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6.3 Living with obesity – movements towards well-being

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. (Mário Quintana)

O desejo de compreender e colaborar para minimizar o adoecimento psíquico, adotando uma atitude de escuta sensível, consolidou-se com o ingresso na vida acadêmica. O curso da graduação em Psicologia ofereceu-me um suporte teórico e prático significativo. Mas sempre estive atenta aos possíveis desvios, quando percebia que o conhecimento dogmático do saber insistia na naturalização, normatização e generalização do comportamento humano.

As experiências adquiridas em disciplinas interativas, somadas aos longos momentos de reflexão e conversação com docentes e colegas estudantes do Curso, que ocorriam nos intervalos das aulas na Universidade, me ajudaram a vislumbrar novos caminhos no campo profissional, ancorados no semtimento de empatia nas relações afetivas, que constituem de fato uma rede de saberes interligados entre Saúde, Educação e Ação social. Nesse sentido o encontro com as histórias de vida mediante a leitura de autores como Marie- Chrsitine Josso (2004) veio fortalecer as minhas convicções:

Colocar em uma narrativa a evolução de um diálogo interior consigo mesmo sob a forma de um percurso de conhecimento e das transformações da sua relação com este, permite descobrir que as recordações-referências podem servir, no tempo presente, para alargar e enriquecer o capital experiencial. [...] Ao retornarmos os materiais da narrativa de formação sob o ângulo de um itinerário de conhecimentos, e, logicamente, de ponto de vista possíveis sobre realidades de vida, é possível ficarmos atentos aos registros desenvolvidos ou ignorados, aos interesses de conhecimento recorrentes e as valorizações orientadoras. Enfim, esse modo de reconsiderar o que foi a experiência oferece a oportunidade de uma tomada de consciência do caráter necessariamente subjetivo e intencional de todo e qualquer ato de conhecimento, e do caráter eminentemente cultural dos conteúdos dessa subjetividade, bem como da própria ideia de subjetividade (JOSSO, 2004, p. 44).

Após a conclusão do Curso de Psicologia, em Campina Grande/PB, o próximo passo foi realizar um estágio na área da Psicologia Hospitalar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em 1987, o Brasil vivia o período de descoberta da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA), mais conhecida no Brasil pela sigla AIDS. Nesse contexto, passei a compor o quadro de estagiários do hospital universitário para o atendimento aos pacientes portadores do vírus HIV. Naquele período, havia constante participação do grupo em reuniões de supervisão e estudos de casos. Aos poucos, percebi a necessidade de voltar o olhar para o processo educacional, assim como problematizar o trabalho escolar e a discussão do seu papel na sociedade frente à diversidade das demandas sociais.

O olhar sobre o processo educacional anunciava os meus interesse pela formação do ser e do desenvolvimento humano e da reflexão sobre o papel da escola no cenário da epidemia da AIDS. Naquela ocasião, ingressei no Curso de Especialização em Sexualidade Humana, na perspectiva de estudar a educação sexual nas escolas. Nessa perspectiva, seguia, de novo, ao encontro de reflexões acerca da estrutura e do funcionamento das escolas e dos projetos políticos pedagógicos que norteavam as práticas de ensino e gestão educacional para questionar: Onde está a emoção no processo de ensino e aprendizagem? Como o professor dialoga com as diferentes histórias de vida dos alunos? Como falar de prazer, emoção e sentimentos na sala de aula? Qual o papel da escola na educação para a sexualidade e afetividade? Esses tantos questionamentos provocaram o meu estudo sobre a Educação Sexual nas Escolas.

O importante é que os meus projetos de vida pessoal se entrelaçavam aos projetos profissionais. Em meio a essas tomadas de decisão, casei e fixei residência em Natal-RN, local em que meu marido desenvolvia suas atividades profissionais. Logo, tomada pelo sentimento de quem desejava concretizar seus sonhos, procurei realizar meus projetos sobre Educação Sexual nas escolas da rede pública da Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Desportos do Estado do Rio Grande do Norte.

Uma das fases mais significativas de minha vida foi o trabalho realizado nas escolas públicas com professores, equipe pedagógica e alunos, pois me fez acreditar novamente nos sonhos e no investimento em estratégias educativas, para enfrentar os desafios da formação de profissionais e gestores públicos de diversas áreas – Saúde, Educação e Assistência Social - assim como com a comunidade escolar: professores e familiares, crianças e adolescentes.

pensar freireano a partir do livro Pedagogia do oprimido (FREIRE, 1987). Estudar essa obra foi uma experiência apaixonante. No encontro com suas ideias, que propõem uma práxis a favor da vida e da liberdade, encontrava a minha própria práxis. Destaco a afirmação insistente de Paulo Freire (1987, p. 102), que marcou minha forma de perceber a formação humana: “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação- reflexão”.

Nesse contexto, descobri, para além do papel de psicóloga, a minha função de formadora junto à comunidade escolar. As interfaces entre a Psicologia e a Educação foram sendo ampliadas, gradativamente, durante a minha trajetória profissional. Porém, mobilizada pelas ideias de estabilidade e segurança profissional, me inscrevi e fui aprovada no concurso público para o Tribunal Regional do Trabalho (TRT). Ao ingressar no serviço público federal, em 1993, fui lotada na Junta de Conciliação e Julgamento numa cidade do interior do Rio Grande do Norte. Sem conhecer exatamente quais seriam minhas atribuições, fui me apropriando delas aos poucos com os colegas que orientavam o meu fazer nas rotinas administrativas. Depois dos primeiros dias de trabalho, senti-me aprisionada em uma pequena sala sem luz e sem brilho, atrás de um pequeno balcão improvisado, realizando procedimentos burocráticos de carimbar processos e acompanhar a juntada de documentos aos autos.

Essa mudança abrupta, que provocara uma ruptura em minhas atividades profissionais, serviu de mote inspirador para buscar, naquele cenário de trabalho, o sentido de minhas atribuições como servidora pública e que pudesse está alinhada à minha formação acadêmica. Assim, passei a trabalhar no Serviço de Pessoal, na Seção de Recursos Humanos, para atuar junto ao Programa de Capacitação. E nessa complexa trajetória de formação profissional, não poderia deixar de incluir esses diferentes momentos que hoje considero como experiências formadoras (JOSSO, 2004), na medida eles se inscrevem num recorte dinâmico de minha historicidade, e contribuíram para dar sentido às inquietações que culminaram com esta tese e a busca da compreensão dos distintos modos de estar no mundo.

Em 1997, solicitei afastamento temporário das minhas atribuições no TRT, atendendo ao convite do Fundo de População das Nações Unidas para coordenar o Projeto de Estruturação do Núcleo de Educação Sexual no Rio Grande do Norte. Esse projeto me possibilitou o estudo e a discussão dos desafios de implementar ações de formação e intervenção social com estudantes da rede pública, tendo em vista a promoção da saúde sexual e reprodutiva no Estado.

Como resultado dessa experiência de aproximadamente 04 (quatro) anos, colaborei na implantação de uma Organização Não-Governamental, a ONG Canto Jovem, na

condição de presidente, por duas gestões administrativas, de 1999 a 2004. Outra fase importante da minha formação foi quando assumi a presidência do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, em Natal-RN, período em que me envolvi com a militância pela defesa dos direitos da criança e do adolescente, unida à entrega amorosa da participação social, mediante atividades socioeducativas e artísticoculturais, com foco na discussão e intervenção em políticas públicas. A vivência nas situações formativas da ONG Canto Jovem me propiciou experiências marcantes, advindas de atitudes conduzidas com muita emoção na escuta sensível, amorosa e acolhedora dos que participavam daquela ONG.

As oficinas de arte e cultura - dança, teatro, música, desenho e pintura - promoviam aprendizagens múltiplas e a integração entre colegas, profissionais, gestores e a família, mediante o diálogo, a convivência, a busca de novos saberes e práticas. Foi um período de intensa atividade, sobretudo aquelas que envolviam as Mostras de Arte e Cultura. A primeira edição dessa Mostra, em 2001, realizou-se na Fundação José Augusto (FJA) e contou com o apoio do artista plástico Pedro Pereira que realizava, na FJA, cursos de pintura para principiantes, antes de ter sido acometido por um acidente vascular cerebral que o deixou em cadeira de rodas. Mesmo com limitações na fala e nos movimentos, o artista continuava a nos ensinar como reinventar e ressignificar a vida. Sua trajetória com a arte o ajudou a continuar „pintando‟ a vida e superando os obstáculos com alegria e esperança.

Nessa travessia, pude partilhar de Encontros Municipais de Adolescentes (EMA‟s) e dos Encontros Potiguares de Adolescentes (EPA), que reuniam cerca de 600 (seiscentos) jovens, por ano. Verifiquei, ao analisar as narrativas dos adolescentes sobre suas vivências, o desejo que eles tinham de participar, falar, propor, contribuir e somar esforços numa ação ativa e comprometida, capaz de garantir espaços democráticos de manifestação e inclusão da sua voz como sujeitos de direito. Essa reflexão resultou na publicação de um artigo (MENDONÇA, 2005) e outras formas de registros dessas atividades em outros veículos de comunicação.

As experiências de atuação na ONG Canto Jovem me propiciaram novos saberes e fortaleceram o meu desejo de trabalhar com práticas de formação, pautadas em processo que conduzissem ao empoderamento e à emancipação das pessoas em formação (profissionais e jovens). Por outro lado, essas experiências também me ajudaram a conjugar o debate junto às instâncias de proposição de políticas públicas com os pressupostos freireanos por uma pedagogia da autonomia e por uma educação como prática da liberdade (FREIRE, 2001; 1996).

O meu envolvimento com os movimentos sociais resultou na minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação de Psicologia da UFRN, em que analisei os programas de formação para jovens nos serviços públicos e nas organizações sem fins lucrativos (MENDONÇA, 2005). Ao longo desse estudo pude constatar que havia ainda muito o que aprender, pesquisar e conhecer sobre a formação. Comentário como o da adolescente Gabriela, participante da pesquisa, me levaram a pensar uma prática de formação que levasse as pessoas a se apropriar de se sua história na luta pela paz e por um mundo mais justo:

O que ficou é que devemos praticar a paz, começando por nós mesmos, porque é a partir de mim que minha casa pode mudar, minha rua, meu bairro, minha cidade, nosso Brasil e nosso mundo. O homem que morre lutando é um vencedor, você também pode! Não podemos apenas falar ou escrever, precisamos praticar. (GABRIELA, apud MENDONÇA, 2005, p. 149).

Em 2004, após o período em que estive à disposição do Projeto de Estruturação do Núcleo de Educação Sexual na Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte, com o apoio do Fundo de População das Nações Unidas, voltei à Seção de Recursos Humanos do Serviço do Pessoal do TRT.

Em 2006, com a criação da Escola Judicial, destinada à formação continuada de magistrados e servidores, passei a fazer parte da equipe pedagógica da Escola, a qual passou a agregar todas as ações de capacitação do TRT.

Ao revisitar e compartilhar, neste capítulo, as minhas memórias, vivenciei momentos de reflexão retrospectiva e prospectiva que me propiciaram a tomada de consciência de instantes no meu percurso que me fizeram optar pelos referenciais teóricos e métodos utilizados nesta tese. Desta maneira, fui tecendo novos laços entre a minha formação acadêmica inicial e a minha formação profissional ao longo de minha vida, o que me levava a reafirmar minha maneira de pensar a formação, ancorada nos referenciais teóricos e políticos aqui adotados. Em 2008, decidi então retornar à Universidade Federal do Rio Grande do Norte como aluna especial do Programa de Pós-graduação de Educação (PPGEd-UFRN) com o firme propósito de dar prosseguimento aos meus estudos pós-graduados.