7. Studentevalueringens legitimitet og betydning
7.2. Intervjupersonenes syn på studentevaluering
7.2.1. Lærernes syn
Os termos da flora e da fauna sertanejas não são os únicos a receber a atenção de Guimarães Rosa. Sua exigência de rigor abarca toda e qualquer palavra, seja ela um termo inventado, emprestado de outra língua, arcaico ou comum. Tudo depende não da palavra em si, mas do papel que desempenha no trecho em que está inserida, como se poderá verificar, a seguir, nos exemplos que selecionamos. Alguns deles encontramos nas cartas a Curt Meyer-Clason, quando Rosa comenta as versões dos contos de Primeiras estórias que seu correspondente alemão lhe enviava.
Em Sequência, ele usa o neologismo “desesconder”. Abaixo, transcrevemos a frase do conto Sequência, onde aparece esse verbo, junto com a tradução de Meyer-Clason:
Ela se desescondia dele. (ROSA, 2001, p. 118). Sie entdeckte sich ihm. [Ela se descobria para ele] (JGR a CMC, 23/03/1966 – ROSA, 2003, p. 313).
Aparentemente, “desesconder-se” é um sinônimo de “descobrir-se”; contudo, é mais sutil, carregado de mais significados, por fugir ao lugar-comum, surpreender. Rosa invoca especialmente o conteúdo “metafísico” da expressão:
“Sie entdeckte sich ihm.” Não sei se traduz fortemente exato o original, que é ousado. A coisa é metafísica. “Ela se desescondia dele.” Todas as pessoas vivem se escondendo umas das outras, involuntariamente. (Incomunicabilidade normal dos seres. O amor é que abre contatos, vencendo a “solidão metafísica”.) (JGR a CMC, 23/03/1966 – ROSA, 2003, p. 313).
Também em Primeiras estórias, dessa vez no conto Substância, a primeira frase é de difícil interpretação, devido ao emprego do verbo “fazer-se”:
“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa – o amido – puro, limpo, feito surpresa.” (ROSA, 2001, p. 205).
Meyer-Clason a traduz:
“Ja, auf dem Land wird die Maniokstaerke weiss.” [Sim, na roça é que o polvilho é branco] (JGR a CMC, 30/08/1966, – ROSA, 2003, p. 354).
E Guimarães Rosa explica-lhe que não se trata de o polvilho ser mais branco na roça do que em outro lugar, mas que na roça ele é o símbolo da pureza, da brancura máxima, obtida, porém, à custa de trabalho, de um fazer que é explicitado nas linhas seguintes. A brancura conseguida do polvilho se reflete na beleza também conseguida da moça, personagem do conto, e é o ponto de gravidade de tudo. Assim, não se pode transformar essa obscura primeira frase da estória em algo claro e lugar-comum, como “aqui na roça é que o polvilho é bom, aqui é que ele é branco”:
O texto original é: “Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva”. Quer dizer: De fato, na roça o polvilho consegue ser o símbolo (modelo, paradigma) de alvura.
Ao passo que a tradução dá apenas a entender: “Sim, na roça, é que o polvilho é mesmo alvo.” Como se quisesse dizer que, na roça, sim, o polvilho é mais alvo que em outros lugares (por exemplo: do que na cidade). Assim, deve ser mudada a frase para algo assim como: Ja, auf dem Land wird die Stärke das weisseste Ding [Sim, na roça o polvilho se torna a coisa mais alva]. (Repare, também, no “se faz” do original. Traz uma dinâmica – acentuando os esforços do fabricante, ou os “sofrimentos” da
polpa de mandioca, até e para chegar a dar o alvo polvilho.) (JGR a CMC, 30/08/1966 – ROSA, 2003, p. 355).
Vemos como o sentido é construído não pela palavra isolada, mas na conexão que estabelece com as outras, não é algo dado a priori. Nessa passagem, o simbólico está entranhado no concreto. A fabricação do polvilho é aqui perfeitamente descrita, ao mesmo tempo que extrapolada. Não é usada como simples alegoria, mas encarna, em sua concretude, alguma coisa que a ultrapassa.
Dois exemplos importantes aparecem na tradução de Harriet de Onís de
Duelo, de Sagarana. No primeiro, destaca-se a palavra de origem tupi “quiriri”, que vem de silêncio e significa “sossegado, calado” (QUIRIRI, 2010), e que, porém, aproxima-se muito da onomatopeia do canto de passarinhos “qui-qui-qui” ou “qui- qui-ri-qui”, o que passa ao leitor, imediatamente, a ideia de ruído. Abaixo, a frase original de Rosa e a tradução de Onís:
No mais, distante, o mato dormia, num quiriri sem alarmas. (ROSA, 1983, p. 151).
In the distance the forest slumbered in quiet peace, in a silence that was almost audible. [Na distância a floresta dormitava em perfeita paz, num silêncio que era quase audível.] (JGR a HO, 02/05/1959 – VERLANGIERI, 1993, p. 100).
A tradução de Onís, no nível do significado imediato, não está errada. Afinal, o mato dormia, silencioso. De uma outra perspectiva, porém, ela perdeu o essencial. O mato que dorme silenciosamente, sem alarme, não está, contudo, morto. E seu silêncio é assustador, cheio de ameaças veladas, como um animal selvagem que dorme, como dirá Rosa. A palavra “quiriri”, estranha, de origem índia, contribui em muito, segundo o autor, para forjar essa impressão, enquanto as expressões usadas por Onís, “in quiet peace” [em perfeita paz] e “almost audible silence” [silêncio quase audível], são fórmulas usuais, que não invocam mistério algum:
O “quiriri”, do texto original, é palavra índia, cheia de superstição, de “coisa cósmica”, de magia primitiva, de animismo, de sentido “pânico”. A floresta é sentida como um enorme animal, que fala tão alto, ou tão grave, que os ouvidos da gente não lhe captam as vozes; um animal enorme que ressona mudamente. É um silêncio que assusta, como pausa prestes a rebentar em rugidos e trovão. Daí, não servir de maneira alguma o IN QUIET PEACE [em perfeita paz], nem o THAT WAS ALMOST AUDIBLE [que era quase audível]. (JGR a HO, 02/05/1959 – VERLANGIERI, 1993, p. 100).
E ele sugere algumas traduções, em que esse mistério do falso silêncio da floresta transpareça, reunindo termos opostos e aliterados, “resonant silence” (silêncio ressonante), “unruffled unruly” (sereno, indomável), “inquiet peace” (ruidosa paz), e reintroduzindo a expressão “alarmless” (sem alarme):
In the distance, the florest slumbered alarmless, in an almost resonant silence.
[Na distância, a floresta dormitava sem alarmes, num silêncio quase ressonante.]
In the distance, the forest slumbered in unruffled unruly alarmless peace, with its almost resonant silence.
[Na distância, a floresta dormitava em uma paz sem alarmes, serena, indomável, com seu silêncio quase ressonante.]
In the distance, in unquiet peace, the forest slumbered unruffled, unruly, under its almost resonant silence.
[Na distância, em ruidosa paz, a floresta dormitava serena, indomável, sob seu silêncio quase ressonante.] (JGR a HO, 02/05/1959 – VERLANGIERI, 1993, p. 100).
Rosa acrescenta, ainda, que a sensação de estranheza que seus livros provocam é essencial, pois sacode o leitor, desassossega-o e fala “a seu inconsciente”:
Deve ter notado que, em meus livros, eu faço, ou procuro fazer isso, permanentemente, constantemente, com o português: chocar, “estranhar” o leitor, não deixar que ele repouse na bengala dos lugares comuns, das expressões domesticadas e acostumadas; obrigá-lo a sentir a frase meio exótica, uma “novidade” nas palavras, na sintaxe. Pode parecer crazzy (sic) de minha parte, mas quero que o leitor tenha de enfrentar um pouco o texto, como a um animal bravo e vivo. O que eu gostaria era de falar tanto ao inconsciente quanto à mente consciente do leitor. (JGR a HO, 02/05/1959 – VERLANGIERI, 1993, p. 100, grifo do autor) .
No segundo exemplo, trata-se de escolher entre dois sinônimos, satisfied ou
pleased, para se traduzir fagueiros. Abaixo, a passagem original de Rosa e as duas
versões de Onís:
[...] e capiaus, com a enxada ou com a foice, mas muito contentes de si e
fagueiros, num passinho requebrado, arrastando alpercatas, ou gingando,
faz que ajoelha mas não ajoelha, ou ainda na andadura anserina, – assim torto, pé-de-pato, tropeçante. (ROSA, 1983, p. 160).
[…] and the men, with pick or scythe, but happy and satisfied […]
[…] and the men, with pick or scythe, but happy and pleased [...] (JGR a HO, 02/05/1959 – VERLANGIERI, 1993, p. 101, nota 5).
E Rosa prefere o segundo por motivos rítmicos, por realizar uma aliteração com o adjetivo “happy”, que o acompanha, concretizando a marcha/dança dos roceiros:
Aqui, também, pediria à boa Amiga que adotasse o HAPPY AND PLEASED. Acho-a esplêndida, em sua maneira aliterada, curta, quase de bailado. Contém em si, em seus sons, em sua forte aliteração, uma nota de humour “vocabular”, na música subjacente ao sentido literal. Além disso, é puro ritmo: – traduzindo exatamente o movimento dos capiaus descritos na frase, isto é, “verbalizando-o”. Já o SATISFIED me parece fraco, banal, abstrato e sem relevo. (JGR a HO, 02/05/1959 – VERLANGIERI, 1993, p. 101, grifo do autor).
Os exemplos que arrolamos em toda essa primeira parte, que aborda o vocabulário, indicam que para Rosa as palavras, sejam elas comuns como “cigarras” e “fagueiros” ou estranhas como “quiriri” e “desesconder-se”, importam não como simples ornamentos, mas ocupam um lugar preciso na trama textual. Por isso, não há uma regra para sua tradução. Elas devem ser ora traduzidas literalmente, ora adaptadas, ora reinventadas, ora simplesmente eliminadas. Cada caso deve ser pensado em sua singularidade.