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6.2 Living with obesity – in a biomedical and socio-cultural context

O pensamento de Bachelard (2001, p. 24), que inaugura este capítulo, nos diz que “Devanear é sonhar os sonhos de uma vida feliz, onde há ternura, doçura, ventura, cantos e encantos”. Nesta tese, razão e emoção, cantos e encantos caminham juntos na proposta de pesquisa e no esforço de escrita para dar visibilidade aos achados deste estudo. Ela é fruto do entrelaçamento de fios que fui tecendo em meus intinerários de vida, tais como as vivências de formação lúdica e acolhedora na infância e adolescência; meu percurso por entre movimentos sociais em defesa do sujeito de direitos; minha trajetória como servidora pública e como pesquisadora-formadora na escuta atenta dos meus pares servidores públicos; meu caminhar na construção de saberes mediados por colegas do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN, mas, essencialmente, as minhas incursões no mundo da formação profissional na Escola Judicial.

Escrevo minhas memórias para compreender como o meu processo formativo foi sendo construído ao longo do tempo, como fui alimentando o desejo de tecer com fios autobiográficos a formação profissional numa Escola Judicial. De acordo com Pineau (2001, p. 347), “há necessidade do pesquisador-formador ter feito a sua historia de vida, antes de acompanhar outros a fazê-lo”. Assim, ouso elaborar uma síntese autobiográfica na tentativa de evidenciar marcas que atestam o meu bem-querer com a vida e com o outro. Nasci no interior da Paraíba, na Serra da Borborema, em Campina Grande, filha de uma piauiense e um cearense. Meu pai, homem simples e humilde, viajava pelo Nordeste do país no ofício caminhoneiro. Foi assim que ele conheceu minha mãe na cidade de Teresina. Trago comigo as lembranças das histórias contadas em família sobre outro ofício do meu pai, que como representante comercial, continuava como viajante a desbravar o Nordeste. Casaram-se em

chão paraibano, na cidade de Campina Grande, onde instalaram um comércio, fixaram residência e se tornaram pais de sete filhos. Assim como meus outros seis irmãos, estudei e me formei em Campina Grande.

Destaco em meus pais o seu caráter ético, humano e honesto, que me deixaram como legado. Com eles aprendi a importância da dedicação à família e ao trabalho. Trago na memória as lembranças de minha mãe que, mesmo com seis filhos, decidiu ingressar na univeridade e concluir o curso de Direito. Hoje, reconheço o seu esforço para superar os preconceitos da época contra a mulher que desejava conquistar a formação superior, sem descuidar da educação dos filhos e da rotina doméstica. Recordo, ainda, dos momentos em que a acompanhava nas salas de aula do curso supletivo, de seus cadernos organizados e caprichados, que eram solicitados pelos colegas da turma para copiar as matérias nos dias que antecediam à prova. Essas vivências influenciaram, de forma significativa, a minha carreira profissional.

Estudante em colégio religioso, alternei as atividades educativas no ensino formal com as aprendizagens informais adquiridas nas experiências do brincar, desenhar, jogar, criar e representar. A minha participação no Grupo de Jovem do Colégio foi marcante para minhas reflexões sobre as questões existenciais e sociais, pois despertou em mim o gosto pela convivência com meus colegas. Esse convívio despertou em mim a liberdade de me expressar e de manifestar minhas convicções diante deles. Aos poucos, fui elaborando meu projeto de formação profissional.

A escola representava um misto de alegria e de sofrimento. A alegria de conviver com os colegas, nas rodas de conversas, nos lanches compartilhados, nas brincadeiras no recreio, nas atividades esportivas, nas comemorações e festividades temáticas. Por outro lado, o esforço de adaptação advindo das regras rígidas, das exigências e cobranças escolares e da relação, muitas vezes distante, entre professor-aluno. Enquanto isso, tudo se transformava ao mesmo tempo: o corpo, os desejos, os sonhos e os projetos.

Mais tarde, refletindo por outros olhares, compreendi o rigor do processo ensino- aprendizagem vivido na infância, a divisão das disciplinas e a atuação rígida dos professores no ato de transmitir informações. Os conteúdos transmitidos, aplicados e memorizados em sala de aula eram exigidos para validação do conhecimento apreendido. O ensino nas escolas brasileiras, no contexto político brasileiro na década de setenta e oitenta era pautado pela visão “bancária” da educação, conforme afirma Freire:

Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante. Em lugar de comunicar-se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a

concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que

oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-

los. [...] Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que

se julgam sábios aos que julgam nada saber (FREIRE, 1987, p. 58).

O pensamento de Freire traduz, com propriedade, um longo período do sistema educacional no país que, felizmente, tem se transformado nos últimos anos para dar espaço a concepções com foco mais interacionistas e construtivistas.

Sem tomar consciência dos defeitos do ensino “bancário” que vivenciei ao longo da vida estudantil, a escola era para mim um cenário que despertava múltiplos sentimentos e emoções. Costumava circular pelos corredores da escola, em certas ocasiões, encantada com a estrutura grandiosa do prédio, do pátio, da capela, da cozinha. Mas havia, um lugar muito especial para mim: o pequeno jardim, ao lado das salas de aula, lugar preferido para brincar e reunir as amigas durante o recreio. Em relação às saudades desse pequeno jardim, aproximo essa sensação do pensamento de Rubens Alves:

Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. [...] Onde uma Meninazinha, ou branquelinha brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. [...] O jardim é um agrado no corpo. Nele, a natureza se revela amante... E como é bom! (ALVES, 2010)

Essa bela descrição comunga com aquele pequeno jardim da escola que representava um espaço de encontro com colegas, com o ambiente da escola e com minhas reflexões. No meio desse espaço, continuava encantada com as brincaderias do faz-de-conta, desfrutadas durante o horário do recreio, quando era permitido jogar, conversar e compartilhar histórias. Esse compartilhar das histórias de vida dos meus pares – colegas de sala de aula e do grupo de jovens – despertou o meu interesse pela escuta sensível do outro.

Em 1983, ingressei no Curso de Psicologia, da Universidade Regional do Nordeste – URNe. A escolha por essa carreira profissional determinava o desejo de cuidar do outro, de mediar de forma dialógica as relações sociais e de aprimorar o meu gosto pela escuta para compreender os processos de construção da subjetividade.

Ao sintetizar esses fragmentos de minha história, percebo que tais cenários do passado serviram de pistas e dispositivos para suscitar sonhos e projetos futuros. Como destaca Melo (2008), cada um de nós traz da infância boas recordações, belas histórias de contos de fadas, cujas simbologias e analogias tinham uma função educativa e moral, na medida em que essas narrativas transmitiam valores que se relacionavam diretamente com o contexto vivido.

Com essas reflexões, compartilho os fundamentos teóricos da abordagem biográfica apresentados por Peter Alheit e Bettina Dausien (2006), no artigo “Processo de formação e aprendizagens ao longo da vida”, em que evidenciam os seguintes aspectos

Somos quase tão inconsciente do modo que temos de aprender, quanto do fato de respirarmos. Certametne aprendemos na escola e também na universidade e nos estabelecimentos de formação, mas mesmo nesses lugares instituídos de formação e de aprendizagem, o que aprendemos de verdadeiramente importante, frequentemente, não tem nada a ver com os programas oficiais. [...] Aprendemos e nos formamos nas conversas com os amigos, assistindo à televisão, lendo livros, folheando catálogos ou navegando na internet, tanto quanto quando refletimos e quando fazemos projetos. Pouco importa se essa maneira de nos formarmos é trivial ou requintada: não podemos alterar o fato de que somos aprendentes “no longo

curso” da vida. (ALHEIT; DAUSIEN, 2006, p. 177).

O que nos acontece em nossas vidas representa parte da matéria de que fomos construídos. Esse retorno a trechos de minhas travessias recupera experiências vividas, reencontros com pessoas e fatos marcantes, que constroem os nós das relações e das escolhas realizadas em diferentes contextos da formação e da prática profissional.