Para Eudoro de Sousa a Cultura é o outro nome dado para o Projecto que constitui a realidade do Homem no Mundo, este contexto requer pensar uma estrutura mítica composta de arquétipos, cujas bases primordiais simbólicas de «Dramas», «personagens», «cenário», «palco», etc., são componentes de uma metáfora,”254, ou ainda, de mitologemas que estruturam a relação cosmogónica e antropogónica: «O Grande Teatro do Mundo» e vulgarmente se diz que tudo e todos nós desempenhamos nosso «papel» na vida que vivemos no Mundo,”255.
Mas qual a verdadeira interferência deste Grande Teatro no Mundo? O Teatro como aperfeiçoamento da imperfeita condição do mundo levará a que este tenha outro valor atribuído pela arte da poiésis. Confirmamos um teatro que manifeste a sua actuação consecutiva em lugares onde o palco e a plateia vem a ser um mundo de encontro entre drama narrativo includente.
A diversidade dos dramas representados num teatro que venha a ser mundo, e não em teatros que estejam no Mundo, diversifica mundos, diversifica-nos a nós que neles, de cada vez, vivemos uma vida diversa, de diversidade irredutível à dos dramas que se representam em teatros que estão no Mundo 256. Esta variação de teatros e mundos, ao diferenciarem-se uns dos outros, cria a possibilidade de variar os actuantes, enquanto pontifex entre mundos, ou da persona dramatis que desempenha o seu papel na acção do
254 Eudoro de Sousa, Mitologia, História e Mito, parágrafo 22, p.110 255 Idem.
teatro. O que nos importa aqui, é de facto, a ideia de «teatro que venha a ser mundo» e que actue na constituição do triângulo entre homem, mundo e cultura. Eis o projecto que se distancia da separatividade diabólica, encontramos a afirmativa de Eudoro de Sousa daquilo que no “teatro é eminentemente simbolizante; portanto, descoisificante.”257
. Considerando que as «coisas-só-coisas» num «Mundo ametamórfico» está entregue à diabólica separação de meros objectos estanques, a precisa solução realizar-se-á pelo simbólico em conformidade com os “dramas rituais e para a grande metamorfose do teatro”258
. Como manifestar e integrar estes aspectos na Cultura? Na relação humana com o mundo?
Possibilitar este impulso mítico, unitivo e simbólico da substância da organicidade pelas metamorfoses é realizar o projecto da cultura. Para Eudoro de Sousa, o Projecto entrelaça homem e mundo, num estado de acção e disponibilidade para acontecimentos, cujas manifestações de expressões míticas determinadas pelo Projecto que ganha um sentido subjectivo para este autor: “possa ou não possa ele passar por nós com o nome de Cultura – Cultura envolvida e ocultada por suas manifestações, tal como homem e mundo envolvem e ocultam o Projecto que os instaura –,”259.
Mas, afinal, em que consiste, em termos reais, o Projecto–Cultura? Quais as suas implicações no percurso histórico da vida humana? Se o lógico está para a determinação plausível da realidade cognoscível do Projecto, o mito-lógico revela as raízes profundas da Cultura, e, assim, o jogo das actuações do Homem no cenário do Mundo depende da narrativa mítica; “Um mito, como narração, é espécie do género da literatura oral ou escrita,”260. O celebrar do rito e mito na instância de seu testemunho escrito perfaz em poesia o sentido de sua realidade mítica. Terão o mítico e o poético a capacidade de reunir e sintetizar as várias culturas que contribuam para complexa relação do Homem e Mundo? Encontramos em Eudoro de Sousa algumas confirmações que ajudam ao entendimento destas interrogações, como esta relação antagónica e ao mesmo tempo de complementar e de inegável presença na repercussão histórica deste Projecto, que projecta a chamada Cultura:
257
Eudoro de Sousa, Mitologia, História e Mito, parágrafo 23, p.111.
258 Idem.
259 Ibidem, parágrafo 7, p.32. 260 Idem, parágrafo 9, p.34.
à existência histórica tenham vindo culturas inegavelmente adversas ao seu mito, nas quais, por conseguinte, ao «mítico» se contrapõe o «lógico» e ao mito se opõe uma verdade tanto mais verdadeira quanto menos comprometida com o tão muito ou o tão pouco mítico que lhe oferece a poesia, em qualquer de suas dimensões artísticas.261.
Talvez a Cultura tenha ao longo do percurso humano no planeta ocultado na sua dimensão mito-poética o sentido e a verdade mais profunda do próprio ser e do existir. Mas a história cronológica nem tudo assimila, pois do visível ao invisível, e entre o lógico e o mítico haverá sempre lacunas de cifras, quiçá indecifrável perante o problema que sempre se coloca: “Como pode o mito configurar a cultura que manifestamente o recusa?”262. Como já foi visto, em Eudoro de Sousa, esta recusa vem do próprio homem que recusa a si mesmo, ou ainda, recusa o próprio mundo que habita, e assim busca o novo plano de cultura para a constituição de seu outro mundo: “«o plano» do traçado, o que designa cada traço [cultural] a sua posição, de modo a configurarem-se, todos eles, em ‘cultura’, num ou noutro tipo de relação entre ‘homem’ e ‘mundo’ – é mito»263
.
Se a Cultura que coordena o espaço da relação entre homem e mundo na linha da base é mito, requer ser tratado pela Mitologia que na sua origem também é poesia. Contudo, a Cultura aqui é Projecto na instância de jogo que age por leis que transcendem a liberdade dos actuantes que representam seus papéis no teatro do mundo: “Não se sabe da existência de um Projecto quem de nenhum modo veio a saber que foi jogado em jogo cujas regras nem ele nem outro de seus parceiros inventou264. Mas então quem, ou qual fenómeno cria e determina as leis deste jogo cosmogónico e antropogónico? O encontro com mesageiros, deuses e naturezas que se manifestam no mundo do homem e este assim estabelece o jogo diante do Projeto (s) da Cultura (s): “O triunfo da Cultura sobre as culturas já se encontrava incluso no Projecto – o mais recente de todos os Projectos, mas não o único Projecto, esse seria o único, só pela ausência dos deuses”.265
261 Eudoro de Sousa, Mitologia, História e Mito, parágrafo 10, p.34. 262
Idem.
263 Ibidem, p.34-35.
264 Ibidem, parágrafo 16, p. 39-40. 265 Ibidem, parágrafo 17, p. 40-41.
O sentido cénico, cujas narrativas são representadas no mítico teatro do mundo? A Natureza? A Divindade? Um Agente Demiúrgico? Haverá um limite e limiar de liberdade humana para o actuar diante de uma mensagem?
Parece que a dialéctica entre-mundos, de homens, deuses e naturezas promove uma síntese relacional precisa de mediação que os representa: “Porque já não é um deus, entre outros, aquele nexo entre homem e mundo (…) Se um deus efectivamente os correlaciona? Se um deus intervém como persona dramatis,”266. É nesta representação da natureza que se dispõem os deuses na dinâmica entre o homem e o mundo estabelecendo a Cultura.
Contudo, vemos que o complexo emaranhado da Cultura leva para outros horizontes do discurso mítico, que precisa ser revisitado, quer seja pelas actuações no contexto da vida em seu palco representativo, quer seja nas profundezas da alma humana conforme os conceitos de Eudoro de Sousa: “De qualquer modo, quanto a Projecto, Mito, (impulso) Mítico, Cultura, Drama, jogo e outras que ainda esperam a oportunidade de se intrometer neste entrecortado discurso,267.
Encontramos em Eudoro de Sousa duas distintas definições do mito: “Na verdade, «mito», umas vezes se refere a um relato mítico, outras vezes, ao impulso para criá-los, (…) basta escrever ou falar de impulso mítico, ou de mito, conforme for o caso”268
. Portanto, as raízes mais antigas de qualquer mito estão no próprio impulso mítico criador de mitos que em última instância deverá ser considerado a Arché, princípio e origem, também dos arquétipos e símbolos que nos leva a tratar das relações entre a imagem e movimento e a linguagem da estrutura original.
O problema da precedência do mito em relação ao rito ou do rito em relação ao mito, ou, ainda, ao da necessária conexão entre ambos -, diria que um ritual comprovadamente desligado de qualquer mito bem pode ser, ele mesmo, o mítico expresso em actos que dispensam a mediação da palavra, o que, aliás, muito compreensível se torna, por analogia com as artes. Só a poesia é linguagem em sua expressividade original. O mito é uma entre outras expressões do mítico,269
266
Eudoro de Sousa, Mitologia, História e Mito, parágrafo 17, p. 40-41.
267 Idem, parágrafo 19, p. 42-43. 268 Idem, parágrafo 12, p.36. 269 Idem, parágrafo 12, p.36-37.
A precisa relação entre mito e rito, ou fora desta dependência, o mítico impulso do ritual caracterizado como arte, transcende a dual relação anterior, e é também superado pela poesia que acede a expressão original, o Arché? A poiésis como origem da criação manifesta na linguagem poética o seu estado mítico? Se estas questões forem respondidas na e para a constituição do Projecto da Cultura, o simbólico é concretizado em criação cosmogónica, de contrário, poderá decair para uma catábase, ou ainda na catástrofe do abatimento dos vértices do triângulo sobre a base. Até aqui foi possível chegar a definir quais as principais influências que o impulso mítico apresenta pelo retorno do simbólico, a precisa mitologia que se estabelece no projecto que possibilita a constituição da cultura na criação de um teatro que se faz mundo. No próximo tópico trataremos da dualidade do simbólico e o diabólico na fragmentação entre o homem e o mundo no problema do afastamento da Natureza.