Como já referimos, o objectivo geral desta tese consiste na identificação de mudanças ocorridas nas últimas décadas nas formas de experienciar e dar sentido à vida íntima e (hetero)sexual. Na sua persecução, quatro capítulos de natureza teórico-empírica procurarão construir uma análise ecléctica, tratando temas tão diversos como a relação entre os tempos históricos e as normas face ao género e à sexualidade (capítulo 3); as mudanças e continuidades nas biografias afectivas e sexuais de homens e mulheres (capítulo 4); os limites que se impõem à ética libertária da sexualidade (capítulo 5); ou a transmissão, nas linhagens familiares, de normas e modelos de género e da sexualidade (capítulo 6). Como denominador comum - e não obstante a relativa autonomia (conceptual e metodológica) que assistirá cada secção ou capítulo deste trabalho – o mapeamento de transformações e continuidades constituirá um aspecto transversal à pesquisa, surgindo associado a uma análise geracional dos processos de mudança. Desta forma, na base do legado herdado do projecto “Género e Gerações”, o conceito de geração adquire uma função operativa na análise das formas de viver e representar a sexualidade, merecendo, por isso, ser aqui aprofundado.
Em virtude do aumento da esperança média de vida, actualmente as relações sociais têm lugar em contextos cada vez mais inter-geracionais (e.g. Attias-Donfut, 1995, Corsten, 1999) e, neste sentido, a questão das gerações parece ser detentora de uma crescente importância no debate sociológico. Geralmente, o termo geração é usado para referir um conjunto de indivíduos, que havendo nascido em períodos próximos uns dos outros, partilham a experiência de um mesmo tempo social. Desta forma, este conceito não é um simples sinónimo de coorte ou de grupo etário, constituindo-se pela partilha de uma série de outras características no contexto de uma organização social mais ampla (Motta e Weller, 2010). Com efeito, podemos afirmar que é através da experiência sincrónica de um dado tempo ou acontecimento social que as coortes se convertem em gerações dotadas de alguma unidade social (Corsten, 1999).
26
Para muitos autores, a perspectiva de Mannheim (1952) constitui a mais completa explicação do tema, sendo que a actualidade e a complexidade da sua análise residem num entendimento multidimensional das relações geracionais (Motta e Weller, 2010). Em The problem of Generations (1952), Mannheim define o conceito de geração salientando o seu sentido histórico. Nas palavras do autor, “individuals who belong to the same generation, who share the same year of birth, are endowed, to that extent, with a common location in the historical dimension of the social process” (1952: 290).
Apesar de não desvincular as gerações dos grupos etários, Mannheim refere que a relação entre as posições geracionais e os contextos socias não é linearmente determinada pelo facto de alguém ter nascido, transitado para a juventude, vida adulta e velhice no mesmo período cronológico, mas pela possibilidade (derivada desse facto concreto) de participar dos mesmos acontecimentos em fases da vida próximas. No entanto, a partilha de momentos históricos em idades semelhantes tão-pouco constitui por si só uma condição suficiente para o desenvolvimento da noção de geração. Segundo Mannheim, é necessário existir um vínculo geracional entre os indivíduos, resultante de uma prática conjunta e de uma da reflexão colectiva em torno dos mesmos acontecimentos. Neste sentido, o que estabelece a relação entre aqueles que partilham uma mesma unidade geracional não são os conteúdos em si, mas as tendências que caracterizam o grupo e que são derivadas da apropriação desses conteúdos.
Mas a par do entendimento das gerações enquanto produto e emblema de determinados processos históricos (Glenn, 2003), nas abordagens da sociologia destaca-se também uma perspectiva que associa as gerações às posições genealógicas nas linhagens familiares (Brannen et al., 2004; Favart-Jardon, 2002; Gerson, 2002; Kellerhals, et al., 2002; Trnka, 2002). Esta concepção genealógica da geração - definida em termos do lugar de descendência – permite estabelecer uma ligação entre o tempo histórico e o tempo biográfico, ampliando o potencial reflexivo das análises. Nesse sentido, para Motta e Weller (2010:178), a genealogia alia-se à noção de consciência geracional de que já nos falava Mannheim, “porquanto o tempo vivido por gerações passadas e reunido em forma de histórias, memórias e experiências conecta a geração seguinte com o tempo histórico e social”. No fundo, enquanto representante de uma posição genealógica, o conceito de geração é subsidiário da ideia de que as mudanças biográficas ocorrem num tempo que é também determinado pelo lugar de descendência dos sujeitos.
No quadro da nossa pesquisa qualitativa, adoptaremos uma perspectiva que procurou cumprir tanto com a dimensão histórica como genealógica das gerações. De facto, em termos metodológicos, o objectivo do projecto “Género e Gerações” recaiu na selecção de
27
entrevistados de determinados grupos etários, que partilhassem um mesmo tempo histórico de entrada na vida adulta (Aboim e Vasconcelos, 2009), bem como uma mesma posição genealógica nas linhagens familiares. Desta forma, pretendia-se, através do desenho metodológico, respeitar um entendimento multidimensional das gerações, recusando o simples uso de coortes ou grupos etários, de forma isolada ou desconectada face a outras gerações ou aos tempos históricos. Pelo contrário, privilegiou-se o uso de “grupos geracionais”, atribuindo-se-lhes um lugar num contínuo familiar e histórico e procurando fazer coincidir (temporalmente) a geração genealógica com a geração histórica.
Com efeito, também na nossa pesquisa, a análise das formas de viver e de representar a intimidade caminhará a par com a análise da mudança operada em três gerações distintas: representativos de uma Primeira Geração, entrevistaram-se Avôs e Avós que construíram as suas biografias no contexto do Estado Novo, num regime autoritário onde as desigualdades de género estavam decretadas legalmente e consubstanciavam a dominação masculina. Nascida num Portugal mais tradicionalista, esta geração acompanhou as grandes mudanças do processo português de modernização e pode, através da narrativa das suas experiências e memórias, reproduzir a história portuguesa das últimas cinco décadas. Pertences a uma Segunda Geração, entrevistaram-se Pais e Mães nascidos nas décadas de 1950 e 1960, que entraram na idade adulta nos anos pós-revolução, numa altura onde tiveram lugar significativas e rápidas mudanças no país. Finalmente, uma Terceira Geração de entrevistados corresponde aos Filhos e Filhas que enfrentam actualmente a transição para a vida adulta, sendo considerados descendentes directos da modernidade portuguesa no período pós integração europeia (Aboim et al., 2009).
Por seu lado, no uso que faremos dos dados quantitativos provenientes do inquérito “Saúde e Sexualidade”, o recurso a gerações estará, de certa forma, condicionado pela natureza extensiva da pesquisa. É certo que a opção de mobilizar, na nossa análise, informação quantitativa e análise estatística decorre do objectivo de complementar e fortalecer a nossa reflexão sobre determinadas dimensões da mudança nas representações e práticas da intimidade sexual. Ainda assim, consideramos importante estabelecer uma relação entre os grupos geracionais definidos na pesquisa qualitativa e os dados relativos à amostra representativa da população portuguesa19
Assim, não obstante as inultrapassáveis limitações inerentes às diferenças de partida dos processos de amostragem, procederemos a uma organização por grupo etário das
.
19
28
respostas ao inquérito por questionário. Sendo a referida amostra compreendida por inquiridos entre os 18 e os 65 anos, a nossa opção será a de distribuir as respostas por cinco grupos etários, procurando estabelecer alguma correspondência (obviamente, não absoluta) entre esses grupos e as gerações dos nossos entrevistados. Com efeito, sempre que nos parecer relevante para a análise e assim os dados o permitam, promoveremos o contraste entre a informação recolhida pelas entrevistas e os dados quantitativos, comparando os discursos da Primeira Geração (dos Avôs e Avós) com as respostas dos inquiridos entre os 60 e 65 anos20; os discursos da Segunda Geração (dos Pais e Mães) com respostas dos inquiridos de 40 a 49 e de 50 a 59 anos; e, finalmente, os discursos da Geração Mais Nova (dos Filhos e Filhas) com as respostas dos inquiridos com idades compreendidas entre os 18 e os 29 anos. Para facilitar a compreensão, no esquema em baixo, identificamos as gerações e os grupos de idade que utilizaremos na pesquisa, bem como as relações que entre eles iremos estabelecer.
Figura 2.1 Esquema de correspondência entre grupos geracionais da amostra qualitativa e
grupos etários da amostra extensiva
20
Esta será, por ventura, a comparação que acarretará maiores limitações do ponto de vista metodológico. Estamos cientes da forçada correspondência entre os Avôs e Avós que entrevistámos (a maioria dos quais nascidos na década de 1930, com idades compreendidas os 70 e os 80 anos no momento da entrevista), e os inquiridos pertencentes ao grupo mais velho, de 60 a 65 anos. E no que concerne especificamente à amostra quantitativa, somos ainda conscientes da diferença que distingue este grupo etário, com um intervalo de idades de cinco (60-65), dos demais grupos etários, construídos com um intervalo de 10 anos. Em todo o caso, reiteramos que tanto a definição dos grupos etários como a sua relação com as gerações em causa foram definidas na medida das possibilidades e atendendo às diferenças inerentes a ambos os processos de amostragem (o da pesquisa intensiva e o da extensiva). Não obstante tais limitações, e assumindo o propósito ilustrativo (que nunca pretendeu ser absoluto ou representativo) da nossa análise, o contraste entre os dados de natureza distinta pareceu- nos ainda assim aportar uma mais-valia ao nosso trabalho.
29