O Grupo de São Paulo representou um momento privilegiado do pensamento brasileiro, e um diálogo profundo, um reconhecimento de estreito parentesco espiritual entre pensadores dos dois lados do Atlântico, cuja pátria maior foi um certo modo de fazer filosofia: o que nela vê o antigo caminho órfico-pitagórico- platónico, que humildemente ouve o deus, celebrado em Delfos458.
Na terceira parte desta tese defenderemos a presença de elementos mito-poéticos relativos ao tema do transpessoal, de uma psicologia arquetípica com profundas bases de princípios filosóficos e mitológicos cuja experiência escrita da poeta Dora Ferreira da Silva resgata a cultura através do universo simbólico. Nas suas raízes mais profundas, da própria vida e da alma humana, elementos e reinos da natureza até à condição planetária descritos por uma linguagem com características da espiritualidade ecológica pela vivência humana, por vezes pela mística cristã e noutros textos através da mitologia e cultura grega. Trataremos de responder a algumas questões tais como: Que relação terá o impulso mítico com a epifania poética? Como ocorre a sua expressão escrita na relação fenoménica inter-subjectiva?
Cabe aqui novamente ressaltar a importância da Mitologia relatada na origem da Poesia e interpretada pela Filosofia na compreensão da Psicologia das profundezas. E será nesta e através desta articulação que iremos confiar o percurso de investigação uma vez que, até agora, nos tem remetido sempre às mais profundas origens, aos arquétipos primordiais da alma humana, isto é, da experiência do divino pela Natureza.
Uma análise do impulso mítico na epifania (Epiphánia)459 da escrita poética de Dora Ferreira da Silva em articulação com dois importantes pensadores da filosofia Luso- Brasileira. Como principal objectivo é de fazer um regaste das raízes da cultura ao buscar
458 Constança Marcondes César, O Grupo de São Paulo, p. 30. 459
Epifania, s. Do gr. Epiphánia, «o nascimento de Jesus Cristo ao mundo, donde a festa da Epifania», de epipháneia, «acto de se mostrar, aparição (do dia); aparição súbita (de inimigo); manifestação do poder divino; nos Livros Santos, aparição de Deus, de Jesus Cristo, ou dos demonios; depois, a Epifania; tudo o que aparece a boiar; a superficie; a superficie da pele, a pele; lado de uma coisa; o que aparece, superfície aparência (em oposição à realidade aletheia); o que brilha súbitamente, daí: fama ilustração» pelo lat. Epiphanía, a Epifania, manifestação de Nossa Senhora aos magos. 1813, Morais. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa com a mais antiga documentação escrita e conhecida de muitos dos vocábulos estudados. Quarto Volume, M-P Livros Horizonte.
as origens que estão na poesia por intermédio da mitologia. Falaremos de uma experiência da psicologia das profundezas, arquetípica, que expressa o seu primordial testemunho através do corpo da própria literatura.
Veremos algumas das principais categorias da mitologia de Eudoro de Sousa, com principal atenção para o problema dos triângulos. Como visão complementar nos apoiaremos no legado da filosofia de Vicente Ferreira da Silva para uma melhor compreensão de alguns excertos da obra poética de Dora Ferreira da Silva.
Eudoro de Sousa, Dora e Vicente Ferreira da Silva, integrantes de O Grupo de São Paulo, foram três nomes que marcaram o pensamento filosófico e poético da cultura luso- brasileira do século XX. Considerando na Mitologia460 a imagem do triângulo entre o ápice em que está a «divindade» e na base a relação entre «homem» de um lado e «mundo» do outro, na separação «diabólica» da realidade mundana com o humano que vivencia os eventos factuais distanciados das divindades arquetípicas, analisamos uma posição contrária a esta separação, onde a obra poética de Dora Ferreira da Silva, ocorre um acesso directo ao «simbólico» do «mais além-horizonte». O conteúdo de sua subjectiva visão retrata através da poesia uma verdade filosófica muito antiga, de tradição helénica; isto é, de uma trans-subjetividade entre os círculos da subjetividade e da objetividade, no que Eudoro de Sousa descreve como a «subjetividade irredutível» “por ser a condição prévia de toda objetivação possível”461
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Ao considerar a manifestação do «impulso mítico» nas distintas manifestações entre as «cosmogonias»462, «metamorfosis»463 e «catábases»464, analisamos no discurso de Dora Ferreira da Silva as características deste «impulso mítico» no texto V de sua última obra Transpoemas465. Aqui encontramos a experiência de um princípio cosmogónico:
460 Eudoro de Sousa, Mitologia, Guimarães Editores, Lisboa, 1984. 461
Ibidem, p.116.
462 do grego kosmogonía «cosmogonía, criação do mundo».
463 Do gr. Metamórphõsis, «transformação, metamorfose», pelo lat. Metamorphõse.
464 Catábase, s. Do gr. Katábasis, «acto de descer», descida; lugar por onde se desce, particularmente para
sítio subterrâneo; lugar em declive, ladeira», pelo lat. catabase, descida (de Atis aos infernos, nas cerimónias em honra de Magna Mater)». Catabático, adj. Do fr. catabatique, este do gr. Katabatikós «próprio para descida».
No princípio, o Poema: Voz e partitura cantavam-se. Ouviam-no longínquas estrelas. A solidão não nascera nem vales verdes
nenhuma flor ou pássaro. Os deuses despertaram.
A poética do texto acima citado refere alguns aspectos míticos que antecede ao despertar dos deuses, e ganham vida na comunicação da luz da noite, das «longínquas estrelas». O poema em forma de corpus estelar irradia som e movimento, o que promove a interacção recíproca ao despertar dos deuses e constelações. Neste texto a ordem da vida nasce a partir da poiésis, um princípio de criação no impulso mítico da criação das cosmogonias.
Ao estabelecer uma visão da relação complementar entre a psicologia e a literatura da poeta Dora Ferreira da Silva que, ao traduzir e estudar a obra de Carl Gustav Jung absorveu substancialmente a linguagem da psicologia profunda; isto é, pela busca da expressão ao autoconhecimento das matrizes do inconsciente simbólico-arquetípico. Isto foi assim, até o ponto de promover a epipháneia, verdadeira aparição no sentido órfico, manifestada na sua escrita poética.
Em muitas de suas passagens, Dora associa o conceito da palavra «poema» com «pássaro» que pousa na alma do poeta. É o pássaro-poema, mensageiro que se reveste de seu universo simbólico e ganha significado quando a experiência poética de relação perdida com a «divindade» se apresenta como elemento de concepção e de resgate para a linguagem entre o «homem» e o «mundo».
Chegamos ao intervalo com a importância da natureza da Psyché compreendida como alma humana que sustenta os arquétipos nas profundidades do Inconsciente (Unbewuβte). Vicente Ferreira da Silva teve uma visão muito atenta no que condiz a
categoria do inconsciente, ao referir as obras de Jung e Carus, como podemos evidenciar no Grupo de São Paulo por Constança Marcondes César466.
Ao considerar como Carl Gustav Jung descreve a assimilação dos conteúdos provenientes do Unbewuβte (Inconsciente) no confrontar da imagem em paisagem reflexa que se apresenta entre o Selbst (si-mesmo) e o Ich (eu) consciente, deparamo-nos frente à extensa manifestação do Kollektive Unbewuβte (inconsciente colectivo, supra ou transpessoal) para a manifestação da realidade-verdade Alétheia (o desvelar do Ser). Haverá um encontro entre a cultura pré-helénica, helénica ou trans-helénica? Certamente que sim, e para nós encontra-se na linguagem do discurso poético.
Podemos reflectir sobre o conceito de «poema» ou de «poesia» como uma psico- semiótica arquetípica que, em Dora Ferreira da Silva, aparece com uma vasta possibilidade de atributos, pela imagem da divindade ou nas características humanas que vão mais além do carácter do estado de consciência do eu pessoal em total despojamento:
(…) Perdeu-se um poema. Alguém o viu?
Seu retrato falado: usava roupas largas ou nada. Ia nu
por entre a folhagem sem mala para a viagem renunciara à demasia e tudo era demais 467.
Muitas vezes, «o poema» passa a ser o reflexo do corpo na experiência psicofísica do poeta, o «homem-humano» de seu corpo-anímico que se desnuda da roupagem do «eu» e se mescla entre o «mundo» na natureza da paisagem, ou simplesmente ao perder-se, pela dimensão do que haverá fora de si, para o encontro do si-mesmo468, de uma transpersonalidade, entrar no que outrora já estava em si, ou seja, a própria poesia: “…se
466
cf. Constança Marcondes César, O Grupo de São Paulo, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2000. p.80.
467 Dora Ferreira da Silva, Transpoemas, IV. 468 “Op. Cit., p.65.
busca poema perdido / se salta o poço vazio. / Se perdeu um poema. / Alguém o viu? / Ficou somente com a poesia / encontrou em si / por si”469. O registo do ser como extensão do próprio ambiente na paisagem que o cerca, o «poço vazio», lugar em que supostamente deveria estar a água, que já secara diante do ser que se depara com sua origem, em profundidade última é o próprio vazio, a superação ontológica é a de buscar a própria fonte e verter o universo da vida, no fim, o encontro com o propósito do si- mesmo (Selbst).
O compromisso com a tradição grega sobre a natureza da divindade impregna a filosofia de Vicente Ferreira da Silva e a mitologia de Eudoro de Sousa na reflexão complementar para a poesia de Dora Ferreira da Silva cuja complexa psicologia retoma o tema das origens, o Arché do problema da cosmologia pré-socrática. Pela busca incessante do diálogo com as imagens eternas, é possível, através destes autores, nas suas obras, uma expressão complementar do universo mítico. Vicente Ferreira da Silva na «Introdução à Filosofia da Mitologia» faz a reflexão clara da relação entre Filosofia, Poesia e Mitologia:
Para nós, o documento originário do Ser manifesta-se na vida prototípico- divina, isto é, na Mitologia. Se para Heidegger o “pôr-se em obra” da verdade do Ser dá-se na Poesia, para nós, essa deve ser, antes de tudo, comprendida como Poesia transumana, como Poesia em si, como vida transcendente das potências divinas”470
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Temos como «impulso mítico», outra vez, uma qualidade «das metamorfosis» mesmo quando na visão cósmica, entre o céu e a terra, se encontram sobre e justapostos ambos os fenómenos. Eudoro de Sousa, na Origem da Poesia e da Mitologia, ressalta que a cultura ultrapassa qualquer possibilidade de registo ou referencial literário: “No início da cultura ocidental em certo momento digamos, em Homero -, porque vemos nascer de um «deus» «um personagem épico», converter-se-á o problema literário em problema religioso, a fenomenologia da religião, competirá resolver os problemas da literatura Antiga. Talvez porque não haja literatura Antiga…”471
469 Op.Cit.,IV.
470 Cf. Vicente Ferreira da Silva, Transcendência do Mundo, p.102-103. 471 Eudoro de Sousa, 2000, p.67.
O compromisso de Eudoro de Sousa com a mais remota antiguidade, que o levou a reconsiderar o tema das origens, ao ponto de fundamentar conceitos bastante caros para sua obra, tais como Outrora e Lonjura que inevitavelmente levará para um além-horizonte extremo. Contudo há uma possível transição resolutiva através da poesia e da mitologia: “o nosso estudo não ultrapassará o horizonte das origens. Limitar-nos-emos, portanto, a resolver o problema do necessário trânsito do culto à poesia; noutros termos: o problema da génese poética da mitologia”472
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É pela via da Mitologia, que a mais Helénica das obras de Dora Ferreira da Silva, sobre tudo no que compete aos mitos, deusas e deuses é o livro Hídrias: na seguência do índice de seus textos, desde; A Sibila, Órfica, Leto, Ártemis de Éfeso, Ártemis Nua, Apolo Hiperbóreo, Narciso, Hyacinthos, Dionisos Dentrites, Delfos, Estela Funerária, À Tálida, Possêidon, À Grande Mãe, Kóre, Perséfone, Hades, Hécate, A Deusa, e Cinco Hídrias. São esses os poemas principais que ilustram este trabalho: desde o primeiro texto «A Sibila» vemos estas sacerdotisas com a visão mítica das águas que animam a psique:
Nas praças, nos templos e olivais, um grito de louvor à Terra, dançai! Vim sem o esplendor da aurora, mendiga,
não como as Musas de outrora, dadivosas Diotimas, vim mendigar o que há muito vos ofertei, Poetas: sopro-vos a garganta dilatada, vossos olhos ceguei para que o fundo olhar se liberte. Sibila em agonia, há tanto silenciada, falarei por vossas bocas,473.
Aqui vemos a manifestação de Alétheia, a verdade que se mostra e a realidade que se esquece e para longe se distancia. É importante considerar a sequência que se desenvolve os mitos através dos ritos na ligação distinta entre o culto e a celebração até chegar-se à poesia:
472 Ibidem, p. 68
O desenvolvimento de todos os mitos que germinaram no mundo Antigo e em terras gregas, apresenta-se historicamente articulado de modo seguinte: na origem, um culto, no qual, o mito se não distingue do rito – no meio, cisão da unidade original, e libertação do mito, pela poesia -, no fim, regresso do mito, poeticamente relatado e filosoficamente interpretado, ao mesmo rito, que nunca deixara de ser celebrado. Estes três momentos são bem conhecidos na história da religião grega, onde é costume designá-los respectivamente por religião grega, onde é costume designá-los respectivamente por religião pré-helénica, reforma de Homero e sincretismo helenístico474
No próximo tópico apresentaremos algumas poesias de Dora Ferreira da Silva que evidenciam como principal característica uma poesia da anima ao representar a cultura helénica e pré-helénica, com profunda sensibilidade à celebração iniciática dos mistérios da Grécia. Eudoro de Sousa expressa a importância do significado simbólico entre a natureza e cada mundo representado: “apesar da filosofia haver demonstrado racionalmente que eles não podiam existir na Physis e no Kósmos, os deuses do paganismo se transformam nas coisas vivas que há no mundo”475
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