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Chapter 4. APPROACHES TO IDPS AND CONCEPTUAL FRAMEWORK

4.6. OPERATIONALIZATION OF THE CONCEPTS

4.6.4. Local ownership

Para o transplantado, desde a descoberta da doença cardíaca até o sucesso da operação de transplante várias relações sociais foram modificadas ou mesmo eliminadas. O processo de adoecimento causa uma mudança gradual e

sistemática em todas as áreas da vida do indivíduo, desde a perda da capacidade de trabalho até as dificuldades com relação aos relacionamentos pessoais e sociais.

Sabemos das conseqüências socioeconômicas que afetam uma parte importante da vida em sociedade, porém todo um conjunto de relações também fica prejudicado devido ao tempo de ausência e também às representações negativas que a doença em si carrega.

Para entendermos qual o impacto social que a doença cardíaca tem para o indivíduo transplantado, e seus desdobramentos sociais, iremos retomar o conceito de “habitus”, proposto pelo sociólogo Pierre Bourdieu, como forma de investigarmos os possíveis efeitos que cercam o significado do transplante. Os aspectos pessoais da experiência do transplante nos remetem para a atitude que o transplantado adota perante a vida. Neste sentido, o conceito de habitus nos é útil para captarmos o que uma situação-limite traz para o encontro entre o indivíduo e o seu meio social reconquistado.

A nossa hipótese é que o habitus deve sofrer algum tipo de choque em suas estruturas cognitivas. A experiência traumática de quase-morte deve provocar algum tipo de reordenação na forma de significar a vida e as relações sociais prévias ao transplante. Para isso, iremos aplicar questionários para averiguar quais foram essas eventuais mudanças. É de conhecimento público que experiências pessoais que criem alguma espécie de ruptura social podem colocar o indivíduo numa situação de crise. Além disso, a posse de um coração alheio traz algum tipo de representação social do coração, que pode influenciar o significado herdado pela sociedade. A simbologia do coração tem seu peso que se mistura com a prática social do transplantado.

Antes de tudo é preciso entender o que o habitus significa para Bourdieu. “Esse conjunto de propensões inscritas no corpo, indelével e matriz geradora de práticas, pode ser definida como habitus, sistema de disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de agentes”, Bourdieu (1998). Dessa maneira, segundo a noção de habitus: “O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”. Bourdieu (2004).

A experiência da doença pode abalar qualquer individuo que tenha passado pela experiência de quase-morte. Bourdieu entende que o conjunto de disposições que organizam a ação do indivíduo permite apreender o mundo e se posicionar sobre ele. Os esquemas cognitivos precisam constantemente entrar em contato com o mundo para que possam tornar o indivíduo adaptado. As experiências de ruptura, e o isolamento sentido pelo transplantado, podem acarretar mudanças em suas relações sociais bem como o sentido que ele atribuiu à sua experiência.

Na concepção de habitus, proposta por Bourdieu, encontramos um princípio dinâmico das ações e cognições do indivíduo. É comum encontrarmos depoimentos de pessoas que, após uma experiência que quase lhes tirou a vida, reestruturaram sua forma de lidar com a vida e com as pessoas, como uma necessidade de recuperar ou re-significar sua trajetória vivida até o momento do transplante.

O habitus tem uma estabilidade que acompanhará boa parte das relações que o indivíduo viverá. Porém, como não existe uma estabilidade total, é possível que um acontecimento de fortes contornos, como o transplante cardíaco, possa indicar um processo de reestruturação global. As referências vividas, que estavam contidas no habitus, podem ter sido alteradas em virtude de uma carga emocional e sensorial diferencial que relativizaria as experiências passadas, aguçando o sentido do presente e do futuro do indivíduo. As conseqüências pessoais e sociais, que o transplante cardíaco provoca, podem detectar se existe alguma relação entre a experiência de ruptura originada do transplante, já que se trata de pessoas que sabem da gravidade da doença, e sua reverberação no nível da subjetividade social.

O habitus é o senso de adequação entre o que foi incorporado da cultura e o que o indivíduo tem como um senso de adequação para o meio em que vive. A vida em sociedade é guiada pelos recursos que o habitus provê. Nos contextos comuns não há necessidade de refletir profundamente sobre o que se deve fazer ou pensar a cada momento. O curso da vida é regido por meio de ajustes que conectam o indivíduo ao seu meio social e o faz sentir-se integrado.

Somente quando ocorrem grandes acontecimentos, que abalam essa aparente harmonia, é que ocorrem os desajustes e o vazio de um habitus adaptado a outras situações já vivenciadas e incorporadas à experiência do indivíduo. Nesse momento é que esses comportamentos podem ser revistos. Isso não quer dizer que a estrutura cognitiva do indivíduo hipotético seja efetivamente transformada. O que

pretendemos é saber em que medida isso ocorre, no caso de transplantados do coração, principalmente porque a simbologia que esse órgão envolve deve influir nos paradigmas que forneciam os modos de ser e de pensar de alguém.

O coração transplantado, por ser um órgão pulsátil, lembra o seu novo possuidor de que sua vida foi salva numa situação-limite. A simbologia de vida que o coração passa a ter para o transplantado reforça suas impressões antigas, herdadas da sociedade. Porém, no novo sopro de vida que recebe, se torna um forte candidato para pensarmos a dinâmica do conceito.

Portanto, estamos presos a padrões antigos, sociais, hereditários, ambientais, ideológicos, quer seja o padrão dos nossos pais quer seja o da sociedade que nos rodeia. No entanto, existe uma dinâmica da absorção que fazemos desses padrões, ou seja, apesar de duráveis, eles não são eternos. Em outras palavras, novas experiências de vida poderão mudar a forma de absorção desses padrões, o que torna esse conceito dinâmico ao longo da vida. (WACQUANT, sem data)

O habitus serve como o princípio social que revela como os problemas são enfrentados normalmente pelo indivíduo, bem como se as situações extremamente problemáticas da vida criam alguma alteração nos esquemas mentais do indivíduo. Como se trata de conteúdos simbólicos que estruturam a ação, as representações ainda vigentes sobre o coração podem também influenciar os esquemas cognitivos que predispõem o indivíduo à ação.

Deve haver alguma distância entre o que a simbologia do coração representa, para usos metafóricos sobre ele ser o centro das emoções, e a representação de quem tem efetivamente um coração de outra pessoa. Sendo assim, aplicamos um questionário para detectar quais são as representações mais comuns que ainda o coração possui socialmente. A saída de um quadro clínico extremamente grave é uma situação extraordinária no sentido pleno do termo.

Se há algum dinamismo nas representações subjetivas oriundas da sociedade ele deve estar, não apenas quando se muda de emprego, de país, quando se perde entes queridos etc., mas também quando o indivíduo percebe que ganhou um tempo extra para viver, já que sem a intervenção cirúrgica suas chances de sobrevivência seriam mínimas ou nulas.

Esse tempo extra proporcionado pelos avanços científicos é praticamente um renascimento. Por sinal, o transplante é efetivamente a existência empírica de

como alguém retorna do estado de morte certa. Sabemos que o transplante cardíaco não é o único que atualmente existe, mas talvez seja aquele que além de dar nova vida ao paciente, também o faz mais atento ao aspecto físico do órgão recebido (não há normalmente como sentir os rins, pulmões, etc. da mesma forma como se sente as batidas incessantes do coração).

Assim, com base do conceito de habitus, podemos traçar como, e em qual nível, a experiência do coração trouxe ou não alguma mudança na forma subjetiva e social de se relacionar consigo mesmo e com os outros.