2. Metodologi
2.5. Analyse og tolking
2.5.2. Intervju som tekst. Diskurs og posisjonering
O projeto da cooperativa, é trabalho e renda e o lucro fica para a cooperativa, ou é para o cooperado também? Para o sindicato acho que é socialismo, só trabalho e renda para o cooperado. Para eles a cooperativa é para o futuro, não é do cooperado, é para quando nós morrermos ficar para outro e assim para sempre. E o patrimônio, de quem é? O Dr. Marcelo acha que as quotas não podem ser muito altas de acordo com o patrimônio. Pois, digamos que fossem R$300.000 por cooperado, vários talvez quisessem sair para pegar o dinheiro, e daí, como é que a cooperativa ia ficar? (cooperado não identificado)
A propriedade da cooperativa intriga os cooperados da UNIWIDIA. Há dificuldade de compreensão acerca da forma como os cooperados possuem a cooperativa através das quotas-partes, cuja integralidade compõe o Capital Social, e de como a cooperativa “possui a si mesma”, através do indivisível que há na diferença entre o Capital Social e o valor do Patrimônio. Este não é um fato isolado da UNIWIDIA e decorre da complexidade do tema, que remonta às origens do cooperativismo, quando este foi proposto e era compreendido como uma forma de posse social, alternativa tanto à propriedade privada quanto à estatal.
Pela lei do cooperativismo (5.764-71) os cooperados são donos de suas quotas- partes e de nada mais. O que estiver além da somatória destes valores é indivisível, esteja ou não em um fundo com esta designação. Por outro lado, os cooperados são gestores e beneficiários do patrimônio, esteja este atualizado ou não no valor das quotas-partes. Em síntese, pode-se compreender que as quotas-partes são propriedade privada dos cooperados, mas não o patrimônio da cooperativa, sob o qual possuem apenas direito de explorar comercialmente em função de seus interesses econômicos.
As falas dos cooperados abaixo mostram a gravidade da questão(2003):
Aí a gente está pensando e não entende. Se a gente pega um financiamento a pagar aí por 15 anos para comprar o prédio, e se o
Metal Duro não der mais e a gente quiser vender o prédio e dividir
[liquidar]? Pode? Porque o Dr. Marcelo disse que a gente só tem direito
às quotas e que o resto é indivisível, mas aí é de quem? Não vai ter sido a gente que pagou? A gente não entendeu bem isso aí não.
Cooperativa é ilusão, engana o trabalhador, tem uns que mandam e outros que são mandados, é igual. E os lucros? É ilusão, numa empresa quando alguém sai leva muito mais. Isso aqui não é de ninguém, a gente só pensa que é dono, isso aqui não tem dono, nem a administração, é uma ilusão.
O que eu não concordo às vezes na cooperativa, é você dizer assim: “vamos fazer um patrimônio”, e o patrimônio seria um tipo de uma entidade. Se você vai embora, você já teve a sua retirada todos esses anos, o que é da cooperativa é da cooperativa. Não é que eu sou contra, deveria haver um outro tipo, para você não perder tudo, porque aí esse dinheiro que você põe em patrimônio, seria um dinheiro que você teria de indenização quando você saísse da empresa, com 20 anos de firma, 30 anos. Eu ainda não concordo com isso, quer dizer, estou tentando negociar, conversar. Porque as pessoas que fazem esse tipo de lei, também às vezes não estão enxergando. Isso é tudo novo.
Imbricadas na questão do patrimônio estão as quotas-partes, que são a parcela divisível deste patrimônio. Na UNIWIDIA as quotas-partes dos cooperados são iguais, opção que é resultado da adoção do modelo de gestão societária de cooperativas desenvolvido pela UNISOL. Em tal modelo as quotas-partes devem ser iguais para todos os cooperados, independente do valor de suas remunerações ou do tempo que estejam na cooperativa, para que haja uma igualdade econômica entre os cooperados, que é defendida como condição para que a igualdade política aconteça de fato entre os cooperados.
Como na UNIWIDIA a valorização anual das quotas-partes provém da aplicação de parte das sobras líquidas (35%) no Capital Social, e como a cooperativa opta pela distribuição eqüitativa destas, as quotas ficam sempre com o mesmo valor entre todos. Isso acarreta em diversos problemas, dentre eles, a dificuldade provocada na renovação do quadro de cooperados, necessária para sua sucessão e continuidade como cooperativa. Adilson, quando cooperado, perguntou a este respeito: “Se a
cooperativa precisa trazer alguém, como é que vai entrar? Ninguém vai pagar, e se contratar é ainda pior.”
O questionamento de Adilson refere-se à seguinte situação: se todos devem ter o mesmo valor de quota-parte, os possíveis novos cooperados também deveriam tê-lo, o que inviabiliza a entrada deles na cooperativa, mesmo que esta a financie em longo prazo, visto que ao subscrever (prometer) o valor das quotas, o cooperado passa a ter responsabilidade comercial sobre este valor. Outra questão correlata também apresentada na fala inicial deste tópico, trata do perigo da descapitalização da cooperativa no caso da saída de cooperados, apresentado como um argumento a favor de que o valor das quotas seja baixo, desvalorizado em relação ao patrimônio, o que, proporcionalmente, amplia o montante do patrimônio indivisível, além do desconforto simbólico atrelado a isso.
Este é mais um dos diversos dilemas por que passa a autogestão de uma cooperativa: como equacionar, para atender, em um termo aceitável para a maioria, os interesses presentes e futuros dos cooperados com os interesses envolvidos na continuidade da empresa como empreendimento econômico. Entretanto, as opções quanto ao modelo societário da UNIWIDIA estão orientadas, no momento do trabalho de campo, pela pretensão da maioria de reinvestir na cooperativa. Entretanto, nada indica que em outro momento, com outras condições objetivas determinando um outro leque de opções, as alternativas deles não poderiam ser outras.