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Part II Papers

5.2 Literature review

O formalismo acadêmico, como já foi lembrado, cerceou implacavelmente a literatura nos Estados Unidos. Portanto, levando tal fato em consideração, estamos aptos a inferir sobre a existência de escritores “marginalizados”, e não “marginais”, como é hábito denominar.

Ainda em relação ao conservadorismo na academia, não há nada que melhor ilustre o ranço formalista e beletrístico, nas instituições de ensino superior, do que o fato de ter abundado, efetivamente a partir da década de 50, escolas com cursos e “oficinas”

credenciadas a concederem diploma em “criação literária”. Conforme aponta Kostelanetz: “[...] nos cursos dessa espécie, em vez das pesquisas literárias à maneira das classes acadêmicas normais, os estudantes produzem contos e poemas para fins profissionais.”

Em algumas instituições, inclusive, se conseguia um título de “especialista”

justamente na disciplina “criação literária”; sendo que também era possível fazer mestrado ou se doutorar em tal “matéria”. O impacto dessa atividade pode ser mensurado a partir desta constatação de Kostelanetz:

Enquanto alguns escritores americanos notáveis, nascidos antes de 1925, nunca souberam o que é um curso de criatividade literária, a maioria daqueles nascidos depois disso fizeram pelo menos um ou dois desses cursos. Aqueles nascidos depois de 1940 talvez tenham tirado um grau de especialização em criação literária. Talvez tenham feito até graduação. A maioria dos escritores publicados e nascidos depois de 1950 parece ter conseguido pelo menos o mestrado nesta área.

William Burroughs, num texto intitulado “Pode se ensinar a escrever?”, chega a achar interessante um ou outro expediente que algum curso desse nível oferece, enquanto exercício de escrita e verificação de estilos, como por exemplo: “[...] escreva como Hemingway por um mês, como Graham Greene por um mês e assim por diante.” Nesse texto, inclusive, ele dá alguns conselhos literários de ordem técnica: “[...] lembre-se, por

exemplo, que um mau título pode afundar um bom livro ou um bom título pode vender um mau livro.”

Entretanto, o escritor termina por revogar este tecnicismo, chegando à consciente conclusão de que um curso de capacitação profissional, necessário a um piloto de avião ou um físico, não se estabelece da mesma forma para um escritor, pois:

Recapitulando as qualificações que são úteis embora não essenciais: a capacidade de agüentar a disciplina física do ato de escrever, isto é, de se sentar à máquina de escrever e escrever; a capacidade de persistir e de observar o desencorajamento da rejeição e o

desencorajamento ainda mais fulminante que advém de seus próprios textos ruins; insight em relação aos outros; capacidade de pensar em termos concretos e visuais; um cabedal de leituras em geral. Vamos dizer que o estudante tenha pelo menos algumas destas qualificações. O que é que lhe pode ser ensinado a respeito do ato de escrever?

Os autores Beats militaram nessa idéia até o fim de suas vidas, inclusive, pelo fato de que suas criações sempre estiveram pautadas no indivíduo. Dessa maneira, os

prosadores ligados à Beat Generation, que não foram tantos como na poesia, repudiaram a tendência a esse tipo de profissionalização, ao mesmo tempo em que ignoravam as temáticas relativas a guerras e escritos melancólicos de autores em crises existenciais, comuns na época, e que vigoram até hoje.

Jack Kerouac, William Burroughs e Ken Kesey formam a linha de frente da prosa beat. E já que se falou tanto da poesia, convém abordar detidamente a prosa.

Pode-se dizer que Kerouac foi quem abriu caminho para as demais publicações em prosa vinculadas ao imaginário beat. Sobretudo após a publicação de On the Road, em 1957, que conquistou um grande público e dividiu a crítica.

Não se deve esquecer de que os primeiros livros em prosa publicados, em relação à Beat Generation, foram Go (1952) de John Clellon Holmes e Junky (1953) de

desapercebidas em âmbito nacional.

Analisando por esse ângulo, On the Road é bem mais ousado na forma, além de expor as noções de individualidade e prazer de sua geração. Já a primeira obra de Burroughs é mais personalista, não havendo o interesse em constituir um painel que os representasse.

Desse modo, a década de 60 marca, em escala considerável no mercado editorial, o aparecimento das narrativas ligadas à beat. Há que se ter clareza também que as

conseqüentes proibições e perseguições às obras e a seus autores impediram que esses conquistassem a merecida visibilidade nos Estados Unidos. Repressão ainda maior se os escritos fossem da autoria de Burroughs, que teve Naked Lunch primeiro publicado na França, em 1959, para somente em 1962, depois de muita disputa judicial, ter sua impressão liberada na própria pátria.

Censuras e reprimendas não eram escassas nessa época, daí a importância de se acentuar o quanto interromperam carreiras de escritores, cuja maior preocupação acabava sendo com a coerção da polícia e outros órgãos do governo. Haja vista que o sanguinário senador McCarthy estava em sua plena campanha de caça às bruxas e, obviamente, não toleraria indivíduo algum que abordasse temas aptos a subverter as consciências

americanas, ou que assumisse uma postura contrária aos ditames do Estado.

É dessa maneira que Ken Kesey foi vítima de perseguições que o obrigavam a viver em esconderijos, quando não em prisões. Como se isso não bastasse, para o infortúnio total de Kesey, a mesma época em que mais sofreu restrições era, paradoxalmente, a que ele estava sendo cotado enquanto o maior romancista vivo nos Estados Unidos.

Ken Kesey agiu de maneira diferente se comparado com muitos “artistas” que se promovem com sucesso oportunista, ao ostentarem a condição de perseguidos por regimes

ditatoriais. Embora Kesey ganhasse notoriedade ao nome, com alguns tolos e vagos títulos de “o fora-da-lei” da cultura norte-americana, ele escreveu poucos textos, pois sempre se via às voltas com os problemas que a justiça insistia em lhe impingir, exatamente, por lidar de maneira aberta com seus temas e desejos.

O jornalista-escritor Tom Wolfe, em seu livro O teste do ácido do refresco elétrico, de 1968, exerce o estilo que ele mesmo chamou de new journalism para tratar de Ken Kesey enquanto mentor-guru do fenômeno social denominado “Contracultura” - que surgiu no fim da década de 1960, contaminando a década de 70. Não raras vezes, Kesey é retratado como messias involuntário para uma legião de peregrinos toxicômanos, preocupados com questões que iam além do simples e competitivo “encaixe” na próspera sociedade massificada de consumo. Sobre Kesey, logo nas primeiras páginas, Wolfe aponta o seguinte:

Naquela altura, tudo que eu sabia a respeito de Kesey é que era um romancista muito conceituado, de 31 anos, e cheio de problemas com drogas. Escreveu One Flew Over the Cuckoo´s Nest (Um

estranho no ninho) 1962, que foi adaptado para o teatro em 1963, e Sometimes a Great Notion (1964). Foi sempre considerado, ao lado

de Philip Roth, Joseph Heller, Bruce Jay Friedman e mais alguns poucos, um dos jovens romancistas que prometiam ter uma longa carreira. Então foi preso duas vezes com maconha, em abril de 1965 e em janeiro de 1966, e preferiu partir para o México a enfrentar uma sentença mais severa. Como era reincidente, a pena podia chegar a cinco anos.

O trecho transcrito é relevante, principalmente, porque salienta a questão do cerceamento de toda uma obra por conta do comportamento não convencional de um escritor. Diferente de Philip Roth e Joseph Heller, no caso, Ken Kesey foi condenado ao ostracismo não apenas por causa das perseguições judiciais, mas também, pelo viés moralista da academia e crítica literária hegemônica, em parceria com o Estado. Melhor dizendo: é como se houvesse um acordo tácito em não promoverem “viciados” e “pervertidos”, como os Beats eram tachados pelos detentores da moral e dos bons

costumes norte-americanos.

Não obstante, se fizermos uma retrospectiva histórica da literatura norte-americana, é possível a constatação de que a maior parte das produções literárias mais talentosas e influentes da nação se desenvolveu à margem dos restritos círculos literários, tolerados e financiados pela academia. Dessa maneira, foi se constituindo, à revelia da cultura

hegemônica norte-americana, uma tradição de heréticos às convenções sociais e literárias reinantes e limitadas.

Para fins de verificação, no que se refere à prosa, basta lembrarmos de Edgar Allan Poe, que embora houvesse revolucionado diferentes gêneros e fornecido uma ampla gama de elementos para a constituição da narrativa moderna, acabou por morrer a míngua. Também Ernest Hemingway, que nunca se enquadrou no perfil do escritor idealizado, de gestos comedidos, e sedentário. Ou ainda Dashiell Hammett e Raymond Chandler, que expuseram as falcatruas e mazelas sociais em narrativas repletas de personagens politicamente incorretos, e mostraram que o gênero policial pode ser mais eficiente no sórdido retrato da sociedade que quaisquer outros escritos com grandes pretensões “realistas”.

Aliás, em relação ao romance policial norte-americano, rejeitado com freqüência pela crítica mais preciosista, é exatamente o gênero literário mais bem sucedido nos Estados Unidos, pois está em constante renovação, apresentando uma tradição de escritores da estirpe de James M. Cain e Chester Himes, até, mais recentemente, Elmore Leonard e James Ellroy.

Henry Miller, hoje considerado clássico contemporâneo da literatura ocidental, teve sua obra banida por muito tempo nos Estados Unidos. Aproveito o ensejo para apontar que o escritor antecipou, nos E.U.A, muitos expedientes usados nas obras beats, pois, além

de Miller elaborar suas narrativas a partir do ponto de vista pessoal-subjetivo, Trópico de Câncer é o primeiro livro, escrito por um americano, que apresenta estratagemas narrativos cunhados diretamente do Dadaísmo e Surrealismo; somando-se a isso o fato de que o narrador-protagonista é um sátiro hedonista totalmente despojado de bens materiais. A relação entre eles não acaba aí, e envolve reciprocidade de admiração, pois Miller chegou a escrever prefácios para algumas obras beats.

Ainda acerca dos “marginalizados” em território norte-americano que serviram de paradigma, não molde, para os Beats, destaca-se a presença do escritor, poeta e filósofo Henry David Thoreau (1817-1862) e suas principais e sugestivas obras: Walden e Desobediência Civil .

No mesmo momento histórico de Thoreau, há duas outras personalidades de importância essencial, que além de terem as obras admiradas pelos autores Beats, as vidas despertaram semelhante fascínio: Hermann Melville e Jack London. O primeiro,

basicamente, por suas narrativas de aventura, baseadas em suas experiências de marinheiro, pródigas na apresentação de atmosferas sombrias. Quanto ao autor de O lobo do mar e O chamado selvagem, como o próprio Kerouac comenta em seu livro Viajante Solitário: “Li a vida de Jack London aos 18 anos e também decidi me tornar um aventureiro, um viajante solitário.”

A dosagem entre empirismo e ficção que constituem os escritos de viajantes, como nos casos de Melville, London, e também Joseph Conrad, geraram especial inquietação comportamental e estética em Jack Kerouac. Não à toa, a meu ver, foi justamente ele quem colocou em voga a afamada expressão “pé na estrada” como uma das características inerentes à Beat Generation. Pois, ao se servir da parte errante de sua vida na confecção das tramas de suas principais obras, é possível pensar que o escritor substituiu as aventuras

em alto mar de seus ídolos literários, pelas auto-estradas que cortam a América. Otto Maria Carpeaux reconheceu os méritos literários nos romances de Jack Kerouac, e conceituou, sem rodeios, On the Road como sendo uma “obra-prima picaresca.”

Ainda a respeito de Kerouac enquanto tributário e continuador de uma determinada tradição literária que envolve os norte-americanos, considero deveras interessante e

pertinente o apontamento que John Tytell tece a respeito do escritor Beat:

A história de Kerouac é uma das mais anômalas da história da literatura norte-americana. Como Poe, Melville ou Faulkner, ele escreveu grande parte de seus primeiros trabalhos no anonimato, sob condições adversas e com pouco incentivo.

Em relação à forma, ou seja, o encadeamento e ritmo concedidos ao texto, assim como a formação imagética, pode-se dizer que Kerouac e Burroughs sofreram influências advindas das obras de John Dos Passos e, principalmente, de Gertrude Stein e suas obras compostas a partir da teoria do “fluxo de consciência”.

Enfim, no processo de filiação literária dos Beats, não há plágio nem “complexo de Édipo”, mas sim o prosseguimento de uma tradição de escritores que eles vislumbraram enquanto pioneiros em dispor das inquietações pessoais para constituir seus escritos.

A fim de concluir esta parte, seria conveniente retomar e comentar ainda alguns apontamentos de Carpeaux. Nesse sentido, além de observações como: “[...] os ‘Beatnicks’ de New York e San Francisco julgam-se sucessores legítimos de Vian e Genet.” (p. 302), o teórico austríaco, com a erudição e perspicácia que lhe são características, expressa o seguinte ponto de vista:

Várias influências são inconfundíveis nos ‘Beatnicks’: Whitman e Apollinaire, Rimbaud e Genet, Gertrude Stein e Pound. É evidente que se trata de um movimento excessivamente romântico: um dos muitos sinais de que a mentalidade romântica continua viva e atuante, sob os mais variados disfarces e especialmente nos Estados Unidos.

Com essa reflexão, Carpeaux toca num ponto nevrálgico em relação a escolas literárias, pois, com muita argúcia, ele não compreende que tendências artísticas e

movimentos literários se confinem a um determinado momento histórico, e que deixam de existir, efetivamente, com o passar do tempo, como se fossem manifestações datadas. Mas antes, as entende de forma processual, com peculiaridades aptas a serem retomadas e renovadas conforme a época em questão.

Carpeaux não foi o único, nem o primeiro, a vislumbrar na Beat Generation uma perspectiva tipicamente Romântica, não apenas no âmbito das influências literárias, que é inquestionável, mas especialmente nos anseios de seus participantes em explorar a arte e a vida. Entretanto, penso que é incorrer em equívoco conceitual - como invariavelmente acontece nos livros e cartilhas de História da literatura norte-americana - de meramente rotular a Beat Generation de “movimento neo-romântico”.

Seguindo essa linha de raciocínio, pretendo alertar que são fatos distintos a constatação de um determinado fenômeno, passível de ser observado e discutido, e a classificação arbitrária e questionável que privilegia a parte pelo todo. Melhor dizendo: embora a Beat Generation tenha confluência com o Romantismo, ela não se encerra aí, e seria desmerecedor restringi-la a um único rótulo, ainda que não pejorativo.

Apesar de ser “óbvio ululante” pensar que se não houvesse existido a escola romântica, dificilmente teríamos alguns movimentos e tendências como o Simbolismo, o Surrealismo, ou a própria Beat Generation. Não obstante a isso, devemos notar que o Romantismo já contém uma atitude de retomada dos artifícios e elementos de outras manifestações artísticas antecedentes, e nem por isso perde sua legitimidade autônoma. Então, por que outras manifestações literárias deveriam ser subclassificadas?

revista mexicana de poesia Taller, publicada entre 1938 e 1941 -, estabelece alguns pontos pertinentes acerca desse fenômeno no campo da literatura, que serve de referência para a discussão ora empreendida:

Las generaciones de ruptura invariablemente buscan en la tradición ejemplos, modelos y precedentes; al inventarse uma genealogía, proponen a sus lectores y partidarios una versión distinta de la tradición. [...] La tradición está hecha de ruptura y de continuidad; los agentes de este doble movimiento son las generaciones literarias.

É por essa razão que numa perspectiva mais ampla, e por isso menos determinista, prefiro assinalar que a tradição essencial à qual a Beat Generation se vincula, enquanto tributária e prosseguidora, é exatamente uma “tradição de dissidência”.

O foco deste capítulo, até o momento, se manteve nas influências que os Beats receberam e transformaram. Dessa maneira, se levarmos em conta que nos dias atuais eles já fazem parte da tradição, então, seria conveniente abordar as influências doadas.