico, que se constituem nas leis do movimento quer dos fenômenos da realidade objetiva quer do conhecimento dos mesmos, leis e categorias que são um instrumento pelo qual o homem obtém novos resultados no pensamento.
Ao propor uma intervenção de ordem didática e, ao mesmo tempo, formativa junto ao formador de professores, a presente investigação esteve atenta a estes elementos, visto que não era possível “suspender” o professor do contexto em que ele estava imerso, do acontecimento da sua história. Ele participou do processo investigativo e formativo em meio ao movimento da sua vida, seja no que diz respeito à sua profissão, vida pessoal e todas as demais dimensões da existência. Esta conexão, portanto, não só colaborou como determinou a condução do processo, mesmo com todos os cuidados tomados no sentido de garantir objetividade às finalidades da investigação. Assim, a formação do formador de professores, tendo como base a dialética materialista como lógica e teoria do conhecimento só pode ser analisada enquanto processo; enquanto movimento de desenvolvimento. Este foi o caminho assumido para que fosse possível chegar à construção teórica produzida nesta pesquisa.