1. Introduction
9.1 Summary and Conclusions
REVISÃO DA LITERATURA
Para investigar a opinião de jovens estudantes do ensino médio do Distrito Federal sobre o papel da escola frente aos desafios do século XXI, fez-se necessário, primeiramente, analisar, à luz de referenciais teóricos, como a literatura percebe a juventude, seus olhares, necessidades, dificuldades e perspectivas, bem como a sua compreensão a respeito dos desafios educacionais e do papel da escola frente aos mesmos.
3.1 – Juventude: uma tentativa de caracterização
O conceito de juventude costuma variar de acordo com as diferentes culturas, ciências e paradigmas de pensamento. É preciso considerar o quão diferentes são os seres humanos, marcados por uma unicidade e pluralidade única frente a qualquer outra espécie. Vivemos em contextos sociais e econômicos diversos, logo, temos experiências muito distintas e, por que não dizer, únicas, vez que as internalizamos de modo singular – exemplo disso é o fato de um mesmo acontecimento atingir as pessoas de diferentes maneiras, de acordo com as suas histórias, aspirações e frustrações.
Diante disso, tentar estabelecer um único conceito de juventude torna-se uma tarefa quase impossível: “por esta razão é que se pode afirmar que não há somente uma juventude, mas juventudes que se constituem em um conjunto social
diversificado com diferentes parcelas de oportunidades, dificuldades, facilidades e poder na nossa sociedade” (ESTEVES, 2005, p. 32).
Madeira (1998) alerta que o ser jovem é um estilo de vida fortemente valorizado na sociedade de hoje, conforme é possível perceber nas estratégias utilizadas pela mídia para tentar vender seus produtos e idéias. É comum, por exemplo, observar nas propagandas a associação entre juventude e força, beleza, virilidade, entre outros aspectos valorizados na sociedade contemporânea. Tal associação provoca um sentimento de busca incessante pela permanência na juventude, como se a felicidade consistisse apenas nos fatores a ela associados. Essa supervalorização pode gerar um prolongamento dessa condição, principalmente se considerarmos, conforme defende Matos (2003, p. 34), que “a dubiedade em ser criança e ser adulto não traz só malefícios. O fato de ‘jogarem nos dois campos’ possibilita uma irresponsabilidade provisória, fazendo com que muitos queiram prolongar essa fase indeterminantemente”.
Corroborando com a idéia acima, Kehl (2006, p. 96) afirma que “a vaga de ‘adulto’, na nossa cultura, está desocupada”. Nem mesmo os pais e mães acima dos 25 anos e financeiramente independentes querem deixar de ser vistos como jovens: ora para não parecerem pessoas excessivamente conservadoras, ora por causa da imagem criada e socialmente valorizada e ora para evitar situações de enfrentamento das dificuldades e dos conflitos gerados na educação de seus filhos. A conseqüência disso é que os jovens podem ficar sem parâmetros de conduta diante da vida (que é cada vez mais complexa) ou, pior que isso, espelharem-se em parâmetros ditados pela mídia e pela sociedade do consumo – agravando ainda
mais muitos dos problemas vividos nos dias de hoje, principalmente no tocante à falta de limites e na busca incessante pelo prazer sem fim.
Dessa maneira, é possível dizer, também, que a acepção atual de juventude é uma criação da sociedade industrial e pós-industrial, na medida em que esse período absorve a necessidade de preparação para as complexas exigências da vida adulta numa sociedade de mudanças velozes e imprevisíveis (HUGHES, 2005). Trata-se, nesse sentido, de uma fase transitória, em que não se é criança, mas também não se é adulto.
Gomes (2005, p. 122) afirma que “no mundo globalizado (ou em vias de globalização) assinala-se a redução do tempo da infância, a antecipação da adolescência e o prolongamento desta”. Noutras palavras, parece que a fase da adolescência tem se estendido de acordo com as novas características sociais, isto é, a diminuição dos empregos e o aprofundamento das necessidades de especialização e conhecimento nas áreas de atuação do mercado de trabalho parecem fazer com que os indivíduos adiem cada vez mais sua inserção na vida adulta. Todavia, as limitações financeiras fazem com que muitos jovens abandonem a escola e busquem um emprego o quanto antes, gerando, com isso, uma distância significativa nas condições de inserção e permanência no mercado de trabalho, uma vez que aqueles que possuem maior grau de escolaridade tendem a ocupar as vagas mais privilegiadas, favorecendo a permanência da desigualdade social.
Nesse sentido, ressalta-se que a preocupação com a inserção e permanência no mercado de trabalho, bem como o tão sonhado sucesso profissional parece ser um dos fatores de destaque quando o assunto é o futuro e a inserção na vida adulta. De acordo com os estudos de Matos (2003, p. 39), o futuro representa para a
juventude “a associação escola e trabalho, mesmo que seja apenas nas suas percepções e sonhos (...) O futuro é viver. É, quem sabe, ter dinheiro, emprego, independência”. Entretanto, segundo Tedesco (2006), a independência financeira tende a ser adquirida cada vez mais tarde, fazendo com que a autonomia cultural e individual não seja acompanhada da autonomia material.
A respeito da visão que a sociedade tem sobre a juventude, é possível elencar os seguintes pontos, alguns deles bastante contraditórios, quais sejam: i) indivíduos responsáveis para atender determinadas exigências e, ao mesmo tempo, infantis para outras; ii) futuro da nação de um lado, mas completamente irresponsáveis no presente; iii) indivíduos com capacidade de contestação e transgressão; iv) grupo de risco, vulnerável à criminalidade.
Portanto, apesar da complexidade em definir essa fase da vida, estudo feito pela Unesco aponta para a existência de cinco elementos cruciais em termos de ideais-objetivos:
- a obtenção da condição adulta, como uma meta; - a emancipação e a autonomia, como trajetória;
- a construção de uma identidade própria, como questão central; - as relações entre gerações, como um marco básico para atingir tais propósitos;
- as relações entre jovens para modelar identidades, ou seja, a interação entre pares, como processo de socialização (ESTEVES, 2005, p. 36).
Com relação ao perfil da juventude brasileira, dados da pesquisa realizada pelo Instituto Cidadania (2004)9 apontam que os assuntos que mais interessam os jovens são: educação (38%), emprego/profissional (37%), cultura/lazer (27%). Esses
9 As questões eram de múltipla escolha e os jovens apontavam três fatores que julgavam pertinentes, de acordo com o grau de importância, numa escala de 1 a 3, sendo 1 o mais importante, o 2
dados demonstram, conforme apontam outras pesquisas (ESTEVES, 2005; MATOS, 2003) que a escola ainda é vista pelo jovem como sua “segunda casa”, espaço primordial para sua formação como pessoa, como cidadão e como profissional.
A pesquisa realizada pelo Instituto Cidadania (2004) também indica os problemas que mais preocupam o jovem atualmente: violência (55%), emprego/profissional (52%), drogas (24%) e educação (17%). Interessante notar que apenas 17% indicaram a educação como um fator de preocupação, mas, em contrapartida, 50% julgaram a educação como o assunto mais importante a ser discutido pela sociedade, enquanto que 68% acham que o assunto mais importante a ser discutido é a violência e 58% acham que são as questões referentes à cidadania e aos direitos humanos. Tais dados mostram a grande preocupação da juventude com relação ao futuro do país, desejando algo melhor do que vivenciam hoje.
Rodríguez (2004, p. 20) desenvolve uma reflexão interessante sobre a pouca atuação dos jovens na luta por interesses próprios, afirmando que estes “estão mais preocupados em construir um mundo melhor para se viver do que melhorar suas condições de vida, passageira por definição”. Completando essa idéia, é possível dizer que os jovens tendem a acreditar que, sendo eles os responsáveis por mudar o mundo, são capazes de fazê-lo melhor, mais justo e mais livre, garantindo a sustentabilidade e a justiça social, entretanto, fica a seguinte pergunta: por que tantos jovens desejam mudar o mundo e tão poucos se engajam em projetos voltados para mudanças concretas? Singer (2005, p. 35) contribui para essa reflexão dizendo que “a resposta está, provavelmente, na pobreza de grande parte dos jovens brasileiros (...) que têm que cuidar antes da própria sobrevivência, evitando
serem tragados pela violência criminosa ou mergulhando nela, como alternativa menos pior”.
A respeito da violência, um dos fatores contemporâneos que mais assustam a juventude, Abramovay et al. (2004, p. 67), ao pesquisar esse tema, questiona os jovens sobre como a mesma deve ser combatida, e “mais de três quartos responderam que é por intermédio do trabalho e da educação” – concebendo a escola, então, como um espaço de transformação social.
Assim, é válido perguntar: o que significa a escola para a juventude? Para quê ela serve? Qual a relação percebida por eles entre a escola e a vida, incluindo o mercado de trabalho? Responder a estas e outras perguntas constituem objetivos deste estudo, todavia, antes de analisar a opinião dos jovens, faz-se necessário compreender um pouco melhor o cenário atual em que eles estão inseridos, a fim de contextualizar suas respostas e permitir análises mais claras e coerentes com realidade presente.
3.2 – Características e desafios do século XXI
Muitas características e desafios já foram elencados, entretanto, faz-se necessário sistematizar um pouco mais o que está sendo discutido aqui, a fim de facilitar o entendimento a respeito do assunto em questão. Para isso, vejamos o quadro abaixo, construído a partir de alguns teóricos referenciados, bem como de outras leituras feitas:
CARACTERÍSCAS DO SÉCULO XXI DESAFIOS DO SÉCULO XXI Aumento na expectativa e na
qualidade de vida das pessoas; Crescimento acelerado dos meios
de comunicação à distância;
Crescimento acentuado dos conhecimentos – “Sociedade do conhecimento”;
Aumento das interdependências entre os países;
Tecnologia e inovação; Globalização;
Sociedade organizada em redes; Mudanças velozes e imprevisíveis; Automação;
Desenvolvimento do setor terciário; Modificação das estruturas
hierárquicas das empresas (mais curtas e descentralizadas);
Mão-de-obra autoprogramável;
Demanda por profissionais polivalentes;
Família entendida como rede de relações e não como instituição; Desigualdade social;
Multiplicação dos conflitos regionais, locais, interétnicos e internacionais;
Imediatismo.
Desenvolver a tolerância para a construção de uma cultura de paz;
Reconhecer as novas formas de aprendizado;
Valorização dos trabalhos em equipe, que têm como base os princípios solidários e o respeito às diferenças; Integrar a família e a comunidade à escola, unindo
forças em torno de objetivos comuns;
Oportunizar, no interior das escolas, acesso a variedade de materiais e recursos educativos (computador, internet, biblioteca, tv, mapas, museus, espaço para esportes e lazer, entre outros);
Proporcionar leitura crítica da realidade;
Encorajar ações transformadoras na luta por uma sociedade mais justa e libertária para todos;
Contribuir com o fomento da capacidade criativa na resolução de problemas;
Articular a razão às questões éticas;
Contribuir para a formação do cidadão consciente da sua realidade e sujeito da sua história;
O processo educativo deve acontecer na diversidade e não para a diversidade;
Articular a vida escolar à realidade da vida prática, estabelecendo um estreito vínculo entre o sujeito social e o sujeito do conhecimento;
Adaptar-se às mudanças provocadas pela tecnologia; Flexibilizar saberes;
Exercitar a criatividade; Inovar;
Construir e desconstruir conhecimentos; Adquirir competências comunicacionais;
Engajar-se na consolidação de um desenvolvimento sustentável;
Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver (Delors et al.);
Desenvolver as competências hoje requeridas dos trabalhadores: espírito crítico, responsabilidade, autonomia, capacidade de resolver problemas, capacidade de se comunicar e trabalhar em equipe e criatividade;
Formação continuada e permanente; Redução das assimetrias sociais; Respeito pelos espaços públicos.
Existem muitas outras características e desafios que poderiam ser acrescentados a esta lista, no entanto, de acordo com a bibliografia pesquisada, estes podem ser considerados os principais fatores, servindo como base para essa pesquisa.
Se analisarmos a relação entre os desafios listados acima com o papel da escola, é possível afirmar que, apesar das condições econômicas e sociais serem consideradas desfavoráveis, deposita-se uma grande expectativa na educação, considerando-a um importante mecanismo de transformação social, uma vez que, ao estar comprometida com a formação de cidadãos, isso se reflete diretamente na sociedade, pois são esses mesmos indivíduos que estarão atuando sobre ela no futuro mais próximo.
Diante disso, é preciso, mais do que nunca, articular a escola e a comunidade em torno de objetivos comuns, que deve ser a constituição da cidadania e a conseqüente consolidação dos direitos humanos, permitindo a todos o acesso à educação em condições de igualdade de oportunidades.
Também é necessário considerar que, ao se falar em educação ao longo da vida e por toda a vida, a escola do futuro precisa estar orientada para atender a todos os indivíduos, independentemente da faixa etária e dos muros que a exprimem. As demandas contemporâneas requerem que a escola seja capaz de ultrapassar seu espaço e se fazer presente em muitos outros lugares (como nas empresas, por exemplo), bem como de variadas formas, atendendo a diversidade do público que a cerca.
Além disso, há uma mudança significativa na estrutura das famílias (redução do número de filhos, aumento das uniões livres; crescimento do número de filhos que vivem apenas com a mãe ou com o pai; entre outros) e na forma como os valores são transmitidos nos dias de hoje, vez que os adultos (pais) já não querem mais assumir o papel de transmissores de uma determinada visão de mundo,
preferindo ser “orientadores” para, dessa maneira, dar aos filhos a possibilidade de construir autonomamente sua própria concepção (TEDESCO, 2006).
Nesse contexto, tendo em vista a mudança de papel das famílias, os meios de comunicação de massa ocupam cada vez mais tempo das crianças e adolescentes, gerando um déficit de socialização e, por conseguinte, uma crise de valores e uma falta de coesão social (GOMES, 2001). Nesse contexto, a escola de hoje, preocupada com a formação do ser integral, não pode continuar incumbindo-se apenas da transmissão de conteúdos (que se tornam obsoletos rapidamente). É urgente que as instituições escolares assumam como parte da sua responsabilidade a formação de valores, a capacidade de analisar criticamente a realidade e interferir qualitativamente sobre ela, a capacidade de aprender a conhecer, aprender a fazer e, não menos importante, a capacidade de ser e de conviver com outros.
Outro desafio diz respeito ao enfrentamento das desigualdades sociais geradas pela mundialização. Faz-se necessário, para evitar a polarização dessas desigualdades, garantir a todos uma educação escolar de qualidade, que respeite as diferenças pessoais, locais, econômicas, culturais e sociais. Nesse sentido, torna-se imprescindível dar “ênfase à educação básica e a currículos de qualidade que respeitem a diversidade, especialmente dos educandos menos favorecidos socialmente” (GOMES, 2001, p. 94). Então, garantir a todos o acesso à escola e primar pela flexibilização e contextualização dos currículos é consolidar uma educação comprometida com o sucesso e o crescimento – favorecendo um desenvolvimento mais justo e eqüitativo das sociedades.
Gomes (2001, p. 94), também se refere “à multiplicação dos conflitos regionais, locais, interétnicos e internacionais” e, diante dessa realidade, a escola
pode contribuir valiosamente ao se comprometer com a formação de indivíduos tolerantes e que respeitem as diferenças, entendendo que também fazem parte dela – talvez a isso possa se chamar “humanização”. Corroborando com ssa idéia, Tedesco (2006, p. 40-41), ao compreender que o sentimento de solidariedade associa-se ao sentimento de pertença, afirma que “o desafio educativo implica em desenvolver a capacidade de construir uma identidade complexa, uma identidade que contenha a pertença em múltiplos âmbitos: local, nacional e internacional, político, religioso, artístico, econômico, familiar etc”. Portanto, perceber o mundo como parte da sua morada e em cada um a riqueza da singularidade e pluralidade humana, estando aberto para conhecer novas culturas e novas formas de perceber a realidade são fatores basilares para a construção e consolidação de uma cultura harmoniosa, fraterna e repleta de paz.
Mais um desafio diz respeito ao aumento das tecnologias em todos os âmbitos, inclusive nas escolas. Muitos dizem que, em pouco tempo, as escolas poderão ser substituídas por computadores e redes. Todavia, a escola permite o diálogo, a interação com o mundo real e com as pessoas, logo, os instrumentos técnicos são, e continuaram sendo, apenas meios e não fins em si mesmos. A educação precisa levar o homem a compreender que as novas tecnologias respondem às demandas criadas pelos seres humanos e não o contrário. Por isso, é preciso considerar que o papel da escola ultrapassa, e muito, a transmissão de conteúdos, pois “cabe-lhe fornecer às crianças e adultos as bases culturais que lhes permitam decifrar as mudanças em curso” (GOMES, 2001, p. 94). Para tanto, a escola do novo tempo deve incumbir-se de ensinar os indivíduos a organizar, analisar, criticar e construir conhecimentos e, nessa perspectiva, espera-se que a
democratização das novas tecnologias contribua para que a espécie humana aprenda mais, seja mais criativa e, principalmente, saiba fazer uso desses avanços em benefício de todos, diminuindo a distância entre a minoria privilegiada e a maioria excluída.
3.3 – Escola e profissionalização
Diante do exposto, é possível afirmar que um dos desafios mais importantes para os jovens é a relação entre a escola e a profissão, quer dizer, é na escola que a maioria dos jovens, especialmente das classes menos favorecidas, deposita a expectativa de receberem a qualificação que lhe permitirá ingressar no mundo do trabalho. Todavia, dados da Organização Internacional do Trabalho – OIT mostram que, apesar do crescimento econômico em diversas áreas, entre os anos de 1993 e 2003 o desemprego entre os jovens latino-americanos aumentou 44, 2% (PEREIRA, 2004). Este dado aponta para vários fatores, dentre eles o sentimento de marginalização social sofrido pelos jovens que, comumente, concebem o trabalho como ferramenta imprescindível para o exercício da cidadania (ESTEVES, 2005).
Tomando por base os estudos de Caliman (1998, p. 53), é possível afirmar que, quanto mais marginalizado está o indivíduo com relação ao atendimento de suas necessidades fundamentais, maior é o risco de transgressividade e desvio social, uma vez que estes comportamentos freqüentemente são frutos, dentre outros fatores, da frustração pessoal diante da desigualdade vivenciada por meio da estratificação social e econômica presentes na sociedade. Noutras palavras, quanto
maior a insatisfação do indivíduo perante as próprias necessidades, maior a probabilidade do mesmo “desenvolver determinados déficits na evolução de sua personalidade, ou assumir (...) culturas redutivas a alguns valores ou pseudovalores”.
Segundo Abramovay et. (2004, p. 83), o significado do trabalho para os jovens parece se resumir “a assegurar meios de sobrevivência e de satisfação de necessidades e desejos: não é percebido como fonte de satisfação em si mesmo, como atividade construtiva e de realização pessoal”. Esta é uma informação preocupante, pois mostra que o principal motivo para a escolha da profissão e ingresso do mundo do trabalho refere-se ao potencial econômico que as atividades podem oferecer, mesmo que para isso seja preciso abrir mão do sentimento de felicidade associado à realização pessoal.
De acordo com pesquisa realizada por Abramovay e Castro (2003), 17% dos alunos do ensino médio que haviam abandonado a escola retomaram os estudos, e a principal justificativa desse retorno deve-se ao fato dos mesmos considerarem que o diploma escolar é muito importante para conseguir trabalho. Reforçando essa idéia, pesquisa realizada pelo Instituto Cidadania (2004) concluiu que 76% dos jovens consideram a escola muito importante para seu futuro profissional. Por conseguinte, apesar das constantes críticas, a população em geral concebe a escola como um requisito valioso para o ingresso no mundo do trabalho.
No que diz respeito à legislação, o art. 1º, parágrafo 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei 9.394/96 determina que “a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e a prática social”. Nessa direção, a escola assume um espaço de destaque, responsável não somente pela formação crítica,
pela base moral e psicológica, mas também pela aprendizagem que possibilita aos jovens ingressar no mercado de trabalho.
Nesse sentido, “cada vez mais se torna imprecisa e irrelevante a tradicional distinção entre ensino acadêmico e ensino profissional” (UNESCO, 2003, p. 42), visto que se preparar para o mundo do trabalho é hoje tão importante quanto se preparar para os estudos superiores, principalmente se considerarmos que o certificado de conclusão do ensino médio já não garante a inserção no mercado de trabalho. Além disso, ao afirmar que o ensino médio destina-se, dentre outros fatores, à preparação para a vida, é preciso entender a estreita e contínua relação entre aprendizado e mundo do trabalho, pois numa sociedade caracterizada por mudanças tão velozes, a capacidade de aprender permanentemente torna-se essencial.
Portanto, a tendência é incluir no currículo geral de todos os estudantes do ensino médio algumas matérias profissionalizantes, contrariando a idéia de que a educação profissional representa uma alternativa apenas aos jovens das classes menos favorecidas, que comumente vêem na educação escolar o caminho mais rápido e seguro de inserção no mercado de trabalho. Cabe destacar ainda que
existe, em certos países, a preocupação de que um ensino médio que deixa de lado o mundo do trabalho venha a representar uma desvantagem. E isto acontece porque a maioria dos alunos ingressarão no mundo do trabalho ao completarem a sua educação. Há muitas novidades tendentes a trazer o mundo do trabalho para a sala de aula, sem que isso implique, necessariamente, uma educação