O formato das provas de inteligência não é idêntico e a classificação em individual e coletiva é a mais recorrente. Nos primeiros, os testes são administrados individualmente, nos segundos podem administrar-se a muitas pessoas simultaneamente. Nos testes de aplicação individual, o principal objetivo consiste na avaliação cognitiva geral, a ênfase é colocada no global e holístico (Austin et al., 2002), enquanto nos testes coletivos o enfoque tende a ser mais reduzido e, frequentemente tem como objetivo predizer o desempenho académico ou laboral da pessoa (Almeida & Simões, 2004; Hunter & Hunter, 1984; Ree& Earles, 1992). De aplicação individual, para a população portuguesa, encontram-se adaptados e aferidos para a população portuguesa a WAIS-III (Wechsler, 2008), WISC-III (Wechsler, 2003a), a Escala de Inteligência de Wechsler para a Idade Pré-escolar e Primária - WPPSI-R (Wechsler, 2003b) e as Matrizes Progressiva de Raven - CPM-P Escala Colorida (Forma Paralela) (Raven, Court, & Raven, 2009). Como testes coletivos, destacam-se o Teste D-48 (série de Dominós) (Anstey, 2000), D-70 (Kowrousky & Rennes, 1983) e o Teste de Flexibilidade Cognitiva - Mudanças, Prova cognitiva de inteligência Social (Cubero, 1999). Do conjunto de testes referidos destaca-se a Escala de Inteligência de Wechsler para Adultos (WAIS-III), por ser a utilizada neste trabalho de investigação. Na década de 30 do século XX Wechsler inicia o seu trabalho de construção, desenvolvimento e estandardização de uma escala de inteligência, a
Wechsler-Bellevue Intelligence Scale, destinada à avaliação da inteligência de adolescentes e
adultos (Silva, 2008). Segundo vários autores, o surgimento desta escala impulsionou o desenvolvimento de provas de inteligência com o seu nome, que abarcavam distintos períodos de desenvolvimento desde a infância até à adultez. Ainda hoje estas provas existem e são usadas regularmente. A Escala de Inteligência de Wechsler para Adultos – III (WAIS-III) consiste na que mais se aproxima do primeiro teste construído pelo autor (Boake, 2002) e recentemente foi efetuada a sua quarta revisão que culminou com a WAIS-IV (Wechsler, 2008). O mesmo sucedeu em relação à WISC, dando lugar à WISC-IV (Wechsler, 2003c). A história da atual WAIS-III remonta a 1939 aquando da publicação da Wechsler-Bellevue
Intelligence Scale. Destaca-se por ser o primeiro teste de inteligência que, para além de
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a de realização (Groth-Marnat, 2009). Por outro lado, distingue-se pela particularidade de propor QI’s de “desvio” baseados em resultados padronizados e calculados de acordo com idênticas características de distribuição, em todas as idades (Frank, 1983; Matarazzo, 1972). Esta prova foi construída a partir de uma amostra de sujeitos em que as variáveis idade, sexo, nível de escolaridade e profissão, correspondiam às da população dos EUA, a que se seguiu a construção de tabelas de normalização das pontuações obtidas pela amostra. Ao longo dos anos, as tabelas de normas foram sendo atualizadas, bem como procedeu-se à substituição de itens antigos e modificação de alguns critérios de cotação. Não obstante, manteve-se semelhante o conjunto de subtestes cujas pontuações contribuíam para o QI global (Kaufman, & Lichtenberger, 2006). Wechsler conceptualizou a inteligência sob um prisma ecológico e de forma multidimensional, definindo-a como “a capacidade de um indivíduo para atuar com um propósito, pensar de forma racional e lidar com a eficácia na relação com o meio em que se insere” (Wechsler, 1944, p. 3, In Wechsler, 2007, p. 1). O seu objetivo e a metodologia do seu trabalho são marcados por uma abordagem diferencial, o que justifica a delimitação da sua obra no paradigma diferencial de investigação e avaliação da inteligência. Na verdade, define-a como uma entidade global, por outro como um conjunto de aptidões específicas (Tulsky, Zhu, & Prifitera, 2000). Durante muitos anos Wechsler orientou e focalizou a sua pesquisa para fatores verbais e de realização que contribuíam para uma medida da inteligência global, mas nos últimos anos da sua carreira começou a revelar interesse por fatores como a perceção e ação em função de valores sociais, morais e estéticos (Gregory, 1999; Wechsler, 1975). Durante todos os anos de trabalho, o autor apercebeu-se que os resultados das análises fatoriais explicavam apenas uma percentagem da variância total da inteligência, considerando a existência de outros atributos para a explicação da variância não explicada (Tulsky, Zhu, & Prifitera, 2000), que se referem a motivações humanas básicas, atitudes e traços de personalidade. Os subtestes utilizados por Wechsler referem-se a aptidões mentais muito distintas, mas que no global revelam o funcionamento do indivíduo. Nesta escala, nenhum subteste avalia, por si só, toda a variedade de aptidões cognitivas (Rowe, 2005). No capítulo V daremos a conhecer de maneira mais aprofundada a forma como esta escala se organiza e quais as suas propriedades psicométricas.
Em resumo, a inteligência é globalmente aceite como a capacidade do sujeito se adaptar às situações do dia-a-dia. É um conceito abstrato, definido como a capacidade para aprender com base nas experiências, resolver problemas e adaptar-se a situações novas; por outro, diz respeito a capacidades específicas. Das várias teorias explicativas, a que obtém mais acordo relaciona-se com a conceção que a inteligência tem uma natureza multifacetada e que as várias aptidões estão interligadas. Uma grande parte dos testes psicométricos atuais tem subjacentes as teorias multifatoriais e dão maior enfase aos resultados finais ao invés dos processos e estratégias utilizadas. Tem-se igualmente verificado bastante aceitação dos
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modelos hierárquicos da inteligência devido ao facto de aliar o conceito de fator geral com fatores múltiplos (Harman, 1976; Schmid & Leiman, 1957). Decorrente disto, em termos práticos, o avaliador tem a possibilidade de conhecer o desempenho global do sujeito, e por outro lado analisar aptidões particulares. Investigações na área da genética e da influência do meio ambiente trazem contributos positivos para a influência de ambas na inteligência. Têm existido várias tentativas de medição da inteligência por meio de técnicas neurológicas e sensoriomotoras, mas os testes de inteligência continuam a ser os principais instrumentos de avaliação. As Escalas de Wechsler são importantes para o diagnóstico, mas sobretudo para uma melhor compreensão do funcionamento cognitivo e em algumas situações têm sido usadas como medidas de orientação vocacional e de seleção profissional (Almeida, 2002; Ree, & Earles, 1992). Na área da incapacidade intelectual, os testes de inteligência por si só não são válidos para um diagnóstico de incapacidade intelectual, havendo necessidade de serem coadjuvados com informação sobre as habilidades adaptativas. Pode-se concluir que a literatura científica é unânime na ideia de que a perigosidade de um teste não está no teste em si, mas no uso que lhe é dado pelo avaliador.
Pessotti (1984, In Iacono & Mori, 2004) refere que o recurso a provas de inteligência para diagnosticar esta problemática pode estar sujeito a múltiplos erros, para além de que debruça-se numa reduzida fração da análise multidimensional que um diagnóstico deste cariz exige (Barbosa & Moreira, 2009). Porém, o facto é que estes testes ganharam uma grande popularidade e o seu uso disseminou-se rapidamente. Como exemplo, cita-se o estudo realizado por Frankenberger e Harper (1988) em 49 estados norte-americanos, em que verificaram que 90% dos estados efetuavam um diagnóstico de deficiência mental com base no quociente intelectual, 86% incorporavam também um índice de comportamento adaptativo e 67% utilizavam ainda um índice de desempenho académico.
Dos vários métodos estatísticos utilizados para investigar a arquitetura dos testes de inteligência, a técnica da análise fatorial é das mais empregues pois sugere várias hipóteses quanto à maneira como determinadas capacidades intelectuais estão organizadas. Anderson (1992) alerta que há ainda a necessidade de se ter em conta o tipo de testes usados para construir a matriz de correlações inicial e refere ainda que análises fatorial exploratória e confirmatória não conseguem responder à questão de quantas aptidões humanas existem, qual a sua natureza e de que forma se organizam, por isso, não podem ser utilizadas como único método decisório. Na verdade, nenhuma das abordagens e dos métodos estatísticos utilizados, tem obtido uma explicação totalmente satisfatória sobre a forma como a inteligência se desenvolve e altera, quais as causas das diferenças entre os sujeitos, e que processos cognitivos e fisiológicos específicos são responsáveis pela atividade intelectual. Mais ainda quando se a estuda em população com características tão especificas como a incapacidade intelectual.
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Por fim, a WAIS-III é dos instrumentos de avaliação da inteligência mais utilizados a nível mundial (Hogan, 2006, In Coutinho & Nascimento, 2010), tendo sido aferida para inúmeras populações de entre as quais a população portuguesa, mas não foi aplicada em população com incapacidade intelectual o que por um lado limita a possibilidade de se efetuarem comparações entre subgrupos, mas torna este estudo precursor.
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