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DETERMINANTS OF WATER CONSUMPTION IN THE LODGING SECTOR

CHAPTER IV: ANALYSIS OF THE WATER SITUATION AT THE SHCHUCHINSK-BURABAY

5.2 DETERMINANTS OF WATER CONSUMPTION IN THE LODGING SECTOR

O português João Cardoso de Miranda, formado em cirurgia, veio para o Brasil, instalando-se na Bahia, em 1711426; após estudos sobre o escorbuto, escreveu a obra “Relação

cirúrgica, e médica, na qual se trata, e declara especialmente hum novo methodo para curar a infecção escorbutica” (1741). Nessa obra, João Cardoso de Miranda afirma ter descoberto um tratamento para o escorbuto, por meio do uso de chás de ervas e seguido de dieta reforçada em alimentos frescos. O escorbuto é uma doença causada pela ausência da vitamina C e, presente nas embarcações carregadas de escravos que chegavam ao Rio de Janeiro para trabalhar na colônia, tornando-se um transtorno para os proprietários e negociantes escravistas.

Posteriormente, estando com uma doença nos olhos, Cardoso de Miranda partiu para Minas Gerais, informado de que havia ali uma lagoa com águas milagrosas que curavam enfermidades. O cirurgião banhou os olhos com as águas da lagoa e, sentindo-se melhor, decidiu estabelecer-se na região de Sabará, onde redigiu uma obra relatando os efeitos terapêuticos da água da lagoa e onde atuou como cirurgião. A obra sobre a lagoa foi intitulada “Prodigiosa lagoa descoberta nas congonhas das minas do Sabará que tem curado a várias pessoas dos achaques que nesta relação se expõem” (1749).115

Para realização deste trabalho o cirurgião recolheu, no entorno da lagoa, relatos dos enfermos curados pelas suas águas, organizando um texto acompanhado de uma lista de diversos males que a “lagoa santa” teria curado. Registrou também que milhares de pessoas iam até a localidade em busca de banhos milagrosos e não demorou muito para que os devotos erguessem uma capela ao redor da lagoa para Nossa Senhora da Saúde.

Ao contrário de outros cirurgiões que admitiam as influências do poder mágico- religioso sobre as curas, como o cirurgião José Antonio Mendes, João Cardoso de Miranda não ficara satisfeito com as explicações para as curas baseadas nas crenças locais. Por isso,

113 FURTADO, Júnia F. Barbeiros, cirurgiões e médicos..., 2008, p. 97. 114 Idem.

53 inseriu junto ao seu texto os estudos médicos do italiano Antonio Cialli.116 Esse médico investigou o poder terapêutico da água com base em seus conhecimentos de química e concluiu que as águas tinham poderes curativos, sobretudo para as doenças de pele. João Cardoso de Miranda destacou na Prodigiosa Lagoa o modo como o médico italiano realizou suas experiências, enfatizando o método da observação e experimentação adotado por Antonio Cialli, que colheu amostras de água, verificou as alterações na coloração e comparou- as com amostras de água coletada em outras regiões.

Ao enfatizar o método científico adotado na análise do doutor Cialli, o cirurgião certamente confirmou o poder curativo das águas da “lagoa santa”, porém suas afirmações não foram feitas apenas com base nos relatos dos populares acerca do poder milagroso da água, mas respaldadas pela palavra de um homem de ciência. Baseado nos estudos de Antonio Cialli, o cirurgião João Cardoso de Miranda ofereceu uma explicação natural para o fenômeno: os “minerais que costumam impregnar as águas, como eram o vitríolo e o aço”, é que atuavam nas moléstias, cicatrizando afecções diversas. Portanto não era um milagre.117

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Deve-se destacar novamente que a escolha dos nomes dos cirurgiões e manuais selecionados foi orientada em função dos temas abordados pelos autores, sobre as práticas de cura em Minas Gerais que mais nos interessam. Outras obras certamente circularam pela região, entre as que nos interessavam selecionamos apenas as que melhor foram registradas pela historiografia. O objetivo é uma aproximação da visão de mundo desses atores, dos modos de pensar os conceitos de saúde e doença na época, bem como leitura os autores faziam dos fenômenos patológicos.

Portanto algumas considerações a respeito das obras destacadas se fazem necessárias. O Erário Mineral, Governo dos Mineiros, e Prodigiosa Lagoa foram manuais de cura organizados por cirurgiões, tratando de temas contextualizados no interior de Minas Gerais, que falavam das enfermidades locais, dos tratamentos utilizados, das crenças e curas mágicas que ora advinham das informações dos populares, ora eram trazidas pelos autores. Os

116 Antonio Cialli. Breve transumpto das notícias da Lagoa Grande, virtudes experimentadas em diversos

achaques, cautelas necessárias para o uso dos seus banhos. BELTRAN, Maria H.R., MACHLINE, Vera. Manuscrito Cod. 64.1 da Coleção Lamego: um relato de experimentos químicos em lãs águas minerales de Lagoa Santa. In: RESENDE, VILALTA. História de Minas Gerais: as minas setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica, Cia do tempo, 2007. p. 236.

54 manuais, em especial, O Erário Mineral, e Governo dos Mineiros, ofereciam conselhos que poderiam aliviar o sofrimento causado pelas enfermidades que afligiam o povo.

Estes manuais de cura organizados pelos cirurgiões deixavam aflorar as diferenças teóricas e práticas existentes entre eles e os médicos. Luís Gomes Ferreira, por exemplo, enfatizou a necessidade de se considerar a realidade dos mineiros, observando as especificidades das doenças e as interessantes possibilidades de cura disponíveis. Os médicos, ao contrário, estavam distantes da realidade dos doentes, principalmente dos que viviam nas regiões mais interioranas. O cirurgião apontou a importância de se levar em conta a razão natural, a observação e a experiência, atitude, segundo ele, nem sempre seguida pelos médicos. Para o autor do Erário Mineral, na maior parte das vezes os médicos estavam presos ao conhecimento teórico, “atados aos conselhos e regras dos antigos, que, nem à razão natural, nem ao que estão vendo com os seus olhos, querem dar crédito, o que é muito abominável”.118

Os manuais também demonstravam os cirurgiões admitiam nas suas práticas curativas a influência benéfica das orações. Um bom exemplo está na obra Governo dos Mineiros do cirurgião José Antônio Mendes, homem próximo do cotidiano dos mineiros, e menos envolvido com os princípios médico-científicos mais modernos da época.

A aceitação pelos cirurgiões de curas mágicas e milagres era recusada pelos médicos diplomados, porta-vozes da nova ciência que se delineava. Os médicos acusavam os cirurgiões de charlatões e denunciavam suas práticas. A partir da criação das instituições médicas acadêmicas, os conflitos entre os grupos foram crescentes, e o episódio da irmã Germana, apresentado na introdução deste trabalho, ilustra bem um desses conflitos.

1.5 - O exame de irmã Germana: um caso exemplar da luta entre cirurgiões e médicos