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The lake surface area and the tourism growth nexus

CHAPTER IV: ANALYSIS OF THE WATER SITUATION AT THE SHCHUCHINSK-BURABAY

4.5 RESULTS AND DISCUSSION

4.5.3 The lake surface area and the tourism growth nexus

A prática médica era pouco conhecida nas regiões mais pobres onde mesmo o ofício dos cirurgiões era pouco exercido; também nas regiões mais urbanizadas era rara a presença de médicos e cirurgiões. Segundo Licurgo Santos Filho, o número de profissionais no Rio de Janeiro era insuficiente para atender a população. Por volta do ano de 1817, quando a cidade era o centro administrativo do império, com uma população 60 a 70 mil habitantes, havia entre médicos, cirurgiões e barbeiros cerca de duzentas pessoas.58

Boa parte dos cirurgiões que atuavam no Brasil nos séculos XVIII e XIX era formada por portugueses que haviam deixado o reino. Na Colônia, tinham a possibilidade de exercer seu ofício de maneira menos limitada do que em Portugal, onde seu ofício, ligado às artes mecânicas, exigia mais habilidades manuais do que conhecimentos teóricos. Ao cirurgião cabia cuidar das feridas, manusear o corpo doente, e manter-se limitado a tratar das doenças

56 PIMENTA, Tânia. Artes de curar..., 1997. Cf. TEIXEIRA, L. SCOREL, S. História da Saúde Pública no

Brasil de 1822 a 1963: do Império ao desenvolvimentismo populista in: Giovanella, Ligia; Scorel, Sarah; Lobato, Lenaura; Noronha, José Carvalho e Carvalho Antônio Ivo. Política e Sistema da Saúde no Brasil. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, CEBES, 2010. p. 133.

57 NIZZA DA SILVA, Maria B. Cultura e sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821). São Paulo: Cia Editora

Nacional, 1978. p. 126.

36 externas. Já o ofício médico estava vinculado às artes liberais e aos estudos, à busca do conhecimento teórico; cabia aos médicos aplicar remédios e tratar das enfermidades internas. Em Portugal, a união entre artes mecânicas e artes liberais não era possível, o que diferenciava fortemente o cirurgião dos médicos.

No Brasil, os cirurgiões portugueses exerciam seu ofício mais livremente, e tinham a possibilidade de atuar como médicos na ausência destes, o que acontecia com muita frequência. Essa possibilidade de desenvolver os conhecimentos médicos associados aos saberes práticos foi bastante valorizada pelos cirurgiões, principalmente os portugueses.

O vocábulo “cirurgião”, segundo o Dicionário Português, Antonio de Moraes Silva, é indicado para aquele que “sabe e pratica a cirurgia”, e “cirurgia”, ainda conforme o mesmo dicionário é a “parte da medicina que ensina a curar feridas, chagas, deslocações e as operações de abrir, cortar membros do corpo humano”.59

A atividade dos cirurgiões estava associada às intervenções no corpo, que, sem anestesia, faziam do ato cirúrgico momento de grande sofrimento e exigiam do cirurgião frieza e agilidade diante dos corpos dos doentes. O sangue, sempre presente no manuseio dos corpos, trazia um sentimento de repulsa, sobretudo aos olhos dos médicos, mais distantes de atividades como cuidar de feridas, aplicar sangrias e outras funções exercidas pelo cirurgião. Os cirurgiões, aos olhos dos pacientes, representavam a dor, o sofrimento, sobretudo quando após as intervenções sobrevinham infecções pós-cirúrgicas, frequentes pela falta de assepsia durante os procedimentos. Mas também traziam a cura ou pelo menos o alívio pois, muitas vezes, eram os únicos capazes de oferecer auxílio às comunidades mais distantes dos centros mais populosos, afetadas por doenças frequentes como tuberculose, bichas, varíola, sífilis e outras, bem como por ferimentos e fraturas decorrentes das difíceis condições vividas pelos trabalhadores. 60

Analisando o ofício do cirurgião no Brasil, Luis Otávio Ferreira destaca a presença de três categorias de cirurgiões entre os séculos XVI e XVII. A primeira categoria seria a dos cirurgiões-barbeiros, que recebiam carta de autorização e executavam ações típicas de um barbeiro, como veremos abaixo. A segunda categoria era a de cirurgiões aprovados, que realizavam um curso teórico-prático em hospitais, tinham o direito de exercer a cirurgia e poderiam atuar como médicos na ausência destes. E, por fim, a categoria dos cirurgiões

59MORAES E SILVA. Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa; Tipografia Lacerdina, 1813. Disponível em:

<http://www.ieb.uso.br/online/dicionários/>Acessado em fevereiro de 2011.

60 FIGUEIREDO, Betânia Gonçalves. Barbeiros e cirurgiões: a atuação dos práticos ao longo do século XIX.

37 diplomados, formados em universidade europeias, como a universidade de Edimburgo.61 Apesar dessas divisões, é importante ter em conta que os cirurgiões não podem ser vistos como um grupo homogêneo; alguns tinham uma atuação muito próxima da dos barbeiros, outros exerciam seu ofício mais de acordo com as práticas dos médicos.

Os barbeiros eram considerados os precursores dos cirurgiões, atuavam sobre o corpo dos pacientes, manipulavam feridas, aplicavam ventosas, bichas e sanguessugas.62 Cuidavam ainda da estética da população local, cortando cabelos e fazendo barbas. Realizavam um trabalho basicamente manual, utilizando navalhas, lâminas e outros instrumentos cortantes. Alguns barbeiros possuíam lojas, outros atendiam nas casas ou mesmo nas ruas; eram na maioria das vezes homens negros e mulatos. Suas práticas tinham íntima relação com as crenças, superstições e magias. 63 As lojas ornadas “com cortina de chita na porta e janela, cromos e gravuras de santos nas paredes, (...) escondia[m] uma cama onde se deitava o paciente após a sangria e onde à noite o barbeiro repousava das canseiras do dia”.64

Joaquim Manuel de Macedo nos demonstra como os barbeiros volantes, que prestavam atendimento nas ruas, eles eram figuras presentes no Rio de janeiro do período, a ponto de ser “desagradável” a presença desses profissionais que utilizavam a calçada como leito, aplicando ventosas de chifre e sugando o sangue dos que se entregavam a tais artes de curar.65

Comparando a atividade dos barbeiros com a dos cirurgiões, a pesquisadora Tânia Pimenta afirma que os barbeiros permaneceram junto das atividades manuais mecânicas, ao passo que os cirurgiões tomaram lugar no rol das profissões liberais.66

Assim, na prática, a distinção entre os estatutos do barbeiro e do cirurgião se mostrava nas situações em que o barbeiro realizava as tarefas de um cirurgião na ausência deste. O oposto, no entanto, não ocorria; os cirurgiões sempre adotavam uma postura de

61 Segundo Luís O. Ferreira o grupo era bastante restrito na época. Cf. FERREIRA, L. Otávio. O nascimento de

uma instituição cientifica: o periódico médico brasileiro na primeira metade do século XIX. 1996. Doutorado (Departamento de História – FFLCH) USP, São Paulo. 1996. p. 53.

62 Embora existam estudos que mostram alguma distinção entre os termos barbeiro e sangrador, usados no

século XVIII, utilizo aqui os termos sem distinção. A historiadora Tânia Pimenta considera que o termo barbeiro era empregado em referência a uma prática popular, enquanto que o termo sangrador era utilizado para se referir a uma arte, que, embora fosse menor, fazia parte da cirurgia. Tânia Pimenta Artes de curar..., 1997. p. 87.

63 Idem.

64 SANTOS FILHO, Licurgo. História da Medicina no Brasil ... 1945. p.147-148.

65 MACEDO, Joaquim Manuel. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro (1862-1863). Brasília. Ed Senado

Federal, 2005 v. 42, p. 489. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/sf000070.pdf> Acessado em março de 2011.

38 distanciamento dos barbeiros, como forma de se aproximar da categoria dos médicos. Também os médicos buscavam diferenciar-se dos cirurgiões, ponto ao qual retornaremos.67

Mas apesar das tentativas de separação das diferentes classes profissionais, o fato do número de cirurgiões ser superior ao número de médicos no país certamente contribuiu para que o ofício adquirisse um outro sentido no meio social; muitos assumiram funções que tradicionalmente não lhes eram pertinentes. Os cirurgiões vindos de Portugal, além de mais espaço de atuação eram também mais valorizados no Brasil, se comparados com o modo como eram considerados no Reino. Segundo Márcia M. Ribeiro, grande parte dos tratados de medicina produzidos no país foram de autoria de cirurgiões e não de médicos, o que aponta para o lugar ocupado por eles nas artes de cura.68 No século XVIII várias foram as obras escritas pelos cirurgiões portugueses que se instalaram no Brasil. Alguns dos trabalhos publicados se tornaram bastante conhecidos e foram largamente utilizados, como a obra de Luís Gomes Ferreira, o Erário Mineral (1735), e os trabalhos de João Cardoso de Miranda, autor de duas obras, a primeira sobre o escorbuto, que acometia a população nas longas viagens marítimas e outra sobre uma lagoa de águas consideradas milagrosas pelos habitantes da região de Sabará. Também foi marcante a obra publicada por José Antônio Mendes, Governo dos Mineiros (1770), com o objetivo de orientar os enfermos desprovidos de assistência.69

A falta de médicos e cirurgiões era uma questão sempre presente nos relatos dos homens que tomavam contato com a realidade das diferentes regiões brasileiras. O autor de Governo dos Mineiros, destacava essa escassez declarando que no Brasil “havia lugares tão limitados e pobres que nesses não há médicos, nem ainda cirurgiões, e só sim um simples barbeiro, que intrépida e atrevidamente se mete a curar ainda a mais execranda maligna que se lhe oferece”.70

No entanto mesmo diante de argumentos sobre o número insuficiente de médicos e cirurgiões no Brasil, acompanhados de comentários acerca da falta de amparo da população, que ficava à mercê dos barbeiros, a administração colonial não promoveu grandes mudanças nas atividades dos curadores. Apesar de algumas tentativas de fiscalização dos práticos os

67 PIMENTA, Tânia. Op. cit., p. 87. FIGUEIREDO, Betânia. Os barbeiros e cirurgiões..., 1999. p.77-91. 68 RIBEIRO, Márcia Moisés. A ciência dos trópicos: arte médica no Brasil do século XVIII. São Paulo:

HUCITEC, 1997. p. 35

69 Em seguida, mais informações sobre esses cirurgiões e seus manuais.

70MENDES José Antônio. Governo dos Mineiros... (1770). Apud RIBEIRO, Márcia Moisés. A ciência dos

39 resultados foram incipientes e. em alguns casos, a própria ação fiscalizadora era reprovada, sob o argumento de que era necessária certa complacência, afinal, em algumas regiões do Brasil, as ações de cirurgiões e boticários eram as poucas acessíveis. Esse foi, por exemplo, o conteúdo do argumento de D. Rodrigo Menezes, governador de Salvador, num ofício enviado à Coroa em 1787. Segundo o governador, as autoridades metropolitanas precisavam agir com parcimônia no momento de limitar as práticas dos cirurgiões não aprovados, principalmente os sangradores, negros forros que, segundo D. Rodrigo Menezes, eram os que atuavam com mais presteza.71