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Chapter 1. GENERAL OVERVIEW

1.1. INTRODUCTION TO DISPLACEMENT

Fonte - PREFEITURA DO NATAL. PROJETO INTEGRADO PASSO DA PÁTRIA (2002).

Seu Gonçalo, morador da Pedra do Rosário desde 1948, quando chegou, aos cinco anos de idade e onde tem passado toda a sua vida, é proprietário de um dos estaleiros. Na sua memória permanecem algumas imagens de como era a Pedra do Rosário antes que ela se interligasse aos outros pedaços: Passo, Areado e Pantanal, segundo ele:

“Quando eu cheguei aqui dava para contar as casas. Neste trecho da linha férrea para cá, tinha esta casa que hoje é minha e só. Para a frente tinha um terreno baldio, tinha uma casa, um terreno e duas, três ou quatro casas. Lá na frente tinha um manguezal onde morava Seu Zeca da muda e tinha ele só. Para a frente, terreno desocupado e tinha mais Isaac que tinha uma venda de galos e ele era da construção naval. Daí para frente o posto da lancha da Alfândega, duas casas que eram de Joca Suassuna. Para frente terreno baldio e tinha o galpão do pessoal da feira que vinha de Santo Antônio dos Barreiros, São Gonçalo, vinham embarcado, de Macaíba, e faziam um ponto ali. Esse galpão era para proteger a mercadoria de lá e do dia da feira, a feira era ali no Passo da Pátria.No Passo da Pátria contava-se as casas que tinha, não era saneado, não tinha água, não tinha energia15, não tinha nada, tinha candeeiro” (Gonçalo Marques dos Santos, entrevista à autora em maio de 2006).

Entre os entrevistados, percebe-se que são os da Pedra do Rosário, os que mais guardam na memória informações sobre a antiga feira, mesmo que a tenham vivenciado já no seu período de decadência. O depoimento de Gonçalo Marques também se refere à percepção sobre a distinção entre os pedaços. Em primeiro lugar, o entrevistado descreve o limite da Pedra do Rosário até a localização do antigo galpão onde era feita a feira. E, ao falar “ali no Passo da Pátria”, o mesmo refere-se ao pedaço que neste estudo tratamos como Passo, demarcando claramente uma distinção entre os dois.

No mesmo local em que se situava o antigo galpão foi edificada durante a gestão do prefeito Djalma Maranhão, uma escola, onde se desenvolveu no Passo da

Pátria a campanha “De pé no chão também se aprende a ler16”. A escola, hoje,

chama-se Escola Estadual do Passo da Pátria, possui uma capacidade para 208 alunos e realiza o atendimento do ensino fundamental. Sob a ótica dos moradores, a escola é um marco divisor dos dois pedaços - Pedra do Rosário e Passo.

15 Alguns dados indicam a instalação da energia elétrica no Passo da Pátria no ano de 1932, ou seja,

anterior a chegada de seu Gonçalo.

16 A campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, do prefeito Djalma Maranhão foi realizada

entre 1960 e 1964. Utilizava o método Paulo Freire de Educação de Adultos, desenvolvido em várias regiões do Brasil, através dos movimentos de cultura popular. Através de campanhas, Dom Nivaldo

Durante o seu depoimento, Gonçalo Marques faz uma demarcação espacial entre a Pedra do Rosário e o Passo, tendo como referência a Escola Estadual do Passo da Pátria. O Passo é o pedaço que mais se assemelha às condições de vida da Pedra do Rosário, como, no caso, do tipo de construções e o tempo de moradia da população. O Passo, no entanto, é colocado na condição de desvantagem, pelos moradores da Pedra do Rosário, por estar interligado ao Areado. Para os moradores da Pedra do Rosário, o Areado e o Pantanal são “favelas”. A utilização do termo estigmatiza e atribui características negativas aos seus moradores; o que podemos perceber na fala de outra moradora da Pedra do Rosário, Antônia Silvestre:

“O colégio era o mercado, o resto era umas casinhas que tinha por dentro do mato, que era só capim. O pessoal andava dentro da lama, os casebres de taipa tudo dentro da lama, para passar tinha que colocar umas pedrinhas para ir de uma casinha para outra. Lá na frente não tinha nada, eram só estes casebres aqui. Aqui é Ocidental de Baixo e a gente chama Pedra do Rosário e lá chama o Passo [...] depois, é esse negócio de favela. Ali no Passo e naquela favela não tinha nada, aqui era bom, era bem tranquilo, aqui eu dormia de porta aberta. [...]Aqui não é violento não, se for possível a gente dorme com a porta aberta. Se eles não vierem de lá para cá, os daqui não mexem com a gente não, ali é muito violento” (Antônia Silvestre, entrevista à autora em abril de 2006).

As distâncias entre os pedaços são carregadas de conteúdos simbólicos, fazendo parecer longe os lugares que podemos alcançar caminhando em menos de cinco minutos. As entrevistas com os moradores da Pedra do Rosário demonstraram que a existência de um ambiente violento é atribuída ao Areado e Pantanal. Para estes, o elemento violência passa a fazer parte do cotidiano da Pedra do Rosário, na medida em que surgiram as “favelas”.

Os moradores da Pedra do Rosário utilizam o termo “favela” para estigmatizar o Areado e o Pantanal. Nestes pedaços existe a maior presença de habitações precárias e são os espaços considerados mais violentos, pobres e menos valorizados. O tempo de vida tranqüila e calma, na Pedra do Rosário, é considerado

passado, atualmente; “tudo está modificado”, como nos disse Maria das Dores Silva, moradora da Pedra do Rosário, desde 1946.

A circulação voltada para passeios e lazer ou práticas religiosas encontra outros circuitos da cidade, como a Cidade Alta, o Alecrim e bairros da Zona Norte. Pude perceber que o trânsito de moradores da Pedra do Rosário no Passo é muito pequeno. Na verdade, restringe-se a trajetos obrigatórios como a ida ao posto de saúde e ao mercado. A maioria dos moradores da Pedra do Rosário, até o início da implementação do Projeto Integrado do Passo da Pátria em 2002, nunca havia ido ao Areado e Pantanal.

Na Pedra do Rosário, ao final da tarde, a maioria dos moradores faz das suas calçadas, que às vezes, pode ser a linha férrea, um local de encontro entre parentes e amigos. De início, quando os moradores da Pedra do Rosário faziam menção ao fato de que ali todos se conheciam, além de informarem que diversos familiares também moravam lá, eu não podia imaginar o que isto significava. Na verdade, constatei que há uma rede de relações, cujo fundamento é a vizinhança e o parentesco.

Existem várias casas pertencentes a uma mesma família, na Pedra do Rosário. Quando os filhos se casam procuram residir nas proximidades, o que reforça os laços de amizade e vizinhança. Reforça também um sentimento do “gostar de morar” na Pedra do Rosário. Questionados sobre os riscos da convivência com o trem, ou sobre os problemas desencadeados pelas cheias do Rio Potengi, os moradores nos apontam seus mecanismos de proteção, ou seja, a precaução e a ajuda mútua entre os moradores, como atitudes que garantem a valorização positiva do lugar. Nas palavras de uma antiga moradora,

“Eu gosto de tudo daqui para lá, tudo é gente conhecido, eu conheço tudo daqui para lá e de lá para cá17. [...] Para lá18 é tudo uma coisa só. Aqui não, é tranqüilo graças a Deus. Eu dormia aqui de porta aberta. Para mim aqui foi o melhor lugar que eu achei de morar, tranqüilo, calmo, aqui não tem perigo não da gente morar aqui”(Antônia Silvestre, entrevista à autora, em abril de 2006).

Para descrever o Areado e o Pantanal, demarcar suas diferenças, os moradores da Pedra do Rosário enfatizam não terem conhecimento sobre quem são os outros moradores e somam a isto os acontecimentos relacionados com o exercício da violência no interior destes espaços, os quais são amplamente divulgados pela mídia. A relação com os moradores do Passo é mais próxima, e não incorpora a imagem de um lugar tão violento quanto os demais, mas o Passo é visto em desvantagem pelos moradores da Pedra do Rosário, já que se encontra interligado ao Areado que, por sua vez, é um dos caminhos para o Pantanal.

2.4 Passo: o segundo pedaço do Complexo Favelar do Passo da Pátria

As primeiras habitações do Passo surgem cerca de quarenta anos depois dos primeiros moradores se instalarem na Pedra do Rosário, por volta de 1950 (SILVA et

al., 1992, p.111). Assim como na Pedra do Rosário, no Passo, a maioria dos

moradores, ou são antigos residentes, que se estabeleceram há mais de quarenta anos, ou são descendentes dos antigos residentes. Uma das referências acionadas entre os moradores do Passo, para demarcar o que os distingue dos demais passava pelo relato da origem de suas casas, as quais foram reformadas e, segundo

17 Falava dos limites entre a sua casa e a Escola Estadual do Passo da Pátria. 18 Referia-se aos espaços depois da Escola Estadual do Passo da Pátria.

os moradores, tiveram sua ocupação legalizada através de um trabalho desenvolvido pela Arquidiocese de Natal, na década de 70.

Foto 09 – Primeiras habitações do Passo.