Para consolidar a validade dos dados obtidos junto aos professores e alunos da escola de ensino fundamental observada, acerca dos aspectos do léxico implicados no processo ensino-aprendizagem das diversas disciplinas do currículo referentes ao sexto ano, será feito o cotejo de algumas informações semelhantes às constatadas no levantamento feito por Cardoso (2015) sobre a variação diatópica no dicionário escolar. No referido estudo, a autora analisa a postura de docentes e estudantes de ensino fundamental e médio de escolas públicas e particulares do centro de Belém, Pará, em relação ao uso desse tipo de dicionário na sala de aula.
Cardoso (2015), em seu levantamento, atesta que entre os alunos é reconhecida a necessidade de usar o dicionário. Esse julgamento positivo encontra eco entre professores e alunos da escola consultada em Barcarena, os quais apontaram esse instrumento como importante para o aprendizado.
Outra consonância que se observou em ambos os estudos diz respeito à frequência de uso do dicionário em sala de aula. Nesse item, metade dos alunos consultados nas escolas de Belém informou não usar dicionário nas aulas, enquanto os demais se distribuíam em dois grupos: o primeiro o usa algumas vezes, enquanto o segundo afirma usá-lo com frequência, ainda que o levantamento de Cardoso (2015) tenha inquirido os entrevistados exclusivamente em relação à disciplina de Língua Portuguesa. Enquanto isso, na escola de Barcarena, o grau de uso obtido entre os professores das disciplinas envolvidas na pesquisa apresentou grande variação, pois cada um dos quatro docentes informou uma frequência diferente, resultando numa frequência global mediana, compatível com a percepção de uso mediano informado por 87% do alunado da turma do sexto ano “A”.
No que diz respeito aos fins com que o dicionário escolar é usado, Cardoso (2015) detecta o apoio em dúvidas de ortografia, semântica, busca de novos vocábulos, leitura e classificação morfológica, tanto entre professores, quanto entre os alunos. A presente pesquisa, por sua vez, atestou entre os alunos, com poucas variações, índices próximos aos dos quesitos apontados pelos alunos de Belém, enquanto que o professor colaborador de Língua Portuguesa utilizou dicionários nas aulas sobre verbete e em leitura de texto. Produção textual e aspectos metalinguísticos como separação silábica, ortoépia e etimologia foram atividades que não contaram entre as utilidades próprias do dicionário. Já os professores informaram não conhecer (pelo menos por meio das denominações apresentadas nos questionários) instruções como paronímia, marca de uso e entrada. Assim, tanto entre alunos,
quanto entre professores, atesta-se a necessidade de aprofundar o estudo do gênero discursivo verbete.
Quanto aos títulos consultados, enquanto Cardoso (2015) levantou a autoria dos dicionários escolares que os alunos e professores utilizavam, a presente pesquisa não o fez. Em lugar disso, verificou quais publicações os professores recomendavam aos alunos como fonte de pesquisa. No entanto, um fato acabou aproximando os dois itens investigados: a constatação de que nem enciclopédias, nem dicionários enciclopédicos, nem dicionários especializados eram indicados e que, portanto, faltam na prática pedagógica a valorização dessas publicações enquanto alternativas de pesquisa e o reconhecimento do verbete como gênero discursivo que tenha sua circulação social devidamente vinculada a situações de aprendizagem.
O último ponto em comum desta pesquisa com a empreendida por Cardoso (2015) diz respeito aos suportes consultados, que entre os alunos e professores de Belém variaram entre o uso exclusivo do dicionário impresso e a utilização concomitante deste com o on-line, ali citado como dicionário eletrônico. Entre os docentes e discentes da escola de Barcarena, igualmente predomina a baixa utilização de suportes condizentes com a era digital, a saber, os dicionários e as enciclopédias on-line, além dos aplicativos instalados em computador e
smartphone. Para além do acesso limitado aos bens tecnológicos, o levantamento constatou o fato de que as TIC quase não são acessadas para fins de formação e informação, mas quase exclusivamente voltadas ao entretenimento. Nesse sentido, mais uma vez o professor deve sentir-se convidado a apontar elos de ligação entre o conhecimento de mundo do aluno e os conhecimentos mediados pelo processo ensino-aprendizagem.
Esse cotejo entre alguns aspectos levantados de modo pioneiro na região, representada pelos municípios de Belém e Barcarena, fez-se pertinente na medida em que constatou resultados muito semelhantes num e noutro município, mesmo que cada estudo apresentasse suas especificidades. Um exemplo de especificidade é o fato de que em Belém a pesquisadora não esclareceu quais disciplinas os professores consultados ministravam (cf. CARDOSO, 2015), enquanto que a presente pesquisa identificou História, Ciências, Matemática e Língua Portuguesa. Além do mais, a escola de Barcarena não consta entre aquelas com melhores notas no estado do Pará, diferentemente do que Cardoso (2015) ressalta em seu estudo, sem contar que o estudo feito em Belém do Pará resultou num corpus de regionalismos da região norte obtidos de dicionários escolares, o qual pode ser alinhado aos esforços empreendidos pelos estudiosos envolvidos na confecção do Atlas Linguístico do Pará (cf. RAZKY; LIMA,
2011). O presente estudo, por sua vez, tem como diferencial a elaboração de uma proposta de intervenção didático-pedagógica, baseada nas considerações até aqui feitas.
Ainda assim, as semelhanças dos resultados de aspectos afins reforçam a possibilidade de as reflexões e proposições apresentadas em relação ao trabalho com o léxico em sala de aula interessarem a um número amplo de escolas, para além dos estabelecimentos pesquisados. Afinal de contas, a convergência de várias circunstâncias entre escolas de diferentes realidades dá a entender que mais estabelecimentos de ensino têm em comum experiências, dificuldades e aspirações voltadas para práticas que permitam ao aspecto lexical da língua contribuir efetivamente com o processo ensino-aprendizagem.
No próximo capítulo, segue a proposta de intervenção didático-pedagógica há pouco referida, a qual se pauta na abordagem do léxico para o sexto ano do ensino fundamental.