• No results found

Na literatura científica existem alguns estudos que investigam as diferenças individuais de atenção e a sua relação com a inteligência. A ideia da atenção como um fator basilar na inteligência existe desde 1927, com Spearman, que sugeriu que a atenção pode ser a base da inteligência geral. Esta assunção tem permanecido ao longo das décadas apesar do debate acerca da natureza da relação entre ambas permanecer ativo (Johnson, 2004). Antes de Spearman aludir para este binómio, já em 1883 Galton (In Johnson, 2004) tinha sugerido a ideia que as diferenças nas operações cognitivas básicas estão subjacentes às diferenças na inteligência. A sua ideia foi inicialmente rejeitada quando se verificou que os testes que utilizava eram incapazes de prever diferenças em termos de QI.

Mais recentemente, Jensen citado por Brody (1998) é quem se tem ocupado do estudo desta relação, em que sugere que a velocidade de processamento, um indicador da atenção, está diretamente relacionada com a inteligência geral. Alguns estudos revelam correlações positivas entre medidas como a forma do potencial evocado auditivo ou a velocidade de transmissão nervosa e a inteligência geral. Porém, outros estudos não identificaram correlações ou as mesmas foram negativas. Acerca desta temática existem na literatura duas hipóteses distintas, ainda que, não eliminatórias uma da outra. Uma primeira teoria conceptualiza que os sujeitos com mais capacidade intelectual orientam e mantêm a sua atenção de uma maneira mais adequada e eficaz quando as exigências do ambiente assim o obrigam (Larson, Merritt & Williams, 1988). São exemplo de conclusões neste âmbito os estudos de Gopher e Kahneman (1971) e Kahneman, Ben-Ishai e Lotan (1973). Por outro lado, outros autores como Baron e Treiman (1980), Hunt (1980; Hunt & Carlson, 2007) levaram a cabo vários estudos que culminaram no surgimento da hipótese de que os sujeitos com mais capacidade possuem uma maior quantidade de recursos atencionais, pelo que são mais competentes quando o ambiente exige dar resposta a variados estímulos e/ou informação. Cooper e Regan (1987) referem que apesar da quantidade de estudos que existem para cada uma das hipóteses, os mesmos não são suficientes para validar uma ou outra hipótese. A segunda hipótese tem vindo a impulsionar o desenvolvimento de outras investigações, nomeadamente por Hunt e colaboradores, utilizando como paradigma de investigação a tarefa dupla.

Outras explicações apresentadas prendem-se com uma menor capacidade para controlar o processamento da informação (Hasher & Zacks, 1979); atribuir-se ao facto destas pessoas

74

revelarem menor conhecimento metacognitivo (Borkowski, Reid, & Kurtz, 1984; Borkowski & Cavanaugh, 1979, In Broadley, MacDonald, & Buckley, 1994) ou sistemas de processamento executivo ineficientes (Detterman, 1987; Detterman et al., 1992). Por fim, a variável motivação é também incluída, repercutindo-se na dificuldade dos sujeitos em ativar a atenção necessária para manter o desempenho.

Quanto às características dos participantes, os estudos têm utilizado sujeitos normativos e sujeitos com incapacidade intelectual, apresentando estes últimos um défice mais significativo nas tarefas atencionais. Já em 1973, um estudo realizado por Fisher e Zeaman concluía que as pessoas com incapacidade intelectual prestam atenção a menos dimensões dos estímulos que os sujeitos sem qualquer comprometimento intelectual. A resistência à interferência é igualmente deficitária neste grupo. Este dado resulta de estudos em que se utilizou a tarefa de Stroop, nos quais o desempenho das pessoas com incapacidade é bastante inferior (Uelchi, 1972; Wolitzky, Hofer, & Shapiro, 1972).

As tentativas para explicar que tipo de défice atencional caracteriza o funcionamento cognitivo das pessoas com incapacidade intelectual são pouco conclusivas. Alguns autores conceptualizam que as pessoas com esta problemática têm dificuldade em selecionar que informação é mais relevante, o que condiciona a utilização de processos eficazes de exploração e busca nas fontes de informação que poderiam ser úteis ou facilitar o sucesso nas tarefas (Beaumeister & Brooks, 1981). Já os autores Nettelbeck e Brewer (1981) referem que esta população revela um défice atencional generalizado, porém, que não afeta todos os aspetos da atenção e ao longo de todas as etapas de processamento da informação.

De toda a problemática da incapacidade intelectual, o tipo de incapacidade onde mais se tem estudado a atenção tem sido no Síndrome de Down através do reflexo de orientação (RO) como a tarefa mais utilizada. Consiste numa reação ou orientação do organismo perante um estímulo novo ou a mudança, como por exemplo a dilatação da pupila do olho como resposta à diminuição da luminosidade (Sokolov, 1963). Comparativamente com sujeitos normativos, os sujeitos com Síndrome de Down revelam piores desempenhos no desencadeamento da resposta de RO como na sua habituação, ou seja, revelam um RO menos intenso e, quando apresentam resposta de habituação, esta é muito mais lenta (Martínez-Selva, García-Sánchez, & Florit, 1995).

A incapacidade intelectual é algo mais complexo que um mero défice cognitivo, porém, os dados existentes permitem sugerir que esse défice é de alguma maneira responsável pelas potencialidades, dificuldades ou limitações que se verificam nos variados aspetos dos comportamentos de competência social dos indivíduos. Segundo Maloney e Ward (1979, In Benedet, 1991), nos casos de sujeitos com comprometimento intelectual, a inteligência assume um papel muito mais determinante na adequação comportamental. Em pessoas com competências cognitivas normativas ou superiores, intervêm outros fatores como os

75

interesses, a motivação, características personalísticas, experiências pessoais e circunstâncias ambientais. Em resumo, é essencial para a competência social um nível intelectual mínimo.

Em síntese, não obstante os anos de investigação à volta da temática da atenção, ainda hoje se questiona se esta é uma espécie de volição ou um estado particular da mente, um mecanismo ou um processo. É uma temática complexa de abordar, dada a dificuldade em delimitar o seu posicionamento perante outros processos psicológicos como a perceção e a memória (Cowan, 1995). Vários autores referem que frequentemente se usam términos distintos para fazer referência a um mesmo constructo, a atenção, ou que se o usa indiscriminadamente, sem existir uma definição clara e rigorosa sobre o conceito aplicado. A propósito das características da atenção, o autor Tudela refere como características o reflexo de orientação, o alerta, a seletividade, a capacidade e a consciência. Luria fala-nos de atenção sobre a perspetiva de seleção de informação e controlo, e Posner e Boies (1971) referem-na como um mecanismo de seleção, de capacidade limitada e de alerta. Estas referências sugerem que mais facilmente se encontram descrições das características, dimensões e funções da atenção do que uma definição clara e objetiva. O surgimento das neurociências cognitivas tem dado contributos fundamentais sobre como funciona a atenção, através da apresentação de dados que nos informam sobre que partes do cérebro são ativadas durante a execução de determinada tarefa.

O nível de desenvolvimento dos diferentes mecanismos atencionais depende da idade, pelo que é esperado que os adultos apresentem melhores competências atencionais que a criança. Quanto aos idosos, apresentam limitações a nível de tarefas atencionais, concretamente ao nível do controlo executivo da atenção, bem como em tarefas em que têm que dividir a atenção ou ser flexíveis na utilização de critérios de velocidade – precisão. Acresce ainda, maior lentidão na velocidade de processamento da informação, a que alguns autores atribuem a declínio nos processos de controlo inibitório. Por sua vez, outros autores sugerem que este défice inibitório se deve a uma atenção seletiva ineficiente, criando vulnerabilidades na memória de trabalho devido à entrada de informação irrelevante.

Relativamente à questão da relação entre atenção e inteligência, este binómio remete para a definição de inteligência que, à semelhança da atenção, não obtém consenso fácil. De forma generalista, pode ser entendida como a capacidade de um sujeito responder de forma rápida e eficaz a certas situações, o que sugere a implicação de outras “ferramentas” ou capacidades, das quais a atenção também está incluída. A complexidade deste binómio assume tal importância que em certas situações deixa-se de se conseguir destrinçar quando se fala de atenção e quando se fala de inteligência. A título exemplificativo, García (1997) refere que a capacidade de oscilação e de distribuição da atenção, ou seja, de reorientação rápida da atenção e de atender a mais do que um estímulo, podem ser consideradas como

76

componentes importantes da inteligência. Esta capacidade de lidar com grande quantidade de informação não só é passível de se encaixar nas definições de atenção como de inteligência. Porém, o debate acerca de saber se a atenção constitui uma fonte determinante ou componente da inteligência está longe de estar concluído (Schweizer, 2010). Como se apresentou, a atenção é multifacetada, por este motivo, questiona-se até que ponto não será limitativo resumir a atenção a um ou outro papel. Os avanços tecnológicos que ocorrem têm- nos sugerido que a atenção não é uma função unitária, pelo que insistir pela validação de uma ou outra hipótese poderá alongar o debate à volta deste binómio e não trazer contributos importantes.

Presentemente está mais que reconhecido que a atenção não é um fenómeno unitário e que vários fenómenos estão associados como sejam o arousal, a habituação, a inibição, a expectativa e ainda a motivação. Por este motivo, a atenção é suscetível de estar afetada em várias perturbações, que não apenas na conhecida PHDA. Investigadores referem que o tipo de personalidade, a idade, o ambiente e inclusive a hora do dia exercem um impacto significativo no desempenho de um sujeito, bem como variáveis intrínsecas dos estímulos como o número, a sequência, a duração e modalidade sensorial ativada. As teorias do desenvolvimento focalizam particularmente na questão da idade e têm desenvolvido investigação à volta desta questão, procurando relacionar os constructos e a idade (Enns, 1993).

É objetivo da investigação em psicologia contribuir para o conhecimento sobre o funcionamento do comportamento e/ou atividade mental dos sujeitos. Contudo, qualquer que seja o âmbito do estudo conclui-se que, globalmente, apesar das variações individuais que existem, os mecanismos de funcionamento mental são os mesmos em todos os sujeitos, variando sim, a forma como cada pessoa os utiliza. Porém, outros autores advogam que existem essas diferenças, sendo a maior evidência desta hipótese o facto de em muitos estudos serem detetadas diferenças individuais e de grupo. Esta inter-individualidade é inquestionável mesmo no próprio dia-a-dia, sendo frequente a referência a pessoas que conseguem estudar e ouvir música ao mesmo tempo, enquanto para outras seria totalmente impossível realizar estas duas tarefas simultaneamente.

A atenção desenvolve-se ao longo do life-span e nos primeiros anos de vida a atenção é dirigida para características salientes do ambiente. Por volta dos 2/3 anos, inicia-se o controlo direto pelo sujeito em que, paulatinamente, o sistema atencional passa a estar sob o controlo do funcionamento executivo, que o utiliza para fins cognitivos, sociais e emocionais. Ao longo de toda a infância e adolescência, alguns aspetos da atenção continuam a desenvolver-se gradualmente e no período da idade adulta, a atenção segue o curso que outros processos cognitivos sofrem em termos de mudanças. No entanto, não existem muitos estudos sobre a atenção na idade adulta, sendo mais frequente na infância e terceira idade.

77

Capítulo IV - Atenção e Incapacidade