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Chapter 7. REFLECTIONS AND GENERAL CONCLUSION

7.3. ANALYTICAL CONTRIBUTION AND FURTHER REFLECTIONS

Por se tratar, na maioria dos casos estudados, de pessoas sem maiores refinamentos estéticos, o que Bourdieu chama de “gosto”, vê-se que os resultados encontrados quanto ao que se valorizava, em termos de arte, entretenimento, valores etc. não foram muito relevantes, ao ponto de revelar algo significativo que apontasse algum pequena revolução simbólica. Aparentemente, essas revoluções em que há uma re-significação da trajetória de suas vidas são mais propensas a acontecer em pessoas com uma escolaridade mais alta. Isso não pode ser

generalizado, mas, para os casos estudados, aqueles que tiraram alguma lição de vida dessa experiência são aquelas que têm maior escolaridade.

R.B. apresenta uma apatia tanto no que diz respeito ao recebimento do diagnóstico quanto após o transplante. Partindo do pressuposto de que “isso só acontece com os outros”, a forma de reagir ao problema de saúde é, aparentemente, bastante tranqüila. Essa convicção teve um peso tão significativo, que os transtornos psicológicos – encontrados em outros casos – não se manifestaram em R.B. nos levando a concluir que o que poderia ser interpretado apenas como uma reação narcisista, serviu como uma proteção contra a depressão que normalmente atingiria pessoas com problemas graves de saúde. Apesar disso, a apatia é o traço mais marcante de R.B.

J.I., o transplantado com condição social mais precária, além do já mencionado agradecimento que prestou à divindade, e à equipe médica, não apresentou uma quebra nas suas escolhas estéticas e sociais. A precariedade do seu habitus não lhe possibilitou maiores elaborações que fossem flagrantes o suficiente para identificarmos um potencial de mudança na sua maneira de ver o mundo.

A simplicidade de suas disposições e a escassez dos recursos materiais e simbólicos não lhe dotou de condições que diferisse da situação de alguém que apenas se recuperou de uma doença grave. Ou seja, “estar entre a vida e morte” não lhe trouxe alguma intuição forte o suficiente a ponto de modificar suas rotinas ou mesmo acrescentar ou desenvolver uma atividade que pudesse lhe trazer novas formas de relacionamento com o mundo social.

Isso não quer dizer que a cada nova experiência de ameaça causada por alguma doença as pessoas tivessem que tirar lições delas. O nosso interesse é saber se os indivíduos transplantados, que são produto do avanço tecnológico, teriam algum tipo de mudança significativa em suas disposições.

Ao que tudo indica a excepcionalidade de pessoas com mudanças drásticas de vida, tal como são relatados nos casos de “conversão religiosa” não é o mais comum para os casos encontrados em pessoas que passaram por dificuldades de saúde. Mudanças de disposições pessoais podem ocorrer em várias circunstâncias sociais. Identificá-las é, por sinal, a ambição de muitos cientistas sociais.

Além de nos ajudar a pensar de que forma as estruturas simbólicas do mundo social se integram à esfera individual, o conceito de habitus parte do pressuposto de que não podemos esperar que a forma de ser, socialmente erigida, seja bastante maleável, tal como pretendem certos os legisladores sociais.

Com exceção de F.L., os demais transplantados possuem um nível de escolaridade precário que, tendencialmente, limita as opções que essas pessoas têm, tanto no âmbito das relações de trabalho, quanto no que toca o perfil de suas relações pessoais. Novas atitudes, novas atividades que possam significar uma maneira diferenciada de se apropriar do tempo que o indivíduo recebeu com o transplante, é o que se esperava encontrar de pessoas que estiveram à beira da morte. Com o passar do tempo, as projeções individuais sobre como deveria ser o próprio futuro se estreitam.

Algumas ambições adiadas, no entanto, podem ressurgir após um período de crise pessoal. Em períodos sociais revolucionários, essas mudanças se dão com a liberalidade do clima social mais amplo. As revoluções sociais favorecem essas mudanças individuais. Porém, além do ambiente social favorável, outras condições devem ser obedecidas: a herança de seu grupo social de referência. Esses esquemas sociais têm a propriedade de manter certa constância no que será o conjunto de suas opções – em várias áreas de sua vida – e também o tipo de pessoas com que se relacionará. O habitus, neste sentido, indica que devemos nos precaver sobre os pressupostos sociais que possibilitariam reviravoltas nas suas estruturas cognitivas.

Os transplantados questionados estão enquadrados no perfil das pessoas que, aparentemente, não tinham grande preocupação com as transformações físicas naturais, que acontecerão a todas as pessoas que envelhecem. Mesmo nas pessoas que não foram transplantadas do coração, o perfil social de quem não atenta para as informações que circulam sobre os eventuais problemas cardíacos indica que a falta de cuidados, cujas informações circulam pelos meios de comunicação, como já mencionado, se concretiza numa ausência de planejamento e conhecimentos sobre si mesmo. Giddens menciona que a modernidade traria, para a esfera individual, a “política de vida”; uma apropriação do futuro, que seria uma tendência social cada vez mais crescente. Porém, isso não foi detectado nos casos estudados.

Assim, a ressurreição foi apenas no corpo, promovendo o prolongamento de suas vidas, com a exceção de F.L.. Percebemos, então, que não houve transformação no habitus a ponto de encontrarmos dentro deste público pessoas que se transformaram em ativistas políticos, artistas ou pessoas comprometidas com alguma causa que poderíamos considerar nobres.

No entanto, a pretensão do trabalho não é analisar o planejamento de longo prazo praticado por algumas pessoas oriundas de determinadas esferas sociais. O que queremos saber é se um momento de crise, a doença cardíaca grave, que exige recursos tecnológicos modernos, e a morte do doador, acarretaria alguma mudança na forma de se relacionar com o mundo social.