• No results found

O que é que buriti diz? É: – Eu sei e não sei...

João Guimarães Rosa

Todo erotismo é sagrado

Bataille

Antes de continuarmos a investigação da novela “Buriti”, chama-nos a atenção o título escolhido para o segundo livro de Guimarães Rosa, Corpo de Baile, que nos moldes de nossa análise, remete a Dioniso, pela evocação explícita ao corpo e à dança. Corpo de Baile, no sentido de dicionário, quer dizer “conjunto permanente de bailarinos que executam danças clássicas e/ou folclóricas, por vezes dispondo de coreografias próprias” (HOUAISS, 2001, p.843). O autor Guimarães Rosa dispõe de coreografias próprias, ou seja, escritura e ritmos próprios para dar corpo, baile e festa às metamorfoses do sertão. Na novela “Buriti”, o que se percebe são danças do acasalamento provocadas pelas forças dionisíacas da natureza, que encontram no buriti a sua imagem síntese. José Angelo Oliva Neto, em seu livro O falo no jardim, ao discorrer sobre Priapo e os mitos em torno dele, observa que o discurso sobre este deus é familiar às histórias de Dioniso:

Em seus mitos, os antigos contam que Priapo era filho de Dioniso e Afrodite, explicando convincentemente esta linhagem, pois os homens, embriagados de vinho, ficavam tesos para os prazeres de Afrodite. (OLIVA NETO, 2006, p.21)

Em verdade, misturam-se, neste conto, várias forças afinadas com Dioniso, como, por exemplo, Eros, Afrodite, Sileno, Priapo. Com relação a este último, afirma Oliva Neto que:

Se a androgenia assemelha Priapo ao Hermafrodita, o falicismo e a rusticidade associam-no a Sileno, aos Sátiros, ao próprio Dioniso, a Pã/Fauno, aos itálicos Tutino Mutino e Silvano e a Hermes/Mercúrio, com o qual de certo modo já fora identificado. (OLIVA NETO, 2006, p.25)

Todas essas entidades mitológicas vinculam-se implícita e explicitamente, à escritura rosiana, sobretudo à novela “Buriti”. Esta, como o próprio buriti, é uma espécie de falo no jardim rosiano.

O butiri é uma forma que emerge da água. Nesse sentido, Mircea Eliade faz- nos recordar “uma superstição tardia [que] fala da loucura vaticinante que se apodera daquele que se apercebe de uma forma a sair da água.”(ELIADE, 1998, p.167). Pode-se dizer que o buriti é uma força que, ao sair da água, fecunda dionisiacamente tudo à sua volta. Não nos podemos esquecer, também, que a água remete à fecundidade. E a loucura que, para Eliade, se mistura ao medo e fascínio produzidos pela imagem desintegradora das águas, levaria à abolição da personalidade. Esta afirmação de Eliade lembra-nos a desintegração do princípio de individuação apolíneo no amisturamento dionisíaco do sujeito com o mundo, ao qual o amisturamento dos corpos, reiteradamente encenado neste conto, também remete. As forças dionisíacas presentes na novela “Buriti” compõem um cosmo, uma multivalência simbólica, pela qual, naturalmente, os personagens se vêem, de um modo geral, tocados. Em nossa análise procuramos evidenciá-la. Segundo Eliade,

A multivalência simbólica de um emblema ou de uma palavra pertencente às línguas arcaicas leva-nos a observar que, para a consciência que os forjou, o mundo se revela como um todo orgânico. (ELIADE, 1998, p.154)

O nome buriti comporta-se como uma espécie de emblema ou palavra arcaica, recuperada e potencializada pela consciência do autor, com vistas a conferir-lhe múltiplas evidências simbólicas que revelam uma certa organicidade. Uma organicidade sagrada, conforme possuíam, na expressão de Bachelard, as florestas antigas. A floresta, como parte do sertão, ao entorno do buriti, é sagrada

pela tradição de sua natureza, longe de qualquer história dos homens. Antes que os deuses aí chegassem os bosques já eram sagrados. Os deuses vieram habitar os bosques sagrados. Não fizeram mais do que acrescentar singularidades humanas, demasiadamente humanas, à grande lei do devaneio da floresta. (BACHELARD, 2003, p.192)

Bataille também afirma que, na ação erótica, os seres nelas envolvidos se dissolvem à maneira das águas: “A ação erótica, ao dissolver os seres nela envolvidos, revela sua continuidade, lembra as das águas tumultuosas” (BATAILLE, 2004, p.36).

Em consideração às análises empreendidas nessa novela, citamos em bloco os estudiosos: Luiz Costa Lima, que faz longa análise do conto em seu estudo “O buriti entre os homens ou o exílio da utopia” (LIMA, 1974, p.129-178); Benedito Nunes, que

em seu ensaio “O amor na obra de Guimarães Rosa”, investiga o amor sob a perspectiva de uma “idéia erótica da vida” (NUNES, 1976, p.143); e, finalmente, José Maurício Gomes Almeida, que eleva o erotismo rosiano, nessa novela, quase ao paroxismo: “Buriti: o ritual da vida” (ALMEIDA, 2001, P.160-200).

A natureza nesta novela propõe de si mesma uma imagem hermafrodita, pois dela emerge a fremente e deificada figura do buriti. Espécie de “deformidade” pudenda e incólume a varar o céu metros acima, exigindo dos viventes no seu entorno, também, por intermédio de sua portentosa verticalidade, uma espécie de culto, além do bem e do mal. E nessa espécie de culto se estreitam, somando-se em força única, o sagrado e o profano, simbolizados, respectivamente, na novela “Buriti”, de maneira mais explícita nas personagens Maria Behú e Maria da Glória. Deformidade é como é caracterizado Priapo, muitas vezes, nos mitos referentes a ele, devido ao tamanho de seu pênis.

Ao retratarmos a natureza desta maneira, reproduzimos, além da ambivalência sexual de Priapo, a do próprio Dioniso, pois segundo Otto

él mismo tiene algo femenino. Cierto que no es un ser débil, sino un luchador y un triunfador [...] Pero su virilidade celebra su victoria más sublime en los brazos de la mujer perfecta. Por ello, y a pesar de su carácter guerrero, le es ajena la heroicidad como tal. En ello se asemeja a la figura de Paris, eternamente dudosa efigie del hombre iluminado per el espíritu de Afrodita. (OTTO, 2001, p.129)

Há, no romance Grande sertão: veredas, uma imagem análoga à presença do buriti no conto “Buriti”. No romance, o rio São Francisco, na última página, sintetiza intensa vitalidade numa imagem que espelha a imagem do buriti: “O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme” (ROSA, 1958, p.571). Essas imagens fálicas remetem por sua vez ao deus Priapo, um deus que se originou das

Imagens fálicas diante das quais se desenvolviam as orgias dionisíacas. Nas festividades de Dioniso, ocorria a falofória, procissão em que um enorme falo era transportado pelo falóforo, sacerdote ‘que porta o falo’. (OLIVA NETO, 2006, p.16)

O que se desenvolve no entorno do buriti, como de Iô Liodoro, são, em certa medida, orgias dionisíacas, bailes cujos movimentos em seqüências complexas de passos e posições lentas assemelham-se ao movimento musical clássico conhecido por

adágio. Estamos pensando no adagietto da sinfonia n° 5 de Gustav Mahler. De acordo com Bataille, a individualidade submerge no tumulto da orgia. Há intenso amisturamento e perda do limite, como na música as vozes dos instrumentos fundem-se. Já o erotismo, primeiramente, se expressa pela “posição de um objeto do desejo” (BATAILLE, 2004, p.202), enquanto que na orgia esse objeto não se destaca e a excitação sexual ocorre por intermédio de um movimento exasperado, contrário à reserva habitual. O movimento é de todos. Ainda, conforme Bataille:

No mundo animal, o cheiro da fêmea freqüentemente determina a procura do macho. Os gorjeios, os rodeios dos pássaros colocam em jogo outras percepções que significam para a fêmea a presença do macho e a iminência do encontro sexual. O olfato, a audição, a visão e mesmo o paladar percebem sinais objetivos, distintos das atividades que eles determinarão. São sinais anunciadores da crise. Nos limites humanos, esses sinais anunciadores têm um valor erótico intenso. (BATAILLE, 2004, p.202)

Guimarães Rosa, ao encenar os sinais orgiásticos da natureza, procura o amisturamento dos personagens com esta ou, como afirma Bataille, procura uma “fusão”. Ao desenvolver em sua escritura os sinais da natureza emitidos por uma variedade enorme de sons, cheiros, enfim, dos sentidos animais, este desenvolvimento tem como

conseqüência: o erotismo, que é fusão, que desloca o interesse do sentido de uma superação do ser pessoal e de todo limite, é, contudo expresso por um objeto. Estamos diante desse paradoxo: diante de um objeto significativo da negação dos limites de qualquer objeto, diante de um objeto erótico. (BATAILLE, 2004, p.203)

De certa forma, a imagem do Buriti representa iconicamente este estado paradoxal do erotismo expresso por Bataille.

Ao analisar a relação de Dioniso com as mulheres, Otto o faz chamando a atenção para o elemento água, elemento, como já o afirmamos, profundamente rosiano. Segundo Otto,

la concepción se produce en lo húmedo. Pero también de ahí surge el nacimiento. Desde siempre se ha considerado al agua como elemento femenino. Aqua femina. Con su acusado sentido de lo primigenio, Goethe inserta en la segunda parte de su Fausto el grandioso himno al mar y al agua en el instante en que Galatea se aproxima en su concha marina. Afrodita surge del agua. Hera fue engendrada por Océano e Tetis el lo oculto. Cierto que el poderoso mar tiene un soberano

masculino, y las vehementes corrientes poseen sus proprios dioses. Pero incluso en las profundidades y en la superficie acuática, las ninfas y diosas marinas son más importantes que los espíritus masculinos, y Nereo no está rodeado de hijos, sino de hijas. Las fuentes, sin embargo, los lagos y las húmedas riberas pertenecen por entero a los espíritus femeninos. Allí habita también Ártemis, la bella, que ayuda en todos los partos o deja morir a las mujeres entre espantosos dolores. Es la cuidadoras de los niños. Y, así, todas las muchachas de lo húmedo llamadas ninfas, doncellas, o novias – la palabra “ninfa” entre los itálicos significa “agua” en su forma lympha – son nodrizas. Son ninfas las que alimentan y cuidan del niño Dioniso y las que acompañan al dios adulto. Las que acompañan en sus frenéticas danzas son “ayas” [...] Dioniso siempre está rodeado de mujeres. La nodriza se convierte en amada, de cuya beleza su mirada pende en embriagada fascianción. Su imagen más perfecta se llama Ariadna. (OTTO, 2001, p.126)

A relação de Dioniso com as mulheres é vital, como o é a relação do buriti com a água, que também quer dizer ninfa. O mesmo esquema ocorre com a figura do personagem e patriarca na novela “Buriti”, Liodoro Maurício Faleiros, que se apresenta sempre envolto por mulheres. Ana Maria Machado, em seu livro o Recado do Nome, faz uma longa análise do nome Liodoro, ligando-o a Heliodoro, portanto, ao sol. Desmembrando o nome, ela observa que Lio é ‘liso’. Liodoro é liso, duro, roliço. Lio seria ainda feixe, vínculo articulador entre os diversos personagens da trama. Liodoro é, ainda, árvore, porque é Maurício, como sua mãe, a vó Maurícia dos gerais. Mas é, sobretudo, Maurício como buriti, palmeira cujo nome científico é Maurícia vinifera. Natural, pois, que sua mulher se chamasse iaiá Vininha, autenticando a homologia com seu Nome, que também alude a Vênus e confirma que iô Liodoro vive sob o signo do amor (MACHADO, 1976, p.120). Da mesma maneira vive o Buriti-grande, metonímia da vida, da vontade de potência da vida, que representaria, nos moldes nietzschianos, o amor além do bem e do mal.

O Buriti produz um licor. Em uma das noites, enquanto jogam cartas na fazenda Buriti Bom, embebidos de desejos, Nhô Gualberto, Glória, Lalinha e Iô Liodoro, depois de já terem bebido o restilo (água ardente), este último manda servir o licor-de-buriti:

Iô Liodoro pediu o restilo. Sorveram-no, ele e o compadre Gual, com palavras de gabo e estalos. Mas assim iô Liodoro, se alargando no contentamento, quis mais: fez o que nunca acontecia, no comum – mandou que Glorinha trouxesse também o vinho. O vinho-doce, espesso, no cálice, o licor-de-buriti, que fala os segredos dos Gerais, a

rolar altos ventos, secos ares, a vereda viva. Bebiam-no Lala e Glória. – “Virgem que isso é forte, pelo muito unto – para se tomar, a gente carece de ter bom fígado...” – nhô Gual poetara, todos riam. Ria-se; e era bom. Bebia-o Lala, todos riam sua alegria, era a vida. Por causa dela, iô Liodoro mandara servir o vinho, era um preito. E o Gual, taimado, lambório, corçoou-se, os olhos dele baixavam em Glorinha, como para um esflor. Suas mãos velhacas procuravam o contato do corpo de Glória, os braços, quanto podia. Não era a vida? Sobre informes, cegas massas, uma película de beleza se realizara, e fremia por gozá-la a matéria ávida, a vida. Uma vontade de viver – Nhô Gaspar. Pedia para viver, mais, que o deixassem. E Glória, dada. Era infame. (ROSA, 1960, p.494)

O vinho “era um preito”, uma espécie de rendição de Liodoro a Lalinha e de Gualberto a Glorinha. Poesia, riso, alegria, erotismo, tudo isso é expressado no parágrafo, no intuito de tonificar a exuberância da vida prestes a explodir em continuidade no sertão. Há uma dupla reiteração da vida, ao final do parágrafo. O adjetivo “ávida” contém o substantivo feminino vida, a qual “sobre informes, cegas massas, uma película de beleza se realizava, fremia” por gozar-se. A vida, está a nos dizer o narrador, é avidez, desejo intenso. Para este gozo, o buriti, o líquido seminal deste, o vinho, como matéria da vida, “que fala o segredo dos Gerais”, contribui sumamente no despertar dos seres descontínuos para a continuidade alegre da vida.

O buriti “fornece uma bebida inebriante” que ajuda a revelar os segredos dos Gerais. Segundo Leonel, Guimarães Rosa anotou do livro de Emanuel Pohl, Viagem no interior do Brasil, publicado em 1951:

Nos campos que percorremos no dia seguinte (24 de novembro), atraiu-nos especialmente a magnífica palmeira flabelada Mauricia vinífera, aqui chamada buriti, e que ainda traços laterais acompanham a continuação do trecho sobre a extração da seiva, que fornece uma

bebida enebriante. A possibilidade de tais anotações terem-se dado durante a elaboração de Corpo de Baile é bastante grande. (LEONEL, 1985, p.112)

Leonel destaca, ainda, nesta mesma página, que Liodoro é filho de vovó Maurícia e Seo Faleiro e diz que já está suficientemente consolidada a relação do nome Maurícia e o buriti (Mauritia). “Faleiro”, palavra não dicionarizada, por seu turno, nos lembra o “falo”, que remete também à forma do buriti, que contém uma “seiva enebriante”.