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Ao realizar o levantamento bibliográfico, percebe-se um movimento de pesquisadores nacionais preocupados com esse assunto. Recentemente, vários pesquisadores escreveram um livro, organizado por Miguel (2010), intitulado Metodologia de pesquisa em Engenharia de Produção e gestão de operações. Nesta obra, Nakano (2010) coloca a seguinte questão: qual é o grau de maturidade da pesquisa na Engenharia de Produção brasileira? Além desta obra, encontra-se na literatura artigos que discutem os usos dos métodos na área, tais como em Berto e Nakano (1998, 1999) - onde os dados das pesquisas foram atualizados no livro citado. Miguel (2007) explora, em um artigo, o método do estudo de caso na área.

Segundo Voss et al., (2002), a maior parte das pesquisas conduzidas em gestão de operações é baseada em métodos racionalistas de pesquisa, principalmente baseados em

análises estatísticas. Segundo o autor, a característica principal da pesquisa racionalista é que o fenômeno existe independentemente do contexto da pesquisa. Entretanto, a gestão de operações é uma disciplina de natureza aplicada, desenvolvida a partir da necessidade de solucionar problemas concretos que surgem nas organizações industriais ou de serviços (FILIPPINI, 1997). Assim, para conduzir as pesquisas nesse campo, diversas alternativas de abordagens metodológicas podem ser utilizadas. No Quadro 1 pode ser visualizada, as descrições das possíveis classificações para os critérios utilizados na área da Engenharia de Produção.

Quadro 2: Critérios utilizados nas pesquisas

Critério Classificação Descrição

Natureza

Básica Envolve verdades e interesses universais, procurando gerar

conhecimentos novos úteis para o avanço da ciência, sem aplicação prática prevista

Aplicada Procura produzir conhecimentos para aplicação prática dirigidos à solução de problemas específicos.

Abordagem Qualitativa O ambiente natural é fonte direta para coleta de dados, interpretação de fenômenos e atribuição de significados. Quantitativa Requer o uso de recursos e técnicas de estatística, procurando

traduzir em números os conhecimentos gerados pelo pesquisador.

Objetivo do Estudo

Exploratória Visa proporcionar maior familiaridade com o problema, tornando-o explícito ou construindo hipóteses sobre o mesmo.

Descritiva Expõe as características de uma determinada população ou fenômeno, demandando técnicas padronizadas de coleta de dados. Explicativa Procura identificar os fatores que causam um determinado

fenômeno, aprofundando o conhecimento da realidade.

Método Científico

Dedutivo Sugere uma análise de problemas do geral para o particular, através de uma cadeia de raciocínio decrescente.

Indutivo O argumento passa do particular para o geral, uma vez que as generalizações derivam de observações de casos da realidade concreta.

Hipotético-

Dedutivo Formulam-se hipóteses para expressar as dificuldades do problema, de onde se deduzem consequências que deverão ser testadas ou falseadas.

Dialético As contradições se transcendem dando origem a novas contradições que passam a requerer solução. É um método de interpretação dinâmica e totalizante da realidade. Considera que os fatos não podem ser considerados fora de um contexto social, político, econômico. Empregado em pesquisa qualitativa.

Fenomenológico Preocupa-se com a descrição direta da experiência tal como ela é. A realidade é construída socialmente e entendida como o

compreendido, o interpretado, o comunicado. Então, a realidade não é única: existem tantas quantas forem as suas interpretações e comunicações. O sujeito/ator é reconhecidamente importante no processo de construção do conhecimento. Empregado em pesquisa qualitativa.

Desenvolvimento teórico-

conceitual

Concebida a partir de revisões bibliográficas. Seu escopo principal envolve modelagens conceituais que resultam em novas teorias. Modelagem e

Procedimento Técnico – tipo de pesquisa

Pesquisa

Experimental Determina-se um objeto de estudo, selecionam-se duas ou mais variáveis e definem-se as formas de controle e de observação dos efeitos. Geralmente são conduzidas em laboratório.

Levantamento (Survey)

Compreende um levantamento de dados em uma amostra

significativa acerca de um problema, mediante análise quantitativa Estudo de Caso Representa a estratégia preferida quando se colocam

questões do tipo “como” e “por que”, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e quando o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real.

Pesquisa bibliográfica

As revisões da literatura como atividade para identificar, conhecer e acompanhar o desenvolvimento da pesquisa em determinada área do conhecimento.

Pesquisa-ação Procura estabelecer uma relação com uma ação ou problema coletivo.

Clareza da Questão

de Pesquisa Sim ou Não Procura medir a transparência das informações Tipo de Questão de

Pesquisa

Como, Por que, O que, Quem, Qual, Quantos, Quando, Onde ou Não especificado

Identificar a questão central da pesquisa a partir da qual será desenvolvido o estudo

Utilização de Teste-

Piloto Sim ou Não Facilitar o pesquisador na determinação de unidades de análise, métodos de coleta/análise de dados Fonte: adaptado a partir de Gil (2011); Silva e Menezes (2001), Yin (2001); Berto e Nakano (1999).

Para Miguel (2007) e Berto e Nakano (1999), as pesquisas mais comuns em Engenharia de Produção são as teórico-conceituais, estudo de caso, surveys, modelagem e simulação, pesquisa-ação, pesquisa bibliográfica e pesquisa experimental.

Ao ler e interpretar o Quadro 2 é importante observar que o estudo de caso está desvinculado da pesquisa-ação. Esta observação foi destacada, uma vez que alguns autores, tais como Yin (1994) e Westbrook (1995) vincularem a pesquisa-ação ao estudo de caso, classificando-a como sendo uma variante da outra. Assim, a pesquisa-ação estaria incorrendo em todos os aspectos inerentes ao estudo de caso (ÉDEN e HUXMAN, 1996).

Em contrapartida, autores como Thiollent (2009) e Argyris et al. (1985) não vinculam a pesquisa-ação ao estudo de caso. Afirmam que a pesquisa-ação, como qualquer outra proposta de pesquisa deve utilizar instrumentos de coleta, processamento, análise e apresentação de resultados próprios, sendo tanto qualitativos quanto quantitativos. Estas questões são, portanto, comuns à pesquisa-ação e ao estudo de caso.

Em termos de condução de pesquisa, Miguel (2010) apresenta um protocolo de pesquisa voltada para o estudo de caso (ver Figura 6), enquanto Turrioni e Mello (2010) apresentam o protocolo de pesquisa para a pesquisa-ação (ver Tabela 6). Isto por si só, acaba

por caracterizar que os tipos de pesquisa são diferentes e possuem características que são próprias. A principal delas é o fato de que no estudo de caso, não há a necessidade da participação do pesquisador no processo de intervenção, enquanto que na pesquisa-ação esta é a sua principal característica.

Figura 6: Protocolo para condução de pesquisa para o estudo de caso Fonte: Miguel (2010)

Outro fator a ser considerado é que na condução de um estudo de caso existe claramente o aspecto para a replicação da pesquisa em outros contextos. Isto não se acontece com a pesquisa-ação.

Tabela 6: Protocolo de pesquisa para pesquisa-ação

Seção Conteúdo

Visão geral do projeto de pesquisa- ação

 Objetivos e patrocínios do projeto  Questões de pesquisa

 Problema prático a ser solucionado

 Contribuição científica para a base de conhecimento  Leituras importantes sobre o tópico investigado Procedimentos de campo  Definição da unidade de análise

 Definição do grupo de pesquisa (pesquisadores e participantes da unidade de análise)

 Definir autoridade para pesquisa-ação

 Estabelecer uma agenda adequada das ações para coleta de dados  Definir ciclos da pesquisa-ação (ciclo de melhoria e aprendizagem) Definir uma

estrutura conceitual-teórica

Mapear a literatura Delinear as proposições Delimitar as fronteiras e grau de evolução

Planejar o(s) Caso (s)

Selecionar as unidades de análise e contatos

Escolher os meios para coleta e análise e dos dados

Desenvolver o protocolo para coleta dos dados

Definir meios de controle da pesquisa

Conduzir teste piloto

Testar procedimentos de aplicação

Verificar qualidade dos dados Fazer os ajustes necessários

Coletar os dados Avaliar os dados Gerar relatório Contatar os casos Registrar os dados Limitar os efeitos do pesquisador

Produzir uma narrativa Reduzir os dados Construir painel Identificar causalidade

Desenhar

implicações teóricas Prover estrutura para replicação

 Fontes gerais de informações

Questões de pesquisa  Questões específicas para o pesquisador para coleta de dados  Lista de fontes de evidências prováveis após cada questão  Planilha para disposição de dados

 Fontes potenciais de informações para cada questão Guia para o relatório de pesquisa  Resumo

 Formato de narrativa

 Indicação de quantidade de documentos utilizados no relatório  Especificação de informações bibliográficas

 Especificações de outras documentações Fonte: Turrioni e Mello (2010)

Yin (1994) destaca a importância da escolha adequada do método de pesquisa em ciências sociais e afirma que em alguns casos, mais de um método se enquadra. A respeito das críticas com relação ao estudo de caso (como objetividade, rigor, preferência por dados quantitativos), das quais a pesquisa-ação também tem sido alvo, o autor argumenta que as mesmas são infundadas.

Ao se fazer uma relação dos tipos de pesquisa com os tipos de abordagens que são desenvolvidas na área, tem-se a Tabela 7. Por meio desta, pode-se dizer existe uma preocupação com relação ao tipo de abordagem utilizada pelo pesquisador: se é quantitativo, qualitativo ou ambos.

Tabela 7: Os métodos de pesquisa associado às abordagens e instrumentos de pesquisa

Método de Pesquisa Abordagem Principal

Instrumentos de Pesquisa

Experimental Quantitativo Experimentos Survey Quantitativo Questionários

Estudo de caso Qualitativo Entrevistas, questionários e outras fontes

Pesquisa participante Qualitativo Observação direta e entrevistas

Pesquisa-ação Qualitativo Observação e participação direta

Fonte: Nakano e Fleury (1996)

A Tabela 7 traz os métodos de pesquisa utilizados na área de Engenharia de Produção que nos dias atuais foi modificada, conforme o Quadro 2 apresentado. Em termos da abordagem utilizada para cada método, e no caso especial da pesquisa-ação, a mesma faz uso de ambas as abordagens, tanto qualitativa quanto quantitativa, como pode ser visto no próximo item.