A existência de uma animosidade entre artistas e críticos não era um fenómeno recente e foi mencionada por José-Augusto França a propósito do Primeiro Encontro de Críticos de Arte Portugueses, levando-o a afirmar que aqueles ignoravam «o papel destes numa vida artística que lhes era comum»496.
Durante estes anos, este sentimento foi comum entre comentadores e artistas que foram fomentando ou desvitalizando os contornos desta relação497. Vimos as acesas
494 França, José-Augusto - Folhetim-artístico. Adeus otimista ao "Prémio Soquil". Diário de Lisboa [Suplemento Literário]. Lisboa. Vol. 52, n.º 17932 (23 Nov. 1972), p.3.
495 Gonçalves, Rui Mário- Artes Plásticas. O prémio "Soquil - 1970". A Capital. (16 Set. 1970).
496 França, José-Augusto - Folhetim-artístico. Há dois anos, o I encontro de críticos de arte. Diário de Lisboa [Suplemento Literário]. Lisboa. Vol. 48, n.º 557 (3 Abr. 1969), p.7.
497 «Eterna luta entre a arte e a filosofia que afasta aqueles que deveriam compreender-se. E que chegariam
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discussões entre Lima de Freitas e José-Augusto França a propósito do GM67, ou entre o mesmo crítico e Eurico Gonçalves e Sá Nogueira a propósito da atribuição do Prémio SOQUIL. Mas esse sentimento de que artistas e críticos estavam colocados em territórios opostos estava enraizado na mentalidade artística portuguesa e sempre que algum acontecimento que envolvesse críticos e artistas surgia era imediatamente gerador de acusações e acesas reações.
Dois anos depois do Primeiro Encontro de Críticos de Arte, num artigo sobre as exposições de Lisboa assinado por Fernando Pernes, o crítico portuense fala da «indiferença já tradicional da SNBA», da «apatia da Sociedade» ou mesmo de um dinamismo «quebrado em inércia»498. Para este crítico, a SNBA era uma instituição de utilidade pública, mas as suas ações não revelavam essa preocupação. O esclarecimento de Conceição Silva, Presidente da SNBA não se fez esperar e dois números depois fez uso do seu direito de resposta publicando uma carta no Jornal de Letras e Artes onde acusa Fernando Pernes de escrever contra a SNBA «sob impulso pessoalista e tendencioso» afirmando que:
«(…) razões de ordem subjetiva toldam por completo o espírito de quem deveria exercer uma análise verdadeiramente crítica do acontecimento, isto é, do “material” exposto, quer como seleção individualizada do ano, como balanço que o Salão era, quer como eco local de modernas correntes estéticas, com expressões porventura originais. Isto, parece, é que interessaria fornecer ao leitor, se é que a crítica é também um instrumento pedagógico”.499.
Outros autores foram mais longe e questionaram também a intenção da profissionalização da crítica. Foi o caso de Rocha de Sousa:
«Acusados algumas vezes de não saberem pensar o seu trabalho, reduzidos demagogicamente ao papel de produtores sem capacidade de reflexão e de distanciação crítica, assistindo à explicação da sua importância social como se dela não tivessem consciência, os artistas preferiram, no silêncio, ordenar um pouco as
pintores e os poetas. Porque do que se trata é de encontrar o modo de concordância da ordem lógica do pensamento com a ordem existencial que instaura as obras de arte» Maggio, Nelson di - Prémio Calouste Gulbenkian de Crítica de Arte 1964. Fernando Pernes. Jornal de Letras e Artes. n.º 224 (12 Jan. 1966), p.8; «Semelhante distanciamento da influência da crítica junto dos artistas não condena, é certo a hipótese de validade da tarefa inerente aos críticos - embora reduza, de forma incisivamente prenunciadora de outros acontecimentos, o âmbito da necessidade ou pelo menos, do ponto de vista dos artistas, da utilidade específica da crítica”. Silva, António Jaime - Os escolhos da crítica de… Op. cit., p.1, 12.
498 Pernes, Fernando - Exposições de Lisboa 4. Exposição de Verão da SNBA Jornal de Letras e Artes.
Lisboa. n.º 271 (Out. 1969), p.41-49.
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suas ideias sobre a projeção na comunidade da própria crítica e verificar até que ponto ela se justificava no plano de tais afirmações. Esse problema ainda não está devidamente esclarecido, mas a crítica, limitando sucessivamente, por conveniência tática, o papel e a responsabilidade do artista, logrou impor publicamente as fronteiras do seu trabalho, excedendo as previsões e debatendo com vigor uma profissionalização que os próprios artistas ainda não alcançaram de forma satisfatória. Esta profissionalização da crítica, se bem que legítima no processo do desenvolvimento social e na definição de especialidades, ainda dá que pensar na medida em que as pessoas não dispõem de elementos suficientes para saber em que bases concretas ela se estabelece ou se justifica»500.
O caso de Rocha de Sousa é paradoxalmente interessante. Sendo artista, escrevia também, com assiduidade semanal, crítica de arte em vários periódicos de importância nacional. Antes de entrar para a SP/AICA, em janeiro 1970, dirigiu uma carta a José- Augusto França, que seria publicada no Diário de Lisboa, onde, mais uma vez, esta frágil relação é realçada.
Inicialmente abordado por Rui Mário Gonçalves e Nuno Portas para apresentar a sua candidatura a sócio aderente da SP/AICA com base na sua atividade regular de critico de arte, Rocha de Sousa resolveu publicar a carta que então dirigiu a José-Augusto França onde justificava os motivos que inicialmente o levaram a recusar a proposta, mas que depois de ponderada a situação, o levavam, paradoxalmente, a aceitá-la. Rocha de Sousa enumera-os:
«1. A indefinição profissional da atividade crítica no nosso País e a discutibilidade dos meios usados pela AICA (Secção Portuguesa) para impor às classes diretamente interessadas as atribuições e qualificações desse importante sector. 2. A ausência de fomento de um verdadeiro espírito de equipa entre os sócios da AICA (Secção Portuguesa) em evidente desfavor de uma atividade crítica capaz de enquadrar de forma mais aberta, mais inventiva, menos segregacionista e mais didática o quadro da produção artística portuguesa no momento atual. 3. A incapacidade da AICA (Secção Portuguesa) para superar os habituais litígios com a classe dos artistas e a sua suficiência perante uma realidade cultural que lentamente deteriorou no plano fundamental do convívio e do diálogo, agravando de forma provinciana as barreiras levantadas pelo nosso proverbial provincianismo. 4. A consequente orientação da AICA para o domínio de um dirigismo cultural indefinido na conceção de modernidade e alheio às verdadeiras exigências da sociedade portuguesa atual. 5. A minha condição de artista, que reivindico antes de qualquer outra, inibidora – segundo vários sócios qualificados da AICA (Secção
500 Sousa, Rocha de - Dossier Crítica. Diário de Lisboa [Suplemento Literário]. Vol. 49, n.º 586 (30 Out.
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Portuguesa) e sem que esse Organismo alguma vez se tivesse situado perante possíveis opiniões pessoais – de uma verdadeira atividade crítica, esclarecida, capaz e independente. 6. O meu natural sentido de independência perante grupos ou organismos com que possa eventualmente estar relacionado, factor aliás decisivo para que as pessoas com quem comunicamos possam acreditar na isenção dos nossos atos e discuti-los à margem de pressões aberrantes»501.
A publicação desta carta garantia-lhe, esperava Rocha de Sousa, a manutenção da sua linha de comportamento crítico e a independência já afirmada. Se aceitava era porque acreditava com convicção que o aumento do número de sócio da SP/AICA podia contribuir para uma melhor definição dos limites e atribuições da função da crítica, sobretudo no plano da deontologia profissional, poderia instaurar um espírito mais aberto em relação às atividades artísticas acabando junto do público e dos artistas com o «conceito de “clube de críticos” que ambos foram levados a formular em torno, pelo menos, da Secção que funciona em Portugal». Era sua convicção também que um número maior e diverso de associados levaria a SP/AICA a admitir «diferentes conceitos de modernidade, sem procurar impor a um meio culturalmente pobre orientações sempre discutíveis através de um acordo tácito com opiniões expendidas por alguns dos seus membros». Finalmente, para Rocha de Sousa, o facto da SP/AICA aceitar a sua candidatura seria «admitir de forma iniludível a capacidade intelectual dos artistas para a atividade crítica e os artistas por seu turno, podem realmente contar com a possibilidade de melhor se representarem num organismo de tal natureza»502.
Este documento, pelas suas afirmações é de extrema importância pois e apesar do esperado Encontro da Crítica e dos Artistas nunca se ter realizado vinha desta modo demonstrar que havia abertura da parte da Crítica em relação à opinião fundamentada dos artistas e que a convivência entre críticos e artistas era salutar.
501 Sousa, Rocha de - Carta à AICA Diário de Lisboa [Suplemento Literário]. Vol. 50, n.º 643 (24 Dez.
1970), p.17.
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2.2.3.4 O contributo da AICA para a nova seleção de artistas na Brasileira do