Com base nas concepções sobre os napëpë elaboradas desde os contatos indiretos e de acordo com as experiências vividas, os padres instalados no Catrimani foram logo considerados como provedores. Em diversas narrativas, podemos entender que o discurso de alguns anciãos – que enfatizam a munificência dos antigos missionários e acusam seu interlocutor atual de sovinice – serve para solicitar a perpetuação de uma prática de distribuição agora abandonada. Contudo, não podemos desconhecer o destaque que dão à generosidade dos primeiros padres na provisão de objetos e ferramentas, confirmando a expectativa alimentada pelas narrativas mais antigas transmitidas sobre os não indígenas.
Nas histórias ouvidas entre os Yanomami do Catrimani, os episódios dos primeiros encontros são descritos com alguns carácteres análogos aos de uma narrativa mítica ou epopeia, em que alguns elementos são levados ao superlativo e enfatizados, e as referências espaciais e temporais são modificadas, superando uma finalidade unicamente descritiva.
As narrações seguem um roteiro semelhante: o padre chega de um lugar longínquo; supera dificuldades na viagem, navegando ou caminhando; sua aparência tem algo de singular (particularmente alto, tem uma barba vistosa ou sua careca é reluzente, suas roupas são incomuns, sua língua incompreensível); no momento em que se apresenta, os Yanomami são colhidos de surpresa, ocupados em seus afazeres; ao chegar, o padre deposita enfaticamente seus objetos no meio dos Yanomami.
À descrição do contexto, segue a exposição de um elenco de objetos, cuja quantidade é realçada pelo tom de voz e os movimentos expressivos do narrador. Tais objetos são considerados como presentes – os verbos usados nas narrativas: topu, doar, hɨpɨaɨ, dar, hɨpɨa potayu, distribuir, evidenciam o caráter da doação – estabelecendo uma analogia entre os padres e os visitantes que, chegando de longe, provam suas intenções pacíficas presenteando os anfitriões. Desta forma, os bens adquiridos dos forasteiros são recontextualizados com base em relações convencionais de aliança.
O fato de os objetos, nos anos seguintes aos primeiros encontros, serem distribuídos como retribuição por serviços ou em troca de artigos confeccionados pelos Yanomami, não diminui, a seus olhos, a marca de generosidade atribuída aos doadores, e não reduz à atmosfera de entusiasmo próprio dos momentos de distribuição de objetos por parte dos missionários. As narrativas que se ouvem no Catrimani são análogas aos relatos registrados por Kelly (2011) na região do Ocamo, que enfatizam a generosidade do primeiro missionário salesiano na distribuição de bens, além do que ocorre em outras regiões. A ênfase na generosidade dos missionários se contrapõe à sovinice que caracteriza os napëpë que, na descrição de Kopenawa (In: KOPENAWA; ALBERT, 2010), acumulam objetos, mas os negam aos Yanomami, assim como um sogro egoísta posterga repetidamente a concessão de sua filha ao futuro genro que lhe presta seu serviço.95
Ao narrar o revezamento dos diversos missionários, K.Y. (2013) põe em destaque sua generosidade na distribuição de objetos, identificando indistintamente como padres – pelas características análogas – também outras pessoas que trabalharam na Missão Catrimani:
95 Sobre a associação dos não indígenas a seus objetos, nos episódios de contato, ver Lizot (1971), Smiljanic
(1999), Ramos (1990), Albert (1988). Sobre a associação dos objetos manufaturados às doenças dos napëpë ver Valero (1984) e Lizot ([1976] 1988).
Hapao tëhë, padre a pata yai patamu mahiowi, Lodovico wããha kua. Lodovico, padre a yai patamu, pree mahi, kaayuku pata waroho mahi.
“Awei, hei kami Lodovico ya Yanomae wamakɨ espelho [mirena] pë xoapuwi”, thuë thëpëha espelho pë hɨpɨa xoapëkema.
Anteriormente, o padre que realmente era grande [chefe] tinha nome de Lodovico. Lodovico era chefe mesmo, era muito grande, tinha uma barba enorme.
“Muito bem! Eu sou Lodovico, eu distribuo para vocês Yanomami os espelhos”, e ia distribuindo espelhos para as mulheres.
A generosa distribuição de objetos, como facas e espelhos, é prerrogativa destes napëpë que K.Y. (2013) indica como padres, pelo fato de se encontrarem na Missão. Além disso, de sua narrativa emergem a associação entre o relacionamento com os napëpë e a assunção de um papel de liderança e certos desentendimentos entre o padre e outros napëpë, por causa da distribuição de objetos: aspecto que vimos presente desde a fundação da Missão (cap. 2, item 2.1.1) e que aparece ainda no seguinte trecho:
“Hei, padre pë yamakɨ pree”, ɨnaha e kuma. “Padre yamakɨ yaro yamakɨ napë huuyu. Yamakɨ hwama huu”, ɨnaha e kuma. Renato a yarehe mahi. Yarehe mahioma. Kue yaro poo ihurupë ihipuuwi. Yanomae yamakɨnë kuopë naha pë hɨpɨ, hɨpɨ, hɨpɨ. [...] Hapa matihipë waroho mahioma. Hapao tëhë, ya taɨ mao he tëhë, ya patamumaɨ he tëhë, matihi pë pë waroho.
Ele disse: “Nós também somos padres, por isso nós andamos para junto dos napëpë, nós visitamos”. Renato era muito alto. Ele trouxe facas que entregou a nós Yanomami: deu, deu, deu. [...] Antigamente havia muitos objetos [para distribuir]. [colocando ênfase no tom de voz]. Antigamente, quando não conhecia muito os napë, consideraram-me liderança.
Robertonë wamotima thëpë kae pata koa nomuhupema. Ohhhhh! Poraxa pë. Oh! Kama poraxa hipë kae xirõ, Uhh! Ithorayoma. Uhh! Ithorayoma,
Roberto, chegando em seguida, trouxe muita comida. Ohhh! Muitas bolachas. Oh! Apenas aterrissava com as bolachas dele Uhh! Aterrissaram,
“Ya xi ihete mahi, ya xi ihete mahi maki padre Calleri a patanë yamakɨ kiri maɨ: „Matihipë hɨpɨɨ rëmunomai!‟”, ɨnaha e kuma. Patamu, espelho pë xino hɨpɨa potayoma: “Yanomae espelho [mirena] yapë poma”, ɨnaha e kuma maki. “Awei, mori wapë hɨpɨaki, ai wa thëpë hɨpɨɨhe yatianomai. Hei, kami padre Calleri yanë yapë hɨpɨɨ hiki”, ɨnaha e kuma. “Oh! Kami ya xi pree ihete mahi, makii...”.
Aie, Renato, ãha kuowi, poo ihurupë pata warohoha ɨhɨpuha xoaɨmaɨnɨ, Renato wãã kuo paxiowi. Praahaɨ hamë a pɨrɨo paxiowi.
“Eu sou muito generoso, mas padre Calleri nos proíbe. Ele falou assim: „Não distribua objetos escondido!‟”. [Por isso] este chefe distribuiu apenas espelhos: “Eu tenho espelhos para os Yanomami”, ele disse. Porém [Calleri] falou: “Está bem, entrega apenas uns poucos, não exceda na distribuição. Olha, eu, padre Calleri, já os distribui”. “Oh! Paciência, eu também sou muito generoso, mas...”.
O nome de outro era Renato. Ele, depois, trouxe um grande número de facas. Renato morava muito longe.
Neste relato, K.Y. (2013) atribui a Roberto – um missionário que esteve no Catrimani entre o fim dos anos 70 e o começo dos anos 80 – grande generosidade na distribuição de objetos e de alimentos. Esta característica fazia dele uma pessoa extremamente apreciada pelo narrador, que lembra o freio posto pelos outros padres ao censurar tamanha liberalidade. Uhh! Pë pata praa hewëprariowi! Robertonɨ
yamakɨ iyamama. “Hweha, Yanomae wamakɨ huimaɨ!” “Awei”, kami ya eha hwarayoma: “Yamakɨ riã ɨyamaɨwihi. Yamakɨ nakaɨ rëkupɨhuruhenɨ” ya e kuuwi. E thë upë pata, mingau upë pata thaprariwi, panela pata a pata. Ehh! Yamakɨ iyama maki yamakɨ iyaɨ si wai prarioma. Ɨnaha Roberto a kuma: “Padre pënë wamakɨ iyamaɨ miihe, iyamaɨmihe. Matihipë hamë pë xi xirõ ihete maki wamotima thëpë wamakɨ wamaimihe, padre pënɨ”. Ɨnaha a kuma.
Padre thëpë pata yai nomɨhuo mahio kupere, këë! Roberto a pata a kooã nomɨhupi, ai Roberto pata a pata yai […] a kooã nomɨhuopema. “Awei, kami yanɨ ya pë pou nomɨhuo”, ɨnaha Roberto e kuma. Ɨnaha Robertonɨ ya e thamama: “Panela mori hɨpɨnomaɨ”. Panela pëha thakëruhuwi: Tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ! Yototo a parɨmakiwi. Poo pë: sɨri, sɨri, sɨri, sɨri! Yapa he wëkëtai. Koraipë: Tërë, tërë, tërë, tërë, tërë, tërë! Poopë ihurupë: tërë, tërë, tërë, tërë! Poo koxi pë, espelho pë, pente pë yarɨkiketayuwi. Tirea mahima.
Uhh! Descarregadas no chão e colocadas em fila em quantidade! Roberto nos alimentou. “Aqui! Venham aqui, Yanomami!” “Sim”, eu falei [para os outros]: “Eles vão nos dar comida. Eles estão nos chamando”. Havia um grande mingau, numa enorme panela, Ehh!
Nós comemos, mas isso acabou. Roberto falou assim: “Os padres não vão dar comida para vocês. Eles são generosos apenas com utensílios, mas não vos dão alimentos”.
Os padres vinham se revezando, këë! Roberto chegou por sua vez, ele era grande [...] chegou também. “Sim, eu os [Yanomami] tomarei comigo por minha vez”, assim Roberto falou.
Ele me fez agir desta forma: “Não entregue apenas uma panela”. Ele colocou as panelas: [onomatopeia que enfatiza o número de objetos] Tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ, tëɨ! Começando pouco por vez. [depois] Os facões: seri, seri, seri, seri! E voltava repartindo. Anzóis: Tere, tere, tere, tere, tere, tere! Facas: tere, tere, tere, tere! Machados, espelhos, pentes todos colocados em fila. Uma grande quantidade.