• No results found

CHAPTER IV: ANALYSIS OF THE WATER SITUATION AT THE SHCHUCHINSK-BURABAY

4.4 DATA AND METHODOLOGY

O segundo evento que escolhi para analisar diz respeito à construção da doença de Chagas e as disputas ocorridas na ANM, novamente entre Afrânio Peixoto e Carlos Chagas. Como sabemos, a doença de Chagas recebeu diferentes denominações desde sua descoberta por Carlos Chagas, as quais refletiam, por um lado, os desdobramentos do processo de fixação da etiologia da doença e suas características biológicas, sintomáticas ou de cunho geográfico; por outro lado traduzia o atravessamento de perspectivas políticas no processo de sua construção. Neste sentido, o termo 'Coreotripanose', cunhado por Adolpho Lutz (1855- 1940) remeteria a união entre coris (percevejo) e trypanose, expressão que preferiria usar no lugar de tripanossomíase. Já o nome 'Tireoidite parasitária', que diria respeito a localização do parasito na tireóide humana, foi sugerida por Miguel Pereira. Oswaldo Cruz também postularia um nome, 'Tripanossomose americana', a qual teria se originado da crença na ampla

445

Ainda com relação às discussões da quinina do Estado encontramos pequena nota em um jornal que dizia ter o presidente Wenceslau Braz enviado carta à Afrânio explicando por que a lei não tinha sido e nem seria cumprida, segue a íntegra da nota: "Quinina do Estado/ Do presidente Wenceslao Braz recebeu o deputado Afranio Peixoto a seguinte honrosa carta, que explica por que essa benemerita lei de salvação publica não foi e não sera cumpida:/ 'Itajubá, 24 de agosto de 1925./ - Meu caro Amigo: Affectuosas saudações. Muito e muito grato pelas generosas referencias que teve a bondade de fazer ao meu nome no seu bellissimo discurso sobre um dos mais relevantes problemas de nossa querida Patria./ Manda a justiça que eu assignale (e o faço com muito prazer) que o Brasil deve ao prezado amigo a iniciativa da idéa, lançada com tanto amor, talento e patriotismo, que levou ao Governo a convicção da necessidade de prompta, immediata realização./ Consigno aqui esta confissão, dictada pelos impulsos de minha consciencia e renovando meus sinceros agradecimentos, subscrevo- me, com a velha estima, amigo e admirador. - Wenceslao Braz" (O Jornal. Rio de Janeiro – 01/09/1925, p. 1) 446 Peixoto. Marta e Maria. op. cit. p. 196-197

154 disseminação da doença.447 Termos como “Doença de Cruz-Chagas”, viriam a lume, neste

caso destacando a associação da descoberta da doença à Oswaldo Cruz; ou ainda a expressão “Mal de Lassance”, utilizada inclusive por Afrânio Peixoto no sentido de minimizar a amplitude da doença.

Assim, as expressões “Mal de Lassance” ou mesmo “Doença de Cruz-Chagas”, diziam respeito diretamente à polêmica que se instalou no início da década de 1920 a respeito da descoberta da doença e de sua legitimidade. Tal polêmica traduzia-se em ponto de interesse imediato para todos aqueles que se diziam preocupados com os destinos do país naquela época. Como sabemos, as políticas de saúde se justificavam e encampavam um campo social amplo, já que as ações voltadas para o combate de epidemias e endemias, por meio do saneamento, eram percebidas como imprescindíveis para a inserção do Brasil no rol dos países ditos civilizados, dependendo destas ações o futuro da nação brasileira.

Não é a toa que este era o mote da propaganda que difundia o saneamento, parte dela através dos jornais da época. Neste sentido vemos em 1919, o periódico A Epoca publicando uma coluna intitulada “Pelo saneamento do Brasil”, por um médico que assinava Dr. Bonifácio de Figueiredo, saudando aquele jornal pela iniciativa de divulgar uma série de artigos sobre o saneamento do país448. O comentário do Dr. Figueiredo fazia coro às

conclusões do sanitarista Belisário Penna (1868-1939) e sintetizava o modo pelo qual a campanha de saneamento era transmitida à parte da população, que tinha acesso a leitura dos jornais da época. A questão do saneamento não seria meramente uma questão de saúde, se constituindo também na questão da qual dependeriam os problemas “economico, militar, immigratorio, social, politico, humanitario e até internacional”, de modo que todo o resto deveria ser considerado em um plano secundário449. Isto posto, fica claro o quão mobilizador

politicamente deveria ser o trabalho daqueles que se dedicavam a conhecer essa realidade do país.

Dentre os grandes males do Brasil, o Dr. Figueiredo destacava a moléstia de Chagas, a malária e as verminoses intestinais, construindo um retrato dramático do Brasil que os brasileiros deveriam conhecer: “Meio paiz em tremuras de sezões, inchado, pallido, inerte, pede quina como o torturado da sêde pede agua! Dezessete milhões de brazileiros exangues, na canceira sem fim da opilação, erguem os olhos mortiços para o céo, pedindo

447 Benchimol, Jaime; Sá, Magali. Adolpho Lutz: Viagens por terra de bichos e homens. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2007, p. 172

448 Figueiredo. Pelo saneamento do Brasil, A Epoca, 14 de julho de 1919, p. 2. 449 Ibidem.

155 misericordia!”450 Além disto, para Figueiredo a população rural era o esteio da riqueza do

Brasil, por se constituir como a força da indústria extrativa, de tal modo que quanto mais doente esta população se encontrasse menor seria a produção de riqueza do país.

A repercussão social da polêmica acontecida na ANM em torno da doença de Chagas pode ser entendida, portanto, neste contexto: a própria descoberta desta doença se constituía no retrato da degradação de grande parte da população brasileira, imagem justamente do mal a ser combatido pelas campanhas de saneamento defendidas no meio médico brasileiro. Desta forma, questionar a doença de Chagas representava de certo modo questionar um dos fundamentos destas ações.

Segundo Kropf451, o movimento que colocava em dúvida a extensão ou mesmo

existência da doença de Chagas teria se iniciado em 1919 com o discurso de Henrique Aragão (1879-1956)452 ao ser empossado na Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. O

pesquisador do IOC, revia então alguns dos enunciados clínicos sobre a doença de Chagas, apontando o pequeno número de casos da doença como um de seus questionamentos. Outro ponto abordado foi a ação patogênica do Tripanossoma cruzi sobre os seres humanos – em que questionava a patogenicidade da doença e propunha que ela evoluía espontaneamente para a cura – o qual colocava em suspenso toda a campanha feita para a construção da doença de Chagas como o grande mal do Brasil. Notemos ainda que, segundo Kropf, Parreira Horta (1884-1961)453 já vinha sugerindo anteriormente a possível inocuidade do T. cruzi454. Kropf analisa o discurso de Henrique Aragão que, associado à sua posição de “eminente parasitologista”, trouxera repercussões para além da esfera científica, o que acabaria, nos termos da autora, “modalizando negativamente as formulações de Chagas e por isso

450 Ibidem, p, 3.

451 Kropf, S. P. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação (1909-1962). Tese de doutorado. Niterói, Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, 2006.

452Henrique Aragão médico pela FMRJ, entrou como estudante no Instituto Oswaldo Cruz, foi assistente, chefe de serviço, professor e diretor. Organizou serviços profiláticos contra doença de Chagas, bouba, esquistossomose, e bócio endêmico. Criou em Bambuí, o centro de estudo da doença de Chagas. Foi membro de várias instituições científicas como a Societé de Pathologie Exotique, a Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene e a Academia Nacional de Medicina. Informações disponíveis em: http://www.ioc.fiocruz.br/pages/personalidades/HenriqueAragao.htm Acessado em 21 de agosto de 2013. 453 Paulo de Figueiredo Parreiras Horta, inicialmente formado como farmacêutico, se graduou- médico pela FMRJ em 1905 com a tese “Contribuição para o Estudo das Septicemias Hemorrágicas”. Ingressou ainda como estudante no IOC para elaborar sua tese. Permaneceu no Instituto até 1912 quando foi então nomeado Chefe da Secção Técnica da Diretoria Geral do Serviço de Veterinária do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Foi ainda professor catedrático de Microbiologia e Parasitologia dos Animais Domésticos, da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, do Rio de Janeiro (1917). (Silva, Henrique Batista. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta em http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=medicos_view&codigo=186 acessado em 21 de agosto de 2013).

156 provocando grande repercussão e impacto”455 Além disso, o discurso de Aragão retomava a sugestão de Clementino Fraga, em 1911, de que a doença se chamasse “moléstia de Cruz e Chagas”. O resultado do conjunto de afirmações de Aragão teria como resultado, segundo Kropf, “colocar sob suspeita todos os elementos do 'grande feito' científico produzido pelo então diretor de Manguinhos: a doença, o próprio parasito e a própria descoberta”456

Carlos Chagas responderia a Henrique de Aragão duas semanas depois, por ocasião de um discurso que precedeu sua conferência na Academia Nacional de Medicina acerca da forma cardíaca da doença457. Ressalta-se que desde essa época o assunto contava com o

grande interesse dos membros da ANM, que nesta sessão tinha a presença de nomes como o do presidente Miguel Couto, seus secretários Domingos Niobey e Belmiro Valverde, além da participação dos médicos que se encontravam nas bancadas destinadas aos acadêmicos, como Gustavo Riedel, Olympio da Fonseca, Juliano Moreira, Afrânio Peixoto, Aloysio de Castro, Parreiras Horta, Fernandes Figueira, Arthur Moncorvo, Antonio Austregesilo e Rocha Faria. Isso sem contar o espaço destinado ao público, com médicos, professores e alunos da FMRJ, ou como descrito no jornal: “a classe médica em peso”.458

Carlos Chagas iniciava seu discurso afirmando que o assunto exclusivo da conferência seria a forma cardíaca da trypasonomiase americana, mas pedia vênia para emitir algumas ponderações rápidas: “tão rapidas quanto o indica o desprazer de emitti-las, sobre occorrencias secundarias, relacionadas com essa pagina da literatura medica da nossa terra”.

459 Afirmava assim que ao ter conhecimento das objeções emitidas em relação à doença de

Chagas, suspeitaria de que seus colegas houvessem incorrido em grave falta, a de “não se haverem demorado, um momento sequer, na apreciação de factos concretos, de ordem

experimental ou de ordem clinica, a fim de se habilitarem para externar conceitos realmente scientificos”460

455 Ibidem, p. 201

456 Ibidem.

457 Note-se que Henrique Aragão não foi o único que se propôs a rever alguns fatos da trajetória da doença de Chagas. Henrique de Figueiredo Vasconcellos, bacteriologista no IOC e no Instituto Pasteur de Paris, também faria coro com a atribuição da descoberta do T. cruzi à Oswaldo Cruz. Henrique de Figueiredo Vasconcellos formou-se começou a trabalhar em Manguinhos em 1889, participando da preparação e administração do soro e da vacina contra peste. Foi indicado por Oswaldo Cruz como substituto na DGSP, onde permaneceu por dois anos. Foi o responsável pelas primeiras observações em estudos de micologia médica em Manguinhos. Mais

informações sobre Figueiredo Vasconcellos ver:

http://www.fiocruz.br/ioc/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=194&sid=58 Acessado em 21/08/2013 458 Correio da Manhã 1/8/1919, p. 3

459 Chagas, Carlos. Correio da Manhã,1/8/1919, p. 3. 460 Ibidem, Grifo meu.

157 Quando Chagas se remetia a conceitos realmente científicos estava recortando um modo específico de fazer ciência, e, naquela ocasião, pondo em xeque a autoridade e capacidade de seus colegas do IOC, o que é visto no seguimento de seu discurso onde os inquiriu da seguinte maneira:

Observaram os collegas alguns enfermos com as diversas modalidades clinicas da doença? E, se o fizeram, sobrou-lhes educação em assumptos de pathologia geral, e principalmente de semeiologia, para interpretal-os com acerto e boa logica? Seria esse o mecanismo unico capaz de habilitar algum, cioso da propria dignidade profissional, a contestar trabalhos demorados, realizados com probidade scientifica e orientados pelos melhores intuitos461. Com isso Carlos Chagas deixava claro que não admitia contestações acerca de seu trabalho dos que não fossem habilitados no mesmo nível daquele que os realizou. Quando se dedicou a responder aos pontos doutrinários levantados por Aragão e Vasconcellos, Chagas afirmou que estes só mereceriam aplausos se tivessem fundamentado seus juízos em fatos concretos, “passiveis de levarem convicção aos que, em sciencia, só visam a verdade impessoal”.462. Note-se que mais uma vez Chagas está delimitando o campo e recortando um

modo de fazer científico.

No que diz respeito às objeções de Aragão sobre os poucos casos verificados, Chagas rebate dizendo que a doença estaria sendo verificada fartamente entre adultos, “com diagnostico parasitario em muitos e com segurança clinica em numerosos doentes”. Afirmava ainda que seria “certo que o parasita não tem sido visto em todos os infectados, o que seria impossivel e absolutamente desnecessario para o conceito clinico. Nem custa adquirir convicções desses factos, a quem possa aprecial-os com raciocinio acertado”463

Sobre a dificuldade de diagnósticos pela verificação do T. Cruzi, Chagas explicava que a verificação parasitária no sangue só seria possível nos casos agudos, e posteriormente somente por meio de autópsias. Clamava assim a respeito da importância do diagnóstico clínico, falando em defesa da semiologia médica e mesmo da lógica científica. Afirmava não recusar a existência de pontos obscuros e discutíveis em relação à doença – como a relação da doença com o bócio endêmico – mas ressaltava que discutir seria diferente de “attribuir a outrem conceitos absurdos e procurar destruir os factos, na sua totalidade, pela allegação de erros parciaes”464. Apesar de afirmar os pontos obscuros sobre a doença, mais uma vez

461 Ibidem.

462 Ibidem. 463 Ibidem. 464 Ibidem.

158 Chagas delimitava o campo científico, distinguindo aqueles que poderiam fazer objeções e como estas deveriam ser feitas. Questionava

Não é verdadeiro nosso conceito? Qual o argumento para recusal-o? Houve depois de nossas pesquizas, alguma outra que demonstrasse ser diverso do que admitimos o factor etiologico do bocio endemico, nas zonas infestadas

pelo triatoma? Não duvidariamos um momento sequer, em acceitar a evidencia, embora ella viesse contrariar a nossa doutrina. Emquanto,

porém, os que nos contradizem, permanecerem no dominio puro da discussão theorica, ficamos na convicção que os factos nos fizeram adquirir465.

Chagas acabava de afirmar a preponderância da ciência experimental em relação às discussões teóricas, relativas à Higiene, espaço principal de exercício de Afrânio. Chagas termina seu discurso lamentando ter de utilizar aquela tribuna para defender o “patrimonio scientifico de uma escola” quando preferiria estar ali para

applaudir suas novas conquistas; e que ao em vez de contrariar opiniões de patricios nossos, illustres e de justa nomeada, pudessemos agradecer-lhes o esclarecimentos de pontos obscuros deste capitulo da literatura medica nacional, incluil-os entre os mais efficazes collaboradores destes trabalhos, pertencentes à escola de Oswaldo Cruz466.

Segundo a perspectiva de Kropf, a polêmica acerca da doença de Chagas ganharia sua “máxima intensidade” quando do discurso de Afrânio Peixoto na recepção de Figueiredo de Vasconcellos como membro honorário da ANM, em novembro de 1922.467 Segundo a autora,

Afrânio teria sido o principal opositor de Carlos Chagas nos debates em torno da doença de Chagas. 468

Consideramos interessante, no entanto, problematizar a participação de Afrânio nestas discussões, iniciadas, tal como foi visto, anos antes do discurso que Peixoto proferiu na ANM, o qual teria feito Chagas se sentir atingido em sua honra pessoal e profissional469 solicitando a

instauração de uma comissão da ANM. Segundo a cronologia dos acontecimentos apresentadas por Kropf, após Chagas ter pronunciado sua indignação em relação ao discurso de Peixoto, este último teria enviado uma carta a Miguel Couto, então presidente da ANM, afirmando que não tinha a intenção de negar a existência da doença, mas questionar a grandeza que se lhe atribuía e chamar atenção para a necessidade de uma revisão sobre o assunto. Chagas, baseado nos termos usados por Peixoto, solicitaria então a nomeação de uma

465 Ibidem, Grifo meu. 466 Ibidem.

467 Kropf, Simone Petraglia. Carlos Chagas e os debates e controvérsias sobre a doença do Brasil (1909-1923).

História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.16, supl.1, jul. 2009, p.205-227, p. 218.

468 Kropf, Simone Petraglia et al. Doença de Chagas: a construção de um fato científico e de um problema de saúde pública no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 5 (2): 347-365, 2000, p. 361.

159 comissão especial para avaliar o assunto, colocando ainda que sua permanência como membro da ANM dependeria do parecer da mesma470.

A fim de ampliarmos a análise deste evento, observamos que os pontos questionados por Peixoto eram exatamente os mesmos colocados em discussão por Henrique Aragão e Figueiredo de Vasconcellos, tal como a disparidade entre os números de doentes apresentados e os milhões de doentes que teriam sido estimados. Além disto, apesar de ser uma questão originada no seio de uma instituição científica, ela resvalou para os jornais do período, sendo possível acompanhar nestes periódicos, tal qual uma drama em vários atos, as discussões e posicionamentos não somente de Chagas e Peixoto como também dos partidários de ambas as posições. Os debates centravam-se em dois tópicos: a primazia da descoberta, por uns atribuída à Oswaldo Cruz e por outros conferida à Carlos Chagas; e a amplitude da disseminação da doença e sua importância epidemiológica, que, pelo que é possível observar, foi o eixo de debate preferencial de Afrânio. Nesta cobertura jornalística encontramos tanto o relato dos acontecimentos, quanto uma expectativa sobre os resultados da polêmica. É neste sentido que pudemos entender as assertivas que classificavam aquele debate – especificamente o questionamento sobre a autoria da descoberta – como ataques pessoais (e não como disputas científicas), e os debatedores como detratores.471

O fato de cientistas brasileiros questionarem um dos grandes feitos da ciência nacional era a causa maior da indignação expressa em alguns jornais da época. Isso é compreensível quando percebemos que as atividades desenvolvidas no IOC haviam se constituído em uma vitrine de nosso desenvolvimento cientifico, capacitando-nos perante o campo científico europeu. A participação dos cientistas do IOC em congressos e exposições internacionais e o costume de levar personalidades estrangeiras a conhecer o campus de Manguinhos e suas atividades eram exemplos da importância deste lugar de ciência. Tratava-se não somente de visitas de personalidades científicas como Albert Einstein em 1925, mas também figuras políticas como Roosevelt, que conheceu pessoalmente as instalações de Manguinhos em 1913 e ainda o rei Alberto da Bélgica, em 1920472.

470 Ibidem.

471 Pelo nosso renome scientifico. O Dr. Carlos Chagas e a Trypanosomiase Americana. Um ataque injusto. A

Época. Rio de Janeiro 24 de agosto de 1919.

472 Com relação visita do rei Alberto destaco uma nota publicada no jornal O Imparcial, julgando que teria havido falta de bom senso na visita desta majestade ao IOC, não pela instituição, atribuída como “uma das mais completas organizações scientificas do mundo”, mas pelo fato dos anfitriões terem feito questão de mostrar ao rei as minúcias relativas à doença de Chagas. Considerando o período em que ocorreu essa visita destacamos como esta foi descrita: “Tudo lhe foi ali mostrado com especial cuidado. Mas parece que aquillo de que mais questão fizeram em mostrar ao Rei, foram as cousas relativas a uma molestia tremenda, que, sob o nome de molestia de Chagas, parecia destinada a dar cabo do Brazil em tres tempos”. A crítica ainda se desdobrava à

160 Em notícia publicada em A Noite em agosto de 1920473, encontramos uma

interpretação eminentemente política da polêmica que ainda se estenderia por três anos na ANM. Desta vez o foco seria colocado sobre a denúncia de ter havido um exagero na concepção do mal de Chagas, ressaltando que as concepções sobre tal moléstia serviriam de “base fundamental ao conceito pessimista de que o Brasil é um vasto hospital”474. A matéria

partia de uma comparação entre o trabalho da Revista do Instituto Bacteriológico de Buenos Aires, dirigida pelo professor Kraus e as pesquisas desenvolvidas no IOC e capitaneadas por Chagas. Diante da leitura do artigo argentino acerca da população doente daquele país, que também sofria com a associação de bócio e cretinismo, o autor da reportagem afirmava então que esperava encontrar a declaração de que a Argentina, assim como o Brasil, seria um “vasto hospital”; e qual não teria sido sua surpresa ao perceber que as pesquisas naquele país se encaminhavam para conclusões muito diversas. A reportagem sugere então que no caso brasileiro teria havido uma generalização precipitada da associação entre a disseminação do