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Kapittel 12. Foretaksendringer,

In document Prop. 125 L (2013–2014) (sider 189-195)

As narrativas sobre iniciação sexual constituem uma porta de entrada privilegiada para o entendimento de clivagens nos sistemas de representação, trajectórias e cenários de investimento sentimental em diferentes gerações de homens e mulheres.

A desvinculação entre sexualidade e conjugalidade permitiu o desenvolvimento de uma sexualidade pré-conjugal em maiores condições de igualdade e criou novos modelos de iniciação sexual. Fortemente marcadas pelas pertenças de género e geracionais, as práticas e representações associadas aos calendários, às motivações e aos contextos da iniciação sexual têm, ao longo das últimas décadas, sofrido transformações que merecem aqui ser analisadas.

Para começar, a alteração dos marcadores etários da iniciação sexual é, sem sombra de dúvida, um dos aspectos que expressa com maior clareza e objectividade a mudança geracional ocorrida neste campo (e.g. Bozon, 1993, Marques, 2007, Ferreira, 2010d).

Ao longo do século XX, a idade à primeira relação sexual diminuiu para ambos os sexos, embora em diferentes intensidades. Se no caso dos homens, a oscilação foi algo moderada, no caso das mulheres ela terá sido mais abrupta, sugerindo uma aproximação entre trajectórias (masculinas e femininas) conseguida, sobretudo, por via das mudanças ocorridas no universo das mulheres, onde as práticas e as representações face à sexualidade se vão progressivamente assemelhando às dos homens, mais constantes à passagem do tempo (e.g. Giddens, 2001; Kimmel, 2004).

Mais convergentes que no passado, os calendários de iniciação sexual feminina e masculina sugerem, então, uma alteração de condições que se afasta progressivamente daquilo

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a que alguns autores assumem como “modelo mediterrânico”65

No entanto, uma vez mais, esta aproximação não aniquila as diferenças de género, continuando a ser os homens os que, de geração para geração, apresentam médias de idade inferiores no momento da primeira experiência sexual.

, segundo o qual a precocidade masculina contrasta com a renúncia feminina à sexualidade, por princípio, mantida até ao casamento. Neste sentido, a passagem para um clima de maior autonomia em matéria de iniciação sexual parece permitir às mulheres das gerações mais novas uma aproximação aos comportamentos masculinos que se manifesta também no assumir de uma maior precocidade sexual.

Na primeira geração, a mais velha, o calendário de iniciação sexual caracteriza-se pela dispersão das idades médias à primeira relação, o que reflecte, com propriedade, os efeitos de outras clivagens sociais e, em particular, das diferenças de género. De facto, se remontarmos às primeiras experiências deste grupo de entrevistados, verificamos que as trajectórias de homens e mulheres se distanciam enormemente, sendo a iniciação sexual masculina bem mais precoce que a feminina (pelo menos ao nível dos discursos).

Nas trajectórias masculinas, as primeiras relações sexuais têm lugar maioritariamente muitos antes da conjugalidade ou até do início do namoro. De acordo com os dados da pesquisa quantitativa, a média de idades à primeira relação sexual dos inquiridos homens com mais 60 anos situa-se nos 17,37 anos – uma tendência que não destoa da realidade encontrada na geração mais velha da nossa amostra qualitativa, embora aqui não sejam infrequentes os casos de iniciação sexual mais precoce:

“Foi aos 15 anos, ou assim. (…) Comecei muito cedo a andar lá com o mulherio.” (Fernando, 85 anos, Ensino Primário, Proprietário de Terras, Casado, Ribeira de Pena)

No caso das mulheres, a tendência maioritária nesta geração faz coincidir a primeira relação sexual com o casamento ou, pelo menos, com fases avançadas e consolidadas do relacionamento amoroso. Assim, a entrada das mulheres na sexualidade activa, por comparação aos homens, ocorre mais tardiamente, situando-se em média, de acordo com os dados estatísticos, em torno aos 21 anos.

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Importa referir que a ideia de “modelo cultural mediterrânico”, evocada em obras de referência como a de Peristany (1991), não tem estado isenta de questionamentos ou críticas. Nomeadamente, para Pina Cabral (1991), tais análises vêm reflectir algum etnocentrismo ao pressupor a homogeneização de traços valorativos e comportamentais de culturas que conservam, afinal, muitas diferenças entre si.

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“A minha primeira relação sexual foi, casada, com 23 anos. Eu casei virgem se quer saber (…). Nessa altura eu acho que como qualquer uma das minhas irmãs.” (Adriana, 80 anos, Ensino Secundário, Doméstica, Viúva, Sintra). A segunda geração - a dos pais e mães da nossa amostra qualitativa- representa uma aproximação das trajectórias femininas e masculinas, nomeadamente em termos de calendário de iniciação sexual. No caso dos homens, se é verdade, como veremos adiante, que os contextos das primeiras experiências sofreram alguma diversificação, do ponto de vista mais objectivo e, particularmente, no que se refere à idade na primeira relação sexual de facto não se regista um grande distanciamento face à geração antecedente. Com efeito, a primeira relação sexual continua a acontecer, em média, por volta dos 17/18 anos.

Já no caso das mulheres, a mudança geracional no que concerne ao calendário de iniciação sexual parece ser bem mais evidente, registando-se uma diminuição da idade média à primeira relação e uma maior distância temporal entre essa experiência e a passagem para a conjugalidade. De acordo com a pesquisa quantitativa, a média de idades à primeira relação das mulheres situa-se ainda próxima dos 21 anos para mulheres entre os 50 e os 59 anos e decai para os 19,27 para mulheres que actualmente têm entre 40 e 49 anos.

Provavelmente devido à pluralidade de trajectórias e perfis sociais encontrados na amostra qualitativa, podemos identificar, em particular nas entrevistadas desta geração, uma maior dispersão na idade de iniciação sexual que, no caso, varia entre os 12 anos – muito antes de se estabelecer sequer um relacionamento afectivo de continuidade com um parceiro – e os 24 anos, à data da celebração do casamento. Representando, precisamente, os limites extremos deste calendário geracional66

“Mesmo naquele tempo não era um namoro normal. (…) Era mesmo um namoro à séria. Tudo à séria. Ele era muito sério. É moda antiga. E foi uma coisa que era muito séria. (…) Casei virgem [depois de 10 anos de namoro].” (Isabel, 46 anos, Curso Médio, Doméstica, Casada, Sintra)

, os testemunhos de Isabel e Luísa, permitem dar conta diversidade contida neste grupo de transição:

“Eu tinha 12 anos e ele já estava a acabar o secundário ou estava para entrar na universidade, portanto era bastante mais velho. Eu é que era assim toda Lolita. Era um bocado atrevida e, pronto, fui-me meter com ele também.” (Luísa, 50 anos, Doutoramento, Antropóloga, União de Facto, Lisboa)

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Naturalmente que, por serem extremos, estes casos não são propriamente representativos da tendência geracional verificada na nossa amostra qualitativa, a qual situa as primeiras relações das mulheres em torno dos 20 anos, coincidindo, portanto, com a tendência expressada estatisticamente nos dados do inquérito quantitativo.

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Se é verdade que as alterações no calendário de iniciação mudaram de forma evidente da primeira para a segunda geração em análise, é na geração mais nova que a tendência para a diminuição da idade na primeira relação se intensifica e generaliza.

Hoje em dia, a sexualidade juvenil surge como uma realidade legitimada, exercendo- se em condições de maior liberdade e igualdade que nas décadas anteriores. Alguns estudos sociológicos (e.g. Bozon, 2004; Ferreira, 2010d) indicam que, para além de mais precoces, as primeiras experiências dos jovens de hoje em dia caracterizam-se por uma certa sincronização temporal que reflecte a mitigação dos efeitos das clivagens sociais, e particularmente de género, nos calendários de iniciação sexual. Como explica Ferreira (2010d:233), “a influência do grupo de pares na socialização juvenil (…) contribui de forma muito decisiva para que a entrada na sexualidade adulta ocorra hoje num intervalo de tempo bastante mais estreito do que anteriormente, em torno de uma idade média que tem vindo a diminuir ao longo da sucessão geracional.”

Assim, tanto nas trajectórias masculinas como femininas, as primeiras relações sexuais tendem a ocorrer mais cedo que nas gerações anteriores e, na generalidade, ainda sem planos de conjugalidade à vista. Se a diferença entre sexos não é totalmente desfeita, ela é bastante atenuada, estando a idade média de iniciação sexual dos rapazes inscrita, estatisticamente e sem grandes desvios, nos 16,8 anos e a das raparigas nos 17,8.

De qualquer forma, apesar das tendências geracionais desveladas pela análise extensiva, a nossa amostra qualitativa compreende casos singulares que nos levam a matizar tais regularidades, sugerindo que também no que concerne aos calendários de iniciação sexual a mudança não opera de forma unânime e definitiva, continuando a acolher uma grande variedade de percursos sexuais. Entre os entrevistados masculinos da geração mais nova, apenas um caso se distancia da norma geral, inscrevendo a sua primeira relação numa idade mais tardia que a média, por volta dos 23 anos. Mas, uma vez mais, é entre as mulheres que encontramos maior discrepância etária, sugerindo, por comparação ao universo masculino, uma maior permeabilidade das trajectórias femininas aos efeitos de outros condicionantes sociais e biográficos.

Em concreto, entre as nossas entrevistadas mais jovens encontramos desde o caso de Susana que iniciou a sua vida sexual aos 13 anos com um parceiro mais velho, aos casos de Sara, cuja virgindade foi mantida até aos 23 anos, ou de Joana que, com 24 anos e num relacionamento amoroso de alguns meses, afirma nunca ter tido relações sexuais:

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“Eu tinha 13, ele tinha 19.” (Susana, 29 anos, Curso técnico-profissional, Empregada Administrativa, União de Facto, Lisboa)

“Eu perdi a virgindade muito tarde. Perdi a virgindade para aí com 23 anos” (Sara, 28 anos, Pós-graduação, Assessora de Imprensa, Solteira, Lisboa)

“Para ser sincera, ainda não tive a minha primeira relação sexual” (Joana, 24 anos, Curso técnico-profissional, Empregada Administrativa, com namorado, Celorico de Basto).

In document Prop. 125 L (2013–2014) (sider 189-195)