3. Estat de la qüestió
3.2. La comprensió lectora fins el segle XXI: les teories al seu entorn
O livro de Delmanto e Carvalho (2012), por ter de apresentar entre os tópicos a serem estudados o gênero discursivo verbete numa abordagem epilinguística e metalinguística, necessita de uma análise que contemple o trabalho com o léxico não só por meio da observação do gênero em uso, como se deu nos livros anteriores, mas também levando em conta esse gênero enquanto conteúdo de aprendizagem.
Enquanto gênero em uso, constata-se que o verbete não demora a entrar em cena, pois é dada a sugestão de consultar o dicionário logo na primeira atividade de leitura: “Antes de iniciar o estudo do texto, tente descobrir o sentido das palavras desconhecidas pelo contexto em que elas aparecem. Se for preciso, consulte o dicionário” (p. 16). Tal estratégia constitui, desde as primeiras páginas, um modo de evidenciar ao aluno o contexto real de circulação característico do gênero em questão e é retomada no decorrer da obra a cada nova unidade.
A exemplo do que se vê nos demais livros, também no livro de Língua Portuguesa ocorrem verbetes nas margens das páginas, diretamente remetendo a palavras destacadas nos textos destinados à leitura, com a função de esclarecê-las nos moldes de verbete de glossário e de enciclopédia alternadamente, ainda que sem se levar em conta a ordem alfabética. Assim, a interação intuitiva com o referido gênero discursivo se dá de modo parcial, omitindo-se alguns elementos constitutivos da sua construção composicional.
A construção intuitiva em torno do gênero verbete segue em outras duas situações. Na primeira, na página 100, há uma atividade em que é apresentado um verbete cuja entrada intitula o texto para leitura. São informadas diversas acepções, para que o aluno identifique a que melhor representa o significado pretendido no título. Tal atividade exige compreensão de nível inferencial e aponta para a importância do contexto enunciativo em prol da plena particularização do sentido da palavra.
Na segunda situação, na página 269, pede-se que o aluno pesquise “bramia” no dicionário, ao que o consulente se depara com a necessidade de lematizar a palavra para só então encontrá-la. A esse movimento de caráter morfológico, segue-se a explicação do que são formas nominais do verbo, discriminando infinitivo, gerúndio e particípio, bem como outras informações de natureza metalinguística. Associar a lematização ao estudo da morfologia pode ser considerado como uma boa estratégia de contextualização da metalinguagem, em busca de uma aprendizagem significativa dos conhecimentos gramaticais.
Na bibliografia, as autoras apresentam as obras intituladas “Introdução ao estudo do léxico”, de Rodolfo Ilari, e “Dicionário de linguagem e linguística”, de Larry Trask,
observação relevante sobretudo para leitores em situação de pesquisa como a que ora se desenvolve. No entanto, não são apresentados dicionários gerais da língua portuguesa, omissão essa que é reveladora de uma percepção subjacente às práticas em voga, as quais costumam subutilizar os dicionários como publicações com função didático-pedagógica, a julgar pela baixa procura desse tipo de obra nas bibliotecas escolares, uma realidade visível também na escola pesquisada.
Observando agora o gênero discursivo em questão enquanto conteúdo de aprendizagem, reserva-se para o verbete a unidade 8, a última do livro, intitulada “Definindo o mundo que nos cerca”, entre as páginas 276 e 311, num total de 36 páginas. Como já foi mencionado, esse gênero havia sido introduzido e integrado aos conteúdos anteriormente tratados no volume, como um recurso de apoio e aprofundamento em atividades de leitura. No entanto, na unidade em que ele é apresentado como o assunto em si, não se faz menção a esse tratamento prévio dado pela proposta pedagógica do livro, o que, de outro modo, ilustraria de forma muito feliz seus contextos de uso.
Na unidade 8, são apresentadas três variedades de verbete – de enciclopédia (impresso e digital), de dicionário e poético. A primeira delas, o verbete de enciclopédia, é a variedade da qual as autoras partem para apresentar as demais, visto que se basearam no quadro fornecido por Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004, p. 102), no qual esse subgênero pode ser identificado como representativo dos demais ou a eles remeter, haja vista que se trata de um quadro não exaustivo, aberto a complementações e ajustes.
Ressalte-se que a menção à versão digital do verbete enciclopédico constitui importante atualização da abordagem do assunto, em razão das novas tecnologias que o aluno, mesmo de escola pública, experimenta em várias dimensões do cotidiano, o que o professor pode utilizar como elo para associar o conhecimento de mundo do aluno com os conhecimentos trabalhados pela disciplina de Língua Portuguesa.
No momento em que Delmanto e Carvalho (2012) introduzem o verbete de dicionário, fazem-no propondo uma interessante atividade de conceptualização, que é o preenchimento de palavras cruzadas. Dado que a leitura do verbete se inicia da palavra rumo à definição, nota-se que a resolução de palavras cruzadas segue o sentido inverso: parte-se da definição para se tentar encontrar a palavra ou expressão. O exercício desse percurso cognitivo é retomado em outras questões de elaboração de verbetes enciclopédicos e de dicionário, estando diretamente relacionado ao propósito deste trabalho. Prosseguindo com questões acerca do verbete de dicionário, as autoras comparam os elementos constituintes deste com os
do verbete de enciclopédia: objetivos diferentes, teores diferentes, aprofundamento de aspectos diferentes.
A última variedade apresentada no livro é a definição poética, que, como já indicado no item 2.2.3, as autoras chamam de verbete poético e corresponde ao que Naranjo (2013) e Falcão (2013) utilizaram em suas obras literárias. Esse subgênero serviu de base para uma atividade em sala, brevemente descrita no item 3.2.2.1, na etapa de incursão na turma do sexto ano “A” em 2016. Na obra ora analisada, ele é exemplificado com produções de Mário Quintana e consiste em definições insólitas, baseadas em experiências pessoais expressas de modo subjetivo, muitas vezes com o objetivo de causar riso. Porém, essa variedade tão convidativa à produção, ao exercício da imaginação, à leveza da expressão, não baseia no livro nenhuma atividade de conceptualização.
Na unidade em questão, as autoras apresentam no item “Reflexão sobre a língua” o “advérbio”, tópico este que, na obra, conclui um percurso de estudo metalinguístico iniciado, na unidade 1, com o tópico “língua e linguagem”, passando nas demais unidades, respectivamente, por “frase”, “os sons da língua”, “substantivo”, “adjetivo”, “artigo”, “numeral”, “pronome” e “verbo”. Por essa perspectiva, tem-se que o estudo do advérbio se encontra no interior de um roteiro comum nas coleções destinadas aos alunos do ensino fundamental e não guarda qualquer correlação orgânica com o gênero discursivo estudado na mesma unidade.
De fato, o estudo do verbete careceu de uma interligação mais efetiva com o estudo do advérbio. Esses tópicos só estão na mesma unidade, mas não se interpenetram. Em certos momentos, é nítida a interrupção de um para o início do outro e, logo adiante, nova interrupção para a retomada do primeiro, sem que, por exemplo, um verbete seja ao menos utilizado para ilustrar algum aspecto acerca do advérbio.
Por fim, é importante ressaltar que a proposta de elaboração de verbetes de enciclopédia e de dicionário desenvolvida pelas autoras do livro didático constitui importante atividade de valorização do léxico dentro do processo ensino-aprendizagem. No entanto, este trabalho pretende ir além e propor construção de glossários, por meio dessa e de outras atividades de conceptualização, inclusive distinguindo palavra de termo, tarefa à qual as autoras do livro didático de Língua Portuguesa ora analisado não deram a devida atenção, algumas vezes chegando mesmo a denominar como termo o que na verdade era palavra (uma vez na página 269, questão 1c, indicando elementos textuais retomados anaforicamente: “a que termo estão relacionados os verbos…”; outra vez na página 304, questão 5d, sobre o
modo de definir verbetes poéticos: “nos verbetes poéticos, os termos são definidos por meio de…”).
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Em linhas gerais, destaca-se em todos os livros didáticos analisados a abolição dos glossários ao final dos textos e a preferência por explicar os significados das palavras o quanto possível em concomitância com a leitura, organização essa que se aproxima da conformação estrutural do hipertexto. Tal utilização das margens das páginas para a inserção de verbetes não se deu só em relação aos textos a que se seguiam atividades de compreensão e interpretação, mas também em relação aos demais textos explicativos e de comandos de atividades de leitura e produção textual.
Constatou-se que se recorre a perguntas de natureza conceitual para acionar os conhecimentos prévios dos alunos sobre os assuntos que em seguida serão expostos nas unidades, ou ainda para impulsioná-los a fazer pesquisas em busca de aprofundamentos e novas descobertas. A análise também apontou que definir é atividade importante nos três primeiros livros observados, porém, no caso de Língua Portuguesa, o exercício de definir não é detectado no estudo da metalinguagem, nem na leitura, nem na produção textual. Nesse caso, a atenção ao léxico é deixada por conta da iniciativa do aluno, sem as devidas orientações.
Essa constatação reforça a importância de articular o trabalho com definições e a elaboração de verbetes a uma postura interdisciplinar, que cabe ao professor de Língua Portuguesa iniciar, como representante da disciplina curricular que reflete sobre esse gênero discursivo não só enquanto tópico de estudo da língua materna, mas, sobretudo, enquanto recurso linguístico de organização e expressão de conceitos útil a todas as disciplinas.
A título de ilustração, ressalte-se que o verbete de enciclopédia apresentado no início da lição 8 do livro de Língua Portuguesa remete a conceitos estudados em Ciências. As próprias autoras, no manual do professor, propõem exatamente o trabalho conjunto entre os professores de ambas as disciplinas (cf. DELMANTO; CARVALHO, 2012. Suplemento, p. 47).
É importante também destacar a sugestão de Delmanto e Carvalho (2012) de se colocar o verbete para circular socialmente lançando mão de um almanaque pessoal construído durante o ano inteiro, no qual também constariam as outras produções dos alunos referentes às unidades anteriores. O almanaque se afigura como proposta interessante, visto que não desvirtua a série de possibilidades de suportes além dos dicionários, enciclopédias e
glossários, e – ainda mais importante – potencializa a oportunidade de integrar projetos de várias disciplinas. Afinal, esse tipo de publicação se caracteriza por abrigar uma miscelânea de gêneros discursivos, ao mesmo tempo em que, por meio dessa diversidade, toca uma série de conhecimentos referentes a todas as disciplinas curriculares, configurando-se, assim, como promissora alternativa de trabalho interdisciplinar.
Convém lembrar que, mesmo que todas as coleções dos livros didáticos atualmente utilizados pudessem vir a ser substituídas por outros títulos no triênio seguinte, que se iniciou em 2017 e vai até o final de 2019, a análise ora feita permanece válida para fins de elaboração de uma proposta de intervenção didático-pedagógica, porque reflete uma realidade há muito constatada nas práticas de sala de aula. Tal realidade diz respeito à pouca clareza acerca da relevância do aspecto lexical da língua como elemento de construção de saberes e práticas de linguagem, bem como uma visível assistematicidade quando de seu acionamento no estudo dos assuntos nas diversas disciplinas.