As condições da produção artística portuguesa, a situação material dos artistas, o interesse do público pelas artes plásticas e a evolução do mercado de arte no país foram os assuntos dominantes nas comunicações e nos debates decorridos durante o I Encontro de Críticos de Arte, verificando-se, excluindo o caso da comunicação de Salette Tavares, que os temas de interesse tiveram uma dominância mais sociológica do que estética ou historiográfica394. Este facto encontra justificação no interesse que a sociologia tinha para a maioria dos autores envolvidos neste debate. Não esqueçamos que José-Augusto França tinha sido discípulo de Pierre Francastel e que Rui Mário Gonçalves e Fernando Pernes, entre outros, tinham passado pela École de Hautes Étude onde Pierre Francastel lecionava, e onde frequentaram as suas aulas. Veremos mais à frente a importância do pensamento Francasteliano para a crítica de arte portuguesa.
Os temas abordados durante as discussões – a avaliação das estruturas artísticas do país, a análise da disciplina e do seu desempenho, o estudo dos meios de produção artística, do interesse do público e da evolução do mercado de arte nacional, o delinear depois dum balanço do futuro possível, ultrapassaram consideravelmente o campo de competências específicas da crítica de arte. Os críticos portugueses estavam interessados em todos os problemas que envolvessem a dimensão artística, mais do que apenas com a definição de um campo disciplinar, das suas funções e limites, mesmo que estas tenham sido as preocupações essenciais de alguns dos elementos participantes, como veremos. Para esse aspeto chamou a atenção o jornalista que fez o balanço do encontro no Diário de Lisboa:
«Algumas respostas a estas questões foram dadas, mas todas exteriores à análise do crítico propriamente dito, à origem e desenvolvimento da disciplina. Seja como for, alguma coisa se propôs e estamos convencidos, que daquele Encontro resultou muito do que se fez depois no domínio da crítica de arte: redefinição de métodos, estratégias, reorganização da AICA, promoção de atividades e de autores, desenvolvimento de uma política cultural»395.
394 Facto compreensível graças à formação dos protagonistas do evento. José-Augusto França, Rui Mário
Gonçalves e Fernando Pernes, todos estudaram em Paris com os mais proeminentes professores da École Pratique d’Hautes Études, École du Louvre, Collège de France e do Institut d’Art et d’Archéologie: Pierre Francastel, Roland Barthes, Julius Starzinsky, Jean Cassou, René Huyghe e André Chastel.
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Outro dos intervenientes considerou que se discutiram temas demasiado importantes e complexos num curto espaço de tempo. Para Nelson di Maggio «uma concentração temática é provável que tivesse beneficiado os resultados práticos e posições do Encontro». E acusava os críticos de arte de serem:
«(…) mais capazes de construir uma filosofia do Mundo a propósito dum quadro do que falar do próprio quadro. Quer dizer que houve muita literatura e trivialidades várias e poucos resultados concretos. As moções aprovadas na última sessão eram demasiado inovadoras para serem eficazes. Não pense o leitor que estas observações diminuem este excecional Encontro, onde pela primeira vez os críticos de arte portugueses confrontaram e expuseram - com dignidade e na medida da sua capacidade individual alguns graves problemas, mesmo que não elaborassem o elenco dos principais, nem sugerissem a solução dos mais urgentes»396.
No Diário de Lisboa, Rocha de Sousa traçou um panorama do encontro revelando as interessantes conclusões a que chegara o debate sobre quem era o crítico de arte e qual a sua função. O crítico de arte era sobretudo um “Promotor Cultural”397. Às questões de como, onde, porquê e para quê um promotor cultural? Algumas respostas tinham sido dadas mas o debate não se esgotava de modo algum. Segundo Rocha de Sousa, deste encontro «resultou muito do que se fez depois no domínio da crítica de arte: redefinição de métodos, estratégias, reorganização da AICA, promoção de atividades e de autores» no fundo o delinear de uma política cultural, até aqui inexistente. Interessante realçar que, com este encontro, muitos problemas foram reavivados e as ideias passaram a circular com uma nova força, ao mesmo tempo que o mercado se abria ao reconhecimento do fenómeno artístico.
Segundo Rocha de Sousa, seria importante depois deste encontro que os críticos de arte se empenham na crítica da crítica, num balanço e estudo de ações possíveis onde os artistas estivessem também presentes398. Opinião semelhante fora expressa por Rui Mário Gonçalves no Balanço que publicou sobre o encontro nas páginas da Colóquio / Revista de Artes e Letras onde defendeu que depois da revisão dos valores do passado próximo e da apresentação dos valores do próximo futuro era necessário insistir n’ «uma crítica
396 Maggio, Nelson di - Crónicas. Artes. Encontro de Críticos. Flama. Revista semanal de actualidades.
Vol. XXIII, n.º 997 (14 Abr. 1967), p.43.
397 Artes Plásticas. O I Encontro de Críticos de Arte Portugueses. Diário de Lisboa. Lisboa. Vol. 46, n.º
15903 (28 Mar. 1967), p.2.
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constante (…) dentro da própria crítica», pois «no nosso tempo a arte se procura a si mesma assim como a crítica». Para Rui Mário Gonçalves era perentório recusar a atitude imobilista da SNBA e da SP/AICA e era necessário assumir «a vontade de abrir caminhos novos»399.
A questão da profissionalização do crítico de arte passava pela existência de um organismo que sancionasse essa distinção e pelo carácter de formação exigido para alcançá-la. Nelson di Maggio elogiando a atribuição do Prémio Calouste Gulbenkian de Crítica de Arte (1962-1965)400 a Fernando Pernes sublinhava a necessidade sentida em estimular a crítica de arte «uma profissão que não se ensina[va] em nenhuma universidade e que depend[ia] de factores tão imponderáveis como a personalidade do crítico, a sua formação intelectual, a sua experiência, a sua flexibilidade inteligente e da sensibilidade para detetar, assimilar e dar a conhecer - a tempo e horas - os mais variados problemas e tendências das artes plásticas contemporâneas»401. Rocha de Sousa perguntaria mais tarde se «o crítico se forma e se profissionaliza por extensão de “curriculum”, por qualidade de ação ou por filiação em qualquer organismo que honestamente e de acordo com um estatuto adequado, [pudesse] responder por tal decisão»402.
No ano seguinte, referindo-se à importância do mecenato, como o que proporcionara a criação do Prémio SOQUIL, também Fernando Pernes aponta a urgência máxima «dum autêntico estatuto da nossa crítica de arte, ainda mergulhada em compromissos amadorísticos de boa, má ou péssima vontade»403.
Os organizadores do encontro procuraram no final do mesmo encontrar uma editora interessada na sua publicação, mas essa tarefa revelou-se uma impossível. «Talvez a falta de vedetismo dos intervenientes» apontara como justificação Rui Mário Gonçalves com ironia404. A solução passou pela publicação de alguns dos textos nas páginas da revista Colóquio/Artes alguns anos mais tarde com a clara intensão de reavivar os acontecimentos de 1967 e as conquistas da crítica de arte portuguesa.
399 Gonçalves, Rui Mário - O primeiro encontro de Críticos de arte portugueses… op. cit., p.12-17.
400 Ver Prémio Calouste Gulbenkian de Crítica de Arte. Regulamento -. Fundação Calouste Gulbenkian,
[1962].
401 Maggio, Nelson di - Prémio Calouste Gulbenkian de Crítica de Arte 1964. Fernando Pernes. Jornal de Letras e Artes. n.º 224 (12 Jan. 1966), p.8.
402 Sousa, Rocha de - Dossier Crítica. Diário de Lisboa [Suplemento Literário]. Vol. 49, n.º 586 (30 Out.
1969), p.3.
403 Pernes, Fernando - Prémio Soquil: o moderno mecenato. Flama. Revista semanal de actualidades.
Lisboa. Vol. XXV, n.º 1085 (20 Dez. 1968), p.19.
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2.2 Reorganização da SP/AICA. José-Augusto França, Presidente eleito (1969