Quando compramos uma nova roupa significa que aquela que tí- nhamos não nos serve mais, ou simplesmente, queremos inovar nos- so vestuário. Quando tratamos da roupagem do voleibol, essa analo- gia torna-se um pouco mais complexa, porém, segue a mesma lógica. Se há uma nova roupagem, é porque a antiga foi substituída por não servir mais, ou porque se fez necessário uma inovação?
A trajetória do voleibol realmente tomou novos rumos quando fo- ram iniciadas as parcerias com empresas. Uma nova roupagem foi ela- borada, iniciaram-se as associações esportivas que proporcionam uma nova caminhada para essa modalidade esportiva.
De acordo com essa nova realidade, muitas mudanças aconteceram no contexto do voleibol. Os dirigentes trabalharam sob novas pers- pectivas, obtendo novas visões sob a forma de dirigir suas equipes em comparação aos primeiros campeonatos brasileiros. Fica evidente que a estrutura profissionalizante do voleibol não se estruturou de imedia- to, mas a maioria dos clubes se esforçou para isso. A criação do volei- bol como forma de lazer dá lugar ao negócio, os empresários enxer- gam neste esporte possibilidades da divulgação de seus produtos.
A década de 80 foi primordial nessa passagem do voleibol ao mun- do dos negócios. É o período de grandes contratos publicitários e da grande cobertura da mídia, assim como, de grandes premiações nos torneios internacionais. Foi uma época de adequação ao formato tele- visivo (MARCHI JR., 2001).
No conjunto das adequações, o tempo de partida deveria ser dimi- nuído, para compor, de forma previsível, a programação da televisão.
Europei di pallavolo 2005 – Italia vs . Russia.Dis - ponível em:<http://pt.wikipedia.org/wiki/V oleibol>. Acesso em: 26 nov . 2007. n
Assim foi introduzido um novo sistema de pontuação, no qual a vantagem é elimina- da e passa a prevalecer a pontuação direta, ou seja, no sistema único de “tie-break”. As partidas teriam um maior número de pon- tos para que não terminassem tão rapida- mente. Subiu para 25 o número de pontos necessários para a vitória de um “set”.
O voleibol foi, então, adequado à pre- visibilidade de tempo de partida, condi- ção para tornar-se espetáculo televisivo. Is- so não aconteceu ainda com o tênis, por exemplo! É freqüente a exibição de partidas de tênis em TV “aberta”? O tênis é um típico esporte que não interessa à televisão, por não pos- suir uma previsibilidade, o tempo pode variar de uma, até quatro ho- ras.
Cabe um questionamento sobre a divisão existente entre televisão aberta e a televisão fechada. Você saberia dizer qual o motivo desta di- visão? Quem pode hoje, no país, ter em suas casas a televisão fechada (paga)? É evidente que o processo de elitização não ocorre somente no esporte de modo geral, ocorre principalmente na sociedade como um todo. O acesso às televisões fechadas é restrito àqueles que podem pa- gar por este entretenimento. Aos demais, resta a TV aberta e suas ofer- tas de diversão massificadas.
Outra exigência para que a espetacularização do voleibol se efeti- vasse, foi a necessidade de evolução técnica e tática dos jogadores, pa- ra que a bola não caísse rapidamente e a partida terminasse em pou- co tempo. As regras neste momento foram alteradas com o objetivo de ajustar o jogo, de forma que o espetáculo fosse mais “belo” e suficien- temente duradouro aos olhos do telespectador.
Ainda atendendo as necessidades de espetacularizar o voleibol, houve a inserção de bola colorida. Isso objetivava tanto facilitar a mar- cação do árbitro quanto a visualização e o acompanhamento do te- lespectador.
Outra alteração significativa, inserida para impor uma forma ainda mais espetacularizada, e que mexeu de forma direta no tempo de bo- la em jogo, foi a criação de um jogador com função específica, defen- der. O líbero foi criado para que a bola não tocasse o chão com tan- ta facilidade.
Com as novas regras, o saque pode tocar a fita, aumentando a ex- pectativa. O técnico teve sua área ampliada para toda a extensão de seu lado da quadra, o que aumentou a interatividade entre público, técnico e jogadores.
1. Agora, organize um novo festival de voleibol em sua aula de Educação Física, mas, desta vez, se-
guindo a regra atual. Depois, elabore um relatório em seu caderno observando as seguintes ques- tões:
a) Quanto tempo durou a aula?
b) Que dificuldade foi encontrada durante o jogo?
c) Quais foram as principais semelhanças e as principais diferenças da partida com as regras “an- tigas”, e da partida com as “novas” regras?
ATIVIDADE
O tempo destinado às equipes também sofreu alterações. O motivo pelo qual foi instituído o chamado tempo “técnico”, no oitavo e déci- mo sexto ponto, foi oportunizar o anúncio dos produtos dos patroci- nadores para que possam vender suas imagens ao grande público. Es- sa alteração, provavelmente, tenha passado despercebida ao conjunto de espectadores, porém coloca, de maneira definitiva, o voleibol como um negócio muito interessante para os diversos investidores.
Assim, não houve uma preocupação com o esporte em si. Os ca- pitalistas, donos dos meios de comunicação, imprimiram as novas re- gras ao voleibol para torná-lo mercadoria, de acordo com a exigência do mercado, sem levar em conta as opiniões dos espectadores, e mui- to menos dos antigos e atuais praticantes.
2. Utilizando-se das anotações do festival com as antigas regras, promova uma discussão em mesa
redonda comparando as observações feitas entre os dois festivais. Você pode discutir, entre outras questões: quais regras facilitam mais o jogo? No que o jogo ficou mais dinâmico? Por quê?
DEBATE
A importância da crítica que estabelecemos aqui recai na análise que você pode fazer do voleibol como fenômeno social, e, como esta- belecemos em todo o texto, vale não só para o esporte, mas para toda a sociedade. Reflita sobre todas essas questões, e retire daqui aquelas que o deixaram mais intrigado. Vá em busca de novos questionamentos, de soluções para as dúvidas que este texto deixou. Fica o desafio.
Referências Bibliográficas:
BORDIEU, P. Sobre a televisão. Tradução. Maria Lucia Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zarar, 1997. CHESMAM, C.; ANDRÉ, C.; MACEDO, A. Física moderna: experimental e aplicada. São Paulo: Livra-
ria da física, 2004.
Confederação Brasileira de Voleibol, Regras oficiais de voleibol. Rio de Janeiro: Ed.Sprint, 2005. CRUZ, G. de C. Classe especial e regular no contexto da educação física: segregar ou inte-
grar? Londrina: UEL, 1997.
HOBSBAWN, E. A era dos extremos: O breve século XX: 1914-1991. Tradução Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MARCHI J. W. “Sacando” o voleibol: do amadorismo à espetacularização da modalidade no Brasil
(1970 - 2000). 2001. Tese (Doutorado em Educação Física) - Universidade Estadual de Campinas, Fa- culdade de Educação Física, Campinas, São Paulo, 2001.
Regras oficiais de voleibol 1995 -1997. Rio de Janeiro: Sprint, s/d.