2. Metodologi
2.5. Analyse og tolking
2.5.3. Læreplanen som tekst
Como em toda vida cotidiana, na cooperativa os cooperados não constroem sua história como gostariam, mas segundo as circunstâncias (sociais, econômicas, técnicas, culturais etc.) que eles encontram51. Isto revela que embora o grupo social
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Frase de Neide, ex-cooperada da ITACOOPERARTE, dita durante o Curso de Formação em Cooperativismo ministrado pelos formadores da ITCP/USP em 1999.
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Esta e as demais falas aqui relatadas são de cooperados da UNIWIDIA e, caso já tenham sido previamente apresentadas, não constará a autoria, para facilitar a leitura do texto.
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Paráfrase de: “os homens fazem sua própria História, mas não a fazem como querem e sim sob as circunstâncias que encontram (p.58).” (MARX apud MARTINS, 2000)
esteja delimitado pelas características do ambiente, sobretudo pelas circunstâncias comerciais, institucionais e técnicas, sua atuação não é totalmente determinada pelas circunstâncias. Esta indeterminação, presente em toda situação social cotidiana, ocorre porque os cooperados apreendem a lidar com as circunstâncias, criando alternativas e construindo sua trajetória coletiva. A astúcia de criar alternativas com as circunstâncias presentes é própria, conforme CERTEAU (1994), de uma ratio (razão) popular: “uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma maneira de combinar indissociável de uma maneira de utilizar” (p.42).
Esta razão popular, segundo MARTINS (2000), não é somente o repertório de conhecimentos compartilhados entre todos, o senso comum, mas principalmente a partilha entre os participantes da situação social de um método de produção de
significados. Este método de pensar com as circunstâncias presentes é que possibilita
a criação de alternativas nos entremeios das circunstâncias. Foi assim, por exemplo, que os cooperados da UNIWIDIA lutaram para criar uma cooperativa “dentro da
massa falida da CERVIN”, foi assim que resistiram ao argumento da justiça que
dizia que “não existe isso de cooperativa dentro de massa falida”, foi assim que descobriram na Rússia um fornecedor de matéria prima que “acreditou e confiou” neles, enquanto os fornecedores locais desconfiavam, foi assim também que inovaram nos processos de produção, de organização do trabalho e de gestão, sem qualquer necessidade de tornarem isto um assunto na cooperativa. E também foi com esta astúcia que conseguiram criar uma imagem da UNIWIDIA no mercado como uma empresa nova, independente da CERVIN. Como diz MARTINS (2000): “não há reprodução de relações sociais sem uma certa produção de relações – não há repetição do velho sem uma certa criação do novo” (p.61).
A presença de um repertório comum de conhecimentos e práticas dos cooperados e deste método compartilhado de construção de significados é que possibilita que eles atuem nas circunstâncias presentes de forma criativa e inovadora. Isto demonstra que o conhecimento e a razão não são fenômenos estritamente individuais, pois são próprios das situações sociais mais imediatas às pessoas, em que ocorre
comunicação na vida cotidiana (BAKHTIN, 2002). Ou seja, o pensamento também
ocorre enquanto as pessoas dialogam sobre e em uma determinada situação. Isto é possível porque os atos de fala (enunciações) são compostos por palavras que
transportam significados entre pessoas, tornando-os compartilhados. Estes significados, entretanto, não são transmitidos do locutor ao interlocutor, mas estão simultaneamente nos dois, o que torna simultâneo e compartilhado o pensamento dos dois. Segundo BAKHTIN: “a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor” (p.113). Da mesma maneira ocorre em conversações em que estão presentes diversas pessoas, tornando o pensamento e a comunicação mutuamente imbricados. Em um grupo
social é difícil reconhecer os limites do pensamento próprio, pois certas partes deste
pensamento inevitavelmente são dividas a outras pessoas.
Outra característica do diálogo é que ele não começa nem termina pelo encontro ou desencontro de ao menos duas pessoas. Ele também ocorre no lapso entre um encontro e outro, visto que continua sob a forma de um diálogo interior, no qual os participantes das situações sociais continuam presentes, assim como suas posições, convicções, idéias, valores etc. Cada pessoa apreende a posição e o discurso do outro, sabe o que o outro pensa e almeja na situação, é capaz de manter um diálogo interior com o outro na ausência dele e de antever certos aspectos do discurso e das ações que o outro poderia realizar. Isto explica porque quando o outro não age ou não fala como é esperado que fale ou faça, aparece a sensação de surpresa. BAKHTIN (2002) chama este processo de interiorização do outro.
Ao interiorizar os outros, ocorre também uma interiorização da dinâmica da interação social em acontecimento, das disputas, das maneiras como ocorrem as negociações de interesses e de entendimentos entre as pessoas, das regras tácitas de funcionamento do grupo etc. Interiorizar a dinâmica do grupo social permite à pessoa antever como acontecerão certas situações do grupo, o que a possibilita planejar sua atuação, considerando como sua participação influenciará o processo coletivo.
Como o processo de interiorização ocorre com todos aqueles com quem a pessoa mantém relações cotidianas, ela interioriza “muitos outros”, compondo o que BAKHTIN (2002) chama de auditório social. Este auditório é composto pelas “vozes”, nem sempre identificadas, dos muitos outros que cada um interioriza, o que cria um grande repertório de possibilidades de fala, de métodos de pensar, de entendimentos e de posicionamentos diversos que a pessoa utiliza no cotidiano de
sua vida. Este repertório é fundamental na conformação tanto do jeito de pensar de cada pessoa, que em muito se assemelha a um processo interno de negociação
dialógico-discursiva, quanto dos aspectos do método compartilhado de construção de significados, anteriormente citado.