1. Introduction
6.2 Case studies
8.2.3 Lessons learned from the case studies
“Somos moços ou velhos muito mais em função da vivacidade, da esperança com que estamos sempre prontos a começar tudo de novo e se o que fizemos continua a encarnar sonho nosso,
sonho eticamente válido e politicamente necessário”. (FREIRE, 1995, p. 56)
Neste capítulo, estão apresentadas as conclusões da pesquisa, considerações finais e recomendações de estudos futuros.
Segundo Freire (2000), a questão do envelhecimento tem sido discutida desde a antiguidade. O autor relata que o filósofo e político Marco Túlio Cícero (103- 43 a.C.), enfatizava a capacidade do ser humano em construir uma imagem positiva da velhice e que essa etapa da vida não é feita apenas de perdas, mas também de oportunidades e de mudanças adaptativas. Entretanto, por questões socioculturais, o tema foi relegado à insignificância, não sendo explorado cientificamente por muito tempo.
Hoje, no Brasil e no mundo inteiro, pressionados pela nova configuração populacional, tendo como base os índices apresentados pelos demógrafos, o tema longevidade tem sido objeto de preocupação da sociedade, exigindo estudos mais acurados, na busca de uma melhor compreensão e estabelecimento de opção que contribua para a inclusão deste grupo populacional na sociedade contemporânea. Sabe-se que o tema reveste-se de uma teia de complexidade, sendo a longevidade resultado da soma de experiências, comportamentos e atitudes singulares a cada etapa da vida, além de todo sistema de interação entre as pessoas, envolvendo múltiplas dimensões de sentimentos, desejos e emoções.
Este trabalho discutiu especificamente a situação dos longevos que prestaram o vestibular e cursam a graduação presencial em uma instituição de ensino no Distrito Federal, enfrentando as mesmas condições dos demais alunos de outra faixa etária. Portanto, conhecer as características desses alunos longevos; seus projetos de vida; a realidade vivenciada no ambiente escolar e em diversas situações de vida; ouvir e interpretar a singularidade de cada discurso, buscando atingir os objetivos
propostos para a pesquisa, representou um grande desafio, mas, também, revelou- se como um processo de rica aprendizagem.
Não importa o curso que tenham escolhido, os alunos longevos não se sentem velhos, seus sonhos e projetos de vida são lançados para além das rugas e dos cabelos brancos. Suas falas revelam a satisfação por ter conseguido associar o sonho à realidade, atraídos pela oportunidade de seguir uma segunda carreira, ser profissional autônomo, continuar as atividades laborativas ou simplesmente fazer o que gosta. Além disso, foi evidenciada no discurso dos longevos, a manifestação do sentimento de prazer em aprender, de superar deficiências, de enfrentar desafios e de satisfazer seus desejos pessoais e profissionais.
Os longevos desse grupo pesquisado sentem-se orgulhosos por estarem estudando numa universidade e, sem preocupação com a idade, realizam seus possíveis projetos de vida de acordo com seus interesses e possibilidades. São universitários muito dedicados. Estudar, portanto, tem valor inquestionável para esses longevos. Compreendidos dessa forma, sob o ponto de vista desta pesquisadora, os alunos entrevistados estão no caminho de uma longevidade bem- sucedida e vivendo, como denominou Simone de Beauvoir (1990, p. 20), “[...] uma época privilegiada da existência”. Dessa forma, os resultados da pesquisa demonstraram que não há limite de idade para se desenvolver continuamente e lutar pela realização dos sonhos.
Fica evidente que os longevos não querem simplesmente estar inseridos na sociedade, mas desejam ser reconhecidos como cidadãos incluídos, valorizados e atuantes em prol de uma existência saudável, autônoma e feliz. A luta pela sobrevivência, a renúncia aos estudos, as dificuldades enfrentadas e o contexto social que os longevos viveram na época da sua juventude fazem parte do passado. Entretanto, esses fatos estão presentes na memória e realimentam os desejos para estarem sempre em busca de novos desafios e superar as eventuais dificuldades.
Para os longevos, o retorno aos estudos assume significados profundos e vai além da certificação. A maioria afirmou estar em busca do conhecimento, além de outros motivos apontados, como por exemplo: não gostar de ficar em casa, sentir-se útil, buscar uma segunda carreira e desenvolver novas competências. Para eles, todos esses motivos têm o sentido de incluir-se ativamente no meio social em que vivem. Portanto, a sociedade escolar é vista por eles como um espaço para vivenciar suas experiências de vida, integração e convivência na construção do conhecimento
e do relacionamento humano. Assim, pode-se inferir que o saber, para eles, não é medido pelo título ou pelo certificado, mas pelos conhecimentos adquiridos e a possibilidade de aplicar na vida prática o que aprenderam, além da estabelecer novos relacionamentos.
Vale lembrar as palavras de Kachar (2003, p. 115): “Aprender é viver continuamente em estado de mudança e transformação, o que está reservado não a uma determinada idade, mas a todas [...]”, inclusive aos longevos. Conforme foi revelado, os alunos longevos não se limitam a desfrutar apenas dos benefícios da longevidade biológica, mas atender aos desejos e anseios inerentes à natureza humana. Dessa forma, por meio da educação, projetam os sonhos de uma segunda carreira; retomam os desejos abandonados; criam seu próprio negócio; estudam para manter a mente ativa; buscam o conhecimento; enfim, querem ser úteis e “ter algo para fazer”.
Nesse contexto, encorajados pela vontade de vencer os desafios, dissipam-se de suas mentes o conceito clássico segundo o qual o avanço da idade é algo negativo e, além disso, desmistificam-se os processos negativos de envelhecimento. Na busca de espaço digno, esquivam-se da exclusão dos idosos que a sociedade ainda insiste em praticar.
Outra situação positiva manifestada pelos longevos entrevistados foi quanto ao relacionamento com os jovens no ambiente escolar. O contato com os jovens colegas os faz rejuvenescer e renovar as energias, situação que pode alimentar positivamente o sentimento de geratividade e o senso de significado existencial. Neste sentido, vale resgatar as palavras do filósofo romano Cícero (2008, p. 26) quanto a esse sentimento: “Que há de mais agradável que uma velhice cercada de jovens estudiosos?”.
É importante ressaltar que, apesar das manifestações positivas pelos alunos longevos, ainda existe incompreensão por parte de alguns jovens universitários quanto à convivência com os colegas de mais idade. Essa incompreensão pode, muitas vezes, resultar em situações de discriminação no ambiente escolar.
Nos discursos dos entrevistados, a discriminação com as pessoas idosas ainda ocorre em diversas situações e em vários lugares, trazendo certo incômodo aos longevos. No ambiente universitário, conforme foi constatada nesta pesquisa, a discriminação se manifesta de maneira direta ou velada, praticada tanto pelos colegas de outra faixa etária como também, surpreendentemente, por parte de
alguns professores. Na opinião dos alunos longevos, a discriminação por alguns professores se revela de forma simbólica e sutil.
Apesar dos pontos positivos, percebe-se ainda que, no contexto atual, as universidades não estão preparadas para lidar com a heterogeneidade sociocultural e etária de seus alunos e não são capazes de atender a todas as necessidades desse segmento populacional (SATO; CÂMARA, 2008). Existem situações nas quais os alunos se tornam reféns de instituições escolares que se preocupam apenas em repassar os conteúdos, sem se importar com a formação humana. Nessa indiferença, o poder institucionalizado não pergunta aos longevos como se sentem, calando-se numa espécie de “conspiração silenciosa” (BEAUVOIR, 1990, p. 8).
As universidades podem influenciar a comunidade na mudança de atitudes em relação à velhice, por meio de ações educativas, tais como: incentivando um convívio mais intenso e significativo entre longevos, professores e alunos de outra faixa etária; criando oportunidades para que os alunos longevos desenvolvam a autoestima e o senso de pertencimento à escola; promovendo a construção de uma cultura compartilhada; e promovendo a inclusão do tema longevidade nas atividades de pesquisa e extensão. Câmara (2006) já vem alertando sobre a necessidade de sensibilizar os educadores para questões ligadas ao envelhecimento populacional, criando espaço para debates, além de ser fundamental a realização de pesquisas e estudos nessa área.
Considera-se que toda a comunidade escolar, principalmente os professores têm o papel educacional importante para que, por meio de convivência com os alunos longevos, possam derrubar os preconceitos, rever as falsas crenças e avaliar as práticas profissionais, situando a escola como um espaço privilegiado para programas intergeracionais. O importante é que, por meio de um bom relacionamento, os jovens possam interagir com os longevos, ouvir suas experiências de vida para que, além da construção conjunta de conhecimentos, aprendam a desenvolver a afetividade e a solidariedade, tão necessárias no mundo contemporâneo.
É importante o desenvolvimento da solidariedade e do sentimento de respeito mútuo entre os jovens e longevos, abrangendo não só a transmissão de conhecimentos, mas também o fortalecimento da afetividade entre as pessoas e o enriquecimento de atitudes e valores humanos por meio da convivência intergeracional.
Outra questão que se tornou evidente na pesquisa e que merece destaque diz respeito ao significado do trabalho no atual contexto. Observa-se que o trabalho será cada vez mais uma realidade crescente junto ao segmento populacional de longevos.
Perguntados aos alunos longevos sobre o sentido do trabalho, seus discursos evidenciaram a influência da lógica societal capitalista. A concepção mercadológica aparece nas frases, como por exemplo: “ganhar dinheiro”, “remuneração”, “produzir alguma coisa”, “capaz de exercer e produzir”. Por outro lado, foi manifestada a satisfação pelo trabalho, nas expressões: “organização da vida”, “missão”, “estrutura da vida”, “sentir-se útil”, “uma filosofia”, “a própria vida”. Essas falas foram traduzidas em sentimentos de autonomia, liberdade, prazer, segurança, dignidade e necessidade humana. Dessa forma, no entendimento dos longevos, o sentido do trabalho vai além dos bens materiais. Confirma-se a teoria de Arendt (1991), quando argumenta que o trabalho é concebido como uma necessidade própria da condição humana.
Frente a essa realidade, ficou também evidente que o conceito de aposentadoria vem se modificando, pressionado pelo número crescente de longevos que permanecem em atividades laborais, mesmo após os 60 anos de idade. A maioria dos longevos entrevistados encontra-se na situação de aposentado, mas continua exercendo atividades laborativas para, segundo eles, não se tornarem “inúteis”, “velhos”, desvalorizados e descartáveis. Ao mesmo tempo, realizam os sonhos que foram negados na juventude, como: voltar a estudar, assumir uma segunda carreira, fazer o que gosta e o que dá prazer.
Beauvoir (1990) menciona que é importante o longevo sentir que tem metas, pois a ausência de projeto mata o desejo de conhecer e de aprender. Descartar o longevo porque chegou à idade de deixar o trabalho, significa ignorar a contribuição em termos de experiência que ele poderia agregar para a sociedade.
Apesar de não ter sido o foco desta pesquisa, vale ressaltar que os programas de extensão, abertos à terceira idade, promovidos por várias universidades brasileiras, mereceram discussão teórica neste trabalho como modalidades de educação para os longevos. Verificou-se que as ações educativas oferecidas aos longevos, por meio desses programas, representam fonte de inspiração para desenvolver outros modelos educacionais adequados, visando atender às necessidades desses novos atores.
Além disso, é necessário desenvolver estudos e pesquisas sobre Universidades de Terceira Idade que “contempla outros contextos e métodos educativos”, isto é, “a educação não formal e a informal”, extrapolando a educação formal (VELOSO, 2004, p. 176).
Os dados obtidos nesta pesquisa tornaram possível apresentar alguns pontos relevantes para o aprimoramento do processo educativo junto aos longevos:
a) estimular os professores de ensino superior a refletir sobre a prática profissional buscando elevar a autoestima dos longevos, visando à sua integração e reintegração na escola e na sociedade;
b) desenvolver estudos sobre o processo de aprendizagem dos longevos, com o objetivo de torná-lo mais estimulante e que dê sentido à vida; c) aprofundar os estudos sobre o sentido do trabalho e da aposentadoria
sob o ponto de vista da sociedade contemporânea;
d) realizar estudos sobre os benefícios da previdência social e a evolução do emprego formal, buscando prospectar ações que possam garantir o bem-estar dos beneficiários na longevidade;
e) exigir das universidades e do poder público ações concretas no que estabelece a Lei 8.842, de 4 de janeiro de 1994, no inciso III, do artigo 10;
f) por fim, vale destacar a importância de dar continuidade ao estudo do tema no contexto atual de mudanças e (re)significação dos conceitos e valores inerentes à singularidade desses atores; e na coletividade de uma nova população que adquire, a cada dia, proporções significativas sejam elas numéricas, seja pela importância de sua natureza humana.
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