Falaremos agora um pouco acerca do planejamento educacional no nível do plano de ensino-aprendizagem, com o intuito de destacar sua importância e justificar a inclusão da análise desse tipo de documento em nossa pesquisa. Segundo Vasconcellos (2002), para se resgatar o lugar do planejamento na prática pedagógica, é crucial que o(a) professor(a) se coloque como sujeito do processo educativo, pois quem age por condicionamento não precisa planejar; alguém já planejou por ele(a). Colocar-se na condição de sujeito de transformação quanto a uma prática implica a existência de um querer e um poder em relação a ela.
O poder tem uma base objetiva, que se refere às condições para a ação (os meios e os recursos, sejam materiais ou estruturais), e uma base subjetiva, concernente ao saber (seja na forma de conhecimento, habilidades e/ou atitudes). É importante ressaltar que existe uma relação estreita entre as bases objetiva e subjetiva do poder, já que uma exerce influência sobre a outra. Sendo assim, o autor esclarece que o fundamento primeiro de qualquer processo de planejamento está num nível mínimo, pessoal e coletivo, de compromisso (desejo, ética e responsabilidade) e competência (entendida como a capacidade de resolver problemas). Pare ele, o planejamento é político, é a hora de tomada de decisões, de resgate dos princípios que embasam a prática pedagógica.
Sobre essa questão, Luckesi (2008) também afirma que o ato de planejar não é neutro, já que nossa ação, mesmo que de modo inconsciente, se fundamenta em juízos de valores sobre o mundo que nos cerca. Isso significa dizer que o planejamento está ideologicamente comprometido, assentando-se em opções filosófico-políticas. Conforme o autor, apesar desse fato constitutivo do ato de planejar, em nosso país ele é frequentemente conduzido como se fosse uma atividade neutra, o que contribui para a manutenção do atual modelo de sociedade, ou seja, tal atitude esconde a realidade, por não a questionar. Sendo assim, é preciso considerar que o planejamento é um ato ao mesmo tempo político-social, científico e técnico.
Vasconcellos (2002) destaca ainda a necessidade de se atribuir valor ao planejamento, acreditar nele, sentir que planejar faz sentido, que é preciso. O primeiro passo, portanto, é chegar ao ponto de o planejamento ser necessidade do(a) professor(a). Tendo em vista que a motivação primeira do planejamento é o desejo de mudança da realidade, ele se faz necessário ao verificarmos que tal mudança não se dará espontaneamente e nem apenas com boa
vontade. Para se estabelecer outra ordem, é imprescindível uma ação numa determinada direção, pois não é uma ação qualquer que nos levará ao que desejamos. A perspectiva de superação do sistema dominante implica a mediação teórica que deve dar conta da qualificação da ação de intervenção e da complexidade do campo da ação. Nesse sentido, deve-se planejar em função da qualificação da ação (intencionalidade) e da complexidade do real.
Quanto à qualificação da ação, Vasconcellos (2002) ressalta que não estamos inseridos em uma realidade qualquer e não queremos uma mudança qualquer; por isso, a ação desenvolvida precisa ser qualificada, transformadora. A ação humana consciente está sempre pautada numa certa elaboração teórica, numa mediação simbólica que visa uma nova intencionalidade. É preciso considerar que o que modifica efetivamente a realidade é a ação, e não as ideias. No entanto, a ação sem ideia é cega e ineficaz; logo, o que o autor defende é a
práxis, isto é, a atividade teórico-prática, que tem um lado ideal, teórico, e outro material,
propriamente prático, com a particularidade de que só artificialmente, por um processo de abstração, podemos separar, isolar um do outro. O que vai, de fato, orientar a prática é a teoria incorporada pelos sujeitos; assim, não adianta um belo texto, mas que não corresponde ao movimento conceitual do grupo.
O planejar, no sentido autêntico, é para o(a) professor(a) um caminho de elaboração teórica, de produção de teoria, da sua teoria. Quando feito a partir de uma necessidade pessoal, o planejamento torna-se uma ferramenta de trabalho intelectual, um instrumento de organização do pensamento. Enquanto a síntese está na cabeça, pode incorrer em certo grau de generalidade, de abstração, ao passo que, ao realizar a exposição material, o sujeito se obriga a uma formatação, a uma objetivação, a uma sintetização conclusiva, específica.
Em relação à complexidade do real, Vasconcellos (2002) esclarece que, se a realidade nos fosse dada imediatamente, não precisaríamos da reflexão teórica: os fenômenos se revelariam de maneira mais direta à nossa sensibilidade, ficando fácil intervir para obter o que quiséssemos. Mas, se desejamos compreender um fenômeno, temos de ir além de sua aparência, ou seja, ir além da maneira como ele nos revela num primeiro momento, captar suas leis de desenvolvimento, sua essência. O campo sobre o qual incide o planejamento educacional é de fato extremamente complexo, sendo difícil apreender seus determinantes. Porém, ainda conforme o autor, a tarefa de educar é demasiadamente importante e complexa para ser decidida e feita isoladamente, na improvisação, ao acaso. A rigor, o planejar em si não é tão complicado. Complexa é a realidade sobre a qual incide o planejar: o difícil não é saber como planejar, e sim conhecer o que se planeja.
Segundo o autor, o planejamento, mais do que instrumento ou ferramenta, deve ser visto como o méthodos de trabalho do(a) educador(a), isto é, como postura, como forma de organizar a reflexão e a ação, como estratégia global de posicionamento diante da realidade. Ele explica que método é uma palavra que vem do latim tardio methodus, e este do grego
méthodos, metà- (fim) e hodós (via, caminho). Sendo assim, o método é uma forma de
organizar o pensamento, de maneira a se possa criar, fazer relações até então não estabelecidas. Em síntese, o autor defende que o planejamento seja entendido como méthodos da práxis pedagógica.
Além disso, Vasconcellos (2002) ressalta que o planejamento deve ser visto como instrumento de comunicação. O projeto de ensino-aprendizagem, tanto no nível do plano de curso quanto no âmbito do plano de aula, enquanto explicitação da proposta de trabalho, possibilita estabelecer a comunicação com os outros(as) professores(as), visando a integração curricular, bem como evitar as desnecessárias repetições ou os vazios curriculares; permite ainda uma melhor comunicação com os(as) estudantes, propiciando uma participação mais efetiva em aula e na própria construção da proposta.