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Legalisme

In document Opprør og opposisjon (sider 54-57)

As diferentes categorias dos deuses do paganismo, ligados aos elementos e reinos naturais que os ocultam, desvelam-se na paisagem do mundo pela substância da Natureza de Deus. Portanto, de acordo com a Mitologia de Eudoro de Sousa “A morte dos deuses desoculta mundos que neles se ocultam.”299

. Distante da Natureza, no homem elabora o seu mundo com a impossibilidade de retorno para o contacto com a vida primordial; “A morte de Deus não desoculta mundo, dá forma, que parece definitiva, ao Homem, que já tinha começado a construir o seu Mundo, com os destroços do mundo em que se recusara a viver;”300

. Compreendemos este Deus\Natureza que substancialmente morre, de pouco em pouco, para que o humano utilize este corpus Natura como matéria-prima para os objectos da construção de coisas que perfazem o seu mundo. Deus e Natureza fazem parte de triângulos opostos complementares, se a Natureza está no ápice do triângulo acima, Deus está na ponta para o mesmo triângulo voltado para baixo: “Deus é Excessividade Caótica, o Excesso que vem subindo do abismo sem fundo”301

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Por não poder mais voltar a Natureza/Paraíso, o humano aposta na conquista de refazer a paisagem natural como condição de implantar no seu mundo o deicídio cosmogónico; “acabaria, não por regressar ao Paraíso por Deus plantado, mas por ingressar no paraíso que estava em vias de edificar”302

. Contudo, se a vida humana depende indubitavelmente da Natureza e a morte de Deus\Natureza acabará por levar ao próprio extermínio humano, pelo esgotamento dos recursos naturais ou na ausência da qualidade dos mesmos pela obra humana no seu mundo. Em conformidade com este pensamento Eudoro de Sousa reflecte que; “A morte de Deus também se faz mundo, mas só através da operosidade humana. Morte de Deus é vida do Homem, e este é que morre para dar vida ao Mundo. Do Deicídio, passa-se ao Homicídio.”303

Qual a resolução simbólica e saída deste jogo diabólico que se pôs na jornada da existência humana no planeta? A presença humana encontra-se encerrada na base do

299 Ibidem, parágrafo 28, p. 51. 300 Idem. 301 Idem. 302 Idem. 303 Idem.

triângulo, à sua frente o mundo das coisas, neste vértice consumindo os objectos artificiais produzidos pelo humano; por outro lado, na linha diagonal acima, o ápice do triângulo se distancia cada vez mais deste Deus/Natureza e ao mesmo tempo não consegue subsistir para o seu mundo; “Nenhum artífice vive dentro de sua obra, enquanto obra. Pelo menos esta, a construção do Mundo, é das que nunca se darão por terminadas. Homem não habita Mundo que é sempre um «a fazer»”304

.

Se a interminável obra é o mundo mantido pelo homem, finito são os seus recursos sustentáveis para mantê-la, a si e aos demais, que ilusoriamente pensam em usufruir de um produto ao seu dispor, mas na verdade o homem, como obreiro ao compor este mundo de sua obra, fica à parte, impossibilitando de estar nela, assim permanece excluído de sua própria composição; “mortificante trabalho de construir o Mundo, em que ele efectivamente não vive. O Homem não vive no Mundo, mas diante dele, fora dele.”305.

É neste estar fora do mundo, desde, por exemplo, uma cidade até paisagens naturais, que se possibilita ir à busca de outras naturezas, de deuses mensageiros, em alguns intervalos de mundos, saindo da base do triângulo ao encontro de representações oriundas do ápice, e assim entra no diálogo e confronto com a própria Natureza e mito:

Um deus é parte daquela parte do todo que se derrama pelos flancos da montanha, é o fogo que se extingue nas lavas que se alastram pelos longos da planície inerte e nela se vão erguendo, como se estereograma fossem de uma linguagem só decifrável como o falar de um mundo, tentando desvendar o mistério da sua origem, tentando dizer quem é ou o que é o deus que nele se oculta. Mito é isso, ou nada é.306

Se a totalidade da natureza de um Deus uno é representada por múltiplas partes que são deuses, é importante repensar o mundo natural que cada deus oculta, e aquilo que a imagem da narrativa da mitologia revela, quer pela alegoria, quer pela tautegoria. A relação complementar do que deus é, quando se mostra ser no seu excesso para a criação de um mundo, revela a derradeira função da mitologia:

304 Idem.

305 Idem.

O decisivo, em mitologia, não é banir o alegórico. É fazer que no állo (outro) se mostre o tautó (mesmo). «Um deus é semelhante a Deus» quer dizer: em qualquer dos deuses de que a mitologia fala, vê-se uma imagem de Deus, quando se queira ver o que acima se disse – um deus excede-se, sempre se excede, e o excesso é mundo. Mundo é obra da excessividade divina: todo e qualquer mundo é divino por excesso307.

Considerando que a criação de um mundo é realizada a partir da Excessividade Caótica da natureza de Deus, o corpus do excesso da divindade cosmogónica mantém a unidade de vida para o mundo. Como é que se vincula a relação humana com este mundo? Qual é a articulação antropogónica diante do mundo que oculta um deus e inabita o homem?

A morte ou o ocultamento protomórfico de deus para o nascimento do mundo, a partir “da vida do deus que lhes deu a forma de mundo, ou antes, da sua morte por extinção do fogo; que era necessário que ele se extinguisse para que mundo houvesse.”308

. O homem também se posiciona, como actuante da obra, mantenedor do mundo co-criado por si através da substância divina da natureza, de que ele se distanciou para construir o seu próprio mundo, contudo; “ele não pode construir o Mundo senão à custa da destruição da Natureza; mas, se a destrói, a si mesmo o destrói. Aí está o trágico, no limite de uma operosidade que não quer saber de limites.”309.

Sem muitas alternativas para as possíveis saídas deste jogo entre homem, mundo, deuses e naturezas, resta à presença humana superar a sua própria experiência ontológica e alcançar o apelo do “impulso mítico, criador de mitos, tão tautegóricos quanto o impulso, não dispensa a alegoria, não dispensa que se diga uma coisa que outra quer dizer.”310

. Esta ultrapassagem, de superação ontológica, segue a criação da poíesis? Será a arte poética a mediadora deste exceder o limite do ser?

O homem, ao distanciar-se da sua obra, ou seja, da realidade produzida que já não é o seu mundo, busca outros mundos ou procura a nova mensagem na divindade pela sensibilidade da natureza. Através do impulso mítico criador das metamorfoses e cosmogonias, ou catábases, estabelecendo uma relação transpessoal, isto é, arquetípica,

307

Eudoro de Sousa, Mitologia, História e Mito, parágrafo 29, p. 53.

308 Idem.

309 Ibidem, parágrafo 31, p. 54-55. 310 Idem, parágrafo 29, p. 53.

entre homem, mundo e divindade pela seguinte condição expressa por Eudoro de Sousa: “na operosidade humana se reflectiria a criatividade divina. Na poiesis estaria a razão de semelhança. A imagem do Deus-Poeta é tanto ou mais antropomórfica quanto era, por exemplo, a estátua criselefantina de Atenas do Pártenon.”311

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Esta função demiúrgica do Poeta que se apresenta como mediador de entre-mundos, aquele que faz linguagem que não é somente a sua, pois ao ser o intérprete da natureza, afasta-se da própria presença humana, atento aos sinais, descodifica as mensagens da divindade, e assim segue o seu desígnio, o de ser instrumento das musas da memória, desta e para esta experiência da jornada da alma, trazer a palavra da suprema arte ao mundo humano.

Tragicamente cindido, separado da Natureza, permanecerá sem sentido de existência, mesmo que o meramente homem viesse a ser Homem criador do seu próprio Mundo, não consegue dar lugar, função e significado à Divindade perdida, como tão bem esclarece Eudoro de Sousa: “O homem que veio a ser Homem, nem por crer que poderia ocupar o posto vago da Divindade se desprendeu da Natureza;312. De facto, não teria meios para estar diante de tal lugar, quer por não ser este o seu devido lugar, o da Divindade que está além de sua representação simplesmente humana e mortal, o da Natureza que nenhuma representação de imagem da figura pessoal possibilitar-se-ia revelar diante da subjectiva e relacional condição com os entes não humanos, ou seja, de elementos e reinos que constituem a paisagem do ambiente natural. Neste subcapítulo tratamos do tema; «O Humano no Mundo entre Deus-Deuses e a Natureza», e nele foi possível problematizar a estreita relação e as diferenças entre estes seres que estabelecem um contacto de comunicabilidade, seja pela presença de aproximação mítica seja pela linguagem que remete para a poiesis, é o que veremos no próximo tópico a seguir.

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