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O processo cíclico de pesquisa-ação não existe de forma totalmente padronizada, pois dependendo da situação social ou do quadro organizacional em que se aplica, os procedimentos e a ordenação das etapas podem variar (THIOLLENT, 2009, p. 3).

Neste contexto, tanto na literatura nacional quanto internacional, é possível encontrar modelos similares para o processo cíclico da pesquisa-ação.

Susman e Evered (1978), em seu artigo da época descreve em detalhes uma crise nas ciências organizacionais, uma vez que métodos e técnicas convencionais traziam respostas menos úteis para resolver problemas práticos face às organizações e incrementaram os objetivos da contribuição para a prática relacionada às pessoas e as metas das ciências sociais à teoria apresentada por Lewin e contribuíram no sentido de desenvolver competências de autoajuda das pessoas que enfrentam problemas. Em outras palavras, a pesquisa-ação pode ser vista como um processo cíclico com cinco fases:

1) Diagnóstico para identificar um problema na organização;

2) Planejamento da ação, considerando as ações alternativas para resolver o problema; 3) Execução das ações, com seleção de um roteiro de ação;

4) Avaliação das consequências da ação;

5) Aprendizagem específica e identificação dos ensinamentos da experiência, com retorno ao ponto de partida para evidenciar o conhecimento generalizável adquirido sobre o problema.

A infraestrutura dentro do sistema cliente e do pesquisador ação mantém e regulam algumas ou todas essas fases. Essa visão apresentada, também é aceita por O´Brien (1998), Coughlan e Coughlan (2002) e Thiollent (2009), destacando inclusive pontos que são marcos da pesquisa-ação, tais como a abordagem sistêmica para equacionar problemas sociais do trabalho e planejar novas formas de organização.

Esses cinco itens são representados por meio da Figura 3, tornando-se assim, o primeiro processo cíclico da pesquisa-ação apresentado nesta tese.

Figura 3: O processo cíclico da pesquisa-ação Fonte: Susman e Evered (1978, p. 588)

Mais do que um processo cíclico, Thiollent (2011) apresenta passos importantíssimos para a condução de um projeto de pesquisa-ação, desde sua concepção até sua organização. Estes passos, descritos a seguir estão expostos na Figura 4.

a) Fase exploratória: descobrir o campo de pesquisa, os interessados e suas expectativas e

estabelecer um primeiro levantamento da situação, dos problemas e de eventuais ações;

b) Tema da pesquisa: designar o problema prático da área de conhecimento a ser abordado; c) Colocação dos problemas: definir uma problemática na qual o tema escolhido adquira

sentido; a problemática é o modo de colocação do problema de acordo com o marco teórico- conceitual adotado;

d) Lugar da teoria: é necessário que se tenha um referencial teórico que auxilie nas

argumentações e a linha de raciocínio delineada, gerando ideias ou diretrizes e orientando as interpretações;

e) Hipóteses: a partir da formulação da hipótese o pesquisador identifica as informações

necessárias, evita a dispersão, focaliza determinados segmentos do campo de observação e seleciona os dados;

f) Seminário: consiste em examinar, discutir, tomar decisões acerca do processo de

investigação e coordenar as atividades dos grupos de pesquisa;

DIAGNÓSTICO Identificando ou definindo um problema Desenvolvimento de uma infraestru- tura no cliente (manter e regular as 5 fases) APRENDIZAGEM ESPECÍFICA Identificando conhecimentos gerais

PLANEJANDO AÇÃO Considerando cursos alternativos

de ação para resolver problemas

AVALIAÇÃO

Figura 4: As fases para a concepção e a organização de um projeto de pesquisa-ação Fonte: Adaptado de Thiollent (2011)

g) Campo de observação, amostragem e representatividade qualitativa: aparece quando

o campo de observação delimitado é grande, com as seguintes possibilidades de abrangência: toda população por grupos especializados, amostragem e valorização de critérios de representatividade qualitativa;

h) Coleta de dados: efetuada por grupos de observação e pesquisadores sob controle do

seminário central; suas principais técnicas são a entrevista coletiva e a entrevista individual;

i) Aprendizagem: é associada ao processo de investigação; a aprendizagem dos participantes

é facilitada pelas contribuições dos pesquisadores e pela colaboração temporária de especialistas em assuntos técnicos com conhecimento útil ao grupo;

j) Saber formal / saber informal: visa estabelecer a estrutura de comunicação entre os dois

universos culturais: o dos especialistas e o dos interessados;

k) Plano de ação: é uma ação onde os participantes são membros da situação ou da

organização sob observação;

l) Divulgação dos resultados: retorno da informação aos grupos implicados e divulgação

Na concepção de Morin (2004), descrito na corrente francófona, como a pesquisa-ação sendo integral e sistêmica aponta cinco componentes, como pode ser visto na Figura 5. O autor declara que a participação é essencial, sendo uma participação cooperativa, podendo levar os atores até a co-gestão. O contrato deve ser aberto e formal sendo uma das condições que a asseguram, mas não estruturado. A mudança é a finalidade. Os efeitos dessa participação ou ação negociada estão presentes no discurso ou na transformação dos espíritos e na ação encarada para resolver ou equacionar um problema da melhor maneira possível. Os cinco componentes são interdependentes e devem ser compreendidos de maneira dinâmica e sistêmica.

Figura 5: Cinco componentes da pesquisa-ação Fonte: Morin (2004, p. 61) Individual Coletiva Comunitária 1. O CONTRATO 2. A PARTICIPAÇÃO 3. A MUDANÇA 5. A AÇÃO 4. O DISCURSO aberto fechado formal informal formal informal estruturado não-estruturado (x) estruturado não-estruturado Representação Cooperação (x) Co-gestão

Aplicação de uma teoria Desenvolvimento Transformação (x) Espontâneo Esclarecido (x) Engajado eficaz não eficaz predeterminada incitativa

Morin (2004) apresenta ainda, as etapas de elaboração de um plano de pesquisa. São elas:

a) Identificar claramente as principais necessidades do grupo: o mais importante é definir o objetivo geral da pesquisa;

b) Compreender bem a finalidade do projeto: deve permitir mudanças na ordem dos conhecimentos em função das ações;

c) Esboçar e ilustrar as etapas essenciais do projeto: prever tipos de reuniões, datas e lugares;

d) Determinar a duração total do projeto: é importante determinar desde o início o tempo que se pode atribuir a realização do projeto;

e) Definir com precisão os papéis dos participantes: é preciso estabelecer um princípio de igualdade quanto ao direito de fala e de escuta;

f) Atribuir-se as tarefas: permitir aos atores pesquisadores que se atribuam as tarefas a cumprir e fazer no início da pesquisa; e

g) Concluir um entendimento ou um contrato aberto: falar a mesma linguagem e compartilhar os papéis e as tarefas, principalmente no início.

Um destaque importante que marca as fases de pesquisa proposta por Morin (2004) é a preocupação com a duração total do projeto, bem como a definição de todas as etapas que são essenciais para o seu desenrolar.

Para Greenwood e Levin (1998) existe um modelo de cogeração de pesquisa- ação. A pesquisa-ação pode ser pensada como um processo constituído de, pelo menos, duas fases distintas analiticamente. A primeira envolve os esclarecimentos de uma questão de pesquisa inicial, enquanto a segunda envolve a iniciação e a continuação de uma mudança social e um processo de construção. Isso não significa que o processo de definição do problema é sempre final, de fato, um bom sinal da aprendizagem em curso num projeto de pesquisa-ação é quando as perguntas iniciais são reformuladas para incluir dimensões recém- descobertas.

Na literatura, podem ser encontrados tantos outros modelos de processos cíclicos, mas todos apresentam convergências e similaridades com os que aqui foram explanados, onde o que de fato importa, é a maneira como no projeto é apresentada a escolha do processo cíclico e também as razões que o levaram a tal escolha. Desta forma, os modelos podem ser aplicados e usados mais e melhor em determinadas áreas do conhecimento e ainda,

podem ser encontrados outros que foram desenvolvidos especialmente pela especificidade de dado projeto.

Uma vez definido os caminhos a serem seguidos para a condução do projeto, é importante descrever a questão da linguagem que se faz necessária para se estabelecer uma comunicação sem ruídos entre as partes envolvidas.