Part II Papers
5.5 Coordination mechanism II
5.5.3 Algorithm
O surgimento de Naked Lunch no mercado editorial, como já ressaltado anteriormente, se efetivou em 1959, na França, pela Obelisk Press de Maurice Girodias. Naked Lunch foi uma das obras que mais ajudaram a fomentar a fama de “ousada”, ostentada pela editora, que já havia publicado os livros de Henry Miller e outros marginalizados6.
Nos Estados Unidos, a liberação definitiva para a publicação da obra se deu em 1962, após vários apelos e pendengas judiciais. Consta que após a liberação de Naked Lunch, foi impossível encontrar alegações de qualquer ordem para censurar futuras obras literárias; o que acarretou, sem dúvida alguma, uma enorme satisfação pessoal para um infrator de leis da envergadura de Burroughs.
Mesmo que essas proibições e polêmicas acumuladas por Naked Lunch ajudaram a despertar o interesse pelo livro em diversos países, sua aceitação por inúmeros leitores, passados já 40 anos, denota que o mérito da obra, obviamente, não se deve a implicações extra literárias.
Naked Lunch foi finalizado em Paris no final de 1958, mas começou a ser redigido em Tanger7, em 1953. A princípio, os capítulos surgiram enquanto cartas que Burroughs denominava routines, que eram enviadas a Allen Ginsberg. O poeta, impressionado com a sinuosidade verbal daquelas epístolas, insistiu até conseguir convencer Burroughs a retomá- las com a intenção de converter esses escritos esparsos em livro.
6 Em consenso com essa idéia de vanguardismo editorial, Pascale Casanova, em seu livro A república Mundial
das Letras (2002, p.165), ao pretender destacar Paris “[...] como capital de todas as liberdades – política, estética
e moral - [...]”, que a transformou em “[...] último recurso contra as censuras nacionais [...]”, ela cita, com realce especial para esse apontamento, a publicação de Lolita e Naked Lunch.
7 Cidade do Marrocos, norte da África, passando pelo estreito de Gibraltar, antes de chegar a Marrakesh.
Burroughs morou em Tanger de 1951 a 1958, impulsionado, para além de seu interesse por lugares e culturas diversificadas, também pelo baixo custo de vida que lhe interessava: as drogas e a prostituição homossexual. E, obviamente, a repressão muito mais branda em relação a essas atividades. Burroughs foi um dos primeiros artistas a ir morar nessa localidade; antes dele, creio que só mesmo o casal Paul e Jane Bowles, e Brion Gysin. Entretanto, nas décadas de 1960 e 1970, a cidade passou a ser infestada pelos ocidentais. Tanger merece destaque por possuir significativa importância alegórica em Naked Lunch, algo que será explanado bem mais adiante.
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Na época, Burroughs relutava em relação à idéia de publicar seus textos, ponderando sobre a carreira de escritor vinculado às editoras. Mas acabou por acatar, não com o pensamento voltado apenas à publicação, mas também porque precisava se ocupar, a fim de superar a crítica fase de excessos pela qual passava, que se resumia na mais sórdida ociosidade, como comenta em entrevistas, e descreve da seguinte maneira no prefácio de Naked Lunch:
I lived in one room in the Native Quarter of Tangier. I had not taken a bath in a year nor changed my clothes or removed them except to stick a needle every hour in the fibrous grey wooden flesh of terminal addiction. I never cleaned or dusted the room. Empty ampule boxes and garbage piled up to the ceiling. Light and water had been long since turned off for non-payment. I did absolutely nothing. I could look at the end of my shoe for eight hours. I was only roused to action when the hourglass of junk ran out.8
(BURROUGHS, 1993, p. 10).
E assim permaneceu até ficar com a última folha de cheque, e definitivamente se conscientizar do estado vegetativo no qual estava vivendo. Foi direto para Londres, interessado em um tratamento, ainda em fase de testes, com apomorfina - morfina fervida em ácido clorídrico - , que agiria em seu organismo da seguinte maneira:
The doctor explained to me that apomorphine acts on the back brain to regulate the metabolism and normalize the blood stream in such a way that the enzyme system of addiction is destroyed over a period of four or five days. Once the back brain is regulated apomorphine can be discontinued and only used in case of relapse.9 (BURROUGHS, 1993, p.10).
Quanto a esse tratamento, empreendido pelo doutor John Yerbury Dent, Burroughs notou resultados eficientes:
The apomorphine cure is qualitatively different from other methods of cure. I have tried them all. Short reduction, slow reduction, cortisone, antihistamines, tranquilizers, sleeping cures, tolserol, reserpine. None of
8 “Vivia num quarto no Bairro Nativo de Tanger. Não tomava banho há um ano, nem trocava minhas roupas ou
as tirava do corpo, exceto para espetar uma agulha de hora em hora na carne de madeira fibrosa e cinzenta do vício terminal. Nunca limpei ou espanei o quarto. Caixas de ampolas vazias e lixo se empilhavam até o teto. Luz e água tinham sido cortadas há tempos por falta de pagamento. Eu não fazia absolutamente nada. Conseguia olhar para a ponta dos meus sapatos durante oito horas seguidas. Só me movia quando terminava a dose de
junk.” (BURROUGHS, 1984, p. 8).
9 “O médico me explicou que a apomorfina atua sobre o cerebelo para regularizar o metabolismo e normalizar a
circulação sanguínea, de maneira que o sistema enzimático do vício seja destruído depois de um período de quatro ou cinco dias. Uma vez regulado o cerebelo, pode-se interromper a apomorfina, e só se volta a usá-la em caso de reincidência.” (BURROUGHS, 1984, p. 9).
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these cures lasted beyond the first opportunity to relapse. I can say definitely that I was never metabolically cured until I took the apomorphine cure.10 (BURROUGHS, 1993, p.11).
Em outro trecho, Burroughs assinala que chegou a ficar abstêmio, sem maiores complicações, por cerca de dois anos. “Um recorde”, como ele afirma, em se tratando de um dependente que praticou “picos” durante doze anos. A respeito da reincidência em junk, Burroughs assinala que ocorreu por “dor e doença” (pain e sick), o que, por sua vez, fez com que ele re-procurasse a “cura” (cure) por apomorfina. Inclusive, realizou o mesmo tratamento a fim de manter-se afastado de substâncias químicas mais nocivas, enquanto (through this writing) escrevia e aprontava Naked Lunch.
Antes de comentar dois termos bastante mencionados por Burroughs no tocante a dependência e a sua superação (“doença” e “cura”), convém transcrever a explicação do autor para o título da obra, sugestão de Kerouac, que “The title means exactly what the words say: NAKED Lunch – a frozen moment when everyone sees what is on the end of every fork.” 11 (BURROUGHS, 1993, p. 7).
Expressão que, aliás, ele só compreendeu após sua mais recent recovery. O substantivo recovery, como é sabido, significa convalescença, recuperação, ou seja, palavras de mesmo campo semântico que os termos usados em questões patológicas, no caso, doença e cura. E é pontualmente enquanto “doença” que Burroughs encara o uso de junk - heroína e morfina. Inclusive, o preâmbulo do livro, intitulado “Deposition: testimony concerning a sickness”12, introduz o leitor desta forma:
I awoke from The Sickness at the age of forty-five, calm and sane, and in reasonably good health except for a weakened liver and the look of
10 “A cura é qualitativamente diferente de outros métodos de cura. Experimentei todos eles. Redução rápida,
redução lenta, cortisona, anti-histamínicos, tranqüilizantes, sonoterapia, tolserol, reserpina. Nenhuma dessas curas sobreviveu à primeira oportunidade de recaída. Posso dizer seguramente que estive metabolicamente curado até fazer o tratamento com apomorfina.” (BURROUGHS, 1984, p. 9).
11 “O título significa exatamente o que as palavras dizem: Almoço Nu – um momento congelado em que todos
vêem o que está na ponta de cada garfo.” (BURROUGHS, 1984, p. 5).
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borrowed flesh common to all who survive The Sickness.13
(BURROUGHS, 1993, p. 07).
Burroughs (1984, p.10) chega a declarar que “O vírus da droga é o problema de saúde pública número um do mundo de hoje”.14 Asserção essa que ele justifica pela alegação de que o dependente se torna um joguete na mão de traficantes, devidamente conluiados com as autoridades majoritárias. Estas, no fim das contas, são as que mais se beneficiam, pois, além de lucrarem com o tráfico, possuem interesse especial no aumento de dependentes em drogas pesadas, de maneira que possam legitimar a existência do poder judiciário em nome do “bem estar público”. E o indivíduo, uma vez dependente, guia sua vida, ou melhor, é guiado unicamente na direção da satisfação química fugaz, praticando uma participação social nula.
Em sub-item mais adiante será ampliada a discussão referente à dependência enquanto instrumento de “manipulação em massa”, conforme conjecturas de Burroughs, que estende o sentido ontológico de “droga” e “dependência” para as esferas da vida social. No momento, dissertarei sobre as motivações do escritor na confecção de seu segundo romance.
Haja vista que Burroughs compreende a dependência de entorpecentes químicos, altamente nocivos, enquanto “doença”; o aforismo do neurologista inglês Oliver Sacks, acerca de patologias, conota pontualmente o fundamento básico do autor de Naked Lunch em relação à obra: “[...] os animais contraem enfermidades, mas só o homem mergulha radicalmente na doença.”15
É dessa maneira, mergulhando radicalmente na doença - aliada a inquietações de ordem lingüística, filosófica e estética - , que Burroughs foi levado a ponderar sobre a possibilidade de alterar a rota da sintaxe convencional. Assim, acabou por vislumbrar num
13 “Acordei da Doença aos quarenta e cinco anos, calmo sensato e razoavelmente bem de saúde, a não ser por um
fígado fraco e pela aparência de carne emprestada comum a todos os que sobrevivem à Doença.” (BURROUGHS, 1984, p. 5).
14 “The junk virus is public health problem number one of the world today.” (BURROUGHS, 1993, p.11).
15 SACKS, Oliver. O homem que confundiu sua mulher com o chapéu e outras histórias clínicas. Tradução
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método peculiar, de regras flexíveis, o abarcador de suas idéias e inquietações para elaboração do seu fazer literário, surgia assim, no campo do romance, a técnica “cut-up”.
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